segunda-feira, 15 de junho de 2026

O enigma tático da direita: por que ninguém ataca Flávio Bolsonaro enquanto ele afunda?

A nova pesquisa Genial/Quaest é um banho de água fria para Flávio Bolsonaro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva amplia sua vantagem no primeiro turno para 39% a 29%, e no segundo turno a diferença chega a 6 pontos percentuais. A rejeição ao governo Lula caiu, a avaliação positiva subiu e o suposto verniz moderado que o candidato tentava construir se desfaz. No entanto, o dado mais revelador da pesquisa não está apenas nos números. Está na postura dos adversários que lutam pelo mesmo espólio eleitoral.

Conforme destaca análise de Ricardo Noblat no Metrópoles, com a solitária exceção de Renan Santos, do Missão, os candidatos da direita se recusam a atacar abertamente o líder nas pesquisas. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, o ex-senador por Minas Gerais, Aécio Neves, e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, são prisioneiros de uma covardia tática. Acreditam que não atacar Flávio os posiciona como herdeiros naturais, como se o bolsonarismo raiz fosse um testamento a ser lido após um naufrágio. É uma aposta contra a realidade.

Enquanto Flávio sangra — com 58% dos eleitores desconfiando de seu envolvimento ilegal no escândalo do Banco Master —, o silêncio cúmplice de Zema e Aécio não conquista o eleitorado. Eles patinam com ínfimos 2% das intenções de voto. Em vez de se apresentarem como alternativa viável de poder, preferem o papel de aliados passivos, esperando que o imponderável aconteça. No Brasil da jabuticaba, é fato que o acaso existe. Mas fazer do acaso uma estratégia de campanha, enquanto se é conivente com a derrocada alheia, é uma confissão involuntária de impotência política.

<><> A coragem solitária de Renan Santos

O comportamento de Renan Santos se destaca justamente por ser a antítese dessa miopia. Ao bater em Flávio sem piedade, chamando-o abertamente de ‘gângster’, ele demonstra uma compreensão básica da disputa: só se cresce nesse campo arrancando os votos do líder. Não há um imenso centro esperando para ser ocupado por quem é educado. O eleitor bolsonarista não migrará para um candidato que se comporta como um aliado leal. Ele migrará, se migrar, para quem se mostrar mais forte e mais duro que o original.

Dentro desse labirinto de contradições da direita, a posição do governador Ronaldo Caiado talvez seja a mais emblemática. Tentando manter um pé no barco furado de Flávio e outro na canoa da crítica ao Banco Master, ele pede que o candidato ‘dê explicações aos seus eleitores’. É uma crítica tão tímida que serve mais para limpar a própria barra do que para ferir o adversário. A postura cautelosa revela homens de pouco apetite para o risco real do poder.

Se a direita não enfrenta suas próprias mazelas internas, o campo progressista se beneficia diretamente. A pesquisa mostra Lula avançando onde importa. O presidente disparou entre os eleitores independentes, um grupo decisivo que agora o favorece com uma vantagem de 13 pontos no segundo turno (37% a 24%). Além disso, a desaprovação do governo caiu de 52% para 49% em apenas um mês, enquanto a aprovação subiu para 46%. O saldo negativo que assombrava a gestão federal encolheu de 9 para apenas 3 pontos percentuais.

A agenda de entregas do governo e a percepção de uma economia mais robusta começam a furar a bolha da rejeição. Enquanto a oposição luta contra seus próprios fantasmas, o lulismo volta a demonstrar sua resiliência gravitacional: a capacidade de atrair setores para além da própria base partidária.

O derretimento de Flávio Bolsonaro é um fato concreto. A descoberta política, porém, é a covardia de seus concorrentes. Eles assistem, inertes, enquanto o barco da extrema-direita faz água, sem coragem de lançar o arpão que poderia afundá-lo de vez. Preferem rezar por um milagre a arriscar o dedo. Enquanto isso, seguem sendo coadjuvantes nanicos em uma tragédia que não controlam, deixando o caminho cada vez mais pavimentado para que o presidente Lula consolide sua dianteira rumo a 2026.

