quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Leda Paulani: O levante da sociedade civil

Não sou cientista política, especialidade das ciências humanas que reputo das mais complexas, mas quero dar meu pitaco sobre este turbilhão que atravessamos desde o dia 4 de outubro.

A virada épica de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o candidato da corrupta e criminosa extrema direita será objeto de estudo desses especialistas por muito e muito tempo e gerará certamente muito debate. Para mim, porém, uma coisa é indiscutível: houve um levante da sociedade civil que desentranhou do impossível essa vitória de David contra Golias, um David que incrivelmente é presidente da República e, se tudo fosse normal, deveria ser o Golias da história. Só que não.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi um triunfo contra as possantes e onipresentes big techs, contra o grande irmão do Norte e seu medonho presidente, contra os neofascistas que infelizmente vão ganhando terreno mundo afora e aqui também, contra os mais poderosos interesses materiais que torceram abertamente por sua derrota, contra a grande mídia corporativa que passou a mão na cabeça do candidato criminoso e golpista, tratando-o como um candidato “normal”.

A vitória de Lula foi um triunfo contra um presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que era declarado partidário do outro candidato e militou por ele sem pudor usurpando o poder que lhe foi concedido institucionalmente, contra uma parte do poder público que jogou sujo, tentando impedir o voto de prováveis eleitores seus.

Nos comentários aos borbotões que vão surgindo para dar conta dessa epopeia, as ruas e as redes têm aparecido como personagens obrigatórias. Mas as manifestações de rua gigantescas em todo o país não foram agendadas pela campanha, não foram provocadas pelo PT e/ou por partidos da coligação que apoiavam a reeleição do presidente.

Não! Foi a sociedade civil que se manifestou, que levou um susto ao ver que o país saltaria num precipício e resolveu reagir. Tudo começou com uma manifestação de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói logo no dia seguinte ao início do pesadelo. Foram tais jovens que puxaram o fio que começou a tecer a improvável vitória.

A grande ideia do deputado André Janones de criar o exército de Lula para dominar as redes, driblar os tendenciosos algoritmos e alcançar aquilo que a esquerda nunca tinha conseguido, teria morrido na praia se quase 11 milhões de cidadãos e cidadãs deste Brasil não tivessem entrado de cabeça na proposta.

Mas, além das ruas e das redes, uma miríade de iniciativas completamente individuais e sem coordenação de ninguém foi surgindo de todos os lados.

Gente que, pagando do próprio bolso, imprimia milhares de panfletos para distribuir em vários locais, panfletos que mostravam as conquistas sociais do governo Lula frente a seu horrível antecessor, panfletos que mostravam os inúmeros crimes e negócios escusos do candidato da oposição, panfletos que lembravam os anos terríveis da ditadura e a perda de liberdade que representaria a vitória da extrema direita.

Gente que militou virtualmente sem descanso, na tarefa de converter votos de indecisos e de ausentes no primeiro turno. Gente que no dia mesmo da eleição organizou caronas para levar às seções eleitorais idosos e pessoas com dificuldades que de outra forma não estariam depositando na urna seu voto pela reeleição.

Isto posto, penso que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva se afigura muito mais do que os quatro anos adicionais que os brasileiros e brasileiras lhe deram para governar o país. E digo que representa muito mais não apenas porque livrou o continente latino-americano de uma perigosíssima quase unanimidade da extrema direita, aumentando ainda mais o poder de Donald Trump sobre nossas riquezas e sobre a democracia, não apenas porque simbolizou uma pesada derrota para o movimento que parece irrefreável de ascensão da extrema direita em todo o mundo.

Tudo isso está correto e é fato, mas o valor maior, a meu ver, dessa incrível vitória é que ela vai resolutamente na contramão daquilo que as mais profundas correntes ideológicas produzem hoje em dia neste mundo cada vez mais dominado pelos valores do self-made, da meritocracia, do agir individual racional, onde cada um só cuida de si, de seu proveito próprio, de sua vantagem particular, de seus interesses privados – ideologia, diga-se, imprescindível à forma mercadoria e que a infindável torrente de novidades tecnológicas no mundo das infovias eletrônicas só faz reforçar.

Este mundo sem luz é produto de décadas de neoliberalismo e das mazelas produzidas em termos de desigualdades, de iniquidades e de afrontas à dignidade humana.

Contra o “sujeito neoliberal” nos termos de Pierre Dardot e Christian Laval, o Brasil mostrou ao mundo a beleza do coletivo, do comum, do grupal, do senso de comunidade, da construção de solidariedades; mostrou a ventura da conquista quando ela é de todos; lembrou a todos a alegria, hoje quase ausente, de se sentir parte de algo que nos transcende.

Oxalá a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e do Brasil possa servir para alterar, um pouco que seja, o panorama sombrio deste primeiro quartel do século XXI!

•        O poder da ação coletiva. Por Paula Carvalho

Nós, da geração nascida nos 1990, experienciamos durante toda a vida os frutos da redemocratização do país, das conquistas coletivas aos avanços do neoliberalismo somados aos resíduos persistentes que a ditatura militar nos deixou. Em meio à essa herança contraditória, foi cultivada em nós uma cultura extremamente individualista. A classe média da qual faço parte experimentou uma ascensão social da pobreza para a satisfação de todas as necessidades básicas, e um pouco mais, sob a égide da lógica meritocrática que tem prosperado desde então.

De um puxado no terreno da família, vi a compra da casa própria, do primeiro carro, do celular, do computador. Fui mandada para colégios privados, fiz curso de inglês desde cedo, ia ao cinema e comia fora com frequência, tudo sem precisar trabalhar antes dos 18. Pude me dedicar aos estudos, viver a infância e a adolescência sem me preocupar com as contas do mês.

Foi uma biografia absolutamente inédita na família. Esse conforto que começou a se instalar no começo dos anos 2000, porém, não era encarado com naturalidade. O lema de quem racionava comida e esticava a vida útil dos sapatos com papelão nos anos 1990, era o de não desperdiçar oportunidades. Se meus pais podiam pagar um curso de inglês e um colégio privado, o sentimento introjetado era fazer valer o investimento.

A educação era a porta para o futuro, para um bom emprego, para a independência como mulher. Poderiam me tomar tudo, menos o estudo e, com isso, eu poderia me reerguer e prosperar. Meu percurso me levou a buscar o acúmulo de conhecimento como um tesouro. Esse modo de encarar a vida me levou conseguir vagas disputadas em algumas instituições públicas de ensino superior, da graduação ao doutorado, me levou a fazer cursos diversos e cavar oportunidades.

O sonho da minha mãe era que eu fizesse faculdade pública e falasse inglês. Hoje, falo quatro línguas além da materna e, provavelmente, aprenderei outras ao longo da vida. Tenho um nível de qualificação que meus pais sequer imaginaram que eu poderia chegar a ter.

A conta sempre foi estudo mais esforço igual a sucesso. Mas, depois de todo o esforço e oportunidades aproveitadas, a conta não fechou. Estava terminando a faculdade de arquitetura e urbanismo na Universidade Federal Fluminense quando eclodiu a Operação Lava Jato. A partir de então, minha família viu a estabilidade financeira da última década ruir e o futuro próspero garantido pela universidade, desaparecer.

Como engenheiro e vendedor, meu pai começou a acumular calotes de clientes que passavam múltiplos cheques sem fundo. Ele ficava com aquela pilha de cheques, batendo de porta em porta, cobrando dívidas que nunca foram pagas. Ele passou a perder trabalhos e eu, que desde o primeiro ano de faculdade fazia estágios remunerados e vislumbrava um futuro como arquiteta de sucesso, vi as oportunidades de emprego na construção civil desaparecerem. Finalizei o curso desempregada e permaneci em esquema de bicos por alguns anos.

Quando criança, tudo o que meus pais queriam é que eu passasse para a universidade pública. Esse era o caminho do sucesso, resultado do esforço deles e do meu. Não fosse o terremoto político e econômico que estremeceu o país, essa lógica individualista e meritocrática provavelmente teria sido mantida inabalada, porque eu e todos a minha volta fomos ensinados dessa forma.

No colégio particular, éramos continuamente estimulados a competir uns com os outros por notas, por atenção, por reconhecimento. Na igreja, fomos ensinados a trabalhar e orar. Na faculdade pública, fomos ensinados a correr atrás dos nossos interesses, às vezes coletivos, mas sempre particulares. O individual sempre sobressaiu, talvez pelo meu repertório politicamente limitado.

Atualmente, ouço com frequência que a universidade pública não presta, que forma vagabundos, feministas e comunistas. A universidade pública não me ensinou nada disso. Lá, aprendi a ficar muito mais vigilante e a cuidar dos meus interesses, aprendi a me virar em situações desfavoráveis, aprendi o que é constrangimento e humilhação pública.

Aprendi resiliência. Aprendi a insignificância e a impotência do individualismo. A lógica que havia me orientado até então foi abalada, não pela instituição, mas por estar em um ambiente de reflexão coletiva naquele período econômico e político, o que me ofereceu a oportunidade – que minha mãe me ensinou a não deixar escapar – de refletir sobre o mundo, de dialogar, de aprender tudo que estiver ao meu alcance.

Desde então, aprendi que meu esforço dependia de condições coletivas favoráveis para dar frutos, mas, ao mesmo tempo, constatei que sozinha não podia nada. Nós, que crescemos sob a lógica da individualidade e da meritocracia, temos dificuldade de nos despojarmos da inércia que fundamenta nossas ações e escolhas.

Nós, que não tivemos experiências de conquistas coletivas, somos facilmente abatidos pelo desânimo que o individualismo oferece, pois ele é familiar e está em toda parte. Entender intelectualmente que o individual também depende do coletivo e que, por isso, nossas ações também devem ser coletivas, não significa que saibamos como fazê-lo.

Hoje, reconheço uma oportunidade valiosíssima, talvez a maior que já vi e vivi. As últimas semanas das eleições presidenciais de 2026 foram um remédio para a doença da inércia e do desânimo. Limitados pelo individualismo que criou raízes na desorganização política da nossa geração, soubemos aproveitar a oportunidade que se apresentou com a organização do Exército do Lula.

Nós soubemos, juntos, nos dedicar a um objetivo coletivo em favor do país e de nós mesmos, porque entendemos que nossos ganhos individuais transbordam dos ganhos coletivos. Alcançamos o objetivo e experimentamos a alegria do fazer coletivo, apesar do cansaço e apesar das dúvidas, permanecemos firmes e continuamos.

Mas temos muito mais a ganhar do que apenas uma eleição. Aprendemos pela experiência como agir coletivamente e vimos com nossos próprios olhos o resultado, sentimos a emoção de agir juntos e vimos que é possível ter sucesso.

Vimos que nossa própria insignificância individual é potência coletiva. Esta é a oportunidade da nossa geração e não podemos desperdiçá-la. Devemos extrair até a última gota desse aprendizado, nos desfazendo do desânimo que nossa cultura individualista nos empurrou até ontem, goela abaixo.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: