sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ciência aponta para dois tipos de autismo: um com "hiperconectividade" e outro com "hipoconectividade"

Um amplo estudo internacional identificou evidências de que o autismo pode incluir pelo menos dois subtipos biológicos distintos, cada um marcado por uma forma diferente de comunicação entre as regiões do cérebro.

Talvez você já saiba, mas nenhum autista é igual. Todos possuem necessidades e dificuldades diferentes. A descoberta pode representar um passo importante para o desenvolvimento de diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados no futuro.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Italiano de Tecnologia (IIT), do Child Mind Institute, em Nova York, e da Universidade de Trento, sendo publicada na revista científica Nature Neuroscience (link no primeiro parágrafo).

<><> Dois padrões diferentes de comunicação cerebral

Os pesquisadores analisaram exames de ressonância magnética funcional de 940 crianças e jovens adultos com autismo, comparando os resultados com mais de mil indivíduos neurotípicos. Paralelamente, também estudaram 20 modelos de camundongos geneticamente modificados para compreender os mecanismos biológicos por trás das alterações observadas.

A análise revelou dois grupos principais.

O primeiro foi caracterizado pela hipoconectividade, ou seja, uma comunicação reduzida entre diferentes regiões cerebrais. Esse padrão foi associado principalmente a alterações envolvendo as sinapses, estruturas responsáveis pela transmissão de informações entre os neurônios.

Já o segundo grupo apresentou hiperconectividade, caracterizada por uma comunicação acima do normal entre determinadas áreas do cérebro. Nesse caso, os pesquisadores encontraram uma relação mais forte com mecanismos ligados ao sistema imunológico.

Juntos, esses dois subtipos representaram aproximadamente um quarto das pessoas com autismo incluídas no estudo.

<><> Camundongos ajudaram a explicar a biologia do autismo

Um dos diferenciais da pesquisa foi combinar estudos em seres humanos com modelos animais.

Segundo os autores, os experimentos com camundongos permitiram identificar quais alterações genéticas e moleculares estavam relacionadas aos diferentes padrões de conectividade cerebral. Depois disso, essas "assinaturas biológicas" foram comparadas com os exames de imagem dos participantes humanos.

Os mesmos padrões encontrados nos animais também apareceram nas pessoas com autismo, fortalecendo a hipótese de que esses subtipos possuem bases biológicas distintas.

Além disso, análises de expressão gênica mostraram que regiões associadas à hipoconectividade apresentavam maior atividade de genes relacionados às sinapses, enquanto áreas com hiperconectividade exibiam maior participação de genes ligados ao sistema imunológico.

<><> Um caminho para medicina de precisão

Os pesquisadores afirmam que compreender essas diferenças pode ajudar a explicar por que o autismo apresenta manifestações tão variadas entre uma pessoa e outra.

Embora os dois grupos tenham mostrado apenas diferenças modestas nas avaliações clínicas tradicionais, indivíduos com hiperconectividade cerebral tendiam, em média, a apresentar pontuações ligeiramente mais altas nas escalas de gravidade do transtorno.

Para a equipe, isso demonstra que exames baseados na atividade cerebral podem revelar informações que as avaliações comportamentais, sozinhas, nem sempre conseguem identificar.

<><> Ainda podem existir mais tipos de autismo

Os autores ressaltam que esses dois subtipos provavelmente representam apenas parte da diversidade biológica do transtorno do espectro autista.

Com conjuntos de dados maiores e novas pesquisas, outros padrões poderão ser identificados futuramente.

O objetivo é que, no longo prazo, essas descobertas contribuam para uma abordagem de medicina de precisão, na qual o diagnóstico e as intervenções possam ser adaptados de acordo com os mecanismos biológicos predominantes em cada indivíduo, e não apenas pelos sinais comportamentais observados.

•        O orgulho autista começa onde termina a comparação

Junho é reconhecido internacionalmente como o mês do orgulho autista, um movimento que convida a sociedade a enxergar o autismo para além dos diagnósticos, dos estereótipos e das limitações frequentemente associadas à condição. Mais do que celebrar diferenças, essa data nos leva a refletir sobre um dos principais fatores de sofrimento vivenciados por muitas famílias: a comparação constante.

A comparação costuma surgir muito cedo. Pais observam outras crianças da mesma idade e se perguntam por que o filho ainda não fala, não brinca da mesma forma, não faz amigos com facilidade ou não acompanha determinadas expectativas escolares. Embora seja uma reação compreensível, ela pode transformar diferenças legítimas de desenvolvimento em uma fonte permanente de angústia.

Quando uma criança autista é avaliada apenas a partir do que outras crianças fazem, corre-se o risco de enxergar apenas aquilo que lhe falta. Aos poucos, as conversas passam a girar em torno do que precisa ser corrigido, treinado ou alcançado. O foco se desloca das potencialidades para os déficits, das conquistas para as ausências.

Play Video

Essa dinâmica também afeta os pais e muitos carregam um sentimento de inadequação, como se estivessem falhando ao ver o filho seguir um caminho diferente daquele que imaginaram. Quanto mais rígidas as expectativas, maior tende a ser a frustração. E, muitas vezes, a criança percebe esse olhar, sentindo-se constantemente cobrada a ser alguém diferente de quem é.

<><> Orgulho não é negar desafios

Isso não significa ignorar os desafios reais que podem acompanhar o autismo. Algumas pessoas necessitam de apoio significativo em diferentes áreas da vida, e reconhecer essas necessidades é fundamental para garantir qualidade de vida, inclusão e acesso a recursos adequados. O orgulho autista não consiste em negar dificuldades, mas em compreender que elas não definem integralmente uma pessoa.

<><> Neurodiversidade: uma nova perspectiva sobre o desenvolvimento

Nos últimos anos, o conceito de neurodiversidade tem contribuído para ampliar essa compreensão. A ideia parte do princípio de que existem diferentes formas de funcionamento cerebral e que essas diferenças fazem parte da diversidade humana. Na prática, isso significa abandonar a expectativa de que todas as pessoas aprendam, se comuniquem, socializem ou percebam o mundo da mesma maneira.

Quando adotamos essa perspectiva, uma mudança importante acontece. Em vez de perguntar "por que essa criança não faz como as outras?", passamos a perguntar "como ela aprende?", "como ela se comunica?" e "quais são seus pontos fortes?". Essa mudança de olhar não elimina as intervenções necessárias, mas permite que elas sejam construídas a partir do respeito à individualidade e não da tentativa de apagar diferenças.

Muitas pessoas autistas apresentam habilidades notáveis, interesses profundos, criatividade, honestidade, pensamento original e formas únicas de compreender o mundo. Essas características nem sempre são valorizadas quando a atenção está concentrada apenas em comparações e expectativas padronizadas.

O verdadeiro orgulho autista nasce quando entendemos que desenvolvimento não é uma corrida e que valor humano não pode ser medido pela proximidade com um padrão. Ele começa quando deixamos de perguntar o quanto uma pessoa autista se parece com os demais e passamos a reconhecer quem ela é. Afinal, inclusão não significa fazer todos serem iguais. Significa garantir que cada pessoa possa ser respeitada em sua singularidade.

 

Fonte: Xataka.com/CNN Brasil

 

Nenhum comentário: