Liszt
Vieira: Compreender para avançar
Baixada
a poeira da eleição, é necessário compreender melhor como um candidato
corrupto, cínico, mentiroso, submisso a Donald Trump a quem pediu para punir o
Brasil com tarifaço, venceu o primeiro turno e perdeu por 3,5% o segundo turno.
Por pouco, o Brasil se livrou de um bandido ligado aos milicianos e
traficantes, ao Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quem chamou de irmão e de
quem recebeu a promessa de 132 milhões, já tendo recebido e desviado para seu
bolso 61 milhões, e totalmente submisso a Donald Trump, a quem prometeu
entregar as riquezas e o destino político do Brasil.
Há
muitas abordagens possíveis para explicar essa questão. Desde a psicologia de
massas para entender o comportamento dos bolsonaristas até uma análise crítica
do governo Lula para mostrar o que foi mal feito ou deixou de ser feito para
permitir o descalabro da ascensão eleitoral de um bandido corrupto como Flávio
Bolsonaro. Sem esquecer, naturalmente, a cumplicidade da grande imprensa pelo
que disse ou deixou de dizer em relação a seu candidato de extrema direita.
Além da grande imprensa comercial, os grandes derrotados foram Donald Trump,
Benjamin Netanyahu, Meta e empresas transnacionais.
Após o
susto com o resultado do primeiro turno, o segundo turno foi uma festa: a
juventude foi às ruas, os idosos foram votar, a sociedade civil se engajou no
Exército de Lula dirigido por André Janones que, apesar de um nome ruim
(reforça uma ideologia militar), deu uma contribuição extraordinária para a
vitória no segundo turno, compensando a mediocridade da coordenação da campanha
eleitoral de Lula e a debilidade política dos partidos de apoio ao governo. É
justo, porém, destacar duas iniciativas que pautaram a conjuntura política em
favor de Lula: o fim da escala 6×1 e a proibição das bets.
O
presente artigo busca analisar o comportamento do eleitorado e deixa para mais
adiante a questão que será prioritária a partir do início de 2027: a estratégia
da esquerda e do governo para enfrentar um Congresso dominado pela direita. A
mobilização da sociedade civil, como ficou demonstrada na campanha eleitoral,
será fundamental para dar sustentação ao governo Lula que será levado, sob pena
de fracasso, a mudar sua estratégia de fazer aliança com a direita para
garantir govenabilidade.
Tendo
em vista a fraqueza política dos partidos, a mobilização do apoio popular será
uma necessidade permanente, ainda mais se o governo quiser mesmo avançar e
trabalhar para reduzir a elevadíssima taxa de juros que asfixia a economia e
trava o desenvolvimento. Para isso, terá de enfrentar o mercado financeiro com
o objetivo de acabar com o “suicídio” dos juros altos, relembrando a expressão
do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz.
Ainda
estamos em plena tempestade: o candidato derrotado, repetindo seu pai, negou o
resultado das urnas, mancomunado com o governo de Donald Trump. Isso lembra a
famosa frase de Marx sobre Hegel no livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte:
a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.
Agora,
porém, a questão que colocamos para debate é saber como um candidato que
enfrenta graves acusações de mentiras, cinismo, corrupção e submissão a um
líder estrangeiro conseguiu conquistar votos suficientes para chegar à frente
no primeiro turno e perder por 3,5% no segundo turno.
Os
dados oficiais confirmam que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à
frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. E no segundo
turno, o resultado oficial foi vitória de Lula com 51,79% e Flávio Bolsonaro
com 48,21%, numa virada histórica sensacional.
Há
alguns fatores políticos e eleitorais que ajudam a compreender esse resultado,
sem presumir que todos os eleitores tenham as mesmas motivações. O primeiro é
identificação ideológica, uma vez que parte do eleitorado pode priorizar
conservadorismo, segurança pública, costumes e oposição ao PT, mesmo quando
discorda de determinadas atitudes do candidato.
Pesam
também outros fatores como o voto de rejeição, ou seja, alguns eleitores votam
principalmente para impedir a vitória do adversário, e não por concordarem
integralmente com quem escolhem. Quando a disputa se organiza em torno de dois
campos fortemente opostos, a identidade partidária e a rejeição ao outro lado
podem pesar mais do que controvérsias individuais.
