segunda-feira, 22 de junho de 2026

Trocas frequentes de comando técnico podem estar associadas ao aumento de lesões no futebol

As lesões musculares seguem entre os principais desafios do futebol profissional e chamam atenção pela frequência com que afastam atletas dos gramados. No entanto, outro fator que tem despertado interesse de especialistas é a constante troca de treinadores e comissões técnicas, prática comum no esporte em razão da pressão por resultados imediatos. Muitas vezes, essas mudanças ocorrem antes que os profissionais tenham tempo suficiente para consolidar seus métodos de trabalho, o que pode impactar diretamente a preparação física dos atletas.

Um estudo realizado pela União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), que acompanhou 14 clubes da elite do futebol europeu ao longo de três anos, concluiu que a simples troca de treinador está associada a um aumento de cerca de 19% nas lesões musculares. Quando a mudança inclui também o preparador físico, esse índice pode chegar a 276%, reforçando a importância da continuidade nos processos de treinamento e acompanhamento dos jogadores.

De acordo com o especialista em Fisioterapia Esportiva, Thiago Batista Muniz, essa associação faz sentido do ponto de vista fisiológico, porque, quando há mudanças frequentes, perde-se a continuidade no controle das cargas de treinamento. “A falta de continuidade pode comprometer o controle das cargas de treinamento e a troca de informações sobre os atletas, dificultando a identificação de sinais de desgaste físico. Por isso, a estabilidade das equipes de preparação física e medicina esportiva desempenha um papel importante na prevenção de lesões.”

Além da perda de continuidade no acompanhamento, as mudanças de comando costumam trazer novas metodologias de treinamento e diferentes formas de controlar a carga física dos atletas. Embora essas alterações façam parte da dinâmica do futebol profissional, o corpo humano nem sempre consegue se adaptar rapidamente a mudanças bruscas de intensidade, volume ou estilo de trabalho.

Segundo Muniz, o organismo responde melhor quando há um planejamento progressivo e consistente. Alterações frequentes podem gerar oscilações importantes nas cargas de treinamento. Nesse cenário, aumenta o risco de sobrecarga física e de lesões musculares, especialmente em atletas submetidos a uma rotina intensa de jogos e treinamentos.

“É importante lembrar que o corpo humano responde melhor quando existe planejamento, progressão adequada e continuidade do trabalho. Mudanças frequentes e sem planejamento podem dificultar o equilíbrio entre estímulo e recuperação, aumentando o risco de lesões recorrentes e prolongando o tempo de afastamento”, explica o especialista.

<><> Calendário apertado

A quantidade de jogos em um curto período de tempo, especialmente no calendário do futebol brasileiro, onde muitas equipes jogam a cada três dias, é outro fator que contribui para o aumento do risco de lesões, segundo o especialista. Com pouco tempo para recuperação entre as partidas, os atletas são submetidos a uma elevada carga física, o que dificulta o equilíbrio entre treinamento, descanso e recuperação muscular. Dados da Uefa reforçam essa preocupação,  jogadores que atuam com intervalos de até quatro dias entre os jogos apresentam um risco 32% maior de sofrer lesões musculares em comparação com aqueles que dispõem de seis dias ou mais para recuperação.

“O calendário mais apertado, com aumento do número de jogos e redução do tempo de recuperação entre as partidas, acaba expondo o atleta a uma carga acumulada maior. Isso pode favorecer o surgimento de lesões, especialmente quando não há tempo suficiente para que o organismo se recupere adequadamente dos esforços realizados”, afirma Muniz.

A alta demanda do calendário e as frequentes mudanças de planejamento podem gerar impactos que vão além das lesões imediatas. Segundo o fisioterapeuta, a falta de continuidade nos processos de treinamento e recuperação pode comprometer o desempenho dos atletas a longo prazo e, em casos mais graves, até encurtar carreiras. O mesmo princípio também se aplica a pacientes em reabilitação, que dependem de acompanhamento consistente para alcançar melhores resultados.

“Quando protocolos mudam constantemente sem planejamento ou não há continuidade no acompanhamento, torna-se mais difícil avaliar a evolução e ajustar o tratamento de forma adequada. Seja no esporte de alto rendimento ou na reabilitação clínica, a continuidade favorece tanto a segurança quanto a eficiência dos programas de treinamento e tratamento”, finaliza Muniz.

 

Fonte: Jornal da USP

 

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