quinta-feira, 18 de junho de 2026

Direita ou esquerda? Entenda por que o fascismo nasceu contra trabalhadores e comunistas

Me pareceu interessante e importante poder contribuir com a discussão que vem se travando em torno das origens do fascismo. Isso porque constantemente se observa uma distorção dessas origens nas redes sociais, produzindo uma culpabilização constante e costumeira, realizada por apoiadores de candidaturas de direita, principalmente da ultradireita, como os setores libertários e republicanos, contra setores de esquerda.

Isso faz com que constantemente tenhamos que nos referir a este tema com o objetivo de retomar uma verdade histórica que, por mais tergiversada que seja, é baseada em fatos reais e em evidências expostas por meio de estudos realizados pela academia ao longo dos anos.

A primeira coisa que podemos dizer em relação a esse fenômeno político organizado é que, quando falamos de origem, observamos o nascimento de uma política do medo, objetivada na nação e na obediência.

Portanto, perguntar de onde provém o fascismo não é perguntar apenas por Mussolini, Hitler ou os uniformes negros. É perguntar por uma forma histórica de fazer política que transformou o mal-estar social em culto à nação, a insegurança em obediência ao líder e a frustração coletiva em ódio contra inimigos internos e externos.

Quando revemos as fontes, podemos defender uma tese central: o fascismo provém de uma crise profunda da modernidade liberal, mas não nasce simplesmente como um “regresso ao passado”; nasce como uma resposta moderna, violenta e autoritária diante dos conflitos do capitalismo, da democracia de massas, da guerra e do temor à revolução.

Autores como Sternhell, Sznajder e Asheri propõem uma ideia-chave: antes de ser uma força política, o fascismo foi um fenômeno cultural. Seu aparecimento não pode ser entendido sem a rebelião contra o Iluminismo, a Revolução Francesa, o racionalismo, o liberalismo e o universalismo democrático que atravessou a Europa no final do século XIX e início do século XX. É nesse sentido que o fascismo não surge do nada: vai se incubando como uma cultura política alternativa, comunitária, anti-individualista e antirracionalista.

Claramente, isso nos apresenta um dos desafios ou aspectos mais difíceis de compreender: o fascismo não nasceu como uma direita conservadora tradicional. Suas origens mesclam elementos de nacionalismo, sindicalismo revolucionário, crítica ao parlamentarismo, rejeição do liberalismo e culto à ação.

Sternhell o resume como uma síntese entre nacionalismo orgânico e revisão antimaterialista do marxismo: o fascismo rejeita tanto o liberalismo quanto o marxismo, mas toma de ambas as linguagens certos fragmentos para construir uma alternativa total.

Isso explica por que o primeiro fascismo pôde apresentar-se com uma linguagem “revolucionária” e, ao mesmo tempo, agir contra o movimento operário organizado. Não buscava a igualdade social, e sim a integração forçada das classes em uma comunidade nacional hierárquica. Em vez de luta de classes, propunha unidade nacional; em vez de democracia plural, obediência; em vez de deliberação racional, ação, mito e disciplina. Tudo isso como elementos centrais de sua política.

No livro Anatomia do Fascismo (2019), observamos que o fascismo europeu não pode ser separado da Primeira Guerra Mundial. Paxton lembra que o termo fascismo se consolidou na Itália depois da guerra, quando Mussolini o utilizou para nomear um pequeno grupo de ex-soldados nacionalistas e sindicalistas revolucionários partidários da guerra.

Oficialmente, o fascismo nasceu em Milão em 23 de março de 1919, em uma reunião de veteranos, sindicalistas e intelectuais futuristas que se agruparam nos Fasci di Combattimento.

Como consequência do período da guerra, restou algo mais que mortos e ruínas: ficaram gerações acostumadas à violência, ao mando, à disciplina militar e à ideia de que a nação devia ser “regenerada”.

Dogliani mostra que muitos quadros fascistas pertenciam a uma geração marcada pela experiência bélica; jovens que tinham vivido a guerra como prova de identidade, sacrifício e pertencimento.

