Um
mês de aluguel no ingresso, R$ 80 por uma cerveja: quanto os torcedores estão
pagando para estar na Copa
Para
muitos torcedores, comparecer a uma Copa do Mundo é uma
oportunidade única na vida, que não tem preço. Mas, se você calcular os custos da empreitada, é de fazer chorar. Ingressos para os jogos, voos, hotéis, o trajeto até os
estádios, os custos de uma bebida durante o jogo... os custos vão se somando
sem parar.
Poucos
dias após o início do torneio, torcedores que se encontram no México, Canadá e
nos Estados Unidos contaram à BBC o quanto já gastaram durante a Copa do Mundo da Fifa de Futebol
Masculino 2026.
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Norueguês nos EUA gasta R$ 20 mil por apenas um jogo
Morten
Oftedal leva a sério a expressão "uma vez na vida". Norueguês que
mora em Atlanta, no Estado americano na Georgia, ele sabe que esta seria
provavelmente a única chance de levar seu pai, de 82 anos, para ver a seleção
do seu país jogar na Copa do Mundo. Afinal, a Noruega se classificou para o
torneio pela primeira vez desde 1998, na França. "Sou um grande fã de
futebol desde a infância, principalmente graças ao meu pai", conta Oftedal
à BBC. "Não posso dizer 'não, vamos na próxima vez ou em outro lugar'. Por
isso, estamos muito animados."
O que
não o animou muito foram os custos envolvidos.
Oftedal
comprou três ingressos para ver a Noruega vencer o Iraque por 4x1 em
Massachusetts por US$ 380 (cerca de R$ 1,9 mil) cada um. As três passagens de
ida e volta de avião entre Atlanta e Boston custaram, ao todo, 180 mil pontos
do seu programa de fidelidade. Um único quarto de hotel por duas noites
ultrapassou US$ 1,1 mil (R$ 5,6 mil). E o transporte até o estádio, ida e
volta, custou US$ 80 (cerca de R$ 407) por pessoa. Ao todo, Oftedal gastou
cerca de US$ 4 mil (R$ 20,3 mil), entre dinheiro e pontos, para que ele, seu
pai e sua esposa assistissem a uma partida. Ele descreve o valor como
"insano". "Realmente não é para indivíduos, parece que é para a
América corporativa", declarou Oftedal, sobre o torneio de 2026.
Diversas
pessoas declararam à BBC que o custo de assistir ao torneio atingiu alguns
milhares de dólares. Mas eles dizem que seu amor pelo futebol e as recordações
que eles esperavam criar na ocasião os ajudaram a abrir a carteira. "Paguei
cerca de US$ 1,2 mil [R$ 6,1 mil] por ingresso, na categoria 2", afirma o
britânico Iain Bagwell, de 58 anos. Ele mora em Atlanta e viajou com seu filho
de carro para ver Inglaterra x Croácia em Dallas, no Texas. "Na época da
compra, achei que fosse um assalto em plena luz do dia. Mas, vendo o que está
acontecendo e a forma como a Fifa está tratando do assunto, provavelmente não
foi um negócio tão ruim assim." Bagwell e seu filho acamparam ao longo da
sua viagem para Dallas, por diversão e economia ao mesmo tempo. E, depois do
jogo, eles irão de carro para Kansas City para verem Tunísia x Holanda, por US$
235 (cerca de R$ 1,2 mil) por ingresso.
Muitos
torcedores americanos estão acostumados com o alto custo dos eventos
esportivos. O ingresso mais barato para ver o time de basquete New York Knicks
nas recentes finais da NBA, no Madison Square Garden, custava cerca de US$ 3,5
mil (R$ 17,8 mil). Mas os custos para assistir à Copa do Mundo de 2026
assustaram os torcedores de outros países.
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Experiência 'incrível' — mas cada ingresso custa R$ 4,5 mil
Alisa e
Admir Maric admitem que sua viagem para Toronto, no Canadá, foi cara. Mas valeu
a pena. Eles foram assistir à estreia da seleção do seu país, a
Bósnia-Herzegóvina, contra o Canadá, um empate por 1x1 no segundo dia da Copa
do Mundo. "É uma sensação incrível, nunca pensei que, um dia, iria a um
jogo da Copa do Mundo", declarou Admir. "Sempre quis ter esta
experiência." Eles escolheram os ingressos no "último minuto",
segundo Maric, pagando 1.250 dólares canadenses (US$ 890, ou cerca de R$ 4,5
mil) cada um, por assentos na terceira fila. O hotel custou cerca de US$ 600
(R$ 3 mil) por noite e os voos, US$ 1.150 (cerca de R$ 5,8 mil) por pessoa. Ao
todo, o custo da viagem foi de cerca de US$ 3,8 mil (R$ 19,3 mil).
