Gustavo
Tapioca: O partido sem cara e o desafio da democracia
A
reflexão de Eugenio Bucci sobre o "partido clandestino" da extrema
direita e a proposta de "radicalização democrática" defendida por
pesquisadores do LAUT lançam luz sobre um dos debates centrais da eleição de
2026.
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O partido que existe sem existir
O
artigo publicado por Eugenio Bucci no
Estadão nesta quinta-feira (12) traz uma definição provocadora para um dos
fenômenos mais relevantes da política brasileira contemporânea. Segundo o
jornalista, o bolsonarismo funciona como uma espécie de partido clandestino.
Não
clandestino porque esteja proibido de existir. Nem porque seja perseguido pelo
Estado.
A
clandestinidade, neste caso, seria uma escolha.
Ao
longo dos últimos anos, o bolsonarismo atravessou sucessivas legendas sem
jamais se confundir inteiramente com nenhuma delas. Passou pelo PSL, pelo PL e
por outras estruturas partidárias como quem utiliza uma plataforma temporária.
O movimento permanece o mesmo. As siglas mudam.
A
observação de Bucci ajuda a compreender uma característica central da extrema
direita brasileira: sua capacidade de operar simultaneamente dentro e fora das
instituições.
Quando
lhe convém, apresenta-se como força institucional, disputa eleições, ocupa
mandatos, recebe recursos públicos e utiliza a estrutura do sistema partidário.
Quando
lhe convém, volta a vestir a fantasia de movimento antissistema, atacando
exatamente as instituições que lhe garantem existência política.
Essa
ambiguidade talvez seja um dos principais segredos de sua sobrevivência.
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O bolsonarismo continua vivo
A
condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal e sua prisão por
tentativa de golpe de Estado não significaram o desaparecimento do fenômeno
político que levou milhões de brasileiros às ruas nos últimos anos.
O
bolsonarismo revelou-se maior que seu fundador.
A
substituição de Jair Bolsonaro por Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de
2026 demonstra justamente isso.
Não se
trata de uma escolha baseada em debates programáticos ou em renovação
partidária. Trata-se da tentativa de preservar um projeto político e familiar
ameaçado pelo avanço das investigações, pelas condenações judiciais e pelo
desgaste crescente de sua principal liderança.
A
candidatura do senador surge como instrumento de continuidade.
A
missão é clara: manter mobilizada a base política construída pelo pai, impedir
a reeleição de Lula e, se possível, reconstruir as condições para uma futura
reversão das condenações que atingiram o núcleo central do bolsonarismo.
Nesse
sentido, a eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre candidatos.
Será
também um teste para medir a capacidade de sobrevivência de um movimento que se
acostumou a operar nas zonas cinzentas entre a institucionalidade e a
contestação permanente das regras democráticas.
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A democracia não pode viver apenas na defensiva
Mas
existe uma segunda reflexão importante surgida nesta semana.
Em
reportagem artigo publicado nesta sexta-feira (12) na Folha de S.Paulo, a
jornalista Ana Luiza Albuquerque apresentou as teses do livro Como Desarmar o
Autoritarismo no Brasil: Uma Agenda para a Desradicalização, organizado por
Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani Sales e Lucas Petroni.
A obra
reúne pesquisadores do LAUT — Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo
— e parte de uma constatação simples.
A
democracia brasileira conseguiu resistir.
Resistiu
às ameaças golpistas. Resistiu aos ataques contra o sistema eleitoral. Resistiu
à tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023.
Mas
resistir talvez já não seja suficiente.
Os
autores defendem aquilo que chamam de "radicalização democrática"
como resposta ao avanço do autoritarismo.
O
conceito não significa radicalismo político.
Significa
aprofundar os mecanismos de proteção democrática para impedir que novas
aventuras autoritárias encontrem terreno fértil no futuro.
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As reformas que o país adiou
A
proposta envolve enfrentar questões que o Brasil costuma adiar há décadas.
O papel
das Forças Armadas na vida política.
O uso
do sistema de Justiça como instrumento de perseguição.
A
disseminação industrial de notícias falsas.
A
captura do debate público por estruturas de desinformação.
A
instrumentalização política da fé.
A
fragilidade da educação democrática.
São
temas que permanecem no centro da crise brasileira.
Mais
importante: são temas que não desaparecerão com uma eventual derrota eleitoral
da extrema direita.
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O verdadeiro debate de 2026
Durante
muito tempo, a principal preocupação dos setores democráticos foi impedir que o
autoritarismo chegasse ao poder.
Hoje, o
desafio é mais complexo.
É
preciso impedir que ele retorne.
A
eventual vitória de Lula em 2026, caso se confirme, não encerrará esse ciclo
histórico.
Ela
poderá representar apenas uma etapa de um processo maior.
O
verdadeiro debate que começa a surgir no país não é apenas como derrotar
eleitoralmente a extrema direita.
A
pergunta mais profunda é como reduzir as condições que permitiram seu
crescimento.
Eugenio
Bucci chama atenção para a existência de uma força política que muitas vezes
prefere atuar sem rosto institucional definido.
Os
pesquisadores do LAUT chamam atenção para a necessidade de fortalecer as bases
da democracia por meio de uma agenda de desradicalização e aprofundamento
institucional.
As duas
reflexões convergem para o mesmo ponto.
O
Brasil talvez esteja entrando numa nova etapa.
Uma
etapa em que a defesa da democracia já não depende apenas da capacidade de
resistir aos ataques.
Depende
também da coragem de reformar as estruturas que permitiram que eles
acontecessem.
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Depois de vencer, o que fazer?
Em
plena campanha presidencial, essa discussão deixa de ser apenas acadêmica. Ela
se transforma em tema de governo.
Seja
qual for o resultado das urnas, o país precisará decidir se continuará
administrando as crises produzidas pelo autoritarismo ou se enfrentará suas
causas estruturais.
A
agenda sugerida pelos pesquisadores do LAUT — fortalecida pela reflexão de
Eugenio Bucci sobre os limites da democracia diante de movimentos que operam
dentro e fora das instituições — aponta alguns dos desafios centrais do próximo
ciclo político: consolidar a supremacia do poder civil sobre qualquer tutela
militar, combater a indústria da desinformação, fortalecer a educação
democrática, proteger as instituições republicanas e ampliar os mecanismos de
participação cidadã.
Se Lula
for reconduzido à Presidência, esses temas poderão deixar de ser apenas objeto
de debate acadêmico para se transformar em questões centrais de governo.
Afinal, derrotar eleitoralmente o autoritarismo é uma tarefa. Construir
mecanismos para impedir seu retorno é outra, muito mais complexa.
Mais do
que uma plataforma partidária, trata-se de uma pergunta histórica que estará
presente no centro do debate nacional:
Depois
de resistir ao autoritarismo, o Brasil será capaz de fortalecer sua democracia?
• Dois pesos e duas medidas: como a
imprensa e a Faria Lima ignoraram a inflação de Bolsonaro e amplificam a de
Lula. Por Chico Alves
IPCA de
maio veio acima do esperado. Subiu 0,58%, puxado pelos alimentos, e a inflação
acumulada em 12 meses chegou a 4,72%. O número está acima do teto da meta do
Banco Central, que é de 3% com tolerância de 1,5 ponto. A categoria alimentação
no domicílio teve alta de 1,65% no mês – a maior para maio em 18 anos. É
verdade que ainda há efeitos da guerra no Oriente Médio e do El Niño, e a
tendência é de resistência inflacionária. Tanto que economistas já reduziram as
expectativas para a queda dos juros.
Essa
foi a reação da imprensa ao dado de junho. E não é de se estranhar: a inflação
segue como um dos indicadores mais sensíveis da economia. Ela corrói o poder de
compra, condiciona a política monetária e pauta o debate fiscal. Só que, mais
do que os números, interessa observar como a imprensa e o chamado mercado
financeiro interpretam e comunicam esses números. E aí a coisa muda de figura.
Durante
o governo Bolsonaro, a inflação chegou a superar os expressivos 10%, com forte
expansão da dívida pública e flexibilização do teto de gastos. Ainda assim, o
discurso predominante da imprensa e do mercado financeiro foi de tolerância.
Atribuiu-se a alta a choques externos – pandemia, cadeias produtivas
desorganizadas, commodities em disparada. O Banco Central, quando citado,
aparecia como uma espécie de fiador solitário do regime de metas. Mas risco
sistêmico, descontrole fiscal ou hiperinflação nunca estiveram na pauta.
Já a
partir de 2023, com o retorno de Lula, graças aos acertos da área econômica a
cargo de Fernando Haddad, a inflação caiu para patamares próximos de 4%, dentro
da meta do Conselho Monetário Nacional. Os gastos públicos passaram a respeitar
os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. O desemprego recuou a níveis
historicamente baixos. Apesar disso, o tom dominante na imprensa e entre
analistas de mercado passou a ser o de alarde: desancoragem das expectativas,
risco de descontrole fiscal, ameaça de hiperinflação. Amplificam-se cenários
pessimistas diante de dados concretos que apontam estabilidade.
Por que
tamanha assimetria? Não é pelos indicadores – isso é evidente. A diferença está
na relação política entre governo e chamado “mercado” – os donos do capital.
Bolsonaro era lido como alinhado à agenda neoliberal, com Paulo Guedes à frente
de um programa de privatizações e reformas. Isso funcionava como um escudo. Os
problemas eram relativizados, tratados como conjunturais. Lula, ao contrário,
carrega a marca de políticas sociais e maior presença do Estado. E isso
desperta uma desconfiança estrutural no capital. O discurso de risco, nesse
contexto, opera como instrumento de pressão política: ajuda a manter os juros
elevados e a limitar a expansão de programas sociais.
As
consequências não são meramente retóricas. Ao amplificar riscos sob Lula,
imprensa e mercado alimentam um ambiente de desconfiança que pode influenciar
as decisões do Banco Central e inibir investimentos, influenciando
decisivamente no humor eleitoral. Ao relativizar os problemas sob Bolsonaro,
normalizaram uma situação de inflação elevada e deterioração fiscal. Em ambos
os casos, a cobertura revela mais as disputas políticas do que a realidade dos
números.
O que
se tem, portanto, é dois pesos e duas medidas na leitura da inflação
brasileira. Com Bolsonaro, problemas reais foram tratados como conjunturais.
Com Lula, a estabilidade virou alerta vermelho. A narrativa econômica não é
neutra. Ela é atravessada por interesses políticos e ideológicos. Reconhecer
essa assimetria é condição para entender não apenas os índices de preços, mas o
jogo de poder que se desenrola em torno deles.
Fonte:
Brasil 247/Fórum

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