O
voto não encerra a tarefa
A
virada de 25 de outubro foi obra de grande mobilização. Se essa mobilização
recuar e se recolher à passividade, o que se ganhou na urna se perde no dia a
dia. Com a extrema-direita à frente da maior bancada do Congresso e, somada à
direita tradicional, em maioria, a disputa não será vencida nos gabinetes. Ela
terá de ser travada em todo lugar: na fábrica, no comércio, nos escritórios,
nos aplicativos de entrega, nos bairros e nos pontos de ônibus.
No
primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03%
dos votos válidos contra 45,16% de Lula. Foram 2,2 milhões de votos de
diferença, e a abstenção chegou a 21,08%, a maior numa eleição presidencial
desde 1998.
Três
semanas depois, o quadro se inverteu. Lula venceu com 51,79% e 64,3 milhões de
votos, contra 48,21% e 59,8 milhões de Flávio. A abstenção caiu para 19,22%.
Lula somou mais de 10 milhões de votos entre um turno e outro, e cerca de três
milhões de eleitores que tinham ficado em casa foram votar.
Voto
não cai do céu nem sai pronto do horário eleitoral. Esses milhões foram
buscados em portas de fábrica, escritórios, pontos de ônibus, filas de posto de
saúde, grupos de família e conversas de vizinho. A virada teve o rosto de quem
fez campanha sem cargo, sem salário de assessor e sem promessa de nomeação.
O
cientista político André Singer atribuiu a virada às mobilizações populares que
tomaram as ruas de várias cidades entre os dois turnos. Para ele, o desafio do
quarto mandato é isolar a extrema direita e unir o país. A pergunta é onde essa
unidade será construída: nos acordos de cúpula do Congresso ou nas mobilizações
que fizeram a virada.
O risco
agora é conhecido. Passada a apuração, essa energia se dispersa, a militância
volta à rotina e a política retorna aos gabinetes. É contra essa dispersão que
vale reler um livro de Mauricio Tragtenberg.
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O voto como terreno, não como procuração
A
falência da política
reúne artigos que Tragtenberg escreveu sobretudo para jornais, a maior parte
nos anos 1980. Neles, ele desconfia do eleitoralismo, mas nunca do voto como
tal. O que recusava era a delegação: a ideia de que, eleito o candidato certo,
a luta passa a ser dele.
Em “O
voto e as ilusões”, escrito para as eleições de 1982, ele diz que a ilusão
eleitoral leva o povo a esperar “que alguém lute por ele”. E dá a frase que
serve de eixo a este artigo: “Vença quem vencer as eleições, nada muda no
interior das fábricas, nos campos e nas oficinas”. As relações hierárquicas de
mando e exploração continuam as mesmas. Muda apenas quem as administra.
No
mesmo texto, ele separa duas coisas que costumam ser confundidas: a
“mobilização popular real”, que parte dos próprios interessados, e a
arregimentação de gente para ouvir alguém falar em seu nome no comício. A
virada de outubro teve muito da primeira. É ela que precisa sobreviver à
apuração.
O mesmo
autor, em 1990, pediu voto. Em “Barre a escalada fascista de Maluf”, chamou os
trabalhadores a impedir a vitória malufista no segundo turno paulista e lembrou
que, para o povo, “não haverá Papai Noel”. Mas não confundiu o voto com o fim
da tarefa. Mesmo com a vitória do adversário de Maluf, escreveu, “para os
assalariados a luta continuará”, só que em condições menos fascistas.
É a
chave para ler 2026. A eleição de Lula não resolve a vida de quem trabalha.
Decide em que terreno essa vida será disputada: com liberdade de organização e
de greve, ou sob um governo empenhado em fechá-las. Tragtenberg resumia o
princípio numa frase: “não há luta por procuração”.
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O fim da 6×1 está na lei. Falta chegar ao turno
O
melhor exemplo do que está em jogo veio no meio da campanha. Em 14 de outubro,
o Senado aprovou por 75 votos a 1 a emenda que acaba com a escala 6×1 e reduz a
jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salário. O Congresso a
promulgou dois dias depois, como Emenda Constitucional 141. Pelo texto, as
empresas têm 60 dias para adotar a escala 5×2 com limite de 42 horas, e mais
doze meses para chegar às 40.
