Incapacidade
de sentir prazer, o sintoma muitas vezes ignorado da depressão
Ir para
a praia, tomar uma cerveja com os amigos, sair para dançar, ler um livro, fazer
compras... para muita gente, essas são atividades extremamente prazerosas.
Porém,
para uma parcela cada vez maior da população, nada disso tem graça. É o caso da
biomédica Alice (nome fictício), de 40 anos. Diagnosticada com depressão em
2005, ela convive com um de seus sintomas mais difíceis, a anedonia,
caracterizada pela perda significativa ou incapacidade de sentir prazer em
atividades que antes eram consideradas agradáveis.
"Sempre
fui estranha. Na adolescência tinha meus momentos de ficar sozinha, trancada no
quarto. Mas as coisas começaram a se complicar quando chegou a hora de decidir
qual profissão escolher e, depois, qual especialização fazer. Nada me atraía ou
me dava satisfação, e a situação piorou de vez com o fim de um relacionamento.
Naquele momento eu definhei. Não saia do quarto, só me alimentava porque minha
mãe levava a comida e tomava banho porque me carregavam. Meu celular ficou
quase um ano desligado", conta.
Com a
ajuda de uma psiquiatra, Alice conseguiu se levantar. Assim, concluiu a
faculdade, arrumou emprego, teve outros relacionamentos e até se casou, mas a
amargura, a tristeza e a falta de prazer nunca a deixaram.
"Preciso
de medicamentos e, quando tentei parar de tomá-los para engravidar, foi um
inferno. Fiz isso porque meu marido queria ter filhos. Mas como fiquei péssima
sem os remédios e crianças nunca estiveram nos meus planos, desisti. Isso
implicou no fim do casamento e em mais angústia e desespero."
Sem
saber o que fazer, Alice tentou o suicídio.
"Acabei
sobrevivendo, mas não tenho vontade de sair da cama, de viver. Perdi o desejo e
o prazer por tudo."
<><>
O que é anedonia?
Citada
pela primeira vez em 1896 pelo psicólogo francês Théodule-Armand Ribot, a
anedonia atinge, segundo o psiquiatra Luiz Scocca, membro da Associação
Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Americana de Psiquiatria (APA),
cerca de 70% dos pacientes com depressão. E os números da doença são
altíssimos. No mundo, ela afeta 322 milhões de pessoas.
Já no
Brasil, 11,5 milhões (ou 5,8% da população) - só na capital paulista, estima-se
que 18% dos moradores já tiveram um episódio. Os dados são da Organização
Mundial da Saúde (OMS).
"A
anedonia é o sintoma nuclear da depressão. É um problema complicado e que varia
de intensidade de acordo com a gravidade do transtorno. Isso significa que o
paciente pode perder o prazer por uma coisa específica e que sempre gostou
muito, como escutar música e comer, ou por todas", explica.
O
médico relata ainda que essa condição inibe os comportamentos saudáveis,
fundamentais para uma vida plena e feliz.
"Com
ela, a pessoa deixa de se relacionar com os outros, mantendo um isolando
social, e passa a ter mais pensamentos negativos", acrescenta.
O que
também ocorre é que ela se torna indiferente consigo mesma, não tendo apego por
nada e nem ninguém. O indivíduo parece estar emocionalmente vazio ou
"congelado", sem sofrer alterações de humor, independentemente do que
aconteça ao seu redor. E nem sempre ele se dá conta disso - em muitos casos,
são os familiares que observam e fazem o apontamento.
Tendo
grande impacto na qualidade de vida, a anedonia ainda provoca uma sensação de
desconexão com o mundo e, o que é pior, eleva o risco de suicídio, vide o
ocorrido com Alice.
"Se
o problema não for tratado logo e de forma eficaz, as chances de o depressivo
atentar contra sua própria vida sobem consideravelmente, assim como de surgirem
doenças associadas e abuso de substâncias entorpecentes. São fatores que vão se
acumulando", analisa o psiquiatra da Sociedade Beneficente Israelita
Brasileira Albert Einstein, Alfredo Maluf Neto.
Apesar
de não haver dados efetivos sobre a relação entre a falta de prazer e o número
de suicídios, é importante destacar que eles têm aumentado de forma
assustadora. A OMS informa que são cerca de 800 mil por ano, o que significa
uma morte a cada 30 segundos no mundo. No Brasil, a cada 100 mil pessoas, 6 se
matam anualmente, dado que o coloca como o oitavo país com mais óbitos
autoprovocados em números absolutos.
<><>
Causas
A
anedonia nunca vem sozinha. Normalmente, é acompanhada de desânimo, cansaço,
fadiga, apatia, diminuição de energia e dificuldade de concentração. E, apesar
de ser o sintoma central para o diagnóstico da depressão mais severa, também
pode acometer usuários de drogas e álcool, sobretudo durante as crises de
abstinência, e quem sofre de esquizofrenia, neurastenia, Mal de Parkinson,
câncer, estresse pós-traumático, distúrbios alimentares e transtornos de
ansiedade.
Ao
contrário do que muita gente pensa, ela não ocorre apenas em adultos, podendo
se dar também em crianças e adolescentes, e é mais comum em mulheres. Mas o que
causa exatamente esse problema? Scocca comenta que a origem exata ainda não é
totalmente conhecida.
"É
uma questão neurobiológica, e o que sabemos por enquanto é que está associada à
diminuição da atividade no circuito de recompensa do cérebro."
Seu
surgimento também parece estar ligado ao aumento da atividade na região frontal
do córtex pré-frontal, que, dentre outras funções, controla a inibição das
respostas emocionais, e aos baixos níveis de dopamina, importante
neurotransmissor responsável pelas sensações de bem-estar e prazer.
<><>
Tratamento
Por ser
um sintoma, e não um transtorno propriamente dito, a anedonia obrigatoriamente
precisa ser tratada junto com a doença. No caso da depressão, antes de mais
nada, explica a psiquiatra Doris Moreno, do Programa de Transtornos do Humor do
Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), é necessário
identificar o grau (leve, moderada ou grave) e o tipo.
"As
depressões são heterogêneas e multifatoriais, por isso não existe um tratamento
único. Fora que o que funciona para uma pessoa não necessariamente será bom
para outra. No entanto, de maneira geral, o que propomos é o uso de fármacos,
podendo ser antidepressivos, estabilizadores de humor e ansiolíticos,
associados ou não a terapia", descreve.
Na
busca pelo controle da enfermidade, a médica também considera importante cuidar
do sono e ter uma rígida manutenção da rotina, incluindo aí boa alimentação,
atividade física constante e momentos de lazer.
Junto a
isso, é fundamental a colaboração da família e dos amigos.
"Não
se pode forçar o deprimido a fazer as coisas ou então ficar procurando culpados
e justificativas para o que ele está passando. Este é o momento de apoiar,
entender e acolher, caso contrário, seu quadro geral só tende a piorar.
Depressão é um problema grave e muito prevalente, mas que pode sim ser
revertido", complementa a especialista.
Técnicas
de relaxamento e respiração, meditação, como a mindfulness (atenção plena),
acupuntura e massagens também são alternativas recomendadas na atualidade, pois
ajudam a acalmar a mente, diminuindo os pensamentos negativos, dão mais
disposição e proporcionam a melhora da saúde como um todo.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário