terça-feira, 16 de junho de 2026

Antes do Master, Vorcaro deu calote de R$ 1 milhão em advogados e ficou com nome sujo no Serasa

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro começou a ter problemas com a Justiça brasileira antes da investigação das fraudes relacionadas ao Banco Master. Em 2014, ele chegou a ficar com o nome sujo no Serasa por conta de uma dívida de mais de R$ 1 milhão com um escritório de advocacia.

As empresas Multipar Empreendimentos e Participações, Cesto Incorporadora S.A e Eukaryota Participações S/A, geridas pela família Vorcaro, não pagaram um escritório de advocacia depois de contratarem o serviço de consultoria para a construção de um prédio, o Golden Trip, em Belo Horizonte (MG). O processo decorrente do calote cita também Daniel Vorcaro e seu pai, Henrique Vorcaro.

Daniel Vorcaro assumiu o controle do antigo Banco Máxima em 2018, rebatizando-o para Banco Master. A instituição e outras empresas do conglomerado foram liquidadas extrajudicialmente pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.

O ex-banqueiro está preso e o alvo principal da operação Compliance Zero, que investiga atos de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, entre outros crimes, com foco principal no Banco Master. Ele negocia um acordo de delação premiada com a PF (Polícia Federal) e a PGR (Procuradoria-Geral da República).

<><> Vorcaro não cumpriu acordo com escritório de advocacia

Anos antes, em 2010, o grupo de empresas da família Vorcaro assinou um contrato com o escritório Guimarães & Vieira de Mello Advogados no valor de R$ 800 mil. O escritório aceitou diferentes prazos de pagamento e fez dois acordos judiciais para quitação das pendências. Sem sucesso, o valor da dívida cresceu de R$ 800 mil para R$ 1,05 milhão por conta dos juros do não pagamento da dívida e da assinatura de um contrato adicional.

As empresas da família chegaram a renegociar a dívida e propuseram o pagamento em três parcelas. O escritório de advogados aceitou. Daniel Vorcaro pagou somente a primeira parcela, uma em novembro de 2014 de R$ 500 mil, e deixaram de transferir as outras duas de R$ 360 mil cada, uma em dezembro de 2014 e a outra prevista para janeiro de 2015.

O escritório então pediu o bloqueio de bens de Daniel e Henrique Vorcaro e das companhias dos dois. A Justiça de Minas Gerais chegou a reter R$ 72 mil das contas bancárias dos envolvidos, quantia insuficiente para o pagamento de toda a dívida. A Justiça em primeira e segunda instância, contudo, não autorizou o levantamento dos bens da família para um possível bloqueio.

<><> Família Vorcaro chegou a pedir a anulação do processo

A resposta da família Vorcaro foi entrar com uma ação na Justiça para pedir o cancelamento do contrato de prestação de serviço. A defesa de Vorcaro afirmou que os advogados contratados não realizaram o serviço de maneira apropriada, o que demandou a procura de outro escritório para finalizar o trabalho. A família também disse que o escritório se aproveitou da situação de “fragilidade” financeira das empresas de Vorcaro para pressionar o pagamento da dívida e alegou que duas transferências foram feitas, uma de R$ 59 mil e outra de R$ 500 mil.

“A depender do cumprimento do GVM para com suas obrigações contratuais, o Empreendimento estaria hoje ainda em fase inicial. Ou seja, o descumprimento contratual por parte do GVM, que não executou quaisquer dos atos para os quais fora contratado, desencadeou inevitável descumprimento de vários contratos envolvidos com o Empreendimento, também por parte dos Autores, em decorrência da ausência de captação de fundos para o Empreendimento”, diz a defesa de Vorcaro.

De acordo com a família, os advogados contratados sabiam que deixar o nome de Daniel Vorcaro no Serasa dificultaria o acesso ao crédito e então a finalização do empreendimento imobiliário. Na visão de Vorcaro, os advogados agiram de má-fé.

A Serasa é uma empresa privada de análise e informações de crédito, que funciona como um banco de dados financeiro. Ela reúne informações sobre o histórico de pagamentos de consumidores e empresas, ajudando o mercado a avaliar o risco na concessão de empréstimos, financiamentos e cartões.

Em março de 2013, a Cesto Participações S.A, empresa da família Vorcaro responsável pelo prédio, emitiu seis “cédulas de créditos imobiliários” no valor total de R$ 103 milhões, com o pagamento em 90 parcelas, com vencimento para maio de 2021. Para a finalização do empreendimento era necessário que os nomes de todas as pessoas e empresas envolvidas não tivessem qualquer dívida.

A defesa de Vorcaro alega que eles aceitaram o acordo para o pagamento da dívida porque estavam pressionados por conta dos investimentos feitos de R$ 103 milhões.

O nome de Vorcaro no Serasa também atrapalhou a criação de um fundo imobiliário para finalizar o empreendimento. Na época, as empresas da família dialogavam com a Caixa Econômica Federal para conseguir um aporte para o negócio.

<><> Os advogados contratados se referiram ao gesto da família de Vorcaro como um “calote”

“E já que o objetivo dos agravados era perpetuar o ‘calote’ por eles perpetrado, não poderiam deixar de pedir uma liminar, naquela ação, buscando a suspensão da execução movida pelo Agravante”, diz o texto.

A Justiça, em primeira e em segunda instância, não concordou com os argumentos apresentados pela família de Daniel Vorcaro, não anulou o acordo e destacou a experiência da família Vorcaro no mercado.

“Ademais, a alegação da existência de nulidade nos termos do acordo judicial, em razão da verificação de vício de coação, não pode ser acatada em sede liminar, já que os Agravantes são pessoas experimentadas no mundo dos negócios, lidando constantemente com as pressões financeiras decorrentes de suas atividades negociais, sendo improvável que tenham sido coagidos a celebrar o acordo judicial impugnado na presente demanda”, afirmou.

A documentação acessada pela Alma Preta e ICL Notícias não informa qual foi a conclusão da disputa judicial. Procurado por telefone e por e-mail, o escritório de advocacia GVM Advogados não respondeu ao pedido de comentário da reportagem. A assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro também não se manifestou.

•        Após fracasso em delação, PF suspeita que Vorcaro aposta em vitória de Flávio Bolsonaro

As sucessivas idas e vindas do empresário Daniel Vorcaro nas negociações para um acordo de colaboração premiada passaram a despertar desconfiança entre membros da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal. Segundo relatos obtidos pelo ICL Notícias, cresce a avaliação de que as tentativas de delação podem estar sendo utilizadas como estratégia para prolongar as negociações enquanto o empresário observa a evolução do cenário eleitoral do país. A avaliação do banqueiro seria de que uma vitória de Flávio Bolsonaro o livraria da cadeia.

A leitura ganhou força após a avaliação de integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República de que as informações apresentadas por Vorcaro em suas mais recentes investidas não trouxeram fatos inéditos capazes de justificar o avanço de um acordo de colaboração.

Segundo fontes com conhecimento das discussões em torno do caso, a percepção é que Vorcaro pode estar apostando no fator tempo. Mudanças futuras no ambiente político  poderiam alterar as condições de negociação ou até mesmo o contexto em que os processos serão julgados.

O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirma compartilhar essa interpretação.

“Ele tem dois caminhos: fazer agora uma delação e denunciar aqueles que o enriqueceram ou esconder isso agora e esperar que essas pessoas tenham poder no futuro para não condená-lo. Eu acho que ele, por ora, faz essa segunda opção e espera o processo eleitoral”, disse o parlamentar ao ICL Notícias.

Na mesma linha, o deputado federal Rogério Correia afirma que a trajetória do Banco Master e as relações construídas por Vorcaro ao longo dos últimos anos ajudam a explicar essa expectativa.

“O Banco Master é, de fato, um BolsoMaster. Isso não é só um nome, mas um conceito. Foi um banco feito para que você pudesse ter acesso a muitos recursos e, a partir dele, compromisso com o bolsonarismo”, afirmou.

Para o parlamentar, Vorcaro teria razões para acreditar que uma eventual mudança de cenário político poderia beneficiá-lo no futuro.

“Ele tem dois caminhos: fazer agora uma delação e denunciar aqueles que o enriqueceram ou esconder agora e esperar que estes tenham poder no futuro para não condená-lo”, acrescentou.

O deputado federal Tarcísio Motta (PSOL-RJ) também considera plausível que fatores políticos e eleitorais estejam influenciando a estratégia adotada pelo empresário.

“Eu acho que essa interpretação faz todo sentido. Não imagino que uma delação de um cara com tantas vinculações com o andar de cima do poder não tenha alguma interferência do cenário político eleitoral”, afirmou ao ICL Notícias.

Segundo o parlamentar, as movimentações de Vorcaro podem estar relacionadas à expectativa de mudanças futuras no ambiente político e institucional.

“Eu acho super possível que haja uma interferência política eleitoral e que o mercado esteja tentando fazer cálculos com as movimentações eleitorais no Brasil”, disse.

<><> Relações políticas

A avaliação dos parlamentares ocorre em meio a uma série de elementos que reforçam a proximidade histórica entre Vorcaro e setores do bolsonarismo.

O empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, foi o maior doador individual da campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022. Sozinho, Zettel destinou R$ 3 milhões à tentativa de reeleição do então presidente. No mesmo pleito, também repassou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo, totalizando R$ 5 milhões em doações eleitorais.

Vorcaro também aparece no centro das discussões envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, produção ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O projeto passou a ser alvo de questionamentos após a revelação de aportes associados ao empresário e a estruturas financeiras que vêm sendo analisadas por autoridades brasileiras e estrangeiras.

Também foi durante o governo Bolsonaro que Vorcaro obteve autorização para assumir o controle do então Banco Máxima, posteriormente rebatizado como Banco Master.

O negócio havia encontrado resistência inicial no Banco Central. Em fevereiro de 2019, ainda sob a gestão de Ilan Goldfajn, a operação foi barrada em razão de pendências envolvendo o empresário. O cenário mudou meses depois. Em outubro daquele mesmo ano, já durante o governo Jair Bolsonaro e sob uma nova composição da diretoria da autoridade monetária, a aquisição foi aprovada, permitindo que Vorcaro assumisse o controle da instituição que mais tarde se tornaria o Banco Master.

Para fontes que acompanham o caso, esse histórico de relações políticas ajuda a explicar por que parte dos envolvidos passou a enxergar as movimentações recentes de Vorcaro com maior cautela.

Essa percepção ganhou ainda mais força após o esfriamento das negociações de colaboração. Fontes ligadas ao caso afirmam que nem mesmo a perspectiva de recuperação financeira por meio do acordo desperta hoje o mesmo interesse que existia anteriormente na Procuradoria-Geral da República.

Nesse contexto, fontes que acompanham o caso passaram a considerar que as vantagens de uma eventual delação diminuíram significativamente, ao mesmo tempo em que aumentou a percepção de que as sucessivas negociações podem estar servindo mais para ganhar tempo do que para efetivamente colaborar com as autoridades.

•        Mario Frias esteve nas gravações de Dark Horse e na Câmara no mesmo dia, diz documentos

deputado federal e ator Mario Frias (PL-SP) teria cumprido duas agendas simultâneas em cidades diferentes. Segundo documentos obtidos pela Folha, ele esteve escalado no fim do ano passado, para participar de gravações, em São Paulo, do filme “Dark Horse”, como ator, no mesmo dia em que registrou presença em uma sessão presencial da Câmara dos Deputados, em Brasília.

Além de atuar como produtor-executivo do filme, Frias interpretou o médico Dr. Álvaro, personagem inspirado em um dos profissionais que atenderam Bolsonaro após o atentado sofrido durante a campanha presidencial de 2018, em Juiz de Fora (MG).

Segundo cronogramas da produção, o parlamentar estava escalado para gravar duas cenas no dia 25 de novembro do ano passado, em um hospital localizado na zona sul de São Paulo. O documento prevê sua chegada ao local às 9h30, com filmagens programadas entre 11h e 15h.

Na mesma data, ocorreu uma sessão deliberativa presencial da Câmara dos Deputados, em Brasília, marcada para as 15h. Registros da Casa apontam Frias registrado entre os parlamentares presentes. Conforme imagens da TV Câmara, a sessão teve início às 15h23 e foi encerrada às 20h51.

<><> Presença frequente nas gravações

Pessoas que trabalharam diariamente na produção de Dark Horse, ouvidas sob condição de anonimato, afirmam que Frias esteve presente nos sets de filmagem em São Paulo durante boa parte do período entre 20 de outubro e 7 de dezembro do ano passado. Segundo os relatos, houve ocasiões em que ele teria chegado ao local utilizando carro oficial.

Os documentos da produção também revelam um detalhe relacionado à função exercida pelo deputado no filme. Embora seu nome não apareça visivelmente como produtor-executivo nas ordens do dia, a informação pode ser identificada ao selecionar o texto digital dos arquivos. O nome e o cargo estariam registrados em fonte branca, tornando-os invisíveis na visualização convencional.

Em alguns cronogramas, ao lado do nome de Frias, aparece ainda a sigla “O/C” (“on call”), utilizada no setor audiovisual para indicar que o profissional permanece de sobreaviso e pode ser convocado a qualquer momento para participar das gravações.

<><> Missões oficiais e sessões remotas

Uma análise da agenda parlamentar de Mario Frias entre outubro e dezembro mostra que o período de filmagens coincidiu com uma rotina legislativa que permitia ausências frequentes de Brasília.

Durante o intervalo, o deputado foi autorizado pela Câmara a se afastar por duas semanas para cumprir missões oficiais. Procurada, a Casa informou que não registra detalhes de viagens que não geram despesas para o Legislativo, motivo pelo qual não há informações públicas sobre os destinos, datas ou horários dos deslocamentos realizados.

Além disso, em grande parte dos dias em que houve atividades legislativas, as sessões ocorreram em formato semipresencial, permitindo que parlamentares votassem remotamente e fossem contabilizados como presentes mesmo fora da capital federal.

De acordo com o levantamento, durante todo o período das gravações de Dark Horse em São Paulo, apenas dois dias de novembro e dois dias de dezembro exigiram presença física obrigatória dos deputados no Congresso Nacional.

 

Fonte: ICL Notícias/Fórum

 

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