Nesse contexto, o fascismo transformou a experiência da guerra em um modelo político: a sociedade devia funcionar como uma frente de combate. A política deixou de ser discussão entre adversários e passou a ser guerra contra inimigos.

Então, a ideia de inimigos internos e externos permitiu que prosperasse o objetivo de transformar problemas complexos em relatos simples. A crise econômica, a frustração social, o temor da desordem, o ressentimento contra as elites e o medo da esquerda são traduzidos em uma narrativa emocional: “a nação foi humilhada”, “há inimigos internos”, “a democracia é frágil”, “só um líder forte pode restaurar a ordem”.

O próprio Paxton afirma que o fascismo não deve ser entendido apenas por seus discursos, mas por suas ações: grupos violentos, inimigos do Estado, ascensão ao poder mediante alianças, uso do medo e radicalização uma vez dentro do regime.

Em suas primeiras expressões, o fascismo italiano irrompeu com violência contra o socialismo e contra a legalidade burguesa, em nome de um suposto interesse nacional superior. Pode-se observar aí uma lógica simples e perigosa: quando a sociedade se sente desorientada, o fascismo oferece uma bússola emocional. Mas essa bússola aponta sempre para um inimigo.

Considerando o aspecto da psicologia de massas, podemos ver que Reich, psiquiatra e psicanalista, faz uma pergunta decisiva: por que as massas apoiam movimentos que podem ir contra seus próprios interesses? Para ele, a ideologia não é apenas um conjunto de ideias; torna-se força material quando se enraíza nas massas e se ancora na estrutura psíquica das pessoas.

Nessa perspectiva, o fascismo não se explica unicamente por propaganda ou engano. Também se relaciona com desejos, temores, frustrações e necessidades de pertencimento. Reich analisa como o nazismo conseguiu se enraizar em setores da pequena burguesia golpeados pela crise, inseguros diante da mudança social e atraídos por uma promessa de ordem, prestígio e comunidade.

“Nasce quando setores da sociedade sentem que o mundo se desordena e aceitam trocar liberdade por pertencimento, crítica por obediência e conflito democrático por perseguição do inimigo.”

Para autores como Theodor Adorno, o fascismo não “inventa” do nada as massas autoritárias, mas explora zonas psicológicas já disponíveis. Sua propaganda apela para vínculos identificatórios, para o desejo de submeter-se a uma autoridade forte e para a descarga agressiva contra outros.

O artigo acadêmico de 2022 “Ascenso dos discursos de extrema direita no Chile: uma aproximação a partir da teoria crítica” retoma essa ideia: o fascismo opera desviando energias libidinais e agressivas para objetivos políticos mediante o vínculo emocional com o líder.

Observar a personalidade autoritária, estudada por Adorno e seus colaboradores, ajuda a compreender esse terreno: a submissão à autoridade, o desejo de líderes fortes, a subordinação do indivíduo ao Estado e a tendência a castigar aqueles que aparecem como desviantes da ordem convencional terminam sendo uma consequência da ascensão dos discursos de extrema-direita que mobilizam justamente esses elementos.

Algo que, para mim ao menos, é importante considerar urgentemente é que o fascismo não se conforma em ganhar eleições ou controlar o governo. Busca transformar a sociedade, a cultura, a família, a educação, o tempo livre, o corpo e a memória.

Dogliani, por exemplo, mostra que o fascismo italiano tentou criar “novos italianos” mediante um projeto unitário e autoritário de transformação da sociedade, da mentalidade, dos papéis de gênero, das gerações e da esfera privada. É por isso que o fascismo não deve ser visto apenas como repressão; também é pedagogia política autoritária.

Quer formar sujeitos obedientes, nacionalizados, disciplinados e emocionalmente ligados ao regime. Não basta mandar: é preciso produzir adesão. Traverso acrescenta outro elemento que se vincula a tudo o que foi mencionado: o fascismo nunca se manteve exclusivamente pelo terror; também obteve consenso em setores importantes da população.

