Empresa
usada na fuga de Flávio Bolsonaro pertence a empresário ligado a Milei
A
empresa responsável pelo avião utilizado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para
fugir do Brasil, na madrugada desta quarta-feira (28), pertence a um empresário
que já transportou pessoalmente o presidente argentino Javier Milei e
integrantes de seu núcleo político. Luis Grande, proprietário da Baires Fly,
pilotou a aeronave que levou Milei aos Estados Unidos em novembro de 2023,
poucos dias depois de sua vitória nas eleições presidenciais. A companhia
também aparece em uma investigação judicial sobre suspeitas de lavagem de
dinheiro envolvendo contratos de um órgão do governo argentino.
A
ligação foi identificada a partir do cruzamento de informações sobre a aeronave
utilizada por Flávio, registros da companhia e reportagens argentinas que
detalham suas operações comerciais. Além da relação direta de Grande com Milei,
um empresário que negocia voos da Baires Fly manteve negócios com Federico
Machado, investigado nos Estados Unidos por narcotráfico e crimes financeiros e
responsável por financiar um aliado político do presidente argentino.
A
participação da Baires Fly na saída de Flávio foi confirmada pela Direção
Nacional de Migrações da Argentina. Segundo o órgão, o senador atravessou a
fronteira brasileira às 22h50 de terça-feira (27), pela Ponte Internacional
Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na
província argentina de Misiones.
Flávio
estava acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, e das duas filhas. Às 23h30,
os quatro embarcaram em um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela
Baires Fly. A aeronave decolou pouco depois da meia-noite com destino a
Guayaquil, no Equador, onde fez uma escala antes de seguir para os Estados
Unidos.
O avião
havia chegado a Puerto Iguazú na noite de segunda-feira (26), procedente de
Buenos Aires. Inicialmente, a partida estava prevista para a madrugada de
terça-feira, mas o voo não ocorreu. A aeronave permaneceu no aeroporto por
aproximadamente 24 horas, até a chegada de Flávio e sua família.
A saída
do senador ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes e proibir sua
saída do Brasil. A decisão foi tomada no âmbito de uma investigação sobre
suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
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Dono da empresa pilotou avião de Milei
Luis
Grande atua há décadas no mercado argentino de aviação executiva e integra a
Baires Fly desde 1991. A companhia opera a partir do Aeroparque Jorge Newbery,
em Buenos Aires, e possui uma frota de aproximadamente dez aeronaves,
utilizadas em viagens particulares, deslocamentos empresariais e serviços
especializados.
Em 27
de novembro de 2023, Grande pilotou um Gulfstream V, matrícula LV-KAX,
contratado para transportar Javier Milei aos Estados Unidos. O presidente
argentino havia vencido as eleições pouco mais de uma semana antes e organizava
a equipe que assumiria o governo em dezembro.
Na
comitiva estavam Karina Milei, irmã do presidente e uma de suas principais
auxiliares políticas; Luis Caputo, que assumiria o Ministério da Economia;
Santiago Caputo, responsável pela estratégia política do grupo; e Nicolás
Posse, futuro chefe de Gabinete. Também participaram o empresário Gerardo
Werthein, posteriormente nomeado embaixador argentino em Washington, e Marc
Stanley, então embaixador americano em Buenos Aires.
A
viagem incluiu compromissos em Nova York, entre eles uma visita ao túmulo do
rabino Menachem Mendel Schneerson, referência religiosa de Milei, além de
encontros políticos e econômicos.
O custo
do fretamento foi estimado entre US$ 120 mil e US$ 250 mil por diferentes
publicações argentinas. Werthein participou da organização financeira do
deslocamento e chegou a oferecer o pagamento da viagem.
Segundo
informações publicadas posteriormente pelo elDiarioAR, a proposta provocou
preocupação entre integrantes da comitiva porque Werthein pretendia assumir a
embaixada argentina em Washington. A solução adotada teria sido dividir os
custos entre os passageiros.
A
relação entre Grande e Milei, portanto, não se resume à contratação de uma
aeronave de uma empresa desconhecida do presidente. O proprietário da Baires
Fly esteve pessoalmente à frente do voo que transportou Milei e seus principais
auxiliares em um momento decisivo da formação do governo.
Grande
também prestou serviços a outros presidentes argentinos, como Mauricio Macri,
Cristina Kirchner e Alberto Fernández. Embora sua relação comercial com Milei
esteja documentada, não há comprovação pública de que o empresário mantenha uma
aliança partidária com o presidente.
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Empresa aparece em investigação de corrupção no governo Milei
A
Baires Fly também foi mencionada em uma investigação sobre suspeitas de
corrupção na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), órgão responsável por
políticas públicas destinadas a pessoas com deficiência na Argentina.
O caso
envolve suspeitas de irregularidades na contratação de empresas fornecedoras de
medicamentos e equipamentos médicos durante a gestão de Diego Spagnuolo,
ex-dirigente do órgão e antigo integrante do círculo de confiança de Milei.
Um dos
empresários investigados é Sergio Daniel Mastropietro, que atua na
comercialização de voos privados e mantém relações comerciais com a Baires Fly.
Ele também possui negócios próprios no setor de aviação, incluindo a Baires
Jets.
Segundo
documentos da investigação, Mastropietro intermediou operações financeiras
envolvendo a Baires Fly e empresas fornecedoras da ANDIS. Os investigadores
suspeitam que pagamentos apresentados como contratação de serviços aéreos
tenham sido utilizados para dar aparência legal a recursos provenientes de
contratos públicos irregulares.
Em
setembro de 2025, Mastropietro encaminhou ao empresário Miguel Ángel Calvete,
apontado como um dos participantes do esquema investigado, os dados bancários
da Baires Fly.
No dia
seguinte, empresas fornecedoras de medicamentos realizaram transferências para
contas da companhia. Entre os pagamentos identificados estão 34,56 milhões de
pesos argentinos enviados pela Prolite Orthopedics e 60,5 milhões de pesos
transferidos pela Probock, totalizando aproximadamente 95 milhões de pesos.
Depois
das transferências, Mastropietro encaminhou faturas emitidas pela Baires Fly
com a justificativa de compra antecipada de quilômetros de voo. Uma terceira
empresa, a Droguería Profarma, também aparece nas operações examinadas.
A
sequência chamou a atenção dos investigadores porque as faturas foram emitidas
depois dos pagamentos, a partir de solicitações feitas por Calvete.
Para o
Ministério Público argentino, os documentos comerciais podem ter sido
utilizados para justificar movimentações financeiras sem correspondência com
serviços efetivamente prestados. A hipótese ainda depende de comprovação no
processo.
Em
outubro de 2026, Mastropietro foi formalmente processado pela Justiça argentina
por suspeita de participação em associação ilícita e lavagem de dinheiro. A
decisão representa um avanço da investigação, mas não equivale a uma
condenação.
Embora
as contas e faturas da Baires Fly apareçam nos documentos, não há comprovação
de responsabilidade criminal de Luis Grande nas operações investigadas.
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Empresário ligado à companhia também fez negócios com investigado por
narcotráfico
As
relações comerciais de Mastropietro alcançam outro personagem conhecido da
política argentina: Federico “Fred” Machado, empresário investigado nos Estados
Unidos por narcotráfico, lavagem de dinheiro e fraudes envolvendo a
comercialização de aeronaves.
Machado
foi acusado pelas autoridades americanas de participar de uma estrutura
empresarial utilizada em operações financeiras fraudulentas e na negociação de
aviões que acabaram empregados por organizações criminosas.
Mastropietro
e Machado mantiveram relações societárias e comerciais. Documentos examinados
pela imprensa argentina identificaram movimentações superiores a US$ 800 mil
envolvendo Mastropietro e uma estrutura financeira associada a Machado.
O
empresário ligado à Baires Fly também participou da aproximação entre Machado e
José Luis Espert, economista e político que posteriormente se tornou aliado de
Milei.
Machado
transferiu US$ 200 mil a Espert em janeiro de 2020, operação que ganhou
repercussão política na Argentina após a divulgação de documentos bancários.
