quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Maurício Alfredo: Economia da atenção - como transformar engajamento político em participação duradoura

Desde 2024, venho discutindo, em diferentes artigos, como a economia da atenção¹ ultrapassou o campo das transformações tecnológicas para se tornar uma dimensão estrutural da política contemporânea. 

O que inicialmente se apresentava como uma transformação nas formas de circulação da informação passou a revelar uma dimensão mais ampla: a consolidação da atenção como recurso estratégico para a formação de identidades, a construção de pertencimentos e a disputa pela hegemonia política.

O que parecia um alerta teórico ganhou expressão simbólica na posse de Donald Trump para seu segundo mandato, quando executivos de grandes empresas de tecnologia ocuparam posições de destaque na cerimônia. A cena tornou visível a aproximação entre o poder político institucional e o controle das infraestruturas digitais por onde circulam informações, afetos e atenção pública.

No Brasil, essa lógica encontrou condições favoráveis de expansão. O clã Bolsonaro e setores da nova extrema-direita passaram a explorar a controvérsia, a exposição permanente e a transformação da punição em espetáculo. Nesse processo, acontecimentos potencialmente desfavoráveis puderam ser incorporados a narrativas de perseguição e vitimização, alimentando o engajamento e contribuindo para a manutenção da centralidade política.

O processo eleitoral brasileiro de 2026 acrescenta uma dimensão decisiva a essa investigação. Com o segundo turno concluído, já não se trata apenas de perguntar como determinados atores capturam a atenção ou permanecem em evidência, mas de compreender como essa presença contínua pode se converter em força eleitoral ao alimentar identidades políticas e produzir vínculos duradouros de pertencimento.

A hipótese que orienta esta análise é que a economia da atenção se tornou uma das infraestruturas centrais da disputa política contemporânea. Ao organizar a visibilidade dos acontecimentos e favorecer determinadas narrativas, ela participa da construção do imaginário social, da formação de identidades e de laços de pertencimento e, consequentemente, da disputa pela hegemonia na sociedade brasileira.

<><> Do espetáculo ao pertencimento: o elo entre atenção e voto

O mecanismo que pode converter a captura da atenção em força eleitoral não depende apenas do convencimento programático, mas também da mobilização de afetos e da construção de identidades. A política continua sendo uma disputa entre projetos de governo e resultados materiais. Contudo, para parcelas expressivas do eleitorado, ela envolve também pertencimento, reconhecimento, comunidade e afirmação do próprio modo de vida.

Essa lógica é favorecida pelos ambientes digitais, nos quais conteúdos curtos e provocativos costumam atrair atenção e circular com rapidez. Estudos indicam que notícias falsas se espalham até 70% mais rápido do que as verdadeiras (TSE, 2022). Na política, a desinformação e a espetacularização exploram sentimentos como raiva, medo e indignação. Enquanto isso, temas essenciais, como saúde, educação, segurança e transporte, disputam espaço com vídeos de agressões, insultos e cenas grotescas, cujo impacto imediato favorece a circulação e o engajamento.

É nesse terreno de conflito contínuo que os atores políticos podem converter a espetacularização em vínculo comunitário. A eleição para a Câmara dos Deputados, realizada no primeiro turno de 2026, oferece um exemplo expressivo dessa dinâmica: Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton foram os três candidatos a deputado federal mais votados do país, atuando em campos ideológicos distintos.

Suas trajetórias permitem observar como pautas identitárias, conflitos culturais e estratégias de exposição pública podem alimentar o engajamento eleitoral. Independentemente do espectro político, a capacidade de mobilizar atenção e construir identificação pode ampliar o alcance de uma candidatura, transformando a visibilidade em reconhecimento e, potencialmente, em votos.

Essa dinâmica se insere em uma transformação mais ampla: a política institucional e os grandes veículos de imprensa já não detêm o monopólio da mediação pública da realidade. A disputa política não se limita à apresentação de projetos para o país; envolve também a capacidade de atrair atenção, permanecer em evidência e influenciar a interpretação dos acontecimentos. Mais do que defender propostas, muitos atores procuram manter o público ligado a narrativas que oferecem referências para compreender o mundo, identificar adversários e reconhecer seus semelhantes.

Por isso, a disputa pela atenção ultrapassa o período das campanhas eleitorais e se torna parte permanente da atuação política. Governar, fazer oposição e preservar a relevância pública exigem também a capacidade de pautar acontecimentos e disputar seus significados. 

A visibilidade, por si só, não garante votos. Mas, quando alimenta o reconhecimento e o sentimento de pertencimento, pode contribuir para transformar a presença contínua nas redes em mobilização política. É nessa passagem que a economia da atenção se conecta à disputa eleitoral e à formação do imaginário social.

<><> A eleição brasileira como expressão da disputa pelo imaginário

A eleição brasileira de 2026 permite examinar como a economia da atenção participa de uma dimensão decisiva da disputa política: a formação de identidades e a construção de visões de mundo que orientam a percepção dos acontecimentos e dos adversários. Nesse processo, a polarização afetiva² ganha importância.

