quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Empresa usada na fuga de Flávio Bolsonaro pertence a empresário ligado a Milei

A empresa responsável pelo avião utilizado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para fugir do Brasil, na madrugada desta quarta-feira (28), pertence a um empresário que já transportou pessoalmente o presidente argentino Javier Milei e integrantes de seu núcleo político. Luis Grande, proprietário da Baires Fly, pilotou a aeronave que levou Milei aos Estados Unidos em novembro de 2023, poucos dias depois de sua vitória nas eleições presidenciais. A companhia também aparece em uma investigação judicial sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo contratos de um órgão do governo argentino.

A ligação foi identificada a partir do cruzamento de informações sobre a aeronave utilizada por Flávio, registros da companhia e reportagens argentinas que detalham suas operações comerciais. Além da relação direta de Grande com Milei, um empresário que negocia voos da Baires Fly manteve negócios com Federico Machado, investigado nos Estados Unidos por narcotráfico e crimes financeiros e responsável por financiar um aliado político do presidente argentino.

A participação da Baires Fly na saída de Flávio foi confirmada pela Direção Nacional de Migrações da Argentina. Segundo o órgão, o senador atravessou a fronteira brasileira às 22h50 de terça-feira (27), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones.

Flávio estava acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, e das duas filhas. Às 23h30, os quatro embarcaram em um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela Baires Fly. A aeronave decolou pouco depois da meia-noite com destino a Guayaquil, no Equador, onde fez uma escala antes de seguir para os Estados Unidos.

O avião havia chegado a Puerto Iguazú na noite de segunda-feira (26), procedente de Buenos Aires. Inicialmente, a partida estava prevista para a madrugada de terça-feira, mas o voo não ocorreu. A aeronave permaneceu no aeroporto por aproximadamente 24 horas, até a chegada de Flávio e sua família.

A saída do senador ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes e proibir sua saída do Brasil. A decisão foi tomada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

<><> Dono da empresa pilotou avião de Milei

Luis Grande atua há décadas no mercado argentino de aviação executiva e integra a Baires Fly desde 1991. A companhia opera a partir do Aeroparque Jorge Newbery, em Buenos Aires, e possui uma frota de aproximadamente dez aeronaves, utilizadas em viagens particulares, deslocamentos empresariais e serviços especializados.

Em 27 de novembro de 2023, Grande pilotou um Gulfstream V, matrícula LV-KAX, contratado para transportar Javier Milei aos Estados Unidos. O presidente argentino havia vencido as eleições pouco mais de uma semana antes e organizava a equipe que assumiria o governo em dezembro.

Na comitiva estavam Karina Milei, irmã do presidente e uma de suas principais auxiliares políticas; Luis Caputo, que assumiria o Ministério da Economia; Santiago Caputo, responsável pela estratégia política do grupo; e Nicolás Posse, futuro chefe de Gabinete. Também participaram o empresário Gerardo Werthein, posteriormente nomeado embaixador argentino em Washington, e Marc Stanley, então embaixador americano em Buenos Aires.

A viagem incluiu compromissos em Nova York, entre eles uma visita ao túmulo do rabino Menachem Mendel Schneerson, referência religiosa de Milei, além de encontros políticos e econômicos.

O custo do fretamento foi estimado entre US$ 120 mil e US$ 250 mil por diferentes publicações argentinas. Werthein participou da organização financeira do deslocamento e chegou a oferecer o pagamento da viagem.

Segundo informações publicadas posteriormente pelo elDiarioAR, a proposta provocou preocupação entre integrantes da comitiva porque Werthein pretendia assumir a embaixada argentina em Washington. A solução adotada teria sido dividir os custos entre os passageiros.

A relação entre Grande e Milei, portanto, não se resume à contratação de uma aeronave de uma empresa desconhecida do presidente. O proprietário da Baires Fly esteve pessoalmente à frente do voo que transportou Milei e seus principais auxiliares em um momento decisivo da formação do governo.

Grande também prestou serviços a outros presidentes argentinos, como Mauricio Macri, Cristina Kirchner e Alberto Fernández. Embora sua relação comercial com Milei esteja documentada, não há comprovação pública de que o empresário mantenha uma aliança partidária com o presidente.

<><> Empresa aparece em investigação de corrupção no governo Milei

A Baires Fly também foi mencionada em uma investigação sobre suspeitas de corrupção na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), órgão responsável por políticas públicas destinadas a pessoas com deficiência na Argentina.

O caso envolve suspeitas de irregularidades na contratação de empresas fornecedoras de medicamentos e equipamentos médicos durante a gestão de Diego Spagnuolo, ex-dirigente do órgão e antigo integrante do círculo de confiança de Milei.

Um dos empresários investigados é Sergio Daniel Mastropietro, que atua na comercialização de voos privados e mantém relações comerciais com a Baires Fly. Ele também possui negócios próprios no setor de aviação, incluindo a Baires Jets.

Segundo documentos da investigação, Mastropietro intermediou operações financeiras envolvendo a Baires Fly e empresas fornecedoras da ANDIS. Os investigadores suspeitam que pagamentos apresentados como contratação de serviços aéreos tenham sido utilizados para dar aparência legal a recursos provenientes de contratos públicos irregulares.

Em setembro de 2025, Mastropietro encaminhou ao empresário Miguel Ángel Calvete, apontado como um dos participantes do esquema investigado, os dados bancários da Baires Fly.

No dia seguinte, empresas fornecedoras de medicamentos realizaram transferências para contas da companhia. Entre os pagamentos identificados estão 34,56 milhões de pesos argentinos enviados pela Prolite Orthopedics e 60,5 milhões de pesos transferidos pela Probock, totalizando aproximadamente 95 milhões de pesos.

Depois das transferências, Mastropietro encaminhou faturas emitidas pela Baires Fly com a justificativa de compra antecipada de quilômetros de voo. Uma terceira empresa, a Droguería Profarma, também aparece nas operações examinadas.

A sequência chamou a atenção dos investigadores porque as faturas foram emitidas depois dos pagamentos, a partir de solicitações feitas por Calvete.

Para o Ministério Público argentino, os documentos comerciais podem ter sido utilizados para justificar movimentações financeiras sem correspondência com serviços efetivamente prestados. A hipótese ainda depende de comprovação no processo.

Em outubro de 2026, Mastropietro foi formalmente processado pela Justiça argentina por suspeita de participação em associação ilícita e lavagem de dinheiro. A decisão representa um avanço da investigação, mas não equivale a uma condenação.

Embora as contas e faturas da Baires Fly apareçam nos documentos, não há comprovação de responsabilidade criminal de Luis Grande nas operações investigadas.

<><> Empresário ligado à companhia também fez negócios com investigado por narcotráfico

As relações comerciais de Mastropietro alcançam outro personagem conhecido da política argentina: Federico “Fred” Machado, empresário investigado nos Estados Unidos por narcotráfico, lavagem de dinheiro e fraudes envolvendo a comercialização de aeronaves.

Machado foi acusado pelas autoridades americanas de participar de uma estrutura empresarial utilizada em operações financeiras fraudulentas e na negociação de aviões que acabaram empregados por organizações criminosas.

Mastropietro e Machado mantiveram relações societárias e comerciais. Documentos examinados pela imprensa argentina identificaram movimentações superiores a US$ 800 mil envolvendo Mastropietro e uma estrutura financeira associada a Machado.

O empresário ligado à Baires Fly também participou da aproximação entre Machado e José Luis Espert, economista e político que posteriormente se tornou aliado de Milei.

Machado transferiu US$ 200 mil a Espert em janeiro de 2020, operação que ganhou repercussão política na Argentina após a divulgação de documentos bancários. Espert reconheceu o recebimento dos recursos, mas negou ter conhecimento das atividades criminosas atribuídas ao financiador.

Em agosto de 2026, Machado admitiu responsabilidade por crimes financeiros nos Estados Unidos, em um acordo judicial que retirou a acusação de narcotráfico. A ligação empresarial com Mastropietro está documentada, mas não demonstra participação de Grande ou da Baires Fly nos crimes atribuídos a Machado.

Também não há evidências de que a aeronave utilizada por Flávio Bolsonaro tenha pertencido a Machado ou sido empregada em operações criminosas.

•        Fuga de Flávio Bolsonaro vira denúncia criminal na Argentina. Por Jamil Chade

O uso do território da Argentina para a fuga de Flávio Bolsonaro abre uma crise política e Judicial no país vizinho. Nesta quarta-feira, a deputada Marcela Pagano anunciou que entrou com uma denúncia penal e pediu que se investigue se houve a colaboração de funcionários do estado.

Relatos indicam que Flávio teria embarcado em um vôo para o Equador, a partir de um aeroporto argentino. Do Equador, ele seguiu para os EUA, numa operação que contou com o envolvimento do governo dos EUA.

“Apresentei uma denúncia criminal junto ao Tribunal Federal de Puerto Iguazú”, disse a deputada. “Flávio Bolsonaro está proibido de sair do Brasil por determinação judicial. A imprensa relata sua entrada clandestina via Iguazú, a presença de um jato com matrícula argentina aguardando para levá-lo aos EUA e o bloqueio dessa decolagem pela ANAC. Enquanto isso, o governo alega que ele “nunca entrou”, disse.

“Se ele entrou, alguém permitiu sua entrada. Se tentaram retirá-lo por meio de um aeroporto federal, alguém fez vista grossa”, alertou.

“Solicitei a preservação das imagens das câmeras da ponte e do aeroporto, os planos de voo, as listas de passageiros e o contrato de fretamento, além da abertura de uma investigação sobre tráfico de pessoas em trânsito e prevaricação por parte de agentes públicos”, explicou.

“A fronteira argentina não é um corredor VIP para ninguém. Soberania não se negocia nem se empresta”, completou.

O pedido é para que sejam investigados os seguintes delitos:

# Crimes de tráfico ilegal de pessoas em trânsito pela República Argentina;

# Abuso de autoridade e descumprimento dos deveres de funcionário público;

Ela ainda pediu que seja acionada a Organização Internacional de Polícia Criminal (INTERPOL), bem como o Ministério das Relações Exteriores e a autoridade central argentina competente em matéria de cooperação penal com a República Federativa do Brasil.

<><> Assessor de Milei estava em Puerto Iguazú durante a fuga

Outro episódio acrescenta uma dimensão política à passagem de Flávio pela Argentina. Santiago Caputo, um dos principais assessores de Javier Milei e integrante da comitiva transportada pela Baires Fly em 2023, estava em Puerto Iguazú durante o período em que o avião utilizado pelo senador brasileiro permaneceu no aeroporto da cidade.

Segundo informações publicadas nesta quarta-feira pelo jornal argentino La Política Online, Caputo chegou à região na noite de segunda-feira (26), acompanhado de um assessor próximo, em uma aeronave particular.

O jornal informou que funcionários do aeroporto identificaram sua presença e que ele permaneceu na cidade durante a terça-feira. O motivo da viagem não foi esclarecido oficialmente.

A presença de Caputo na região coincide com o período em que o Gulfstream G400 da Baires Fly aguardava a chegada de Flávio Bolsonaro. Não há, porém, comprovação de que o assessor tenha participado da contratação do avião, encontrado o senador ou prestado auxílio à operação.

A coincidência ocorre em meio a questionamentos sobre a participação de autoridades estrangeiras na saída de Flávio do Brasil.

