segunda-feira, 15 de junho de 2026


 

Para entender o fenômeno dos jovens antifeministas

Em 2021, ser feminista era a coisa mais próxima de um consenso geracional que a Espanha havia conhecido em décadas. Metade dos jovens se identificava com o feminismo, um número muito superior ao da década anterior. Apenas quatro anos depois, esse apoio diminuiu consideravelmente – para 38,4% –, e não apenas entre os rapazes, embora seja neles que encontramos a maior queda.

O antifeminismo é uma posição construída politicamente no calor da direitização global. Mas também poderíamos incluir outros fatores: quando o feminismo mais vivível se identifica com o governo, com o sistema educacional, com o politicamente correto, para uma parte dos jovens ele se torna a voz da autoridade. E toda autoridade gera sua rebeldia. Esses rapazes percebem uma culpabilização – responsabilizam-nos pelo machismo antes mesmo de terem vivido suas vidas – e encontram nos espaços antifeministas um alívio que mistura provocação e diversão contracultural. Também é importante não superdimensionar o fenômeno: as posições abertamente antifeministas continuam sendo minoritárias entre os jovens, mas o alarme social que produzem amplifica seu eco.

Quando falamos das causas dessa direitização, costumamos apontar a machosfera, onde esses conteúdos se difundem na internet e nas redes sociais e onde também circulam determinados afetos negativos amplificados pelos algoritmos. No entanto, também é preciso fazer uma pergunta fundamental: por que o conteúdo antifeminista encontra um terreno fértil em uma geração que cresceu em um ambiente mais igualitário do que as anteriores? Que tipo de saídas ele oferece para as frustrações desses rapazes?

<><> Entre o material e o cultural

Em Incels, gymbros, criptobros e outras espécies antifeministas (CTXT, 2026), eu tentava explicar como os mal-estares materiais e as inquietudes sobre o futuro podem ser convertidos em reação antifeminista nas novas gerações que já sabem que viverão pior do que seus pais. Isso no sentido de menor acesso a bens de consumo ou propriedades – a habitação é muito mais cara –, salários proporcionalmente mais baixos, etc. Mas viver melhor não é apenas ter melhores condições materiais, embora isso seja importante. As mulheres da geração X – nascidas entre 1965 e 1980 – sabemos que, ao introduzir a dimensão cultural, de fato vivemos melhor do que nossas mães em termos de expectativas e possibilidades de vida, no acesso ao estudo e ao trabalho, na liberdade para viver nossa sexualidade, embora essa vantagem vá se reduzindo nas gerações posteriores à medida que a igualdade social cresce.

Portanto, o debate sobre causas culturais e materiais nem sempre pode ser separado e tem várias arestas. Uma delas é como o gênero tem uma capacidade especial de condensar mal-estares materiais que acabam sendo codificados – ou desviados – em termos culturais. Ou seja: as sensações de perda, de medo ou de falta de reconhecimento social frequentemente encontram expressão, e às vezes distorção, na linguagem do gênero. Por exemplo, os processos de desindustrialização podem dar origem a uma nostalgia patriarcal, e isso não tem necessariamente a ver com perdas de status reais, mas sim com as autopercebidas. Vejamos um exemplo.

<><> Coreia do Sul como laboratório

A Coreia do Sul tem a taxa de natalidade mais baixa do mundo – 0,75 filhos por mulher – e apresenta algumas peculiaridades na relação entre homens e mulheres. Lá, historicamente, o casamento tem sido uma demonstração da chegada à vida adulta dos varões e um marcador de sucesso no qual o homem se casa, constitui e mantém uma família. Na Espanha também foi assim, mas hoje essa demanda já não opera da mesma maneira: ninguém espera que os jovens sejam o sustento da família e que as mulheres não trabalhem. O que acontece na Coreia do Sul é que essas expectativas foram desmanteladas muito rapidamente por ambos os lados ao mesmo tempo.

Pelo lado econômico, a precariedade laboral e o preço da habitação fizeram com que muitos homens jovens não consigam cumprir o papel de provedor que o modelo tradicional lhes exige. O mercado matrimonial sul-coreano continua funcionando com expectativas rígidas e, diferentemente do que acontece na Espanha, espera-se que o homem contribua com habitação e estabilidade econômica. Sem isso, muitos ficam de fora.

Por outro lado, as mulheres evoluíram de maneira muito rápida e, de fato, uma parte crescente decidiu que não quer se casar nem ter filhos nessas condições. Segundo uma pesquisa de 2022, 65% das mulheres jovens sul-coreanas não querem ter descendência, contra 48% dos homens. E mais de 62% das mulheres jovens solteiras se declaravam satisfeitas com sua situação sentimental, contra 38% dos homens solteiros. O movimento chamado 4B – sem casamento, sem filhos, sem encontros, sem sexo – é a expressão mais radical dessa rejeição. Aqui pudemos ver debates semelhantes nas redes – chamamos de heteropessimismo –, mas seu alcance não é nem de longe parecido com o do caso sul-coreano.

O resultado é um desacoplamento. Os homens jovens percebem que o casamento se torna inalcançável para eles e, em vez de tentar modificar suas próprias expectativas sobre a masculinidade que os oprime, ou direcionar sua frustração contra um sistema econômico que os impede de cumprir o papel que lhes foi atribuído, projetam-na contra o feminismo e contra as mulheres que já não aceitam esse pacto.

Isso tem consequências políticas muito diretas. Nas eleições presidenciais sul-coreanas de 2022, 63% dos idenam – homens na faixa dos vinte anos – votaram no conservador antifeminista Yoon Suk-yeol – a maior adesão de qualquer faixa etária – contra 26% das mulheres da mesma idade. Segundo uma pesquisa da Gallup Korea, 56,1% dos homens jovens sul-coreanos participam ativamente em espaços online masculinos. Como já é habitual, os autores da pesquisa correlacionam a participação na machosfera com um aumento do sexismo hostil e moderno, bem como com menor apoio a praticamente todas as políticas destinadas a promover a igualdade de gênero. No entanto, neste caso, alertam que essas associações não são necessariamente causais, ou seja, não podem determinar se esses espaços radicalizam ou se os homens já radicalizados os procuram.

<><> Antifeminismo e precariedade

Uma pesquisa na Coreia do Sul da socióloga Joeun Kim tentou responder à pergunta de se a ideologia do vitimismo masculino – a crença de que os homens são hoje os principais discriminados – se explica pela precariedade econômica. O que ela descobriu é que os homens desempregados, com baixa renda ou sem ensino superior não eram mais propensos ao vitimismo do que os demais homens com boa situação econômica. Ela constatou que a correlação entre ideias antifeministas e posição social estava mais relacionada à percepção de declínio socioeconômico em relação à geração de seus pais, e de forma especialmente acentuada entre homens de classe média e alta. Ou seja, neste caso, não eram os mais marginalizados que necessariamente abraçavam o discurso antifeminista, mas sim aqueles que sentiam que estavam descendo de classe ou que sua posição estava ameaçada.

Em um segundo estudo experimental, Kim demonstrou que a exposição a cenários de ameaça ao status – o declínio das oportunidades matrimoniais e laborais – não aumentava o sexismo hostil em todos os homens, mas o aumentava significativamente entre homens que já experimentavam mobilidade descendente. E a descoberta mais reveladora é que o mecanismo é especificamente generificado, ou seja, aumenta a hostilidade em relação às mulheres, mas não em relação à sociedade em geral. A frustração não se dirigia contra o sistema econômico que produz a precariedade ou contra sua própria opressão de gênero, que gera expectativas inalcançáveis, mas sim contra o feminismo, que se torna bode expiatório de uma descida social cujas causas são estruturais.

Por sua vez, a pesquisadora Soohyun Christine Lee atribui o peso dessa questão ao fato de que, em um país etnicamente homogêneo, sem imigrantes que possam funcionar como bodes expiatórios, as mulheres se tornaram o principal objeto substitutivo das frustrações econômicas: “A insegurança econômica, aliada ao familismo tradicional e às normas matrimoniais, gerou uma ansiedade tóxica entre os homens jovens, já que levar uma ‘vida normal’ de casamento e família está fora de seu alcance”. A misoginia se torna assim a válvula de escape do seu mal-estar e da crise de masculinidade, na qual esta também é inseparável dos determinantes econômicos.

Por fim, é interessante refletir aqui sobre a questão geracional. Na Coreia do Sul, ela é especialmente acentuada, já que os homens na faixa dos vinte anos expressam posições mais hostis ao feminismo do que qualquer outra corte masculino, incluindo os maiores de 60 anos. Esse padrão não é exclusivamente sul-coreano. Na Espanha, alguns dados peculiares sobre valores nos falam dessa inversão. Por exemplo, 23% da Geração Z considera que ficar em casa para cuidar dos filhos faz com que um homem seja “menos homem”, contra 4% dos boomers, segundo a Ipsos. Globalmente, a inversão geracional é ainda mais acentuada: 31% dos varões da Geração Z de 29 países consideram que uma esposa deve sempre obedecer ao marido, contra 13% dos homens boomers, segundo o mesmo estudo.

Uma explicação que poderíamos dar tem a ver com a memória: as gerações mais velhas estariam mais vinculadas às lutas pela igualdade e perceberiam esses direitos como conquistas que precisam ser protegidas. Mas as pesquisas citadas trazem uma leitura complementar de tipo material. Se o preditor mais significativo do antifeminismo não é a precariedade objetiva, mas sim a percepção de declínio de status, e isso nos jovens tem a ver com uma descida em relação aos pais, cabe perguntar se a posição consolidada dos boomers – com taxas de propriedade, níveis salariais e patrimônio acumulado muito superiores aos dos jovens – não opera aqui como um amortecedor em relação ao ressentimento de gênero. Quem não percebe que seu status se deteriora tem menos razões para buscar culpados. Quem sente que o chão se move sob seus pés é mais vulnerável à narrativa que aponta o feminismo como responsável por sua queda.

Nesse contexto, e em meio à utilização das frustrações dos jovens como ferramenta de direitização, para desarmar a armadilha do antifeminismo teremos que tirar a questão de gênero da guerra cultural – onde só podemos perder – e devolvê-la ao terreno das condições materiais de existência. Um marco político feminista eficaz para estes tempos exige também afirmar que o mandato de masculinidade produz sofrimento em homens e mulheres, embora de forma diferente. Colocarmo-nos a destruir esse mandato não seria, então, um gesto de generosidade para com os varões, mas sim uma condição para a emancipação de todos, todas e todes.

 

Fonte: Por Nuria Alabao, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras


Nenhum comentário: