Estado
vigilante – a dialética entre censura e liberdade
Em
2001, o grupo Facção Central fazia uma eloquente denúncia na música O Show
Começa Agora: “A censura do meu Rap e a Tropa de Choque/ Me mostram que
protesto é só quando o boy morre. Aqui são flores no caixão e silêncio ou bala
de borracha e gás lacrimogêneo”. As rimas, ecoadas por meio da voz de Eduardo
Taddeo, sinalizavam não apenas para a censura, de fato, sobre o seu rap um ano
antes – o videoclipe Isso Aqui é uma guerra foi acusado pela Justiça de fazer
apologia ao crime –, mas também para o cenário mais amplo do Brasil, no qual
mobilizações e manifestações populares eram contempladas pela repressão
policial: “se vier para o asfalto fazer passeata/ Aí o PM lhe mata, lhe faz
engolir bandeira e faixa”.
Curioso
que, também nos anos 2000, há uma matéria da Folha de S. Paulo que diz:
“Polícia do RJ investiga videoclipe de MV Bill. O rap volta a ser tratado como
caso de polícia”. A 15ª Delegacia de Polícia do estado do Rio apresentou ofício
à gravadora, “requisitando cópia do novo videoclipe do rapper”, sob a alegação
de que ele poderia conter imagens que fariam apologia do crime organizado”.
Uma
cacetada de artistas e grupos de rap e reggae já foi censurada, reprimida e
presa no Brasil nas últimas décadas. Para se ter uma ideia, até o grito “Fogo
na Babilônia”, de Sine Calmon, em 1997, já foi interpretado como “apologia às
drogas”, e o cantor baiano acabou preso no palco: “Os policiais que prenderam
Calmon estavam disfarçados em meio ao público. Eles alegaram que, durante o
show, ele incitava os jovens a acender seus baseados (cigarros de maconha) ao
gritar “Fogo na Babilônia”, um dos versos da música “Nayambing Blues” e nome do
primeiro disco da banda Morrão Fumegante”.
Esse
histórico Estado vigilante e policial sempre deu uma atenção mais cuidadosa às
expressões periféricas, aos movimentos populares e a grupos de esquerda. Mas,
se não é necessário recuarmos ao período da ditadura militar para vislumbrarmos
a atuação de um Estado regulador, um olhar para o passado mais distante nos faz
perceber que, no final do século XIX e no decorrer da primeira metade do XX, as
tentativas de controle social e a repressão policial – por meio de prisões e
agressões físicas – recaíam sobre aqueles indivíduos pertencentes às religiões
de matriz africana ou aqueles que jogavam capoeira pelas ruas de Salvador, por
exemplo. O Estado regulador agia a partir de diretrizes raciais.
Engana-se,
porém, quem pensa que esse fenômeno se perdeu nos finais da década de 1990 e
início dos anos 2000. Nos últimos dias, a máquina sionista tem operado a todo
vapor no Brasil. Lê-se na CNN: após processo movido pela Confederação Israelita
do Brasil, Zé Maria, “Presidente do PSTU, é condenado a dois anos por discursos
contra Israel”. A mesma organização já processou o jornalista Breno Altman –
uma das principais vozes contra o sionismo no Brasil – em múltiplas ocasiões.
Além de
exigir sua prisão, a Conib sempre tenta censurar as suas postagens nas redes
digitais. Para ficarmos apenas com um exemplo, a entidade sionista revela-se
particularmente truculenta em 2024: “Conib pede que Justiça tire Breno Altman
de redes e o proíba de dar entrevista e fazer lives” – é o que nos informa
Mônica Bergamo. Trata-se de uma tentativa de silenciamento (…) de extirpar o
indivíduo da vida pública.
Recentemente,
a major da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Adriana Kutwak apresentou
representação ao Ministério Público Federal contra Rui Costa Pimenta,
presidente do PCO, por manifestações de apoio ao Hamas e ao Hezbollah. A major
apontou que “é inaceitável que alguém defenda movimentos terroristas que
praticam atentados bárbaros contra civis (…). Manifestações que apoiam essas
práticas só reforçam a incitação ao ódio, à violência”.
Não nos
esqueçamos da Lei Antissemitismo de Tabata Amaral. O Projeto de Lei proposto
pela deputada busca equiparar “antissemitismo” ao crime de racismo e impõe
reclusão de dois a cinco anos a quem, dentre outras coisas, “efetuar
comparações entre as políticas israelenses e as dos nazistas”. Bruno Huberman
foi cirúrgico: “A gente está vivendo uma caça às bruxas já no Brasil, mesmo sem
o PL da Tabata Amaral. Se esse PL passar, a gente pode ter um fechamento de
regime, de alguma forma; uma censura prática como se tinha na ditadura, só que
em período supostamente democrático”.
Diante
disso, não é sem preocupação que observo essa tara de setores da esquerda por
proibição. Como bem observou o próprio Rui Costa Pimenta:
“agora
o que nós vemos é a esquerda adotando essa política tenebrosa. Porque a
esquerda acredita que eles têm o poder da antiga Inquisição; que eles podem
botar todo mundo na cadeia por falar A, B, C e D (…). O imperialismo em crise…
criou mecanismos de aliciamento de setores que poderiam ter uma posição
revolucionária, e acabam sendo cooptados para uma política pseudo-liberal, que
é a política da diversidade sexual. Essa política é acompanhada – e a esquerda
ficou totalmente dominada por isso – pela repressão policial. Então, criou-se a
ideia de que você pode libertar a humanidade através da justiça e da polícia do
Estado capitalista.”
Isso
pode ser vislumbrado no caso de Carlos Roberto Massa, o “Ratinho”. Quando Erika
Hilton assumiu a presidência da Comissão das Mulheres na Câmara dos Deputados,
o apresentador do SBT blasfemou: “Ela é trans. Para ser mulher, tem que ter
útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra. Eu acho
que deveria deixar uma mulher”.
De
imediato, a deputada anunciou que processaria o jornalista e solicitou ao
Ministério das Comunicações a suspensão do seu programa por 30 dias. Assim como
a parlamentar do PSol, o Ministério Público Federal pediu a “condenação de
Ratinho e do SBT por falas transfóbicas”. Além de solicitar o pagamento de 10
milhões de reais “a título de indenização por danos morais coletivos”, o órgão
demanda que a emissora retire, de imediato, a íntegra do programa de seus sites
e redes sociais, “como forma de limitar o dano perpetrado pelas falas
discriminatórias e preconceituosas”. Perigoso.
No
entanto, continuemos com Erika Hilton, instituições de Estado e remoção de
conteúdos em plataformas de acesso público. Mas desta vez vejamos a ação da
Advocacia Geral da União. Este órgão, atendendo a um pedido da eminente
deputada federal, notificou a plataforma X, em abril deste ano, exigindo a
derrubada de algumas postagens sobre o projeto de lei que equipara a misoginia
ao crime de racismo.
Vejamos
o que diz o jornal Metrópoles:
“A
maioria das postagens que a AGU busca remover faz uma confusão entre dois
projetos da mesma autora, a senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA). O projeto
aprovado que equipara a misoginia ao crime de racismo. Já o trecho citado nas
postagens é de outro projeto de Lobato, o que cria a política nacional de
combate à misoginia”.
Um dos
alvos da ação da AGU foi a jornalista Madeleine Lacsko. Isso fez com que a
própria AGU enviasse outro documento à plataforma X, desta vez pedindo que a
empresa levasse em consideração a liberdade de imprensa. A notificação da
procuradoria, assinada pelos advogados da União Raphael Ramos Monteiro de Souza
e Clarice Calixto acentua: “Solicita-se que, na análise dos conteúdos cuja
remoção foi solicitada, seja observado o disposto no § 1º, inciso VI, do
normativo supracitado, de modo que não sejam removidas postagens efetuadas por
profissionais da imprensa”. Confuso. Muito confuso e atabalhoado. Não faz
sentido. Não são apenas os profissionais de imprensa que devem ter o direito à
liberdade de expressão assegurado. Todos os cidadãos brasileiros, profissionais
de quaisquer áreas, ou não profissionais!
Já tive
a oportunidade de iniciar um texto criticando justamente uma “deturpação” por
parte de Madeleine Lacsko, quando o jornalista faz uma equiparação cínica e
equivocada entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro – O Mito dos Monstros Gêmeos.
Mas simplesmente não dá para ter como luta ou orientação política a censura. Se
seguirmos a lógica de derrubada de postagens que “confundem”, “deturpam” ou
“manipulam”, é preciso que se fechem urgentemente os estúdios da Globonews! Na
verdade, todas as redações dos grandes veículos de mídia do Brasil.
Vou
ficar com apenas um exemplo, o mais recente que tive contato. A Folha de S.
Paulo sugere uma relação entre os ataques estadunidenses no Irã e uma maior
liberdade feminina: “Mulheres sem véu e dirigindo motos se multiplicam pelas
ruas do Irã desde início da guerra”. Se porventura a matéria indigna aqueles
com uma postura anti-imperialista, grande parte dos comentários na página do
Instagram é satisfatória. Muitos internautas denunciam a falsificação do jornal
e sua tentativa de justificar – ou legitimar e louvar – os bombardeios sobre
Teerã.
As
ações que pedem a derrubada de postagens das redes digitais ou a suspensão de
determinados programas são empreendidas com a justificativa política – e moral
– de se enfrentar a extrema-direita, o bolsonarismo, o fascismo, etc. Ora! Nada
mais inócuo. Embora tal política – a luta por meio da Justiça e do Estado
Policial – venha sendo empregada nos últimos anos, o candidato que representa
justamente os três polos que se visa combater tem chances reais de ser eleito
presidente. Para não falar das projeções que apontam um aumento da bancada do
PL no parlamento.
Desconsidera-se
ainda a capacidade intelectual do povo comum de participar do debate público
sem tutela e de identificar manipulações e mentiradas. Vejamos, por exemplo, o
caso mencionado agora há pouco dos protestos na caixa de comentários da Folha
de S. Paulo. Essa tara por censura e “leis” “anti isso” e “anti aquilo” parece
que está causando certa desorientação política.
O
projeto sionista reivindicado por Tabata Amaral teve, inicialmente, o apoio de
quadros importantes da esquerda. Foi necessária uma forte pressão do eleitorado
para que parlamentares recuassem e retirassem a “assinatura de projeto que
considera antissemitismo criticar Israel”.
A
contribuição para um Estado cada vez mais vigilante, controlador e repressor é
perigosa para quem? Sejamos justos: nunca haverá uma lei “anti-Ratinho”. Mas
muito facilmente podemos ter uma legislação que dê brechas para punir e
censurar expressões populares – “lei anti-funkeiro A”, “lei anti-rapper B” – ou
bandeiras historicamente tremuladas pelas esquerdas!
Vejamos
uma das últimas denúncias feitas pelo jornalista Breno Altman: “são absurdos os
decretos do presidente Lula nos pontos em que determinam o dever das
plataformas de retirar conteúdos sem decisão judicial, quando se trata de
“terrorismo” e outros temas. Essa medida confere maior poder a esses
oligopólios e fragiliza a liberdade de expressão como direito essencial”.
A
partir do decreto assinado pelo Presidente da República, foram consolidadas
algumas alterações no Marco Civil da Internet. O Supremo Tribunal Federal já
havia selecionado sete grupos de crimes considerados graves que exigem remoção
imediata do conteúdo pelas próprias redes: terrorismo, instigação à mutilação
ou ao suicídio, golpe de Estado e ataques à democracia, racismo, homofobia e
crimes contra mulheres e crianças. O governo federal anunciou as mudanças como
“novas diretrizes para a proteção de mulheres no ambiente digital”.
O
portal G1 reforça: o algoritmo deve ser programado para reduzir o alcance de
ataques coordenados contra mulheres – como os que costumam atingir mulheres
jornalistas atacadas por causa de seu trabalho.
Não há
dúvidas acerca do compromisso do Presidente da República com a democracia, com
as minorias e os direitos humanos. No entanto, nos vemos diante de uma série de
conceitos vagos. Breno Altman chamou a atenção para o caso do terrorismo.
Trata-se, com efeito, de uma categoria historicamente invocada para se referir
também a grupos e sujeitos que se opõem às investidas imperialistas.
Vejamos
um exemplo concreto: quando Susana Botar expressou, nos estúdios do Opera
Mundi, a sua admiração pela República Islâmica do Irã, o Hamas e o Hezbollhah
enquanto os movimentos insurgentes “contra o imperialismo e o colonialismo a
partir do século XX”, logo Renata Barreto acusou a estudante de ser uma “mulher
que defende movimentos terroristas fundamentalistas islâmicos”, isto é, “mais
um produto da esquerda antissemita”. A visão sobre o Hamas e o Hezbollah
apresentada pela empresária é a mesma disseminada pelos veículos da grande
imprensa e – podem inferir sem medo de resvalar – é compartilhada pelos quadros
dos órgãos do Estado brasileiro.
O meu
intento aqui é – correndo o risco de ser egocêntrico e cometer “sincericídio” –
menos defender o direito da extrema-direita ou de qualquer indivíduo com quem
não concordo, de expor os seus pensamentos repulsivos, e mais chamar a atenção
para o poder que estamos dando à burocracia do Estado – entidade que tem
historicamente utilizado poder contra minorias e outros grupos políticos que
reivindicavam mais direitos.
Parece
que as ferramentas empregadas para tentar proteger minorias são as mesmas
utilizadas para silenciá-las. Determinado setor da esquerda passou a depender
visceralmente do Estado punitivo e a defendê-lo visceralmente. A repressão
policial e judicial virou o principal instrumento de luta política.
Honestamente, posso estar equivocado, mas não sei se é um bom caminho.
Fonte:
Por Osnan Silva de Souza, em A Terra é Redonda

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