Além
dos identitarismos
Este
artigo quer advogar a tese segundo a qual a crítica aos identitarismos de
direita e de esquerda pode ser feita tanto à luz da Teoria crítica marxista,
quanto pela perspectiva do que chamaremos de “filosofia política da diferença”.
Seu objetivo é encetar críticas simultaneamente epistêmicas e políticas aos
conceitos de subjetividade e identidade, e ao modo como a modernidade
filosófica europeia compreende a “metafísica da subjetividade”. Seu objetivo é
colaborar com o debate atual sobre o tema do identitarismo.
Há
quase uma década, as questões que trouxeram à atual polêmica sobre os
identitarismos vieram à baila na disputa entre feminismo liberal e feminismo
marxista. Esse período coincide com a assunção de um vocabulário político por
parte de minorias progressistas que, claramente, opera um “recuo de classe” em
relação ao modo como essas pautas vinham sendo desenvolvidas e discutidas no
século XX.
Tomando
como exemplo o movimento feminista da “segunda onda” (período em que o
feminismo negro teve evidente destaque, pelo menos desde o Manifesto Combahee
River), já podemos identificar por parte de autoras marxistas, como Margareth
Benston (1969), um chamamento a que o movimento feminista voltasse a incluir a
questão de gênero nos quadros de uma “economia política”, a qual devolveria a
essas discussões uma base materialista, organizada em torno do trabalho
reprodutivo doméstico feminino e pelo determinante da origem de classe.
Em
1986, Ellen Wood publica O recuo da classe: um novo socialismo “verdadeiro”,
com o qual buscou responder às críticas de autores pós-estruturalistas. Escrito
durante o auge do thatcherismo no Reino Unido, e vencedor do Isaac Deutscher
Memorial Prize, esse livro buscava refletir sobre os desafios impostos pelo
avanço do neoliberalismo à esquerda da época: fosse a acadêmica ou a do
ativismo social. Autores com formação no materialismo histórico-dialético, como
Ernesto Laclau e Nicos Poulantzas, foram então acusados de “recuarem” da
análise de classe ao enfatizarem a autonomia absoluta da política e da
ideologia.
Ora,
Ellen Wood argumenta que a política socialista não pode ser dissociada da luta
de classes e nem das condições materiais de produção, e que, portanto, apenas
uma reavaliação da política de classes seria capaz de realizar, num mundo
pós-soviético, um contraponto necessário à aceitação do capitalismo como
destino histórico irrecorrível.
Instada
ao debate, Joanne Naiman publica em 1996 pela Monthly Review o artigo “O
feminismo de esquerda e o retorno à questão de classe”, no qual reafirma os
argumentos de Ellen Wood, agora trazidos para uma discussão claramente
feminista, onde o objetivo era revelar a dissociação realizada entre política
de gênero e luta de classes por teorias feministas pós-estruturalistas. É
preciso observar que a tentativa de fazer do gênero um campo autônomo de
estudo, tal como realizada pela Teoria Queer em suas origens, por exemplo, veio
de mãos dadas com a ascensão do feminismo liberal e do avanço do próprio
neoliberalismo como modo-de-produção, visão de mundo e modo de vida do
capitalismo tardio.
Assim,
testemunhamos na academia os ecos da afirmação feita pela “dama-de-ferro”
Margaret Tatcher em 1987, em consonância com o espírito de época, marcado pelo
colapso do socialismo soviético, de que “Não existe sociedade, apenas
indivíduos e famílias” sobre a formulação de teorias políticas pós-modernas.
A
interpretação de que o tecido social se encontra ontologicamente atomizado,
juntamente com a ascensão do hiper individualismo em chave neoliberal, formam o
background histórico-político tanto de teorias políticas pós-marxistas, como de
movimentos sociais progressistas de defesa dos direitos das minorias, aí
incluídos os feminismos e os movimentos antirracistas. Esse cenário tornava
fundamental que as autoras representantes de um feminismo progressista e
marxista buscassem responder à altura aos pós-estruturalistas.
Ou
seja, pelo menos desde o fim dos anos sessenta do século passado, com ênfase no
período pós-soviético da afirmação do Fim da história, vemos surgir a polêmica
entre as teorias materialistas e aquelas que pautam as mais diferentes
“políticas de identidade”. A questão que nós fazemos é: é compreensível que,
hodiernamente, as políticas de identidade tenham se hegemonizado nos movimentos
políticos posicionados à direita, mas o que explica que ela também esteja
presente em lutas travadas por setores importantes da esquerda progressista,
movimento que na atual conjuntura vem sendo denominado como “identitarismo de
esquerda”? Vejamos.
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A esquerda identitária e a cultura do cancelamento
Setores
progressistas críticos ao identitarismo protofascista vivenciam um cenário de
impotência diante da apropriação por setores da esquerda progressista de tais
políticas de identidade, que produzem o esfacelamento de qualquer práxis
coletiva. Ao nosso ver, tal fato se deve a dois fatores, dos quais o segundo
deriva do primeiro: (i) ao mimetismo cultural da cultura política dos
movimentos de minoria estadunidenses, que insistem em pensar a vida política
pelas lentes da afirmação das identidades individuais ou de grupos.
(ii) À
incapacidade das esquerdas (sitiadas pelo neoliberalismo) de produzir um
imaginário político que transcenda o horizonte ético-político posto pelo
capitalismo, a saber, aquele baseado na reafirmação das identidades individuais
ou de grupos, cujos autointeresses ou se enfrentam na arena do mercado, ou são
mediados por políticas de Estado.
Em seu
ensaio de 2013, intitulado Exiting the Vampire Castle, o filósofo e crítico
cultural marxista Mark Fisher anteviu o que estamos vivendo plenamente nos dias
atuais: o empobrecimento dos modos de comunicação, fruto, simultaneamente, da
deriva no mundo digital, da ascensão da esquerda identitária e da cultura do
cancelamento. Segundo Mark Fisher, afastada de sua potência libidinal, a
esquerda que emerge em nosso século teria se perdido no narcisismo das pequenas
diferenças, no moralismo e na incapacidade de olhar além do seu próprio umbigo.
Mark
Fisher observa esse movimento na política do Reino Unido, na qual identifica
uma esquerda ultra-posh (ultra esnobe), que abdica de qualquer contribuição
criativa para o cenário político para manter-se numa posição moralista de
julgadora dos seus desafetos, sobretudo nos ambientes digitais. Essa esquerda
cresce no caldo de cultura legado pela comunicação digital e seu esvaziamento
político pela economia dos “likes”, pelo esvaziamento afetivo de suas
proposições e pelo gozo com a cultura do cancelamento.
Mark
Fisher também salienta que esse caldo de cultura é próprio de um tipo de práxis
política que não investe mais na imaginação de “outros mundos possíveis”, ou em
estratégias para evadir o “castelo dos vampiros”, mas, pelo contrário, perde
sua energia criadora apostando na arena do combate virtual, cuja principal
consequência é o derretimento dos laços de solidariedade entre os mais
vulneráveis e os movimentos das minorias.
É
preciso enfatizar com Mark Fisher que esses sujeitos “foram autorizados a
prosperar pelo capital porque servem aos seus interesses”. Ao abandonarem o
imperativo da luta de classes, esses movimentos decompõem a “consciência de
classe”, “subjugando viciosamente os sindicatos e seduzindo as famílias
trabalhadoras a se identificarem apenas com seus interesses ao invés dos
interesses da classe mais ampla”. Assim, vemos grassar uma esquerda que
substitui a política de classe por um “individualismo moralizante” que se gaba
de sua superioridade moral.
Então,
pergunta Mark Fisher, “o que podemos fazer agora? Em primeiro lugar, é
imperativo rejeitar o identitarismo e reconhecer que não há identidades, apenas
desejos, interesses e identificações”. O identitarismo de esquerda não pretende
popularizar uma posição de esquerda ou conquistar pessoas em nome dela, mas
sim, permanecer em uma posição de superioridade de elite: “Como você se atreve
a falar – somos nós que falamos por aqueles que sofrem!” A cultura do
cancelamento, assimilada por setores progressistas colabora com a interdição do
debate, impedindo que “o desacordo possa ocorrer sem medo de exclusão e
excomunhão”. O objetivo não é ser um ativista, “mas ajudar a classe operária a
ativar e se transformar”. Porque “fora do castelo dos vampiros, tudo é possível”,
inclusive outros mundos.
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A filosofia política da diferença
Quando
Mark Fisher afirma que é necessário “reconhecer que não há identidades, apenas
desejos, interesses e identificações”, ele está enfatizando que, afora
pertencer a uma classe social, todos os demais predicativos de um indivíduo não
passam de modos de identificação, sem comporem jamais uma identidade. Por
caminhos diversos, o crítico cultural marxista está fazendo o mesmo que Ellen
Wood e Joanne Naiman fizeram à época em que protagonizaram o debate contra o
fenômeno do “recuo de classe” por parte do feminismo liberal.
Também
consideramos importante ressaltar que, na elaboração de Mark Fisher, o conceito
de subjetividade como uma identidade integral de um indivíduo consigo mesmo não
se revela mais capaz de traduzir o modo como a “realidade humana” se dá no
mundo, nem tampouco os modos de agenciamento de uma práxis coletiva (alguns
chamariam de “a classe trabalhadora”, outros de “bloco histórico”, outros ainda
de “multidão”, ou, como preferiu o autor de Revolução molecular, os devires dos
“grupelhos”) quando sabemos que a ação coletiva é a única capaz de viabilizar a
saída do castelo dos vampiros.
É nessa
medida que, no lugar de identidades fixas, esses autores falarão de
identificações momentâneas, parciais e epocais, e em “política de alianças”. A
esses autores interessa, antes, encetar um novo léxico político ancorado nos
conceitos de biopoder e biopotência, usados no lugar dos conceitos
funcionalistas de agência e estrutura. Quando um autor como Félix Guattari
assume e leva adiante o conceito foucaultiano de biopolítica, ele e Gilles
Deleuze interpretam que biopoder e biopotência correspondem aos dois lados da
Fita de Moebius, enfatizando que ali onde o biopoder toma a vida de assalto nas
“sociedades de controle”, ali também habita, como seu reverso, a biopotência
que, num movimento de sobreposição, organiza mecanismos de resistência ao
biopoder e aos seus dispositivos de controle.
Assim,
o conceito de “revolução molecular” quer apontar para um modo de compreensão da
vida social que contrasta o nível molar (próprio das grandes instituições,
partidos e classes sociais rígidas) com o nível molecular, onde ocorrem os
“fluxos de desejo”, pequenas comunidades, minorias, enfim, nível onde dá-se a
micropolítica.
A
propósito da questão acerca do grau de agência dos movimentos sociais,
consideramos relevante visitar o pensamento de Giorgio Agamben. Quando o
filósofo italiano (que na juventude atuou num filme de Pier Paolo Pasolini)
desenvolve o conceito de “vida nua”, ele quer apontar para a condição de
vulnerabilidade daqueles que não têm seus direitos e prerrogativas
político-jurídicas assegurados, mesmo vivendo no regime de democracia liberal.
Arguir-se sobre quem vive em plena vida nua no sistema capitalista é, sobretudo,
perguntar-se a quem o Estado capitalista e suas instituições visam proteger.
O livro
Homo Sacer de Giorgio Agamben é resultado de uma cartografia social e política
do capitalismo que quer evidenciar os limites evidentes do regime de democracia
burguesa, o que faz muito bem, ao modo de Marx quando este argumenta, em Sobre
a questão judaica (1844), que a igualdade formal garantida pelo Estado burguês
é insuficiente para que a verdadeira emancipação humana ocorra, distinguindo,
assim, entre “emancipação política” e “emancipação humana”.
A
questão é que os conceitos de “vida nua” e “homo sacer”, tal como desenvolvidos
por Giorgio Agamben, não revelam nenhum potencial de agência transformadora.
Assim, como já dissemos, entendemos que essa teoria investe muito mais no
tensionamento dos limites da democracia liberal do que na proposição de um
modelo alternativo de práxis coletiva. Daí concluirmos que tais conceitos
guardam em si uma limitação política, que é a de não apontar para os mecanismos
de resistência ao modo-de-produção capitalista e ao modo de vida a que ele dá
lugar.
Fonte:
Por Diana Pichinin, em A Terra é Redonda

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