Valerio
Arcary: Sobre a pulverização das agremiações revolucionárias
Existem
no Brasil hoje, pelo menos, mais de quinze organizações com alguma presença
nacional que se autodeclaram socialistas e revolucionárias de diferentes
tradições. Mas não existem quinze estratégias diferentes para a revolução
brasileira. O paradoxo exige uma explicação. Quatro partidos legalizados já
apresentaram até pré-candidatos à presidência para as eleições de outubro:
PSTU, UP, PCB e PCO.
Além do
PCdoB e PCBR existem correntes internas no PT (Democracia Socialista,
Articulação de Esquerda, O Trabalho) e no PSol (Primavera Socialista, Revolução
Solidária, Semear, Subverta, MES, Fortalecer, Rebelião Ecossocialista), mas,
também, a Brasil Popular que mantém relações com o MST, que merecem ser
consideradas como parte de um campo de esquerda radical.
A
pulverização é ainda maior se ampliarmos o campo de análise para núcleos
regionais. Uma boa parte destas organizações tem a percepção de si próprias
como o embrião mais sólido do partido revolucionário. Ou seja, estão
satisfeitas com suas apostas na autoconstrução. Evoluem de ruptura em ruptura,
indiferentes à sua marginalidade, em ininterrupto autoengano. Uma romantização
de si mesmas que repousa na expectativa idealizada de que na próxima “esquina
perigosa da história” se verá “quem tem unhas para tocar guitarra”.
Esta
interpretação do leninismo – a teoria do partido-embrião- é, perigosamente,
errada por quatro razões:
(a)
porque é falsa, já que o bolchevismo nunca se autoproclamou o único partido
histórico da revolução russa;
(b)
porque se trata de uma deformação dogmática da experiência leninista;
(c)
porque nenhuma das organizações existentes tem nas suas mãos uma resposta para
o programa da revolução brasileira;
(d)
porque todas, umas maiores outras menores, não vão além do estatuto de
organizações com implantação em setores de vanguarda, sem influência de massas,
mesmo minoritária. Esta visão, embora desconectada da realidade, permanece,
infelizmente, vigente.
Compreender
esta desagregação é vital. Em primeiro lugar, ela obedece ao impacto de muitas
derrotas. Desde 2016 foram dez anos, muito difíceis. Por isso, pareceram muito
mais. O que prevaleceu nesse processo desde o impeachment de Dilma Rousseff e a
inversão desfavorável da relação social de forças foi a fragmentação da
esquerda radical. Ela se explica, pelo menos, por cinco contradições ou
conflitos:
(i)
remete ao choque entre as deformações sectárias geradas por uma longa
marginalidade social e as possibilidades abertas de aumentar a audiência
política.
(ii)
Remete ao choque entre as deformações no regime interno de partido-fração, e a
necessidade de construir organizações que precisam aprender a conviver com a
pluralidade democrática;
(iii)
remete ao choque entre as deformações patriarcais-machistas-homofóbicas e a
necessidade de relações saudáveis;
(iv)
remete ao choque entre uma geração fundadora dedicada e a necessidade de
renovação para o trabalho coletivo, onde não há lugar para caudilhos.
(v)
Finalmente, a última remete ao choque entre o dogmatismo teórico diante das
imensas transformações ocorridas no mundo após a restauração capitalista, e as
tarefas de um marxismo aberto.
Esta
dispersão alimentada por derrotas é indivisível, também, da adaptação à rotina
de mandatos parlamentares, regionais, e sindicais em “voo solo” que se
transformam em um fim em si mesmos, e alimentam rivalidades pessoais. A
esquerda “adoeceu” de diferentes tipos de “enfermidades”.
A
corrente interna do PSol Semear surgiu, neste primeiro semestre de 2026 na
contracorrente das divisões, da unificação da Insurgência e da Resistência.
Esta, por sua vez, teve origem na cisão com o PSTU, e da fusão de vários
agrupamentos em 2018. Essas duas decisões, decidir a hora de romper, e decidir
a hora de unir explicam sua existência. Olhando para trás a grande questão é
saber se elas passaram a prova da história. É verdade que há rupturas que são
política e, programaticamente, imaturas e desnecessárias, portanto,
lamentáveis.
Infelizmente,
não são incomuns. Grupos políticos podem se dispersar por rivalidades pessoais
entre as lideranças, e as mais variadas disputas pelo controle de espaços e
posições de poder, sem que haja clareza sobre as diferenças políticas. São
conflitos previsíveis e contornáveis. Mas, assim como há rachas imprudentes e
até desleais, há rupturas sérias e honestas, ainda que dolorosas. A construção
de correntes marxistas nunca foi linear. Caminhando pela estrada ocorrem
aproximações e desentendimentos em função das avassaladoras pressões da luta de
classes.
A
partir de 2015/16, a classe trabalhadora se fraturou. Uma parcela importante,
entre aqueles com direitos, contratos e renda média, os remediados, perdeu
esperança no governo Dilma Rousseff, foi envenenada pela LavaJato, e atraída
pelo discurso radical da extrema-direita. Quem se deixou iludir, imaginando que
existia no horizonte a perspectiva de uma situação revolucionária, quando o
perigo era exatamente inverso, ou seja, a ameaça de uma situação reacionária,
errou. Quem não denunciou o impeachment como um golpe institucional, errou.
Quem não se uniu à campanha Lula Livre, errou.
Quem
não apoiou Lula contra Jair Bolsonaro em 2022 errou. A divisões se confirmaram
pela evolução das posições nos últimos anos como inevitável. Algum
ressentimento mútuo é compreensível, porque ninguém é de ferro, e as derrotas
doem. Mas não nos devem cegar diante do futuro. O que é necessário é persistir
na construção de uma ferramenta útil, preservando a humildade de saber que há
revolucionários em outras organizações.
As
unificações colocam, igualmente, riscos. Já ocorreram unificações apressadas
que não se consolidam, e acabam precipitando explosões. A unificação que
originou a Semear foi um processo lento e bem sucedido. A formação do bloco PTL
(PSol de Todas as Lutas) compondo uma maioria que garantiu a campanha de Boulos
à presidência em 2018 e à prefeitura de São Paulo em 2020, a defesa da tática
da Frente Única de Esquerda na campanha Fora Bolsonaro em 2021, a defesa do
apoio à candidatura Lula desde o primeiro turno em 2022, mesmo com Alckmin na
chapa, tudo foi controverso na esquerda radical.
Nunca
houve monolitismo. Não menos importante, nesse processo se consolidou o bloco
Semente com a Subverta que foi além dos alinhamentos táticos. A militância lado
a lado forjou uma convergência estratégica. Confiança é algo muito delicado e
precioso, porque demanda maturidade e paciência. O tempo é uma medida chave na
luta política. Não adianta ter, apaixonadamente, razão sozinhos. Paciência
exige ter a lucidez de que, embora o tempo seja de urgência, não adianta tomar
decisões desconhecendo a consciência, o humor, o estado de espírito das massas,
da vanguarda e da própria militância.
A jovem
Semear é somente uma corrente revolucionária em construção, muito aquém das
necessidades colocadas pela luta de classes. Mas assumimos a responsabilidade
na reorganização da esquerda radical no Brasil, indo além da nossa tradição
histórica. Nosso desafio imediato é construir a unificação com a Subverta.
Reconhecemos ainda a existência de outros coletivos revolucionários, e estamos
dispostos a explorar novas possiblidades de unificação.
Os
últimos dez anos foram os mais difíceis desde o fim da ditadura. O país de
dividiu e a extrema direita confirmou uma capilaridade social de implantação
assustadora. Estamos diante de muitos perigos. Não há sequer garantias de que
Lula será reeleito. Não existem nem lideranças nem organizações infalíveis.
Todas são em distintos graus imperfeitas, limitadas, com os defeitos e vícios
de suas virtudes. As oscilações da conjuntura podem favorecer desvios
oportunistas ou ultraesquerdistas.
Mas há,
também, um perigo, aparentemente, invisível. Quando uma corrente acumula
acertos e conhece crescimento acelerado há a armadilha do orgulho. O excesso de
altivez nos faz mais sectários. Esse perigo é fatal. Viemos de longe. Valeu a
pena. Honestidade intelectual é importante. Ela é o cimento da força moral. Mas
todas as correntes inspiradas na tradição de Leon Trotsky são ainda muito
minoritárias. Nossa história revela nossas fragilidades. Mas houve nesse
caminho tão longo, também, grandeza.
• A importância de uma super federação de
esquerda no Brasil. Por Por Josué Medeiros e Daniel Angelim
No
final de 2025, o PT anunciou que fez um convite para o PSOL compor uma
federação partidária já para as eleições de 2026. Esse debate foi esquentando
na medida em que se aproximava o prazo para a formação de instrumentos deste
tipo, que acontece seis meses antes da eleição, no começo de abril de
2026.
Federações
partidárias são um instrumento legal em que diferentes partidos se juntam para
fins de cálculos da cláusula de barreira, tendo como obrigação atuar juntos nas
eleições e nos parlamentos por 4 anos.
Como qualquer decisão política, a composição de uma federação deste tipo
tem ônus e bônus para os envolvidos, com riscos e vantagens que são colocados
na balança.
Nesse
texto, organizo em três eixos os argumentos favoráveis à formação de uma super
federação da esquerda brasileira. São eles: a unidade contra a extrema-direita
para avançar na democracia brasileira; o papel que a super federação pode ter
na renovação da esquerda no Brasil e o potencial eleitoral que essa unidade dos
partidos tem para aumentar a força da esquerda no Congresso Nacional.
1 –
Unidade contra o fascismo para avançar na democracia
A força
e persistência do bolsonarismo no Brasil e no mundo e o risco real de vitória
de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026, é o principal elemento importante que
coloca a urgência de um aprofundamento da unidade.
A
coligação eleitoral realizada em 2022 foi importante para vencer as eleições,
mas se mostrou insuficiente para construir uma ação mais coordenada das
esquerdas partidárias no Brasil. Foram vários os momentos de crise da
conjuntura em que o campo progressista se viu paralisado e dividido.
