sábado, 20 de junho de 2026

Valerio Arcary: Sobre a pulverização das agremiações revolucionárias

Existem no Brasil hoje, pelo menos, mais de quinze organizações com alguma presença nacional que se autodeclaram socialistas e revolucionárias de diferentes tradições. Mas não existem quinze estratégias diferentes para a revolução brasileira. O paradoxo exige uma explicação. Quatro partidos legalizados já apresentaram até pré-candidatos à presidência para as eleições de outubro: PSTU, UP, PCB e PCO.

Além do PCdoB e PCBR existem correntes internas no PT (Democracia Socialista, Articulação de Esquerda, O Trabalho) e no PSol (Primavera Socialista, Revolução Solidária, Semear, Subverta, MES, Fortalecer, Rebelião Ecossocialista), mas, também, a Brasil Popular que mantém relações com o MST, que merecem ser consideradas como parte de um campo de esquerda radical.

A pulverização é ainda maior se ampliarmos o campo de análise para núcleos regionais. Uma boa parte destas organizações tem a percepção de si próprias como o embrião mais sólido do partido revolucionário. Ou seja, estão satisfeitas com suas apostas na autoconstrução. Evoluem de ruptura em ruptura, indiferentes à sua marginalidade, em ininterrupto autoengano. Uma romantização de si mesmas que repousa na expectativa idealizada de que na próxima “esquina perigosa da história” se verá “quem tem unhas para tocar guitarra”.

Esta interpretação do leninismo – a teoria do partido-embrião- é, perigosamente, errada por quatro razões:

(a) porque é falsa, já que o bolchevismo nunca se autoproclamou o único partido histórico da revolução russa;

(b) porque se trata de uma deformação dogmática da experiência leninista;

(c) porque nenhuma das organizações existentes tem nas suas mãos uma resposta para o programa da revolução brasileira;

(d) porque todas, umas maiores outras menores, não vão além do estatuto de organizações com implantação em setores de vanguarda, sem influência de massas, mesmo minoritária. Esta visão, embora desconectada da realidade, permanece, infelizmente, vigente.

Compreender esta desagregação é vital. Em primeiro lugar, ela obedece ao impacto de muitas derrotas. Desde 2016 foram dez anos, muito difíceis. Por isso, pareceram muito mais. O que prevaleceu nesse processo desde o impeachment de Dilma Rousseff e a inversão desfavorável da relação social de forças foi a fragmentação da esquerda radical. Ela se explica, pelo menos, por cinco contradições ou conflitos:

(i) remete ao choque entre as deformações sectárias geradas por uma longa marginalidade social e as possibilidades abertas de aumentar a audiência política.

(ii) Remete ao choque entre as deformações no regime interno de partido-fração, e a necessidade de construir organizações que precisam aprender a conviver com a pluralidade democrática;

(iii) remete ao choque entre as deformações patriarcais-machistas-homofóbicas e a necessidade de relações saudáveis;

(iv) remete ao choque entre uma geração fundadora dedicada e a necessidade de renovação para o trabalho coletivo, onde não há lugar para caudilhos.

(v) Finalmente, a última remete ao choque entre o dogmatismo teórico diante das imensas transformações ocorridas no mundo após a restauração capitalista, e as tarefas de um marxismo aberto.

Esta dispersão alimentada por derrotas é indivisível, também, da adaptação à rotina de mandatos parlamentares, regionais, e sindicais em “voo solo” que se transformam em um fim em si mesmos, e alimentam rivalidades pessoais. A esquerda “adoeceu” de diferentes tipos de “enfermidades”.

A corrente interna do PSol Semear surgiu, neste primeiro semestre de 2026 na contracorrente das divisões, da unificação da Insurgência e da Resistência. Esta, por sua vez, teve origem na cisão com o PSTU, e da fusão de vários agrupamentos em 2018. Essas duas decisões, decidir a hora de romper, e decidir a hora de unir explicam sua existência. Olhando para trás a grande questão é saber se elas passaram a prova da história. É verdade que há rupturas que são política e, programaticamente, imaturas e desnecessárias, portanto, lamentáveis.

Infelizmente, não são incomuns. Grupos políticos podem se dispersar por rivalidades pessoais entre as lideranças, e as mais variadas disputas pelo controle de espaços e posições de poder, sem que haja clareza sobre as diferenças políticas. São conflitos previsíveis e contornáveis. Mas, assim como há rachas imprudentes e até desleais, há rupturas sérias e honestas, ainda que dolorosas. A construção de correntes marxistas nunca foi linear. Caminhando pela estrada ocorrem aproximações e desentendimentos em função das avassaladoras pressões da luta de classes.

A partir de 2015/16, a classe trabalhadora se fraturou. Uma parcela importante, entre aqueles com direitos, contratos e renda média, os remediados, perdeu esperança no governo Dilma Rousseff, foi envenenada pela LavaJato, e atraída pelo discurso radical da extrema-direita. Quem se deixou iludir, imaginando que existia no horizonte a perspectiva de uma situação revolucionária, quando o perigo era exatamente inverso, ou seja, a ameaça de uma situação reacionária, errou. Quem não denunciou o impeachment como um golpe institucional, errou. Quem não se uniu à campanha Lula Livre, errou.

Quem não apoiou Lula contra Jair Bolsonaro em 2022 errou. A divisões se confirmaram pela evolução das posições nos últimos anos como inevitável. Algum ressentimento mútuo é compreensível, porque ninguém é de ferro, e as derrotas doem. Mas não nos devem cegar diante do futuro. O que é necessário é persistir na construção de uma ferramenta útil, preservando a humildade de saber que há revolucionários em outras organizações.

As unificações colocam, igualmente, riscos. Já ocorreram unificações apressadas que não se consolidam, e acabam precipitando explosões. A unificação que originou a Semear foi um processo lento e bem sucedido. A formação do bloco PTL (PSol de Todas as Lutas) compondo uma maioria que garantiu a campanha de Boulos à presidência em 2018 e à prefeitura de São Paulo em 2020, a defesa da tática da Frente Única de Esquerda na campanha Fora Bolsonaro em 2021, a defesa do apoio à candidatura Lula desde o primeiro turno em 2022, mesmo com Alckmin na chapa, tudo foi controverso na esquerda radical.

Nunca houve monolitismo. Não menos importante, nesse processo se consolidou o bloco Semente com a Subverta que foi além dos alinhamentos táticos. A militância lado a lado forjou uma convergência estratégica. Confiança é algo muito delicado e precioso, porque demanda maturidade e paciência. O tempo é uma medida chave na luta política. Não adianta ter, apaixonadamente, razão sozinhos. Paciência exige ter a lucidez de que, embora o tempo seja de urgência, não adianta tomar decisões desconhecendo a consciência, o humor, o estado de espírito das massas, da vanguarda e da própria militância.

A jovem Semear é somente uma corrente revolucionária em construção, muito aquém das necessidades colocadas pela luta de classes. Mas assumimos a responsabilidade na reorganização da esquerda radical no Brasil, indo além da nossa tradição histórica. Nosso desafio imediato é construir a unificação com a Subverta. Reconhecemos ainda a existência de outros coletivos revolucionários, e estamos dispostos a explorar novas possiblidades de unificação.

Os últimos dez anos foram os mais difíceis desde o fim da ditadura. O país de dividiu e a extrema direita confirmou uma capilaridade social de implantação assustadora. Estamos diante de muitos perigos. Não há sequer garantias de que Lula será reeleito. Não existem nem lideranças nem organizações infalíveis. Todas são em distintos graus imperfeitas, limitadas, com os defeitos e vícios de suas virtudes. As oscilações da conjuntura podem favorecer desvios oportunistas ou ultraesquerdistas.

Mas há, também, um perigo, aparentemente, invisível. Quando uma corrente acumula acertos e conhece crescimento acelerado há a armadilha do orgulho. O excesso de altivez nos faz mais sectários. Esse perigo é fatal. Viemos de longe. Valeu a pena. Honestidade intelectual é importante. Ela é o cimento da força moral. Mas todas as correntes inspiradas na tradição de Leon Trotsky são ainda muito minoritárias. Nossa história revela nossas fragilidades. Mas houve nesse caminho tão longo, também, grandeza.

•        A importância de uma super federação de esquerda no Brasil. Por Por Josué Medeiros e Daniel Angelim

No final de 2025, o PT anunciou que fez um convite para o PSOL compor uma federação partidária já para as eleições de 2026. Esse debate foi esquentando na medida em que se aproximava o prazo para a formação de instrumentos deste tipo, que acontece seis meses antes da eleição, no começo de abril de 2026. 

Federações partidárias são um instrumento legal em que diferentes partidos se juntam para fins de cálculos da cláusula de barreira, tendo como obrigação atuar juntos nas eleições e nos parlamentos por 4 anos.  Como qualquer decisão política, a composição de uma federação deste tipo tem ônus e bônus para os envolvidos, com riscos e vantagens que são colocados na balança. 

Nesse texto, organizo em três eixos os argumentos favoráveis à formação de uma super federação da esquerda brasileira. São eles: a unidade contra a extrema-direita para avançar na democracia brasileira; o papel que a super federação pode ter na renovação da esquerda no Brasil e o potencial eleitoral que essa unidade dos partidos tem para aumentar a força da esquerda no Congresso Nacional. 

1 – Unidade contra o fascismo para avançar na democracia 

A força e persistência do bolsonarismo no Brasil e no mundo e o risco real de vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026, é o principal elemento importante que coloca a urgência de um aprofundamento da unidade. 

A coligação eleitoral realizada em 2022 foi importante para vencer as eleições, mas se mostrou insuficiente para construir uma ação mais coordenada das esquerdas partidárias no Brasil. Foram vários os momentos de crise da conjuntura em que o campo progressista se viu paralisado e dividido.

Por exemplo, na crise do PIX, as esquerdas ficaram sem resposta e a extrema-direita atuou sozinha até a deputada Erika Hilton soltar um vídeo, com mais de 15 dias de defensiva. Outro exemplo foi a PEC da Blindagem, em que parte dos parlamentares de esquerda apoiaram, contrariando o sentimento da base. 

Uma federação com regras democráticas tem o potencial de superar esse problema, ampliando nossa capacidade de reagir aos ataques da extrema-direita e da direita tradicional. Com isso vamos ao segundo eixo dos argumentos favoráveis. 

2 – Mobilização democrática das bases com manutenção da autonomia dos partidos 

A criação das federações partidárias foi um avanço democrático apoiado pela esquerda, porque protege partidos ideológicos como o PC do B e o PSOL. Mas uma federação pode ser um instrumento de renovação democrática para além dessa dimensão de proteger partidos ideológicos. 

Uma super federação da esquerda pode ter regras que estimulam a mobilização democrática e, ao mesmo tempo, preservam a autonomia dos partidos, uma vez que há um receio que o maior partido (o PT) “engula” os menores. 

Pegando o exemplo da Frente Ampla Uruguaia, temos um estatuto com algumas regras e procedimentos que podem ser aplicados em uma super federação 

•        Mecanismos de consulta – a FA prevê primárias para decidir candidatos e plebiscitos para tomar decisões em temas importantes caso seja convocado por 25% dos filiados. Primárias abertas não somente aos filiados, mas a todos os eleitores de esquerda para decidir candidatos a prefeito, governador e presidente são um método já testados em muitos países (Argentina, Colômbia, Chile, Uruguai) com muito sucesso, porque mobiliza as bases e fortalece as lideranças. Hoje, as decisões são restritas às cúpulas partidárias e a super federação pode mudar isso e contribuir para reoxigenar os partidos. 

•        Liberdade de ação – Qualquer setor da FA pode ser liberado de seguir uma decisão a maioria em casos especiais. A super federação pode prever casos desse tipo. 

•        Proteção da minoria – No Estatuto da Frente Ampla, se um quinto dos componentes qualificam um assunto como fundamental, só se poderá adotar uma decisão pelo voto aprovativo de três quintos dos componentes do corpo. Na super federação, por exemplo, o PSOL com certeza será pelo menos 1/5, pelo número de deputados e filiados e pode colocar barreiras deste tipo para se proteger. 

Em suma, uma super federação com primárias abertas e proteção das minorias fortaleceria os laços dos partidos com as bases, permitindo mais unidade e mobilização para aumentar a força da esquerda na sociedade e no Congresso, que é o terceiro eixo. 

3 – Aumento da bancada da esquerda como um todo 

As federações partidárias forçam os partidos a montar uma chapa única de candidatos a deputado federal. Isso leva os partidos a “juntar” seus votos e a concentrar os candidatos em nomes mais fortes, nomes que serão muito bem votados, sem a necessidade de pulverizar em vários candidatos com poucos votos. Isso tem o potencial de aumentar as bancadas e é por essa razão que setores da direita vem apostando na federação. 

Por exemplo, na direita tradicional, o União Brasil (UB) e o Progressistas se juntaram em uma super federação de direita, intitulada UP. Nenhum desses partidos corre risco de não alcançar a cláusula de barreira em 2026 ou 2030. Por que então eles optam por esse caminho da federação?

Seu objetivo principal com essa unidade é aumentar suas bancadas de deputados federais e com isso disputar com o PL, partido de Jair Bolsonaro e que concentra o acúmulo da extrema-direita. 

Em um cenário em que o Congresso Nacional chantageia o presidente Lula todos os dias e não aprova as medidas que o governo envia para melhorar a vida do povo, é de suma importância aumentar a bancada da esquerda e a super federação é a melhor estratégia para conseguir isso. 

Cada eleição é uma eleição e não temos como prevê o que sai das urnas, mas pegando os números das eleições de 2022, podemos fazer algumas projeções de como ficaria a bancada de esquerda em caso de unidade entre PT, PC do B, PV, PSOL e Rede, que foram duas federações distintas. 

São dois principais cenários que emergem da análise do quadro eleitoral de 2022. Nos estados em que a esquerda fez menos deputados, a unidade em uma super federação provavelmente levaria ao aumento da bancada da esquerda como um todo. É o caso de Santa Catarina, Paraná, Espírito Santos, Pernambuco, Ceará, Pará e Distrito Federal.

Já nos estados em que a esquerda fez bancadas grandes, a super federação “protege” essas bancadas, aumentando as chances de manutenção do número de eleitos mesmo que a super federação da direita aumente sua bancada. 

Nesse cenário, UB e PP ao se juntarem aumentariam suas bancadas, mas “roubariam” deputados de outros partidos da direita e não da esquerda.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Le Monde

 

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