Espert reconheceu o recebimento dos recursos, mas negou ter conhecimento das
atividades criminosas atribuídas ao financiador.
Em
agosto de 2026, Machado admitiu responsabilidade por crimes financeiros nos
Estados Unidos, em um acordo judicial que retirou a acusação de narcotráfico. A
ligação empresarial com Mastropietro está documentada, mas não demonstra
participação de Grande ou da Baires Fly nos crimes atribuídos a Machado.
Também
não há evidências de que a aeronave utilizada por Flávio Bolsonaro tenha
pertencido a Machado ou sido empregada em operações criminosas.
• Fuga de Flávio Bolsonaro vira denúncia
criminal na Argentina. Por Jamil Chade
O uso
do território da Argentina para a fuga de Flávio Bolsonaro abre uma crise
política e Judicial no país vizinho. Nesta quarta-feira, a deputada Marcela
Pagano anunciou que entrou com uma denúncia penal e pediu que se investigue se
houve a colaboração de funcionários do estado.
Relatos
indicam que Flávio teria embarcado em um vôo para o Equador, a partir de um
aeroporto argentino. Do Equador, ele seguiu para os EUA, numa operação que
contou com o envolvimento do governo dos EUA.
“Apresentei
uma denúncia criminal junto ao Tribunal Federal de Puerto Iguazú”, disse a
deputada. “Flávio Bolsonaro está proibido de sair do Brasil por determinação
judicial. A imprensa relata sua entrada clandestina via Iguazú, a presença de
um jato com matrícula argentina aguardando para levá-lo aos EUA e o bloqueio
dessa decolagem pela ANAC. Enquanto isso, o governo alega que ele “nunca
entrou”, disse.
“Se ele
entrou, alguém permitiu sua entrada. Se tentaram retirá-lo por meio de um
aeroporto federal, alguém fez vista grossa”, alertou.
“Solicitei
a preservação das imagens das câmeras da ponte e do aeroporto, os planos de
voo, as listas de passageiros e o contrato de fretamento, além da abertura de
uma investigação sobre tráfico de pessoas em trânsito e prevaricação por parte
de agentes públicos”, explicou.
“A
fronteira argentina não é um corredor VIP para ninguém. Soberania não se
negocia nem se empresta”, completou.
O
pedido é para que sejam investigados os seguintes delitos:
#
Crimes de tráfico ilegal de pessoas em trânsito pela República Argentina;
# Abuso
de autoridade e descumprimento dos deveres de funcionário público;
Ela
ainda pediu que seja acionada a Organização Internacional de Polícia Criminal
(INTERPOL), bem como o Ministério das Relações Exteriores e a autoridade
central argentina competente em matéria de cooperação penal com a República
Federativa do Brasil.
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Assessor de Milei estava em Puerto Iguazú durante a fuga
Outro
episódio acrescenta uma dimensão política à passagem de Flávio pela Argentina.
Santiago Caputo, um dos principais assessores de Javier Milei e integrante da
comitiva transportada pela Baires Fly em 2023, estava em Puerto Iguazú durante
o período em que o avião utilizado pelo senador brasileiro permaneceu no
aeroporto da cidade.
Segundo
informações publicadas nesta quarta-feira pelo jornal argentino La Política
Online, Caputo chegou à região na noite de segunda-feira (26), acompanhado de
um assessor próximo, em uma aeronave particular.
O
jornal informou que funcionários do aeroporto identificaram sua presença e que
ele permaneceu na cidade durante a terça-feira. O motivo da viagem não foi
esclarecido oficialmente.
A
presença de Caputo na região coincide com o período em que o Gulfstream G400 da
Baires Fly aguardava a chegada de Flávio Bolsonaro. Não há, porém, comprovação
de que o assessor tenha participado da contratação do avião, encontrado o
senador ou prestado auxílio à operação.
A
coincidência ocorre em meio a questionamentos sobre a participação de
autoridades estrangeiras na saída de Flávio do Brasil.
• Governo Lula não acredita que Trump
extraditará Flávio e quer ‘relação pragmática’
O
governo de Luiz Inácio Lula da Silva chama a declaração de Donald Trump
colocando dúvidas sobre o resultado no Brasil como “choro de perdedor” e aponta
que a virada do petista é uma derrota para a estratégia dos EUA de controle e
influência na América Latina.
A
esperança do Palácio do Planalto é a de criar uma “relação pragmática” com a
Casa Branca e espera que mesmo a fuga de Flávio Bolsonaro não seja um obstáculo
nessa estratégia.
O
governo considera que a família Bolsonaro já está “entrincheirada” nos EUA e
que um pedido de extradição do senador sequer será aceito, como tantos outros
casos.
Mas,
ainda assim, o governo espera construir uma relação que vá além do grupo
bolsonarista.
Governo
considera que conseguiu anular uma ação mais explícita de Trump na eleição e
que a blindagem do processo democrático nacional criou um constrangimento para
que ele fizesse qualquer tipo de declaração mais enfática.
O
caminho dos EUA foi, na avaliação de Brasília, o uso da influência das redes
sociais, como a Meta.
Na
segunda-feira, depois que Trump colocou em dúvida o resultado eleitoral no
país, o Palácio do Planalto avaliou se deveria responder oficialmente ou não. A
decisão foi a de ficar em silêncio para não alimentar a tese de conspiração. O
governo apenas vai responder se Trump insistir em repetir a desinformação de
uma suposta fraude e indica que irá usar os relatórios do Carter Center e da
OEA para desmontar a narrativa da extrema direita. Em ambos os informes, a
eleição no Brasil foi amplamente elogiada.
O
Palácio do Planalto, ainda assim, admite que o grande desafio para os próximos
anos é o de construir uma relação “pragmática” com o governo de Donald Trump.
Mas a aposta é de que Lula sai fortalecido nas urnas em, ao mesmo tempo, o
americano pode ser enfraquecido por derrotas nas eleições Legislativas em
novembro.
A
correlação de forças, assim, seria modificada. Há ainda uma sinalização que a
ala mais ideológica dentro do governo dos EUA, liderada por Marco Rubio, tenha
sido enfraquecida com a vitória de Lula e que os grupos que querem trabalhar
com o Brasil podem ganhar espaço.
O
primeiro passo será retomar a negociação de um acordo comercial, tentando
superar meses de crise diplomática. O governo espera que o Escritório de
Comércio da Casa Branca (USTR) devolva a ideia da criação de um cronograma para
solucionar as tarifas ainda pendentes entre os dois países.
Outro
passo será a retomada do processo de autorização para que o embaixador de Trump
possa assumir o cargo em Brasília. Mas o Brasil já indicou que vai tratar o
nome escolhido pela Casa Branca – Daniel Perez – da mesma forma que a
embaixadora do país em Washington, Maria Luiza Viotti, vem recebendo.
O que
vai prevalecer é a reciprocidade e o Brasil não pode dar melhor tratamento ao
americano que o status de Viotti em Washington.
Nos
últimos meses, a diplomata teve seu visto modificado. Se ela sair dos EUA, não
pode retornar, sem pedir uma nova autorização.
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Segurança e vizinhos
De uma
forma mais geral, o governo vê a blindagem da eleição como uma vitória também
da política externa brasileira.
Um
destaque foi a rápida reação de governos de extrema direita, como o Chile, e
aliados de Trump, como Peru, Equador e Paraguai, nas parabenizações ao
presidente Lula.
Observadores
apontam que isso não ocorreu por acaso. O Brasil tentou reconstruir a relação
com cada um desses governos, inclusive enviado emissários para suas respectivas
posses.
Os
gestos foram, segundo observadores, “medidas dissuasivas”, justamente pensando
em uma reciprocidade. O objetivo do governo era o de impedir que a família
Bolsonaro e a extrema direita criassem uma “cinturão de isolamento” ao Brasil.
Agora,
com vários países, Lula tentará restabelecer uma agenda de cooperação,
inclusive no setor de segurança.
Fonte:
ICL Notícias

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