Precisamente por isso, é de total relevância compreender que, ao estudar esse fenômeno ideológico, convém ser preciso. O próprio Traverso adverte que chamar de “fascista” qualquer fenômeno autoritário pode obscurecer mais do que esclarecer. Por isso, propõe falar de “pós-fascismo” para nomear movimentos atuais que provêm de uma matriz fascista, mas que não são idênticos ao fascismo clássico do período entre guerras.

Se observarmos a atualidade, veremos que algumas de suas lógicas reapareceram sob novas formas: culto à ordem, construção de inimigos, desprezo pelo pluralismo, nostalgia de uma comunidade nacional pura, rejeição do cosmopolitismo e uso político do medo.

Talvez muitos de nós possamos concordar que o fascismo, como fenômeno ideológico que agrupa setores da ultradireita, provém de uma combinação histórica explosiva: crise social, humilhação nacional, medo da mudança, rejeição da democracia liberal, ódio ao socialismo, culto à violência, desejo de comunidade e necessidade psicológica de autoridade.

Não nasce simplesmente da ignorância, nem apenas da manipulação, nem somente de uma elite. Nasce quando setores da sociedade sentem que o mundo se desordena e aceitam trocar liberdade por pertencimento, crítica por obediência e conflito democrático por perseguição do inimigo.

Para finalizar, parece-me que a pergunta sobre sua origem pode soar, à primeira vista, inocente. Mas, se analisarmos bem, veremos que ela não pertence apenas ao passado. Também obriga a olhar para o presente: cada vez que uma sociedade transforma suas angústias em ódio organizado, cada vez que busca salvadores em vez de instituições, cada vez que confunde comunidade com uniformidade, o velho problema volta a apresentar-se. Não necessariamente como repetição exata, mas como advertência histórica.

É por essa razão que me parece justificável recolocar esse tema no debate público.

•        Direita e esquerda: o bom ladrão e o mau ladrão. Por Jorge Rendón Vásquez

Lembro ainda da animada conversa de um carpinteiro de pequena estatura e cabelo duro cor de palha e o irmão de minha mãe, um desengonçado estudante crônico de direito, conquistado pela poesia. Eram seis da tarde e os operários já tinham saído da oficina. Com olhar cintilante de inteligência e segurança o carpinteiro lhe dizia:

A direita e a esquerda, amigo, nasceram no Gólgota, quando crucificaram a Cristo. Gestas, o mau ladrão, foi colocado à esquerda de Cristo, era o rebelde; e Dimas, o bom ladrão, à direita, quem arrependido, se colocou do lado do poder e ganhou a posterior estima do Cristo. Meu tio murmurou algo e absteve-se de replicar, possivelmente por não encontrar nada em seu provinciano alforje de historia ou porque intuía que neste caso seu habitual interlocutor tinha razão. Anos depois, buscando material para um trabalho de Direito Constitucional na Universidade de San Agustín, achei que a divisão política entre direita e esquerda era mais recente.

Tinha surgido nos debates da Assembleia, durante a Revolução Francesa de 1789. Os partidários do rei Luís XVI se situavam à direita do presidente e seus adversários a esquerda. A direita, portanto, defendia o conservadorismo ou a manutenção da ordem estabelecida, e a esquerda, a mudança. E assim ambas as expressões permaneceram. Mais tarde, esta dicotomia, promovida com um maniqueísmo intencionado, dividiu as opiniões políticas em só dois grandes campos: a direita e a esquerda.

O bipartidarismo: republicanos e democratas; conservadores e liberais, conservadores e social-democratas, reproduz de certa forma essa divisão que facilita sua alternância no poder pelo voto induzido de cidadãos manipulados pela educação e pelo poder mediático. De fato, as demais opções foram excluídas.

Não são compatíveis com o sistema e terminaram por ser digeridas ou eliminadas por esses grupos, ainda que em certos movimentos algumas romperam esses diques artificiais e já se situam em um outro lado.

A partir da década de oitenta do século passado, a direita foi identificada com o neoliberalismo em seus diferentes graus, e a esquerda com a oposição àquele, leve, meio-a-maio ou radical, ainda que salvaguardando o sistema capitalista.

A esquerda, esse tipo de esquerda, no poder colocou em prática medidas neoliberais mais extremas que as acometidas pela direita.

Os que contestam o capitalismo para mudá-lo totalmente foram confinados no campo da ultra-esquerda, onde têm sido minimizado até tornar impossível que alcancem alguma presença na condução do Estado.

No Peru, até a instauração do governo de Velasco Alvarado (1968-1976) as opções políticas eram identificadas pelos nomes dos candidatos à presidência da República, mesmo se fossem lançados por partidos inscritos. A exceção a esta regra eram os partidos Aprista, Comunista e Socialista, que eram qualificados como de centro o primeiro e de esquerda os outros dois.

À velada oposição ao governo de Velas Alvarado por parte dos grupos afetados pela Reforma Agrária e as expropriações de determinadas empresas de importância estratégica para o desenvolvimento econômico, estimulou a formação de certos grupos políticos, alguns dos quais tinham como ideário a revolução social.

Esses grupos brotaram opondo-se ao governo militar de Morales Bermudes e se consolidaram como partidos e movimentos políticos e intervieram nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1978. Neste momento, o Partido Popular Cristão (285 dos votos) era identificado como direita; o Partido Aprista (37%) como de centro; e um conjunto de partidos com propostas difusas, defensores das populações de menores recursos que os elegeu como sendo de esquerda (34%).

Foi o máximo percentual alcançado em eleições pela chamada esquerda. Apesar de suas arapucas, a Constituição de 1979 aprovada por esses movimentos políticos por partes poderia ser classificada como de esquerda.

Daí para frente a esquerda perdeu força. Muitos de seus dirigentes passaram para a direita ou para o establishment, os que ficaram em seus agrupamentos continuaram sem definir um projeto econômico, social, cultural e jurídico, necessário e viável, incapacidade que a maior parte de seus eleitores advertiu e se determinou a abandoná-los, buscando outras opções.

O vazio deixado pela esquerda foi ocupado, desde 1990, por uma nova classe de políticos aventureiros, qualificados por certos meios de comunicação como franco-atiradores. Na realidade são pequenos lobos de direita disfarçados de cordeiros, desvinculados das maiorias oprimidas, postergadas e desprezadas, são aproveitas pela cúpula do Partido Aprista lançando-lhes promessa vã.

É o ciclo dos Fujimori, Toledo, Garcia e Humala e suas hostes parlamentares cujas candidaturas foram compradas. Uma vez no pode do Estado, todos eles, despojando-se de seus disfarces populares, têm governo sem escrúpulos para o capitalismo e a corrupção, contra a cidadania que os elegeu.

A direita econômica e política e os interesses estrangeiros preferem a esses tripas pela eficiência com que fazem o trabalho sujo. Diante deles, os grupos de esquerda residual estão se reduzindo cada vez mais e já não conseguem alcançar representação nacional, salvo alguns de seus dirigentes que como franco-atiradores conseguiram um lugar no parlamento.Certo número de dirigentes de esquerda, que puderam chegar ao controle de governos regionais e municipais e de algumas universidades, também se alinharam com o neoliberalismo e a corrupção.

A vigilância da Promotoria e do Ministério Público se concentra sobre estes e é cega e surda diante dos políticos e funcionário da direita, com alguns que foram pegos com a mão na massa. Observando este panorama, volto à elucubração do carpinteiro e não a vejo tão fantasiosa. Os bons ladrões, ou seja, os mais hábeis na depredação do país, na exploração dos trabalhadores, na corrupção e evasão de sua responsabilidade civil, administrativa e penal, pertencem à direita.

Os maus ladrões, que imitam os outros e se deixam apanhar, estão na esquerda. E as maiorias sociais, para as quais se dirigem de novo os políticos de direita, os aventureiros e os improvisados conglomerados de esquerda, em vésperas das eleições do próximo ano, continuam sem ter aprendido essas sinistras lições da história.

Creio que vemos assim temos a obrigação moral de construir outra opção dialética, factível, leal, esperançosa e propôr-la.

 

Fonte: Por Gabriel Claussen, no El Quinto Poder - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global

 

Nenhum comentário: