A
aposta do Brasil nos 'coletes inteligentes' para voltar a brilhar na Copa do
Mundo
Todos
sabem que o Brasil é o país que mais venceu Copas do Mundo até hoje.
São
cinco títulos e gerações de lendas do futebol, que consolidaram a reputação do
Brasil como eterno favorito, em todo início de Copa, a cada quatro anos.
Mas,
depois da decepção dos últimos cinco torneios, a seleção brasileira recorreu à
tecnologia para tentar sair com vantagem em 2026.
Nos
bastidores das preparações, cientistas do esporte vêm acompanhando seus atletas
usando tecnologia vestível, para monitorar todos os aspectos, desde a sua
velocidade e batimentos cardíacos até os níveis de cansaço e recuperação de
lesões.
O
objetivo é um só: fornecer ao técnico da seleção, Carlo Ancelotti, e sua equipe
o máximo de informações possível para ajudar na tomada de decisões que poderão
definir o destino do Brasil na Copa do Mundo.
A
estreia do Brasil contra o Marrocos se aproxima. E aqui mostramos como os dados
coletados ajudam a seleção a se preparar para este momento.
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Os coletes vestíveis
A
maioria dos jogadores profissionais brasileiros usa "coletes
inteligentes", equipados com sensores. Eles se parecem mais com um sutiã
esportivo, usado embaixo da camisa.
Os
jogadores usam os coletes nos treinamentos e nas partidas disputadas pelos seus
clubes em toda a temporada. Eles geram dados detalhados sobre sua movimentação,
seu desempenho e sua recuperação de lesões, se for o caso.
Esta
tecnologia sofreu rápidos avanços na última década e a maioria das seleções que
disputam a Copa do Mundo utiliza os mesmos sistemas de rastreamento eletrônico
de desempenho.
Mas o
Brasil integrou extensamente o monitoramento dos seus jogadores às suas equipes
masculinas, femininas e categorias inferiores.
As
informações coletadas pelos clubes individuais sobre seus atletas são
retransmitidas para o departamento de ciência do esporte da seleção nacional.
Os
dados permitem que os técnicos monitorem seus jogadores por toda a temporada,
enquanto se preparam para suas apresentações internacionais.
"Todos
os dias, quando não estamos com os jogadores, nós nos comunicamos com os clubes
e eles nos enviam as informações do sistema de rastreamento sobre os
jogadores", explica o fisiologista e cientista do esporte da seleção,
Guilherme Passos.
"Por
isso, é fácil integrá-los ao nosso banco de dados e analisar os jogadores,
quando eles não estão conosco."
Como
muitos dos atletas monitorados jogam no exterior, este procedimento ajuda a
superar um desafio único.
Ao
contrário dos treinadores dos clubes, a equipe técnica das seleções nacionais
passa pouco tempo com seus astros, pois muitos deles disputam diferentes
campeonatos, até mesmo em outros continentes.
Por
isso, fica muito difícil comparar o desempenho de cada um e avaliar os talentos
necessários para formar uma equipe com potencial de vencer a Copa do Mundo.
Mas a
tecnologia de monitoramento permite que a equipe técnica brasileira acompanhe
eficientemente os atletas, mesmo que eles estejam a milhares de quilômetros de
distância.
"Sabemos
exatamente onde estão os jogadores neste processo de transição", explica
Passos.
Esta
visibilidade é uma vantagem na preparação para os principais torneios.
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A escolha dos jogadores
A
escolha e a definição dos jogadores, suas posições e funções táticas são
definidas, em grande parte, com base nos dados coletados ao longo do ano.
Alguns
jogadores também chegam com lesões ou retornando de programas de reabilitação.
Outros podem sofrer cargas de trabalho altas demais nos seus clubes.
Uma das
aplicações mais importantes destes sistemas de monitoramento envolve o
acompanhamento da recuperação de lesões dos músculos da coxa, um problema comum
no futebol de elite.
Acompanhando
dados como a potência e o rendimento dos jogadores em alta velocidade, os
cientistas do esporte podem avaliar se um jogador poderá se recuperar com
segurança de eventuais lesões, explica Passos.
"No
caso de um jogador de alta velocidade, é muito importante acompanhar esta
avaliação", segundo o fisiologista. "São pequenas medidas para
garantir a recuperação completa do músculo."
Os
dados também podem influenciar decisões táticas.
Um
jogador particularmente rápido pode jogar bem na ponta, por exemplo. E as
avaliações de recuperação podem ajudar a decidir se um determinado atleta deve
começar um jogo ou entrar no decorrer da partida.
"Se
você tiver um jogador muito rápido, o técnico talvez pense em usá-lo em um
estilo que favoreça o contra-ataque", exemplifica Passos.
A
questão não é só de preparação. Os coletes inteligentes continuarão sendo
usados em toda a Copa do Mundo, fornecendo dados ao vivo durante os jogos,
normalmente realizados com poucos dias de intervalo.
Acompanhar
o cansaço e a recuperação dos atletas ajudará a equipe técnica a identificar
quem está pronto para jogar na próxima partida e quem precisará descansar um
pouco mais.
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O teste da tecnologia em Boston
Estivemos
filmando nos Estados Unidos para uma série de TV da BBC que mostrou a
tecnologia de ponta empregada pelos jogadores de futebol profissionais pelos
estádios e pelos torcedores na Copa do Mundo.
O
apresentador Paul Carter foi convidado a testar um colete inteligente fabricado
pela companhia de tecnologia esportiva Catapult. A empresa trabalha com
diversas seleções que disputam a Copa deste ano, incluindo a do Brasil.
O
colete é leve e contém eletrodos que acompanham os batimentos cardíacos dentro
das suas costuras, além de um dispositivo de GPS dentro de um bolso.
Para
avaliar seu desempenho, Carter realizou um treinamento com a equipe do Boston
Legacy, que disputa a National Women's Soccer League (NWSL), o principal
campeonato americano de futebol feminino.
Após
uma série de exercícios e sprints, os técnicos analisaram seu desempenho.
Quando os batimentos cardíacos atingiram 177 por minuto, seus resultados foram
muito modestos.
O mais
surpreendente foi a avaliação conhecida como "carga do jogador". Ela
revela quanto estresse físico ele gerou durante o treino.
Em
comparação com um jogador de elite, Carter produziu muito mais carga por
distância coberta. Em outras palavras, ele dispendeu muito mais esforço e se
movimentou com muito menos eficiência.
Uma
possível carreira profissional para o nosso apresentador, sem sombra de dúvida,
está fora de cogitação.
Para o
diretor de saúde e desempenho do Boston Legacy, Dan Jones, o monitoramento
ajuda a equipe técnica a forçar suas jogadoras até o limite durante o
treinamento, mas protegendo-as contra lesões.
"Existem
momentos nos treinos em que observamos que estamos conseguindo menos volume ou
condição física do que o planejado", explica ele. Nestes casos, a equipe
de ciência do esporte pode recomendar discretamente o prolongamento de um
treino, para atingir os resultados desejados.
Em um
jogo recente, o Boston Legacy monitorava uma jogadora que estava retornando de
uma lesão.
A
equipe técnica calculou um limite de atividade em alta velocidade que fosse
seguro para o seu programa de reabilitação. E os seus números foram avaliados
em tempo real, ao longo de toda a partida.
"Quando
ela atingiu o limite, alertamos os técnicos que deveríamos pensar em uma
substituição em breve", conta o técnico. "Nós a retiramos de
campo."
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A decisão é dos técnicos
O
futebol depende cada vez mais da tecnologia. Mas um dos principais equívocos
sobre os métodos analíticos modernos é pensar que a maior quantidade de dados
gera automaticamente melhores decisões.
A
realidade é muito mais complexa. Guilherme Passos menciona um exemplo que
permanece na sua memória.
Usando
dados de rastreamento, ele identificou um jogador que corria apenas cerca de 6
km durante suas partidas. Muitos dos seus colegas de equipe corriam
aproximadamente o dobro daquela distância.
Observando
simplesmente os números, aquele jogador parecia ter um desempenho abaixo do
normal. Mas, quando os técnicos revisaram as imagens, eles descobriram algo
completamente diferente.
"Aquele
jogador específico estava sempre no ponto certo, na posição tática
perfeita", explica Passos. "Ele era um jogador muito eficiente."
Ele
mantém a identidade do jogador em segredo, para não revelar informações táticas
cruciais pouco antes da Copa do Mundo.
Os
cientistas do esporte enfatizam cada vez mais esta lição: o futebol não é
atletismo. Correr mais não significa, necessariamente, jogar melhor.
Um
jogador com excelentes avaliações físicas pode, ainda assim, ser a escolha
errada para um sistema tático específico. Excelência no posicionamento, tomada
de decisões ou liderança podem ser qualidades que definem a carreira de um
jogador.
E é
preciso também considerar a psicologia do jogo.
"Às
vezes, podemos nos surpreender com dados muito bons sobre o desempenho físico
de um jogador", prossegue Passos.
"Mas
o técnico pode decidir não convocá-lo por não acreditar que ele, técnica e
mentalmente, possa ter bom desempenho no seu estilo de jogo."
As
ferramentas de análise de desempenho dos jogadores e a inteligência artificial
continuam em desenvolvimento. Com isso, a quantidade de informações disponíveis
para os treinadores só tende a aumentar.
Na Copa
do Mundo de 2026, o assistente de futebol alimentado por IA desenvolvido pela
Fifa e pela Lenovo também ajuda a fornecer feedback imediato aos técnicos e
jogadores das seleções.
Conhecido
como Football AI Pro, ele analisa milhões de dados, usando aprendizado de
máquina e processamento de linguagem natural.
Mas,
apesar da revolução tecnológica no futebol, a equipe técnica brasileira
acredita que o fator decisivo ainda é o mesmo: o julgamento humano.
"Quem
faz a principal diferença são as pessoas especializadas por trás da tecnologia,
que analisam os dados e os traduzem em decisões práticas", explica Passos.
Para o
país mais vitorioso do futebol mundial, a tecnologia inteligente pode ajudar
seu técnico a colocar nos campos da Copa do Mundo o que ele acredita ser o seu
melhor time.
Mas o
que irá decidir quem leva a vitória continuará sendo o desempenho dos jogadores
em campo.
Fonte:
BBC Future

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