•        Michelle sinaliza apoio a Flávio Bolsonaro, mas manda recado a “escarnecedores e traidores”

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro indicou que pretende apoiar a pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas apenas “no momento certo”. A declaração, acompanhada de críticas a supostos “escarnecedores” e “traidores”, evidenciou o clima de tensão que marca os bastidores do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Presidente nacional do PL Mulher, Michelle afirmou que continuará atuando para ampliar o apoio entre o eleitorado feminino e evangélico, considerado estratégico para a direita nas eleições de 2026. No entanto, a ausência de uma manifestação mais enfática e imediata em favor de Flávio gerou desconforto entre aliados do senador, que esperavam um gesto público de unidade familiar.

Nos últimos dias, Michelle também utilizou as redes sociais e eventos partidários para responder a críticas de apoiadores. Sem citar nomes, ela condenou o que classificou como oportunismo e falta de respeito, em mensagens interpretadas como direcionadas a antigos aliados e influenciadores ligados à ala mais radical do bolsonarismo.

<><> Crise se agrava com desgaste de Flávio

O distanciamento ocorre em um momento delicado para a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. O senador enfrenta desgaste político após o vazamento de áudios e informações relacionadas à sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e alvo de investigações sobre supostas fraudes financeiras.

O episódio aprofundou disputas internas no entorno bolsonarista. Integrantes ligados aos filhos do ex-presidente passaram a suspeitar que pessoas próximas a Michelle teriam contribuído para o vazamento das informações, tese rejeitada pelo grupo da ex-primeira-dama. Aliados dela atribuem a divulgação dos fatos ao avanço das investigações conduzidas por órgãos federais.

<><> Divergências chegam aos estados

As divergências também se refletem na montagem de palanques regionais para as eleições de 2026. No Ceará, por exemplo, aliados de Michelle apoiam nomes que enfrentam resistência entre os filhos de Jair Bolsonaro, ampliando os sinais de fragmentação dentro do grupo político.

Apesar das tensões, integrantes do Partido Liberal avaliam que Michelle continua sendo uma das figuras mais influentes do campo conservador e que seu eventual engajamento na campanha presidencial poderá ser decisivo para mobilizar segmentos importantes do eleitorado. Até lá, porém, a ex-primeira-dama mantém a estratégia de adiar um endosso explícito a Flávio Bolsonaro, alimentando dúvidas sobre o grau de unidade da família às vésperas da disputa eleitoral.

•        Malafaia descarta filhos de Bolsonaro e aponta novo líder da direita

O pastor Silas Malafaia afirmou, durante entrevista a um podcast, que o legado político do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não será levado adiante por nenhum de seus filhos, mas por outra pessoa.

Quando questionado sobre quem seria, então, esse novo líder da direita brasileira, Malafaia respondeu sem titubear: Nikolas Ferreira.

A declaração de Silas Malafaia expõe um profundo racha no núcleo duro do bolsonarismo, que se estabeleceu desde o anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O pastor, o deputado Nikolas Ferreira e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro são acusados de não dar suporte ao nome do filho 01 na disputa pelo Palácio do Planalto.

“Nikolas é o futuro. Na minha visão, Nikolas é o futuro. Ele está amadurecendo, está crescendo… já fiz críticas a ele, críticas pessoais […] estou falando da minha concepção. Para mim, não vai ser um filho do Bolsonaro que vai ser herdeiro de Bolsonaro […] o herdeiro [de Jair Bolsonaro] chama-se Nikolas.”

•        Ciro Nogueira, irritado com traição de Flávio Bolsonaro, deve dar o troco usando o PP

Na vida real de Brasília, a política se move pela lógica do pragmatismo, mas é o sentimento de traição que costuma ditar o tamanho das vinganças. A relação de intensa proximidade que unia o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, e o presidente nacional do Progressistas (PP), senador Ciro Nogueira (PI), ruiu por completo. O motivo da fúria da cúpula do PP foi a postura adotada pelo filho 01 de Jair Bolsonaro após a deflagração da recente operação da Polícia Federal que mirou Nogueira no escândalo envolvendo o Banco Master, semanas atrás. Dirigentes de diversas siglas aliadas notaram que o clima entre os dois caciques políticos azedou de forma irreversível e que Ciro, movido por uma indignação profunda, já prepara um troco amargo que pode implodir os planos presidenciais do PL.