As
irmãs Aida e Emina Tucic, também torcedoras da Bósnia-Herzegóvina, não
precisaram viajar tanto. Elas vieram da cidade de Hamilton, perto de Toronto. Elas
sabiam que queriam assistir à partida "no segundo" em que a Bósnia se
classificou, conta Aida. "Ficamos um pouco apreensivas porque os preços
dos ingressos começaram a ficar, digamos, malucos", ela conta. As irmãs
acompanharam os preços por algum tempo e compraram seus ingressos três dias
antes do jogo. Elas gastaram 1,2 mil dólares canadenses (cerca de US$ 850, ou
R$ 4,3 mil) cada entrada.
Emina
tem algumas dicas para outros visitantes, como verificar as redes sociais
locais em busca de sugestões de lugares mais baratos para comer na região. Questionada
se elas achavam o preço dos ingressos justo para a experiência, Aida respondeu
"provavelmente, não". Para ela, o futebol "deveria ser acessível
para os torcedores".
Mas ela
destaca que "para mim, não tem preço". "É uma vez na vida",
declarou Emina. "Os dois países que você ama, um onde você cresceu e outro
onde você nasceu. Ver os dois jogando no palco mundial é incrível".
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Um ingresso custa cerca de três meses de aluguel no México
Assistir
a um jogo de rua improvisado nas laterais da Zona Rosa da Cidade do México,
entre os transeuntes e os policiais, é talvez o mais próximo que alguns
mexicanos irão chegar do esporte nesta Copa do Mundo. Os preços dos ingressos
para o jogo de abertura (México 2x0 África do Sul) estavam muito além das
possibilidades da maioria dos habitantes de um país onde cerca de 30% da
população vive na pobreza.
No lado
de fora do Estádio Azteca, na última
sexta-feira (11/06), os torcedores citavam diversos valores pagos pelos
cobiçados ingressos. Poucos pagaram menos de US$ 1,5 mil (cerca de R$ 7,6 mil)
e alguns chegaram a gastar US$ 4 mil (R$ 20,3 mil) ou mais. Já alguns sortudos
receberam ingressos grátis de presente ou em troca de trabalho. "Paguei 30
mil pesos [US$ 1.750, cerca de R$ 8,9 mil] cada ingresso", conta Aaron
Vieyra, da torcida organizada da seleção mexicana Fúria Azteca. Vieyra comprou
os ingressos para ele e sua namorada por meio de um contato com boas relações.
Ele destaca que um único ingresso valia cerca de três meses de aluguel para
muitos moradores da Cidade do México.
Vieyra
acompanhou a equipe mexicana nas Copas de 2014, no Brasil, e de 2018, na
Rússia. Ele afirma que gastou mais em um jogo no México do que na soma das
partidas assistidas por ele nos outros torneios. "O jogo em si foi
histórico e ficamos muito felizes por estar no Azteca para aquele
momento", ele conta. "Ainda sinto arrepios." Mas o dinheiro
valeu a pena? "Valeu, mas por pouco", responde ele, sem hesitar. "Para
nós, funcionou porque não precisei pagar por voos ou hotéis. Se precisássemos
cobrir também estes custos, eu não conseguiria pagar todo esse dinheiro por um
ingresso."
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R$ 81 por uma cerveja no estádio de Nova Jersey
O preço
dos alimentos e bebidas dentro dos estádios varia dependendo do local, mas eles
parecem estar dentro da faixa que os torcedores e fãs de música costumam pagar
nos estádios americanos.
Uma
pesquisa do website The Athletic concluiu que os torcedores estão pagando US$
16 (cerca de R$ 81) por uma cerveja americana (470 ml) no Estádio de Nova
York-Nova Jersey (NYNJ), onde será realizada a final da Copa, e US$ 5 (R$
25,40) por uma água (590 ml). Mas, no Estádio Mercedes-Benz em Atlanta, por
exemplo, você pagará apenas US$ 5 (cerca de R$ 25,40) por uma cerveja pequena
(355 ml) e US$ 9 (R$ 45,80) pela grande (570 g). E a água (590 ml) custa US$ 3
(cerca de R$ 15,30). Outros custos também foram inflacionados.