Ao favorecer a circulação de conteúdos que mobilizam medo, indignação e hostilidade, a disputa pela atenção pode reforçar a identificação com o próprio grupo e a rejeição ao adversário. Mais do que divergências ideológicas, estão em jogo vínculos emocionais que influenciam a maneira como os acontecimentos são interpretados e como os diferentes campos políticos são percebidos.

 Assim, a disputa eleitoral não se limita à avaliação de propostas e resultados de governo, mas envolve também a construção de pertencimentos e a definição de quem representa uma ameaça ou encarna os valores do próprio grupo.

Esse processo vai muito além da discordância ideológica tradicional. Vivemos em um contexto no qual a política coloniza o cotidiano: a cor de uma camisa torna-se senha de pertencimento, e os espaços de convivência convertem-se em arenas de disputa (CUGLER, 2025). Pesquisas recentes indicam que petistas e bolsonaristas depositam em seus respectivos grupos políticos níveis de confiança próximos aos que dedicam às próprias famílias (GALF, 2025). 

A polarização afetiva altera, assim, a maneira como as pessoas percebem e julgam umas às outras. A discordância deixa de ser apenas uma divergência sobre os rumos do país e pode ser interpretada como ameaça aos valores e ao modo de vida do próprio grupo. Com isso, o adversário passa a ser visto não apenas como alguém que pensa diferente, mas como alguém de quem é preciso desconfiar ou contra quem é preciso se defender. 

O diálogo se torna mais difícil quando a divergência política é interpretada como ameaça e os afetos passam a orientar a relação com o adversário. Nesse contexto, a afirmação das identidades e a rejeição do outro ganham espaço, enfraquecendo as condições necessárias à deliberação pública.

É nesse contexto que a disputa política se transforma também em uma disputa sobre quem tem o direito de definir o “povo brasileiro”: suas virtudes, seus medos, seus valores e seus inimigos. Diferentes narrativas procuram estabelecer o que significa pertencer à nação e quais interesses devem orientar seu futuro. 

De um lado, discursos que enfatizam a atuação do Estado, a proteção social e a redução das desigualdades; de outro, narrativas que mobilizam a autodefesa moral, referências religiosas, a valorização da ordem e o ressentimento contra as instituições. Essas referências não esgotam a diversidade de cada campo político, mas ajudam a compreender como projetos de sociedade disputam legitimidade e adesão para além de seus programas eleitorais.

O resultado do segundo turno, com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), delimita o desfecho institucional da disputa presidencial de 2026. Esse resultado, por si só, não permite atribuir os votos a um mecanismo específico, mas oferece um marco concreto para investigar como atenção, identificação política e pertencimento se articulam no ambiente eleitoral brasileiro.

Sem atribuir os resultados das urnas a uma causa única, a eleição de 2026 permite examinar como a economia da atenção participa dessa disputa. Ao favorecer a circulação de narrativas que mobilizam afetos, reforçam identidades e demarcam fronteiras entre grupos, ela pode contribuir para consolidar determinadas interpretações da realidade. A disputa não se restringe, portanto, a quem governará o Estado, mas envolve também quais valores, identidades e visões de país conquistarão maior legitimidade social. É nesse terreno que a competição eleitoral se conecta à disputa pela hegemonia e pelo imaginário nacional.

<><> O desafio democrático: disputar a hegemonia sem reproduzir a lógica do espetáculo

Diante desse cenário, coloca-se um desafio estrutural para o campo democrático e progressista. Suas análises de conjuntura procuram compreender a realidade articulando história, economia, sociologia e geografia, relacionando fenômenos imediatos a processos mais amplos. Trata-se de enxergar a floresta sem perder de vista as árvores. 

Na economia da atenção, porém, essa abordagem enfrenta uma dificuldade: a disputa pela visibilidade favorece mensagens capazes de provocar reações imediatas, enquanto análises estruturais exigem tempo, contexto e reflexão. 

A extrema-direita tem explorado essa dinâmica ao oferecer explicações simplificadoras e respostas moralizantes para problemas complexos, identificando culpados e mobilizando sentimentos de ameaça e indignação.

Essa assimetria alimenta uma tentação permanente. De um lado, o mimetismo: reproduzir a estética do choque, os bordões e a agressividade verbal para conquistar engajamento. De outro, o refúgio em uma linguagem estritamente tecnocrática ou acadêmica, que pressupõe um interlocutor interessado em argumentos abstratos, mas nem sempre consegue estabelecer conexões com sua experiência cotidiana. 

A primeira estratégia corre o risco de reproduzir a lógica de antagonismo que se pretende combater; a segunda, de restringir a circulação de ideias relevantes a públicos já familiarizados com esse repertório. Nenhuma delas, isoladamente, responde ao desafio de disputar a atenção e construir vínculos políticos duradouros.

O desafio, portanto, não consiste em escolher entre a razão analítica e a mobilização dos afetos, mas em aproximar essas dimensões. Propostas de país e análises estruturais precisam adquirir significado concreto na vida da população, relacionando questões como emprego, renda, moradia, segurança e serviços públicos aos processos que as produzem. 