A
conquista não nasceu no Congresso, nem num sindicato, nem num partido. Começou
em 2023 com o vídeo de um balconista de farmácia, Rick Azevedo, contando a
própria rotina. Milhares de trabalhadores do comércio e dos serviços se
reconheceram, e o desabafo virou o movimento Vida Além do Trabalho, um
abaixo-assinado com mais de 3 milhões de assinaturas e manifestações de rua. Só
depois os partidos e as centrais incorporaram a pauta. Tragtenberg reconheceria
o caminho. Num artigo sobre a Constituinte e os turnos de trabalho, notou que,
enquanto parlamentares e ministros discutiam o assunto, o trabalhador, “o
diretamente interessado”, ainda não tinha sido ouvido.
Agora
começa a parte que não sai no Diário Oficial. Em cada loja, galpão e
escritório, a nova jornada será traduzida em escalas, bancos de horas, folgas
que caem ou não no fim de semana, metas redistribuídas em menos dias. Num texto
sobre a comissão de fábrica da Ford, Tragtenberg formulou uma lei que vale para
esse momento: “quanto mais regulamentado é um direito, mais perde quem deveria
gozá-lo”. O direito escrito só se torna direito vivido onde há gente organizada
para cobrá-lo.
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Uma maioria de direita no Congresso
Depois
da urna, continuar a luta significa enfrentar uma extrema-direita que saiu das
eleições mais forte no Parlamento do que no Palácio do Planalto. O PL elegeu
121 deputados, a maior bancada de um só partido na Câmara desde a Constituição
de 1988. Com o Novo (10), a federação União-PP (87) e o Republicanos (41), a
direita soma 259 das 513 cadeiras, acima da maioria absoluta de 257. As
bancadas de esquerda, a federação PT-PCdoB-PV (88), o PSB (15), o PSOL-Rede
(15) e o PDT (6), somam 124, menos de um quarto da Casa.
No
Senado, o PL terá 28 dos 81 senadores a partir de 2027, a maior bancada; o PT
terá 9. Uma emenda constitucional exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado.
Nenhuma pauta dos trabalhadores passa ali apenas com os votos da base do
governo.
O fim
da 6×1 mostra o caminho. A emenda foi aprovada por 75 votos a 1 num Senado em
que a esquerda é minoria. Os votos não vieram da conversão dos senadores, mas
do custo de votar contra uma pauta que milhões levaram às redes e às ruas.
Tragtenberg advertia, em “O voto e as ilusões”, contra o hábito de atribuir aos
parlamentos o que é devido à ação popular.
Singer
tem razão ao dizer que o desafio é isolar a extrema-direita. Mas no Congresso
ela não se isola com acordos de cúpula, que costumam custar caro justamente a
quem trabalha. Ela se isola quando cada voto contra os trabalhadores passa a
ter preço nas bases eleitorais de quem o dá. Essa pressão só existe se a
mobilização que virou a eleição continuar de pé.
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Onde se trabalha no Brasil
Se a
luta se desdobra onde o trabalho acontece, vale mapear esse terreno. Os dados
mais recentes do Cadastro Central de Empresas do IBGE mostram a dimensão desse
mapa: em dezembro de 2024, o país contava com 10,6 milhões de empresas e 11,9
milhões de unidades locais — de fábricas e galpões a lojas, escritórios e
agências. Nesses espaços concentravam-se 68 milhões de trabalhadores, divididos
entre 54,2 milhões de assalariados (incluindo o funcionalismo público) e 13,8
milhões de sócios e proprietários.
A
geografia dessa estrutura reflete as desigualdades históricas do país. O
Sudeste concentra metade dos estabelecimentos e abocanha a maior fatia da massa
salarial. Já o Norte e o Nordeste abrigam uma proporção de trabalhadores
assalariados superior à sua participação no número de empresas, registrando os
salários médios mais baixos do Brasil.
Em
números absolutos, a edição de 2022 do cadastro, a última que os divulga por
região, contava 5,5 milhões de unidades locais no Sudeste, 2,1 milhões no Sul,
1,7 milhão no Nordeste, 897 mil no Centro-Oeste e 496 mil no Norte.
Dois
números importam mais do que o mapa. Primeiro, a maioria dos estabelecimentos
não tem nenhum empregado: em 2022, eram cerca de 7,3 milhões de unidades sem
assalariados, contra 3,2 milhões com. Segundo, o emprego formal é concentrado.
As empresas com 250 pessoas ou mais são só 0,2% do total, mas empregam 55,7%
dos assalariados e pagam 69% dos salários.
Para
quem pensa organização, isso tem duas consequências. Há um núcleo de grandes
locais de trabalho, uma fração mínima das empresas, onde está a maioria dos
trabalhadores com carteira. E há uma imensa periferia de pequenos negócios,
conta própria e trabalho por aplicativo, onde não há portão de fábrica,
escritório onde distribuir boletim. As duas pedem formas diferentes de
presença.
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Fora da catraca: informais e trabalhadores por aplicativo
O
cadastro de empresas só enxerga quem trabalha em organização formal. Fora dele
está quase quatro em cada dez ocupados. No segundo trimestre de 2026, a taxa de
informalidade foi de 37,4%, sobre 103,1 milhões de ocupados, o que dá perto de
38,6 milhões de pessoas. Os empregados do setor privado sem carteira somavam
13,6 milhões, e os trabalhadores por conta própria eram 25,3% de todos os
ocupados.
A
informalidade tem endereço. No Maranhão, ela atinge 56,9% dos ocupados; no
Pará, 55,9%; no Amazonas, 51,7%. Em Santa Catarina, 25,4%. Mesmo entre os
empregados do setor privado, só 74,4% têm carteira no país, e no Maranhão a
proporção cai para 53,6%. O mapa da informalidade é quase o inverso do mapa dos
estabelecimentos formais: onde há menos empresas registradas, há mais trabalho
sem proteção.
Os
trabalhadores por aplicativo são a face mais visível desse mundo. Eram 1,7
milhão no terceiro trimestre de 2024, 25,4% a mais que em 2022. Quase 1 milhão
trabalhava em transporte de passageiros e 485 mil em entregas. Mais da metade
estava no Sudeste.
O IBGE
mostra o que a palavra “autônomo” esconde. Sete em cada dez plataformizados são
informais, e só 35,9% contribuem para a previdência. Trabalham 5,5 horas por
semana a mais que os demais e ganham menos por hora: R$ 15,4, ante R$ 16,8.
Mais da metade dos motoristas e entregadores diz que bônus, incentivos e
promoções que mudam o preço influenciam sua jornada, e mais de 30% relatam
ameaças de punição ou bloqueio. O patrão não aparece, mas manda.
Para
essa gente, a 5×2 não chega por decreto, porque não há jornada legal a reduzir.
Vale para eles o que Tragtenberg escreveu sobre os trabalhadores poloneses e
brasileiros: sem Papai Noel, “só pela auto-organização de base terá voz para se
fazer ouvir”. As greves e paralisações de entregadores dos últimos anos mostram
que essa organização é possível, mesmo sem portão de fábrica.
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Para além do portão: a luta no território e na reprodução da vida
Se a
disciplina do capital nasce no local de trabalho, a reprodução e a
sobrevivência da classe trabalhadora dependem do território. A jornada de
trabalho de uma operária, de um entregador ou de um atendente de telemarketing
não termina ao passar pelo ponto digital: ela se estende nas duas horas de
condução lotada, na espera pela vaga na creche, na falta de água na periferia,
na luta por moradia digna e na batalha pelo lazer.
A
própria força do movimento pelo fim da escala 6×1 demonstrou que a disputa pelo
tempo de trabalho é, acima de tudo, uma disputa pelo direito à vida no
território — pelo tempo de convivência comunitária, familiar e pessoal. Tomar a
fábrica ou o local de trabalho como único polo de organização ignora a
realidade de milhões de informais, autônomos e desempregados que constroem a
vida nos bairros.
A
resistência que nasce no chão da fábrica ou do comércio precisa se desdobrar
nos locais onde o trabalhador habita, transita e se articula:
- Nos bairros e
periferias:
impulsionando associações de moradores, coletivos culturais, cursinhos
populares e redes de apoio solidário.
- No transporte e
nos serviços públicos: organizando a pressão comunitária por tarifas
acessíveis, postos de saúde estruturados, saneamento e creches públicas.
- Nas redes e
pontos de vivência: criando laços de acolhimento e organização onde
trabalhadores sem patrão fixo (entregadores, vendedores ambulantes,
prestadores de serviços) possam se reunir e definir suas pautas.
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Organizar onde o conflito nasce
Em
“Questão social: ainda caso de polícia?”, Tragtenberg observa que o capitalismo
organiza a mão de obra em seus locais de trabalho e que, por isso, o local de
trabalho “aparece como local de origem do conflito social”. É também ali que a
organização dos trabalhadores está mais fraca.
As
grandes viradas do trabalho no Brasil começaram assim, de baixo. Em 12 de maio
de 1978, os operários da Scania, em São Bernardo, entraram na fábrica e
cruzaram os braços diante das máquinas desligadas. A parada foi combinada por
operários da própria fábrica e não foi assumida oficialmente pela direção do
sindicato. Em 1º de julho de 2020, entregadores de aplicativo pararam em várias
cidades no Breque dos Apps, organizado em grupos de WhatsApp, sem comando
centralizado. Em 2023, um vídeo bastou para pôr a 6×1 na agenda do país.
Nenhum
desses movimentos esperou que o sindicato chegasse. Em 2025, só 8,8% dos
ocupados eram sindicalizados, pouco acima do piso de 8,4% registrado em 2023 e
cerca de metade dos 16,1% de 2012. Na construção civil, a taxa é de 3,6%. A
organização que existe nos locais de trabalho hoje é, na maior parte, informal:
o grupo de mensagens da equipe, a conversa no refeitório, a combinação de não
aceitar a hora extra.
Tragtenberg
confiava mais nessa auto-organização do que nos aparelhos. Ao contar a história
da Ford de São Bernardo, destacou que, nas greves de 1978, surgiu uma comissão
de trabalhadores que a empresa reconhecia de fato, embora não de direito. E
advertiu que as comissões de fábrica degeneram quando viram “correias de
transmissão de diretorias sindicais”. Por isso preferia a comissão da
metalúrgica Asama, onde o sindicato era só um “órgão consultivo” e a comissão
pertencia “aos trabalhadores que nela trabalham”.
No
mesmo texto, criticou as organizações que se dizem vanguarda e, a pretexto da
“falta de consciência” do trabalhador, pretendem falar por ele e dirigir sua
luta. O local de trabalho, escreveu, deve ser entendido “como o local de luta”.
Na mesma chave, via no Solidariedade polonês, nascido de greves com ocupação
dos estaleiros, a prova de que a libertação dos trabalhadores passa pela
“auto-organização, nos locais de trabalho”.
Traduzido
para o presente, isso significa que a energia que fez a virada não precisa de
uma nova diretiva de topo, mas de presença na vida cotidiana. O mesmo grupo de
mensagens que fez circular panfletos e esclareceu dúvidas sobre o voto pode
virar o espaço onde se comparam escalas, denunciam-se abusos e se combinam
respostas à pressão do dia a dia.
A
batalha pela jornada 5×2, por exemplo, não se resolve com a promulgação da lei:
ela ganha corpo quando os próprios trabalhadores se reúnem nas pausas e nos
refeitórios para expor quem tenta burlar as folgas ou sobrecarregar as metas.
Onde houver espaço — inclusive usando o instrumento de comissões de
representação previsto na lei —, essa organização pode ganhar forma própria,
desde que responda à base que a elegeu e não vire apêndice burocrático de quem
quer que seja.
Para os
milhões que trabalham sem portão de fábrica nem chão de loja — os entregadores
nos pontos de apoio, os motoristas nas esquinas, a turma do pequeno comércio e
dos serviços —, a organização se faz no próprio território, onde a rotina se
cruza e a conversa acontece.
Sindicatos
e partidos podem somar a essa força, mas não têm como inventá-la de fora.
Quando a pressão nasce da base, quem senta à mesa de negociação fala com a
força de quem tem gente disposta a cruzar os braços. Sem essa presença viva nas
ruas, nas empresas e nos bairros, qualquer governo eleito fica refém de um
Congresso e de um empresariado que não perderam um milímetro de poder no dia da
eleição.
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A urna fechou. O turno não
A
vitória de 25 de outubro tem dono, e não é só o candidato. É de quem trocou
dias de descanso por uma tarde de panfletagem, de quem convenceu o tio, de quem
arrastou o vizinho até a seção. Essa capacidade de mobilizar é o único
patrimônio que a classe trabalhadora leva da eleição para os próximos quatro
anos.
Tragtenberg
escreveu, em 1982, que a união das lutas organizadas nos locais de trabalho
valeria mais do que qualquer resultado eleitoral Em 1990, pediu voto e avisou
que a luta continuaria no dia seguinte.6 As duas posições não se
contradizem. Juntas, dizem o que fazer agora: não desmobilizar, não entregar a
iniciativa a uma Brasília onde a direita tem maioria e levar para dentro das
11,9 milhões de unidades produtivas do país a energia que virou a eleição.
A 5×2
começa a valer em dezembro. Se vai valer de verdade, depende menos do Diário
Oficial do que de quem estiver organizado no turno da manhã.
Fonte: Por
Marcelo Phintener, em Outras Palavras

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