quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Liszt Vieira: Compreender para avançar

Baixada a poeira da eleição, é necessário compreender melhor como um candidato corrupto, cínico, mentiroso, submisso a Donald Trump a quem pediu para punir o Brasil com tarifaço, venceu o primeiro turno e perdeu por 3,5% o segundo turno. Por pouco, o Brasil se livrou de um bandido ligado aos milicianos e traficantes, ao Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quem chamou de irmão e de quem recebeu a promessa de 132 milhões, já tendo recebido e desviado para seu bolso 61 milhões, e totalmente submisso a Donald Trump, a quem prometeu entregar as riquezas e o destino político do Brasil.

Há muitas abordagens possíveis para explicar essa questão. Desde a psicologia de massas para entender o comportamento dos bolsonaristas até uma análise crítica do governo Lula para mostrar o que foi mal feito ou deixou de ser feito para permitir o descalabro da ascensão eleitoral de um bandido corrupto como Flávio Bolsonaro. Sem esquecer, naturalmente, a cumplicidade da grande imprensa pelo que disse ou deixou de dizer em relação a seu candidato de extrema direita. Além da grande imprensa comercial, os grandes derrotados foram Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Meta e empresas transnacionais.

Após o susto com o resultado do primeiro turno, o segundo turno foi uma festa: a juventude foi às ruas, os idosos foram votar, a sociedade civil se engajou no Exército de Lula dirigido por André Janones que, apesar de um nome ruim (reforça uma ideologia militar), deu uma contribuição extraordinária para a vitória no segundo turno, compensando a mediocridade da coordenação da campanha eleitoral de Lula e a debilidade política dos partidos de apoio ao governo. É justo, porém, destacar duas iniciativas que pautaram a conjuntura política em favor de Lula: o fim da escala 6×1 e a proibição das bets.

O presente artigo busca analisar o comportamento do eleitorado e deixa para mais adiante a questão que será prioritária a partir do início de 2027: a estratégia da esquerda e do governo para enfrentar um Congresso dominado pela direita. A mobilização da sociedade civil, como ficou demonstrada na campanha eleitoral, será fundamental para dar sustentação ao governo Lula que será levado, sob pena de fracasso, a mudar sua estratégia de fazer aliança com a direita para garantir govenabilidade.

Tendo em vista a fraqueza política dos partidos, a mobilização do apoio popular será uma necessidade permanente, ainda mais se o governo quiser mesmo avançar e trabalhar para reduzir a elevadíssima taxa de juros que asfixia a economia e trava o desenvolvimento. Para isso, terá de enfrentar o mercado financeiro com o objetivo de acabar com o “suicídio” dos juros altos, relembrando a expressão do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz.

 Ainda estamos em plena tempestade: o candidato derrotado, repetindo seu pai, negou o resultado das urnas, mancomunado com o governo de Donald Trump. Isso lembra a famosa frase de Marx sobre Hegel no livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte: a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

Agora, porém, a questão que colocamos para debate é saber como um candidato que enfrenta graves acusações de mentiras, cinismo, corrupção e submissão a um líder estrangeiro conseguiu conquistar votos suficientes para chegar à frente no primeiro turno e perder por 3,5% no segundo turno.

Os dados oficiais confirmam que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. E no segundo turno, o resultado oficial foi vitória de Lula com 51,79% e Flávio Bolsonaro com 48,21%, numa virada histórica sensacional.

Há alguns fatores políticos e eleitorais que ajudam a compreender esse resultado, sem presumir que todos os eleitores tenham as mesmas motivações. O primeiro é identificação ideológica, uma vez que parte do eleitorado pode priorizar conservadorismo, segurança pública, costumes e oposição ao PT, mesmo quando discorda de determinadas atitudes do candidato.

Pesam também outros fatores como o voto de rejeição, ou seja, alguns eleitores votam principalmente para impedir a vitória do adversário, e não por concordarem integralmente com quem escolhem. Quando a disputa se organiza em torno de dois campos fortemente opostos, a identidade partidária e a rejeição ao outro lado podem pesar mais do que controvérsias individuais.

Há também que levar em consideração a influência da família e das lideranças políticas: o sobrenome Bolsonaro, a base eleitoral construída por Jair Bolsonaro e o apoio de lideranças conservadoras são elementos relevantes para analisar a candidatura de Flávio.

Também influenciam o voto a economia e a avaliação do governo: renda, inflação, emprego e percepção sobre os resultados da administração federal. Além disso, pesou também o apoio político e financeiro do governo de Donald Trump ao candidato Flávio Bolsonaro que apoiou o tarifaço de Donald Trump. Mas um eleitor pode considerar a relação com Trump um problema, mas atribuir maior importância a outras questões; outro pode sequer considerar essa relação negativa.

Uma pesquisa do Datafolha realizada em 13 e 14 de outubro de 2026, com 2.520 eleitores de 153 municípios, investigou as motivações de quem pretendia votar no segundo turno. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, as principais razões declaradas para o voto no segundo turno foram as seguintes: Mudança e alternância de poder: 41% / Rejeição a Lula e ao PT: 31% / Economia e custo de vida: 16% / Propostas e qualidades do candidato: 15% (Os percentuais divulgados somam mais de 100%, possivelmente por arredondamento ou critérios de resposta).

Entre os eleitores de Lula, as razões declaradas para o voto foram as seguintes: Proteção social e defesa de sua classe: 48% / Desempenho e legado do presidente: 22% / Rejeição a Flávio: 17% / Valores, ideologia e democracia: 11%.

O que esses números sugerem é que o voto em Flávio Bolsonaro não pode ser explicado apenas por uma avaliação pessoal de sua conduta. Para uma parcela dos seus eleitores, a alternância de poder e a rejeição ao PT aparecem como razões explícitas. Entre os eleitores de Lula, a proteção social e a avaliação de seu governo têm maior destaque nesse levantamento.

Uma pesquisa do Ipespe, realizada entre 6 e 8 de outubro com 1.500 eleitores, perguntou quais temas foram mais decisivos na escolha do voto do primeiro turno. O resultado foi o seguinte: Corrupção e crise no STF: 24% / Economia, emprego e preços: 17% / Saúde e educação: 12%. (Fonte: Ipespe, divulgado pela CNN Brasil em 10 de outubro de 2026. Margem de erro de 2,6 pontos percentuais).

A crise no STF veio a perder força nas pesquisas posteriores, mas esse resultado ajuda a compreender um mecanismo político importante: um candidato pode obter votos explorando temas que mobilizam o eleitorado, mesmo quando sua própria conduta é objeto de fortes acusações de corrupção. No caso de Flávio Bolsonaro, diretamente envolvido com a mega corrupção de Daniel Vorcaro, do Banco Master, corrupção não tirou voto.

A rejeição ao adversário pode superar as reservas em relação ao próprio candidato. Os dados do Datafolha identificam a rejeição a Lula e ao PT como uma motivação declarada por parte dos eleitores de Flávio Bolsonaro. O desejo de mudança pode mobilizar votos independentemente da aprovação integral do candidato. Essa foi a principal razão declarada pelos eleitores de Flávio Bolsonaro no levantamento citado.

Em síntese: a explicação mais consistente com os dados disponíveis é que a escolha eleitoral envolve uma combinação de desejo de mudança, rejeição ao adversário, prioridades temáticas e identificação política. Não é possível concluir, apenas com o resultado das urnas, que os eleitores ignoraram as controvérsias, concordaram com elas ou não compreenderam suas consequências.

Há outras abordagens possíveis para explicar a força eleitoral do candidato da extrema direita, mas uma das lições a serem extraídas dessa eleição é a necessidade de os Partidos de esquerda não esgotarem suas energias nos meandros da institucionalidade, mas partirem para a mobilização das bases, como se viu no segundo turno.

Tendo em vista que o próximo Congresso será dominado pela direita, a mobilização permanente da sociedade civil será condição sine qua non para inserir na agenda política projetos sem apoio do Legislativo como, por exemplo, taxação de grandes fortunas, tarifa zero etc., bem como para garantir a sustentação política do governo Lula que não deveria mais repetir o cardápio de fazer aliança com a direita para barrar a extrema direita, sob pena de esvaziamento político e derrota fragorosa na próxima eleição.

¨      Alienação – perdas e danos. Por Fernando Nogueira da Costa

Foi fundamental para a vitória eleitoral de Lula, em 2026, a queda da alienação por parte dos eleitores. Caso contrário, com a perda eleitoral, o dano social seria imenso.

Quais são os danos particulares da alienação? Ela pode produzir consequências individuais em diferentes dimensões.

Perda de autonomia – a pessoa passa a experimentar suas atividades e decisões como subordinadas a forças externas. Redução da capacidade de realização – o trabalho, a educação e outras atividades deixam de ser oportunidades de desenvolvimento e tornam-se apenas obrigações. Sentimento de impotência – o indivíduo passa a acreditar em suas ações não possuírem consequências relevantes.

Enfraquecimento da identidade – a pessoa encontra dificuldade para reconhecer seus próprios valores e objetivos nas atividades que realiza. Dependência de autoridades – pode desenvolver relações nas quais a avaliação crítica é substituída pela obediência.

Entretanto, é importante evitar uma conclusão excessiva. Nem toda pessoa submetida a condições alienantes apresenta sofrimento psicológico, e nem todo sofrimento psicológico resulta de alienação social. O conceito é fundamentalmente filosófico e sociopolítico, não um diagnóstico clínico.

Quanto aos danos sociais, quando a alienação se generaliza, suas consequências podem alcançar as instituições democráticas.

Primeiro, há enfraquecimento da participação política. Cidadãos ao considerarem impossível influenciar decisões públicas podem afastar-se de partidos, associações, sindicatos e eleições. Nesse caso, a alienação pode contribuir para o abstencionismo.

Mas os dois conceitos não são sinônimos: uma pessoa pode deixar de votar por dificuldades materiais, e outra pode votar regularmente sem exercer autonomia crítica.

Depois, há risco de concentração do poder. Quando grande parte da população deixa de participar das decisões, aumenta a influência relativa dos grupos mais organizados e dotados de recursos. A participação formal permanece, mas a distribuição efetiva do poder torna-se desigual.

Abre a vulnerabilidade à manipulação. A dependência de fontes únicas de informação e de autoridades consideradas incontestáveis pode facilitar a circulação de interpretações distorcidas.

Isso não significa todos os integrantes de movimentos de massa serem alienados. A participação coletiva também pode ampliar a consciência política e a capacidade de ação.

Outra possibilidade é a naturalização das desigualdades. A alienação pode contribuir para relações sociais historicamente construídas serem percebidas como inevitáveis. A desigualdade deixa de aparecer como resultado de instituições e escolhas políticas e passa a ser interpretada como consequência natural das diferenças individuais.

Enfim, pode haver reprodução de instituições pouco responsivas. Quando os cidadãos deixam de fiscalizar e contestar decisões, instituições podem adquirir maior autonomia em relação às necessidades da sociedade.

Esse processo pode criar um círculo vicioso: menor participação → menor controle social → maior distanciamento institucional → sentimento de impotência → menor participação. Essa formulação é uma aplicação contemporânea do conceito.

O Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio e outros, não oferece um programa único de superação da a alienação aplicável a todas as sociedades. Na reconstrução da tradição marxista, associa a desalienação a transformações estruturais das relações de produção. Entretanto, a ampliação do conceito para a administração, a cultura e a política permite pensar em estratégias complementares.

A educação crítica propiciadora de autonomia intelectual pode desenvolver a capacidade de distinguir fatos, interpretações, opiniões e interesses. Isso inclui compreender como funcionam o Estado, a economia, os meios de comunicação e as instituições. O objetivo não deve ser substituir uma doutrinação por outra, mas ampliar a autonomia de julgamento.

É possível emergir uma participação democrática efetiva. Conselhos de políticas públicas, associações comunitárias, sindicatos, movimentos sociais e organizações civis podem permitir os cidadãos participarem das decisões quando afetam suas vidas.

A participação precisa produzir efeitos verificáveis. Caso contrário, corre o risco de transformar-se em ritual de legitimação de decisões previamente tomadas.

Outro avanço seria a democratização das relações de trabalho. A superação da alienação do trabalho exige ampliar a capacidade dos trabalhadores de compreender e influenciar os processos produtivos. Isso pode envolver negociação coletiva, participação na gestão, cooperativas, qualificação profissional e maior transparência das decisões empresariais.

É relevante a redução da dependência econômica. Pessoas submetidas à insegurança permanente possuem menos recursos e tempo para exercer autonomia. Políticas de emprego, proteção social, educação e acesso a serviços públicos podem ampliar suas alternativas reais. A autonomia política depende, em parte, de condições materiais de existência.

O pluralismo informacional é essencial. Uma sociedade democrática precisa garantir diversidade de fontes de informação e condições para o debate público.

Isso envolve transparência das plataformas digitais, educação midiática e proteção da liberdade de expressão. A solução não consiste em substituir o controle privado da informação por uma verdade oficial imposta pelo Estado.

Por fim, cabe o controle democrático das instituições. As organizações públicas e privadas devem prestar contas das decisões que afetam a coletividade. Transparência, fiscalização, responsabilização e possibilidade de contestação são instrumentos para reduzir a distância entre instituições e cidadãos.

A aplicação ao Brasil permite estabelecer uma distinção entre três fenômenos frequentemente confundidos.

A alienação pode favorecer o abstencionismo e aumentar a vulnerabilidade à manipulação, mas não determina necessariamente nenhum dos dois. Um trabalhador pode reconhecer criticamente suas condições de exploração e, mesmo assim, abster-se de votar por considerar inadequadas as alternativas eleitorais. Outro pode participar intensamente de campanhas políticas, mas aceitar sem questionamento as orientações de uma liderança.

Por isso, participação não é automaticamente autonomia, assim como abstenção não é automaticamente alienação. Essa distinção é especialmente importante em sociedades polarizadas.

Classificar como alienado todo eleitor de um adversário político é uma maneira de desqualificar sua capacidade de julgamento, sem investigar suas experiências, seus interesses e suas razões. Uma abordagem democrática precisa compreender como as preferências políticas são formadas e quais condições permitem sua revisão crítica.

A principal contribuição do verbete de Cesare Pianciola é mostrar a alienação constituir um fenômeno simultaneamente subjetivo e objetivo. Não se trata apenas de pessoas desconhecerem a realidade ou se deixarem enganar.

Trata-se também de relações sociais nas quais os indivíduos participam de processos sem conseguirem controlar. A alienação pode atingir uma pessoa, um grupo social ou uma sociedade inteira. Pode envolver adesão voluntária, conformismo, dependência econômica ou coerção.

Seus danos não se limitam ao sofrimento individual: podem comprometer a participação democrática, a capacidade de organização coletiva e o controle social das instituições.

A superação exige duas transformações complementares: (i) emancipação intelectual: desenvolver consciência crítica, capacidade de julgamento e liberdade de pensamento; (ii) emancipação social: modificar as condições econômicas, políticas e institucionais capazes de restringirem a autonomia efetiva.

A primeira, isoladamente, pode produzir indivíduos conscientes de sua impotência. A segunda, sem participação e liberdade, pode substituir uma forma de dominação por outra.

Em síntese: alienação é participar de uma realidade social sem conseguir reconhecer-se como sujeito capaz de influenciar sua construção. Emancipação é recuperar, individual e coletivamente, a capacidade de compreender, decidir e transformar as condições da própria existência.

Essa interpretação permite aproximar a tradição filosófica de Jean-Jacques Rousseau, Hegel e Karl Marx de uma concepção contemporânea da democracia: não basta reconhecer formalmente o cidadão como titular de direitos; é necessário criar condições para ele exercer efetivamente sua autonomia.

Combater a alienação política, para enfrentar as pautas-bombas do próximo Congresso Nacional, será fundamental.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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