Há
também que levar em consideração a influência da família e das lideranças
políticas: o sobrenome Bolsonaro, a base eleitoral construída por Jair
Bolsonaro e o apoio de lideranças conservadoras são elementos relevantes para
analisar a candidatura de Flávio.
Também
influenciam o voto a economia e a avaliação do governo: renda, inflação,
emprego e percepção sobre os resultados da administração federal. Além disso,
pesou também o apoio político e financeiro do governo de Donald Trump ao
candidato Flávio Bolsonaro que apoiou o tarifaço de Donald Trump. Mas um
eleitor pode considerar a relação com Trump um problema, mas atribuir maior
importância a outras questões; outro pode sequer considerar essa relação
negativa.
Uma
pesquisa do Datafolha realizada em 13 e 14 de outubro de 2026, com 2.520
eleitores de 153 municípios, investigou as motivações de quem pretendia votar
no segundo turno. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, as principais razões
declaradas para o voto no segundo turno foram as seguintes: Mudança e
alternância de poder: 41% / Rejeição a Lula e ao PT: 31% / Economia e custo de
vida: 16% / Propostas e qualidades do candidato: 15% (Os percentuais divulgados
somam mais de 100%, possivelmente por arredondamento ou critérios de resposta).
Entre
os eleitores de Lula, as razões declaradas para o voto foram as seguintes:
Proteção social e defesa de sua classe: 48% / Desempenho e legado do
presidente: 22% / Rejeição a Flávio: 17% / Valores, ideologia e democracia:
11%.
O que
esses números sugerem é que o voto em Flávio Bolsonaro não pode ser explicado
apenas por uma avaliação pessoal de sua conduta. Para uma parcela dos seus
eleitores, a alternância de poder e a rejeição ao PT aparecem como razões
explícitas. Entre os eleitores de Lula, a proteção social e a avaliação de seu
governo têm maior destaque nesse levantamento.
Uma
pesquisa do Ipespe, realizada entre 6 e 8 de outubro com 1.500 eleitores,
perguntou quais temas foram mais decisivos na escolha do voto do primeiro
turno. O resultado foi o seguinte: Corrupção e crise no STF: 24% / Economia,
emprego e preços: 17% / Saúde e educação: 12%. (Fonte: Ipespe, divulgado pela CNN
Brasil em 10 de outubro de 2026. Margem de erro de 2,6 pontos percentuais).
A crise
no STF veio a perder força nas pesquisas posteriores, mas esse resultado ajuda
a compreender um mecanismo político importante: um candidato pode obter votos
explorando temas que mobilizam o eleitorado, mesmo quando sua própria conduta é
objeto de fortes acusações de corrupção. No caso de Flávio Bolsonaro,
diretamente envolvido com a mega corrupção de Daniel Vorcaro, do Banco Master,
corrupção não tirou voto.
A
rejeição ao adversário pode superar as reservas em relação ao próprio
candidato. Os dados do Datafolha identificam a rejeição a Lula e ao PT como uma
motivação declarada por parte dos eleitores de Flávio Bolsonaro. O desejo de
mudança pode mobilizar votos independentemente da aprovação integral do
candidato. Essa foi a principal razão declarada pelos eleitores de
Flávio Bolsonaro no levantamento citado.
Em
síntese: a explicação mais consistente com os dados disponíveis é que a escolha
eleitoral envolve uma combinação de desejo de mudança, rejeição ao adversário,
prioridades temáticas e identificação política. Não é possível concluir, apenas
com o resultado das urnas, que os eleitores ignoraram as controvérsias,
concordaram com elas ou não compreenderam suas consequências.
Há
outras abordagens possíveis para explicar a força eleitoral do candidato da
extrema direita, mas uma das lições a serem extraídas dessa eleição é a
necessidade de os Partidos de esquerda não esgotarem suas energias nos meandros
da institucionalidade, mas partirem para a mobilização das bases, como se viu
no segundo turno.
Tendo
em vista que o próximo Congresso será dominado pela direita, a mobilização
permanente da sociedade civil será condição sine qua non para inserir na
agenda política projetos sem apoio do Legislativo como, por exemplo, taxação de
grandes fortunas, tarifa zero etc., bem como para garantir a sustentação
política do governo Lula que não deveria mais repetir o cardápio de fazer
aliança com a direita para barrar a extrema direita, sob pena de esvaziamento
político e derrota fragorosa na próxima eleição.
¨ Alienação – perdas e
danos. Por Fernando Nogueira da Costa
Foi
fundamental para a vitória eleitoral de Lula, em 2026, a queda da alienação por
parte dos eleitores. Caso contrário, com a perda eleitoral, o dano social seria
imenso.
Quais
são os danos particulares da alienação? Ela pode produzir consequências
individuais em diferentes dimensões.
Perda
de autonomia – a pessoa passa a experimentar suas atividades e decisões como
subordinadas a forças externas. Redução da capacidade de realização – o
trabalho, a educação e outras atividades deixam de ser oportunidades de
desenvolvimento e tornam-se apenas obrigações. Sentimento de impotência – o
indivíduo passa a acreditar em suas ações não possuírem consequências
relevantes.
Enfraquecimento
da identidade – a pessoa encontra dificuldade para reconhecer seus próprios
valores e objetivos nas atividades que realiza. Dependência de autoridades –
pode desenvolver relações nas quais a avaliação crítica é substituída pela
obediência.
Entretanto,
é importante evitar uma conclusão excessiva. Nem toda pessoa submetida a
condições alienantes apresenta sofrimento psicológico, e nem todo sofrimento
psicológico resulta de alienação social. O conceito é fundamentalmente
filosófico e sociopolítico, não um diagnóstico clínico.
Quanto
aos danos sociais, quando a alienação se generaliza, suas consequências podem
alcançar as instituições democráticas.
Primeiro,
há enfraquecimento da participação política. Cidadãos ao considerarem
impossível influenciar decisões públicas podem afastar-se de partidos,
associações, sindicatos e eleições. Nesse caso, a alienação pode contribuir
para o abstencionismo.
Mas os
dois conceitos não são sinônimos: uma pessoa pode deixar de votar por
dificuldades materiais, e outra pode votar regularmente sem exercer autonomia
crítica.
Depois,
há risco de concentração do poder. Quando grande parte da população deixa de
participar das decisões, aumenta a influência relativa dos grupos mais
organizados e dotados de recursos. A participação formal permanece, mas a
distribuição efetiva do poder torna-se desigual.
Abre a
vulnerabilidade à manipulação. A dependência de fontes únicas de informação e
de autoridades consideradas incontestáveis pode facilitar a circulação de
interpretações distorcidas.
Isso
não significa todos os integrantes de movimentos de massa serem alienados. A
participação coletiva também pode ampliar a consciência política e a capacidade
de ação.
Outra
possibilidade é a naturalização das desigualdades. A alienação pode contribuir
para relações sociais historicamente construídas serem percebidas como
inevitáveis. A desigualdade deixa de aparecer como resultado de instituições e
escolhas políticas e passa a ser interpretada como consequência natural das
diferenças individuais.
Enfim,
pode haver reprodução de instituições pouco responsivas. Quando os cidadãos
deixam de fiscalizar e contestar decisões, instituições podem adquirir maior
autonomia em relação às necessidades da sociedade.
Esse
processo pode criar um círculo vicioso: menor participação → menor controle
social → maior distanciamento
institucional → sentimento de
impotência → menor participação.
Essa formulação é uma aplicação contemporânea do conceito.
O Dicionário
de Política, organizado por Norberto Bobbio e outros, não oferece um
programa único de superação da a alienação aplicável a todas as sociedades. Na
reconstrução da tradição marxista, associa a desalienação a transformações
estruturais das relações de produção. Entretanto, a ampliação do conceito para
a administração, a cultura e a política permite pensar em estratégias
complementares.
A
educação crítica propiciadora de autonomia intelectual pode desenvolver a
capacidade de distinguir fatos, interpretações, opiniões e interesses. Isso
inclui compreender como funcionam o Estado, a economia, os meios de comunicação
e as instituições. O objetivo não deve ser substituir uma doutrinação por
outra, mas ampliar a autonomia de julgamento.
É
possível emergir uma participação democrática efetiva. Conselhos de políticas
públicas, associações comunitárias, sindicatos, movimentos sociais e
organizações civis podem permitir os cidadãos participarem das decisões quando
afetam suas vidas.