Por
exemplo, na crise do PIX, as esquerdas ficaram sem resposta e a extrema-direita
atuou sozinha até a deputada Erika Hilton soltar um vídeo, com mais de 15 dias
de defensiva. Outro exemplo foi a PEC da Blindagem, em que parte dos
parlamentares de esquerda apoiaram, contrariando o sentimento da base.
Uma
federação com regras democráticas tem o potencial de superar esse problema,
ampliando nossa capacidade de reagir aos ataques da extrema-direita e da
direita tradicional. Com isso vamos ao segundo eixo dos argumentos favoráveis.
2 –
Mobilização democrática das bases com manutenção da autonomia dos partidos
A
criação das federações partidárias foi um avanço democrático apoiado pela
esquerda, porque protege partidos ideológicos como o PC do B e o PSOL. Mas uma
federação pode ser um instrumento de renovação democrática para além dessa
dimensão de proteger partidos ideológicos.
Uma
super federação da esquerda pode ter regras que estimulam a mobilização
democrática e, ao mesmo tempo, preservam a autonomia dos partidos, uma vez que
há um receio que o maior partido (o PT) “engula” os menores.
Pegando
o exemplo da Frente Ampla Uruguaia, temos um estatuto com algumas regras e
procedimentos que podem ser aplicados em uma super federação
• Mecanismos de consulta – a FA prevê
primárias para decidir candidatos e plebiscitos para tomar decisões em temas
importantes caso seja convocado por 25% dos filiados. Primárias abertas não
somente aos filiados, mas a todos os eleitores de esquerda para decidir
candidatos a prefeito, governador e presidente são um método já testados em
muitos países (Argentina, Colômbia, Chile, Uruguai) com muito sucesso, porque
mobiliza as bases e fortalece as lideranças. Hoje, as decisões são restritas às
cúpulas partidárias e a super federação pode mudar isso e contribuir para
reoxigenar os partidos.
• Liberdade de ação – Qualquer setor da FA
pode ser liberado de seguir uma decisão a maioria em casos especiais. A super
federação pode prever casos desse tipo.
• Proteção da minoria – No Estatuto da
Frente Ampla, se um quinto dos componentes qualificam um assunto como
fundamental, só se poderá adotar uma decisão pelo voto aprovativo de três
quintos dos componentes do corpo. Na super federação, por exemplo, o PSOL com
certeza será pelo menos 1/5, pelo número de deputados e filiados e pode colocar
barreiras deste tipo para se proteger.
Em
suma, uma super federação com primárias abertas e proteção das minorias
fortaleceria os laços dos partidos com as bases, permitindo mais unidade e
mobilização para aumentar a força da esquerda na sociedade e no Congresso, que
é o terceiro eixo.
3 –
Aumento da bancada da esquerda como um todo
As
federações partidárias forçam os partidos a montar uma chapa única de
candidatos a deputado federal. Isso leva os partidos a “juntar” seus votos e a
concentrar os candidatos em nomes mais fortes, nomes que serão muito bem
votados, sem a necessidade de pulverizar em vários candidatos com poucos votos.
Isso tem o potencial de aumentar as bancadas e é por essa razão que setores da
direita vem apostando na federação.
Por
exemplo, na direita tradicional, o União Brasil (UB) e o Progressistas se
juntaram em uma super federação de direita, intitulada UP. Nenhum desses
partidos corre risco de não alcançar a cláusula de barreira em 2026 ou 2030.
Por que então eles optam por esse caminho da federação?
Seu
objetivo principal com essa unidade é aumentar suas bancadas de deputados
federais e com isso disputar com o PL, partido de Jair Bolsonaro e que
concentra o acúmulo da extrema-direita.
Em um
cenário em que o Congresso Nacional chantageia o presidente Lula todos os dias
e não aprova as medidas que o governo envia para melhorar a vida do povo, é de
suma importância aumentar a bancada da esquerda e a super federação é a melhor
estratégia para conseguir isso.
Cada
eleição é uma eleição e não temos como prevê o que sai das urnas, mas pegando
os números das eleições de 2022, podemos fazer algumas projeções de como
ficaria a bancada de esquerda em caso de unidade entre PT, PC do B, PV, PSOL e
Rede, que foram duas federações distintas.
São
dois principais cenários que emergem da análise do quadro eleitoral de 2022.
Nos estados em que a esquerda fez menos deputados, a unidade em uma super
federação provavelmente levaria ao aumento da bancada da esquerda como um todo.
É o caso de Santa Catarina, Paraná, Espírito Santos, Pernambuco, Ceará, Pará e
Distrito Federal.
Já nos
estados em que a esquerda fez bancadas grandes, a super federação “protege”
essas bancadas, aumentando as chances de manutenção do número de eleitos mesmo
que a super federação da direita aumente sua bancada.
Nesse
cenário, UB e PP ao se juntarem aumentariam suas bancadas, mas “roubariam”
deputados de outros partidos da direita e não da esquerda.
Fonte:
A Terra é Redonda/Le Monde

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