A
passagem de trem da Penn Station, em Nova York, até o Estádio NYNJ
para um jogo da Copa do Mundo custa US$ 98 (cerca de R$ 498). Normalmente, ela
custa US$ 12,90 (R$ 66). O aumento ocorreu para que os moradores locais não
precisassem pagar pelo transporte dos torcedores, segundo a governadora de Nova
Jersey, Mikie Sherrill. Ela também destacou que a Fifa não está colaborando com
os custos de transporte, que atingem US$ 48 milhões (cerca de R$ 244 milhões). Paralelamente,
autoridades locais tentaram negociar com a Fifa para reduzir os custos para os
torcedores comuns.
O
prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, negociou com a Fifa e garantiu 1 mil
ingressos para moradores locais por US$ 50 (cerca de R$ 254), que podem ser
comprados por meio de sorteio. Já a província canadense de Ontario aprovou a
Lei Torcedores em Primeiro Lugar, para reduzir os preços de revenda. E Dallas
oferece transporte gratuito de e para o estádio local.
As
manchetes sobre os preços dos ingressos vêm dominando o torneio, mas os
torcedores que conversaram com a BBC permanecem entusiasmados com a Copa e
afirmam que os gastos valeram a pena. Oftedal, o torcedor norueguês, declarou
que criar recordações com seu pai seria o mais importante e que a preocupação
com o dinheiro "desaparece depois de algum tempo".
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'Ganhei viagem com tudo pago para a Copa do Mundo e tive
o visto negado'
A
enfermeira Raphaela Coiado, 24 anos, não chorou quando ouviu que seu visto para os Estados Unidos havia
sido negado.
Nem quando o marido e os quatro outros parentes que foram com ela ao consulado,
no Rio de Janeiro, saíram com o mesmo papelzinho branco na mão. Ela chorou na
porta de casa, quando camisetas amarelas da seleção brasileira chegaram em uma
mala temática da Coca-Cola. O presente fazia parte de um kit que ela e o marido
ganharam em uma promoção para viajarem à Copa do Mundo. Aquilo a deixou
emotiva. "Mexeu comigo porque olhei e falei: 'Nossa, realmente está
acontecendo. E a gente não vai", disse ela. "Eu chorei muito."
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Uma viagem conquistada
No
início do ano, a Coca-Cola lançou uma promoção para seus parceiros: quem
batesse as metas estipuladas e ficasse em primeiro lugar no ranking ganharia
uma viagem para a Copa do Mundo em condições bastante especiais. Como o marido
de Raphaela gerencia o setor comercial do supermercado da família, eles
entraram na competição. E ficaram em primeiro lugar quase o tempo todo. "Perto
do final, chegou um momento que a gente quase perdeu a viagem. Mas na última
semana deu para recuperar", conta Raphaela. A bonificação incluía duas
passagens aéreas de ida e volta, cinco dias de hospedagem e um ingresso no
camarote da Coca-Cola com comida e bebida de graça para o jogo entre Brasil e
Haiti, no dia 19 de junho na Filadélfia. "Fiquei decepcionada pela perda
da experiência. Eu ia para uma Copa do Mundo que a gente sabe que é uma edição
lendária, que muitos jogadores incríveis estão se aposentando e não vão jogar
mais. Era minha oportunidade de vê-los."
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O custo de tentar — e de não ir
O
prêmio da Coca-Cola valia para duas pessoas, mas nenhum dos seis membros da
família que poderiam usá-lo tinha visto. Raphaela, que vive em Hortolândia, no
interior de São Paulo, não tinha nem passaporte. Ela correu para atualizar o nome no CPF e
no RG — recém-casada, ainda não havia feito a mudança nos documentos —
conseguiu tirar o passaporte em tempo curto e entrou no processo de solicitação
de visto americano com o marido,
duas cunhadas e seus companheiros. A família contratou uma assessoria de vistos
para os trâmites, como o preenchimento do formulário obrigatório e a lista de
documentos a serem levados na entrevista. Mas a preparação para a entrevista
ficou a cargo de cada um. Raphaela conta que passou semanas pesquisando na
internet, assistindo a vídeos e simulando respostas com o ChatGPT. "Não
sei quantas simulações fiz pelo ChatGPT. E, pelo visto, não
ajudou muito."
Como as
vagas no consulado de São Paulo só estavam disponíveis para setembro — e a
viagem era em junho —, todos foram para o Rio de Janeiro para uma viagem de
dois dias. No consulado, o casal foi questionado sobre o grau de parentesco,
destino e razão da viagem, qual a profissão de cada um e qual a renda familiar.
"Foi todo mundo reprovado. Não salvou um para passar." O consulado
americano não informa o motivo da recusa. Raphaela tem suspeitas: interrupções
do marido durante a entrevista, o fato dele trabalhar como Microempreendor
Individual (MEI) e o de nenhum deles nunca ter viajado ao exterior antes — mas
nenhuma certeza.
Além da
viagem perdida, a família contabilizou um prejuízo de aproximadamente R$ 5 mil
no processo: as taxas do visto (cerca de R$ 900 por pessoa), o custo da
assessoria, as passagens aéreas para o Rio de Janeiro, a hospedagem e a
alimentação durante a estadia. O casal cogitou estender a estadia no Rio e
tentar novamente antes da Copa. Decidiram que não valia o risco financeiro e
emocional. A família optou por vender a viagem pelo valor de R$ 25 mil. O
negócio foi fechado em menos de um dia. "Eu ainda estou sofrendo
muito", diz ela. "Eu devolveria esse dinheiro se falassem: Rafaela, a
gente vai te dar o seu visto agora", diz. "Acho que nenhum dinheiro
no mundo compra a experiência que a gente viveria. Eu não queria nem assistir
ao jogo da Copa este ano. Eu estou muito chateada."
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Vários países afetados
A
história de Raphaela não é exceção — é parte de um padrão que afeta torcedores
de todo o mundo nesta Copa. Uma análise do BBC World Service com dados do
Departamento de Estado americano mostrou que torcedores de mais de um quarto
dos países classificados para o torneio enfrentam proibições de viagem,
restrições mais rígidas ou altas taxas de rejeição de visto para entrar nos
Estados Unidos.
Ao
contrário das quatro últimas Copas do Mundo — realizadas na África do Sul, no
Brasil, na Rússia e no Catar —, que implementaram regimes especiais de visto
para os torcedores, os Estados Unidos não criaram nenhum processo específico
para o torneio. A FIFA desenvolveu o chamado FIFA Pass, um sistema que
direciona os portadores de ingressos para agendamentos prioritários nas
entrevistas consulares, mas a medida acelera o processo sem aumentar as chances
de aprovação. "O sistema de vistos é o porteiro invisível da Copa do
Mundo", disse ao BBC World Service Céline Atallah, advogada especializada
em imigração que atua próximo a Boston. "A FIFA pode vender um ingresso,
mas o governo americano decide quem recebe o visto — e a Proteção de Fronteiras
e Alfândegas decide quem de fato entra."
A
assimetria é estrutural. Quarenta e dois países — em geral os mais ricos — têm
isenção de visto para os Estados Unidos e podem viajar mediante uma autorização
eletrônica online que custa US$ 40 (cerca de R$ 204 na convenção atual). Nenhum
país africano está nessa lista. Para os demais, o visto de turista recomendado
pela embaixada para os torcedores custa US$ 185 — cerca de R$ 945 — e exige
entrevista presencial. Onze dos 48 países classificados para o torneio têm taxa
de rejeição de visto americano acima de 40%: Senegal, Gana, República
Democrática do Congo, Irã, Jordânia, Argélia, Haiti, Egito, Cabo Verde,
Uzbequistão e Equador. No Senegal, a taxa supera 70%.
Quatro
países estão na lista de restrições de viagem do governo Donald Trump — Haiti,
Irã, Senegal e Costa do Marfim —, o que impede seus cidadãos de obter o tipo de
visto recomendado para os torcedores. Para os senegaleses e marfinenses, havia
um prazo adicional: eles precisavam garantir o visto antes de dezembro, quando
as restrições entraram em vigor. O torcedor senegalês Aliou Ngom esteve nas
duas últimas Copas do Mundo — no Catar e na Rússia. Para 2026, nem tentou o
visto. O presidente da associação de torcedores da Costa do Marfim, Julien
Kouadio Adonis, foi além ao descrever as restrições: para ele, trata-se de
"uma forma de segregação que não ousa dizer seu nome". "Nenhum
país europeu enfrentou esse tipo de restrição. Por que a África?",
questionou.
