Trocas
frequentes de comando técnico podem estar associadas ao aumento de lesões no
futebol
As
lesões musculares seguem entre os principais desafios do futebol profissional e
chamam atenção pela frequência com que afastam atletas dos gramados. No
entanto, outro fator que tem despertado interesse de especialistas é a
constante troca de treinadores e comissões técnicas, prática comum no esporte
em razão da pressão por resultados imediatos. Muitas vezes, essas mudanças
ocorrem antes que os profissionais tenham tempo suficiente para consolidar seus
métodos de trabalho, o que pode impactar diretamente a preparação física dos
atletas.
Um
estudo realizado pela União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), que
acompanhou 14 clubes da elite do futebol europeu ao longo de três anos,
concluiu que a simples troca de treinador está associada a um aumento de cerca
de 19% nas lesões musculares. Quando a mudança inclui também o preparador
físico, esse índice pode chegar a 276%, reforçando a importância da
continuidade nos processos de treinamento e acompanhamento dos jogadores.
De
acordo com o especialista em Fisioterapia Esportiva, Thiago Batista Muniz, essa
associação faz sentido do ponto de vista fisiológico, porque, quando há
mudanças frequentes, perde-se a continuidade no controle das cargas de
treinamento. “A falta de continuidade pode comprometer o controle das cargas de
treinamento e a troca de informações sobre os atletas, dificultando a
identificação de sinais de desgaste físico. Por isso, a estabilidade das
equipes de preparação física e medicina esportiva desempenha um papel
importante na prevenção de lesões.”
Além da
perda de continuidade no acompanhamento, as mudanças de comando costumam trazer
novas metodologias de treinamento e diferentes formas de controlar a carga
física dos atletas. Embora essas alterações façam parte da dinâmica do futebol
profissional, o corpo humano nem sempre consegue se adaptar rapidamente a
mudanças bruscas de intensidade, volume ou estilo de trabalho.
Segundo
Muniz, o organismo responde melhor quando há um planejamento progressivo e
consistente. Alterações frequentes podem gerar oscilações importantes nas
cargas de treinamento. Nesse cenário, aumenta o risco de sobrecarga física e de
lesões musculares, especialmente em atletas submetidos a uma rotina intensa de
jogos e treinamentos.
“É
importante lembrar que o corpo humano responde melhor quando existe
planejamento, progressão adequada e continuidade do trabalho. Mudanças
frequentes e sem planejamento podem dificultar o equilíbrio entre estímulo e
recuperação, aumentando o risco de lesões recorrentes e prolongando o tempo de
afastamento”, explica o especialista.
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Calendário apertado
A
quantidade de jogos em um curto período de tempo, especialmente no calendário
do futebol brasileiro, onde muitas equipes jogam a cada três dias, é outro
fator que contribui para o aumento do risco de lesões, segundo o especialista.
Com pouco tempo para recuperação entre as partidas, os atletas são submetidos a
uma elevada carga física, o que dificulta o equilíbrio entre treinamento,
descanso e recuperação muscular. Dados da Uefa reforçam essa preocupação, jogadores que atuam com intervalos de até
quatro dias entre os jogos apresentam um risco 32% maior de sofrer lesões
musculares em comparação com aqueles que dispõem de seis dias ou mais para
recuperação.
“O
calendário mais apertado, com aumento do número de jogos e redução do tempo de
recuperação entre as partidas, acaba expondo o atleta a uma carga acumulada
maior. Isso pode favorecer o surgimento de lesões, especialmente quando não há
tempo suficiente para que o organismo se recupere adequadamente dos esforços
realizados”, afirma Muniz.
A alta
demanda do calendário e as frequentes mudanças de planejamento podem gerar
impactos que vão além das lesões imediatas. Segundo o fisioterapeuta, a falta
de continuidade nos processos de treinamento e recuperação pode comprometer o
desempenho dos atletas a longo prazo e, em casos mais graves, até encurtar
carreiras. O mesmo princípio também se aplica a pacientes em reabilitação, que
dependem de acompanhamento consistente para alcançar melhores resultados.
“Quando
protocolos mudam constantemente sem planejamento ou não há continuidade no
acompanhamento, torna-se mais difícil avaliar a evolução e ajustar o tratamento
de forma adequada. Seja no esporte de alto rendimento ou na reabilitação
clínica, a continuidade favorece tanto a segurança quanto a eficiência dos
programas de treinamento e tratamento”, finaliza Muniz.
Fonte:
Jornal da USP

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