Traduzir a complexidade sem vulgarizá-la significa tornar compreensíveis as relações entre os problemas cotidianos e suas causas estruturais, sem reduzir a realidade a explicações fáceis ou a inimigos convenientes. É também mostrar como essas questões afetam a vida das pessoas e o futuro que podem construir coletivamente.

Disputar a hegemonia na economia da atenção exige conquistar mais do que visibilidade: requer construir formas de comunicação e espaços de sociabilidade capazes de transformar identificação momentânea em participação e pertencimento duradouro. 

Isso pressupõe associar narrativas mobilizadoras a experiências concretas de solidariedade, proteção social e ação coletiva. A resposta democrática não pode se limitar a denunciar a espetacularização do ressentimento; precisa demonstrar, na prática, que o fortalecimento dos vínculos comunitários e do bem comum oferece caminhos para enfrentar as incertezas do presente. Afinal, a disputa não é apenas por quem consegue capturar a atenção, mas por quais valores, interpretações e projetos de sociedade serão capazes de conquistar legitimidade e orientar a vida coletiva.

¨      Frei Betto: vitória de Lula derrota projeto autoritário, mas exige mobilização popular

A vitória de Lula nas eleições de 2026, eleito presidente pela quarta vez, representa um ponto de inflexão na história recente do Brasil. O resultado das urnas simboliza a derrota de um projeto autoritário e a reafirmação do compromisso com a democracia e a justiça social.

A derrota de Jair Bolsonaro em 2022, primeiro presidente a perder uma reeleição desde a instituição desse mecanismo eleitoral, foi um golpe significativo para a extrema-direita brasileira. Contudo, é crucial distinguir a derrota eleitoral de Bolsonaro do fim do bolsonarismo como força política.

O movimento permanece influente e exige vigilância constante das forças democráticas. A vitória de Lula, obtida por uma margem estreita (51,9% a 49,1%), impõe a necessidade de restaurar a plena vida democrática e a harmonia entre os poderes.

O terceiro mandato de Lula foi marcado por uma agenda robusta de políticas sociais que resgataram conquistas históricas. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), e a pobreza extrema caiu para níveis históricos, com a retirada de milhões de pessoas dessa condição. A taxa de pobreza geral recuou de 31,6% em 2022 para 23,1% em 2024, enquanto a renda per capita dos mais pobres cresceu 13,2%.

A valorização real do salário mínimo, com ganhos acima da inflação, e a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil injetaram poder de compra na economia. Além disso, políticas como a Lei de Igualdade Salarial entre gêneros e o programa Pé-de-Meia, que incentiva a permanência de jovens na escola, demonstram um compromisso com a redução das desigualdades estruturais.

Acrescem-se a isso o programa Desenrola, de alívio para os endividados, e o fim da escala de trabalho 6×1. Na Amazônia, houve significativa redução do desmatamento.

Faltaram, porém, à gestão que finda duas propostas que fiz a Lula na noite de sua posse, em 1º de janeiro de 2023: incentivo aos movimentos populares por meio de intenso trabalho de educação popular e investimento nas redes digitais. A Secretaria-Geral, que deveria fazer a articulação com os movimentos sociais, não conseguiu levar o povo às ruas e contou com escassos recursos para a educação popular.

E a Secretaria de Comunicação Social (Secom) teve que aprender agora, no segundo turno da campanha eleitoral, o que é atuar pelas redes digitais, graças ao comando do deputado André Janones. Espero que ele ocupe posição de destaque na comunicação da gestão que se inicia em 2027.

Como há tempos não se via no Brasil, a juventude voltou às ruas! Fenômeno que se repete em Portugal, Espanha, França e Bélgica. Os partidos progressistas estão, agora, desafiados a dar consistência política a essa maré juvenil. Não podem repetir o erro de 2013, quando os jovens saíram às ruas para protestar contra o aumento das tarifas de ônibus. Nenhum setor progressista soube canalizar politicamente aquelas manifestações que, manipuladas pela direita, desembocaram no impeachment de Dilma.

A vitória de Lula tem impacto imediato na geopolítica regional. Em um continente que testemunha uma nova onda de governos de direita, o Brasil se consolida como um contraponto e um freio a projetos alinhados a Washington. A liderança brasileira é fundamental para reativar a integração regional do Mercado Comum do Sul (Mercosul), fortalecer a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e fragilizar o bloqueio da Casa Branca a Cuba.

No cenário global, o Brasil retoma um protagonismo perdido. A política externa de Lula prioriza a reforma da governança global e a cooperação Sul-Sul. A presidência do G20 em 2024 lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, reunindo mais de 200 membros. A presidência do Brics, em 2025, reforçou a articulação por um mundo multipolar e menos assimétrico e a defesa de reformas em instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O país também atua como mediador em conflitos e defende a criação de um grupo de países neutros para promover negociações de paz, consolidando, assim, sua credibilidade internacional.

Em suma, a vitória de Lula representa a derrota do autoritarismo, a retomada de conquistas sociais que colocam o Brasil novamente no caminho da redução das desigualdades e a reinserção do país como um ator central e soberano no cenário internacional, com um projeto de desenvolvimento que prioriza a justiça social e a cooperação multilateral.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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