No
Iraque, o torcedor Abdulla Adnan comprou ingressos para os jogos de sua seleção
contra Noruega e França logo após a classificação — a segunda vez na história
do país. Mas os Estados Unidos suspenderam os serviços consulares de rotina no
Iraque por questões de segurança após a escalada do conflito regional. Sem a
possibilidade de fazer a entrevista presencial, Adnan viajou até a Jordânia
para tentar o visto lá — onde foi informado de que a embaixada americana
jordaniana não poderia emitir vistos para não-cidadãos jordanianos. Gastou
cerca de US$ 1.800 (R$ 9.204) no processo e desistiu. O presidente da
associação de torcedores da Jordânia, Abu Kass, levou mais de 42 documentos à
sua entrevista consular em Amã. O visto foi negado, sem explicação. Segundo
diz, ele não conhece nenhum torcedor jordaniano que tenha conseguido a
aprovação. "Esta Copa não é nossa. É para eles."
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Mesmo quem tem visto pode perdê-lo
Mesmo
torcedores de países historicamente bem-vistos pelas autoridades americanas
foram surpreendidos às vésperas do torneio. Na Escócia, dezenas de torcedores
que haviam recebido a autorização eletrônica de viagem americana (ESTA, nas
siglas em inglês) — o mecanismo simplificado disponível para cidadãos de países
com isenção de visto, válido por dois anos — viram o status da autorização
mudar de "aprovado" para "viagem não autorizada" sem aviso
prévio, poucos dias antes da estreia da seleção.
Scott
Braid, 43 anos, de Kirkcaldy, na Escócia, havia organizado uma viagem para toda
a família depois de ter a ESTA aprovada. "Desde que fiz a ESTA,
absolutamente nada mudou nas minhas circunstâncias", disse à BBC Escócia. Os
irmãos Andrew e Nelson Speirs, também de Kirkcaldy, haviam feito a autorização
em dezembro e recebido aprovação no dia seguinte. Em junho, o status foi
revogado. O custo total da viagem planejada era de £ 10 mil (R$ 68 mil). A
resposta do governo americano foi que o sistema continua verificando
automaticamente todas as autorizações em bancos de dados de segurança, e que
uma ESTA aprovada não garante a entrada no país. Na Argentina, uma empresa
decidiu dar televisores de graça para torcedores que provassem ter o visto
negado — para que pudessem ao menos assistir à Copa de casa.
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Os outros anfitriões e o visto
O
problema não se restringe aos Estados Unidos, que sediará 78 das 104 partidas,
incluindo a final. O Canadá, coanfitrião do
torneio, teve uma taxa geral de rejeição de vistos de 54% em 2025. O país exige
dados biométricos para os pedidos de visto — mas há dois países classificados
para a Copa, Irã e Cabo Verde, onde o Canadá não possui instalações para que os
candidatos sejam escaneados. O México, terceiro anfitrião, não divulga suas
taxas de rejeição. Há oito países classificados para o torneio — entre eles
Cabo Verde, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Senegal e Iraque —
onde o México não tem presença diplomática, impossibilitando que seus cidadãos
sequer solicitem o visto mexicano localmente.
O
Departamento de Estado americano afirmou à BBC estar "preparado para
receber visitantes de todo o globo para a maior e melhor Copa do Mundo da Fifa
da história", e que a maioria dos torcedores estrangeiros não precisaria
do processo especial porque são cidadãos de países com isenção de visto ou já
possuíam uma autorização.
Em
relação às negativas, o governo disse analisar cada pedido "caso a caso,
após revisão rigorosa e triagem minuciosa para determinar se o indivíduo é
elegível segundo a lei americana", e que "em todos os casos,
levaremos o tempo necessário para garantir que o solicitante não represente um
risco à segurança dos Estados Unidos".
A BBC
News Brasil enviou perguntas ao consulado americano no Brasil sobre as taxas de
rejeição de vistos de brasileiros, os tempos médios de espera para entrevistas
e eventuais medidas especiais adotadas para a Copa do Mundo. Até a publicação
desta reportagem, não houve resposta. Raphaela planeja tentar o visto americano
de novo — mas não antes de viajar para a Europa, para construir um histórico de
viagens internacionais. Ela acredita que a ausência de viagens anteriores pode
ter pesado contra ela. De qualquer forma, não será para esta Copa. "Essa
era uma oportunidade única. A gente sabe que isso não vai acontecer de novo.
Nem tão cedo. Perdi a vontade de assistir aos jogos."
Fonte:
BBC News

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