•        Governo Lula não acredita que Trump extraditará Flávio e quer ‘relação pragmática’

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva chama a declaração de Donald Trump colocando dúvidas sobre o resultado no Brasil como “choro de perdedor” e aponta que a virada do petista é uma derrota para a estratégia dos EUA de controle e influência na América Latina.

A esperança do Palácio do Planalto é a de criar uma “relação pragmática” com a Casa Branca e espera que mesmo a fuga de Flávio Bolsonaro não seja um obstáculo nessa estratégia.

O governo considera que a família Bolsonaro já está “entrincheirada” nos EUA e que um pedido de extradição do senador sequer será aceito, como tantos outros casos.

Mas, ainda assim, o governo espera construir uma relação que vá além do grupo bolsonarista.

Governo considera que conseguiu anular uma ação mais explícita de Trump na eleição e que a blindagem do processo democrático nacional criou um constrangimento para que ele fizesse qualquer tipo de declaração mais enfática.

O caminho dos EUA foi, na avaliação de Brasília, o uso da influência das redes sociais, como a Meta.

Na segunda-feira, depois que Trump colocou em dúvida o resultado eleitoral no país, o Palácio do Planalto avaliou se deveria responder oficialmente ou não. A decisão foi a de ficar em silêncio para não alimentar a tese de conspiração. O governo apenas vai responder se Trump insistir em repetir a desinformação de uma suposta fraude e indica que irá usar os relatórios do Carter Center e da OEA para desmontar a narrativa da extrema direita. Em ambos os informes, a eleição no Brasil foi amplamente elogiada.

O Palácio do Planalto, ainda assim, admite que o grande desafio para os próximos anos é o de construir uma relação “pragmática” com o governo de Donald Trump. Mas a aposta é de que Lula sai fortalecido nas urnas em, ao mesmo tempo, o americano pode ser enfraquecido por derrotas nas eleições Legislativas em novembro.

A correlação de forças, assim, seria modificada. Há ainda uma sinalização que a ala mais ideológica dentro do governo dos EUA, liderada por Marco Rubio, tenha sido enfraquecida com a vitória de Lula e que os grupos que querem trabalhar com o Brasil podem ganhar espaço.

O primeiro passo será retomar a negociação de um acordo comercial, tentando superar meses de crise diplomática. O governo espera que o Escritório de Comércio da Casa Branca (USTR) devolva a ideia da criação de um cronograma para solucionar as tarifas ainda pendentes entre os dois países.

Outro passo será a retomada do processo de autorização para que o embaixador de Trump possa assumir o cargo em Brasília. Mas o Brasil já indicou que vai tratar o nome escolhido pela Casa Branca – Daniel Perez – da mesma forma que a embaixadora do país em Washington, Maria Luiza Viotti, vem recebendo.

O que vai prevalecer é a reciprocidade e o Brasil não pode dar melhor tratamento ao americano que o status de Viotti em Washington.

Nos últimos meses, a diplomata teve seu visto modificado. Se ela sair dos EUA, não pode retornar, sem pedir uma nova autorização.

<><> Segurança e vizinhos

De uma forma mais geral, o governo vê a blindagem da eleição como uma vitória também da política externa brasileira.

Um destaque foi a rápida reação de governos de extrema direita, como o Chile, e aliados de Trump, como Peru, Equador e Paraguai, nas parabenizações ao presidente Lula.

Observadores apontam que isso não ocorreu por acaso. O Brasil tentou reconstruir a relação com cada um desses governos, inclusive enviado emissários para suas respectivas posses.

Os gestos foram, segundo observadores, “medidas dissuasivas”, justamente pensando em uma reciprocidade. O objetivo do governo era o de impedir que a família Bolsonaro e a extrema direita criassem uma “cinturão de isolamento” ao Brasil.

Agora, com vários países, Lula tentará restabelecer uma agenda de cooperação, inclusive no setor de segurança.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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