O esfacelamento da aliança expõe uma faceta frequentemente apontada por críticos e ex-aliados do clã extremista: o hábito de rifar seus próprios “soldados” na primeira tempestade judicial. Quando a Polícia Federal bateu à porta de Ciro Nogueira para investigar repasses mensais vinculados ao magnata criminoso Daniel Vorcaro, o comitê de Flávio Bolsonaro abandonou o parceiro de primeira hora e acionou o modo de autopreservação. Em vez de manifestar qualquer gesto de solidariedade pública ao homem que comandou a Casa Civil no governo de seu pai, Flávio optou por uma nota fria e contundente, afirmando que acompanhava com atenção e considerava graves as informações divulgadas pela imprensa, emendando que fatos dessa natureza deveriam ser apurados com rigor e transparência pelas autoridades competentes.

Para Ciro e seus correligionários, o tom da declaração de Flávio foi o pior possível. A rasteira se tornou ainda mais dolorosa quando comparada ao comportamento de outras lideranças de peso, como o presidente do próprio PL, Valdemar Costa Neto, e o ex-presidente golpista Michel Temer (MDB), que adotaram posturas muito mais cautelosas e ponderadas. O posicionamento de Flávio foi avaliado pela bancada do PP como o mais hostil e desleal de todo o arco político da direita, um verdadeiro ato de desprezo contra quem vinha se mantendo na trincheira de oposição ferrenha ao governo do presidente Lula (PT).

<><> O tamanho do prejuízo e o recuo estratégico

A ira de Ciro Nogueira tem o potencial de causar um estrago gigantesco na estrutura de campanha construída pelo PL. Até o estouro do escândalo, o casamento político entre as duas legendas estava praticamente selado. O PP articulava formalmente a indicação do candidato a vice-presidente na chapa de Flávio, que chegou a declarar publicamente que Ciro era o seu “vice dos sonhos”.

Mais do que uma indicação protocolar, o apoio do Progressistas garantiria ao PL uma robusta coalizão partidária e uma máquina eleitoral imbatível no rádio e na televisão. Com o PP no barco, a coligação de Flávio abocanharia um tempo de antena no horário eleitoral gratuito que representaria o dobro do espaço destinado à campanha do presidente Lula. Agora, todo esse precioso latifúndio eleitoral e o apoio capilarizado da máquina do PP estão escorrendo por entre os dedos do clã Bolsonaro.

Como reação direta ao que classificam como uma molecagem política, Ciro Nogueira acionou os freios e iniciou uma manobra de isolamento. O plano de dar o troco já está em curso: o Progressistas deve abandonar a aliança nacional com o PL e decretar neutralidade absoluta na disputa pela Presidência da República. Embora lideranças da sigla argumentem de bastidor que a opção pela neutralidade sempre esteve no radar devido às complexas e divergentes realidades regionais nos estados, onde o partido frequentemente divide palanques com o PT, as conversas pela coligação com Flávio haviam avançado de forma decisiva nos últimos meses. A mudança drástica de rota e o recuo estratégico atual são apontados de forma unânime como um revide pessoal e deliberado de Ciro ao gelo que recebeu do 01.

<><> Convenção nacional e o isolamento do PL

O entendimento compartilhado pelos aliados mais fiéis ao presidente do PP é de que Flávio Bolsonaro foi incapaz de demonstrar o mesmo nível de lealdade e comprometimento que Ciro entregou ao grupo nos últimos anos. A avaliação de bastidor é que a família Bolsonaro busca submissão cega de seus parceiros, mas oferece em troca o abandono público diante de qualquer contratempo com as autoridades judiciais. O ódio visceral que Ciro Nogueira nutriu por Flávio após o episódio transformou uma negociação que era puramente técnica em uma questão de honra pessoal.

A decisão final do Progressistas sobre o seu posicionamento na corrida presidencial só será oficializada e tornada pública durante a convenção partidária nacional da legenda. No entanto, os emissários de Ciro já espalham o recado pelos salões de Brasília: o PP não servirá de escada para quem não sabe honrar compromissos. Sem o tempo de TV do PP e sem a capilaridade dos prefeitos e deputados da sigla pelo país, a candidatura de Flávio Bolsonaro corre o risco de murchar em um isolamento precoce, que aliás já está acontecendo. O troco arquitetado nos gabinetes do Progressistas promete mostrar ao clã que, no tabuleiro do poder, o desprezo e a traição costumam custar extremamente caro.

 

Fonte: O Cafezinho/Fórum

 

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