A
participação precisa produzir efeitos verificáveis. Caso contrário, corre o
risco de transformar-se em ritual de legitimação de decisões previamente
tomadas.
Outro
avanço seria a democratização das relações de trabalho. A superação da
alienação do trabalho exige ampliar a capacidade dos trabalhadores de
compreender e influenciar os processos produtivos. Isso pode envolver
negociação coletiva, participação na gestão, cooperativas, qualificação
profissional e maior transparência das decisões empresariais.
É
relevante a redução da dependência econômica. Pessoas submetidas à insegurança
permanente possuem menos recursos e tempo para exercer autonomia. Políticas de
emprego, proteção social, educação e acesso a serviços públicos podem ampliar
suas alternativas reais. A autonomia política depende, em parte, de condições
materiais de existência.
O
pluralismo informacional é essencial. Uma sociedade democrática precisa
garantir diversidade de fontes de informação e condições para o debate público.
Isso
envolve transparência das plataformas digitais, educação midiática e proteção
da liberdade de expressão. A solução não consiste em substituir o controle
privado da informação por uma verdade oficial imposta pelo Estado.
Por
fim, cabe o controle democrático das instituições. As organizações públicas e
privadas devem prestar contas das decisões que afetam a coletividade.
Transparência, fiscalização, responsabilização e possibilidade de contestação
são instrumentos para reduzir a distância entre instituições e cidadãos.
A
aplicação ao Brasil permite estabelecer uma distinção entre três fenômenos
frequentemente confundidos.
A
alienação pode favorecer o abstencionismo e aumentar a vulnerabilidade à
manipulação, mas não determina necessariamente nenhum dos dois. Um trabalhador
pode reconhecer criticamente suas condições de exploração e, mesmo assim,
abster-se de votar por considerar inadequadas as alternativas eleitorais. Outro
pode participar intensamente de campanhas políticas, mas aceitar sem
questionamento as orientações de uma liderança.
Por
isso, participação não é automaticamente autonomia, assim como abstenção não é
automaticamente alienação. Essa distinção é especialmente importante em
sociedades polarizadas.
Classificar
como alienado todo eleitor de um adversário político é uma maneira de
desqualificar sua capacidade de julgamento, sem investigar suas experiências,
seus interesses e suas razões. Uma abordagem democrática precisa compreender
como as preferências políticas são formadas e quais condições permitem sua
revisão crítica.
A
principal contribuição do verbete de Cesare Pianciola é mostrar a alienação
constituir um fenômeno simultaneamente subjetivo e objetivo. Não se trata
apenas de pessoas desconhecerem a realidade ou se deixarem enganar.
Trata-se
também de relações sociais nas quais os indivíduos participam de processos sem
conseguirem controlar. A alienação pode atingir uma pessoa, um grupo social ou
uma sociedade inteira. Pode envolver adesão voluntária, conformismo,
dependência econômica ou coerção.
Seus
danos não se limitam ao sofrimento individual: podem comprometer a participação
democrática, a capacidade de organização coletiva e o controle social das
instituições.
A
superação exige duas transformações complementares: (i) emancipação
intelectual: desenvolver consciência crítica, capacidade de julgamento e
liberdade de pensamento; (ii) emancipação social: modificar as condições
econômicas, políticas e institucionais capazes de restringirem a autonomia
efetiva.
A
primeira, isoladamente, pode produzir indivíduos conscientes de sua impotência.
A segunda, sem participação e liberdade, pode substituir uma forma de dominação
por outra.
Em
síntese: alienação é participar de uma realidade social sem conseguir
reconhecer-se como sujeito capaz de influenciar sua construção. Emancipação é
recuperar, individual e coletivamente, a capacidade de compreender, decidir e
transformar as condições da própria existência.
Essa
interpretação permite aproximar a tradição filosófica de Jean-Jacques Rousseau,
Hegel e Karl Marx de uma concepção contemporânea da democracia: não basta
reconhecer formalmente o cidadão como titular de direitos; é necessário criar
condições para ele exercer efetivamente sua autonomia.
Combater
a alienação política, para enfrentar as pautas-bombas do próximo Congresso
Nacional, será fundamental.
Fonte:
A Terra é Redonda

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