O
Brasil entrou na corrida mineral do século XXI. Como potência ou como colônia?
Há
alguns anos venho escrevendo sobre soberania tecnológica, dependência
econômica, guerra informacional, reindustrialização e as transformações
geopolíticas produzidas pela reorganização das cadeias globais de poder. Sob
diferentes formas, todas essas questões conduzem a uma mesma pergunta: quem
controlará os recursos, as tecnologias e as infraestruturas que sustentarão a
economia do século XXI?
Foi com
essa preocupação que estive em Brasília, nos dias 9 e 10 de junho, para
acompanhar o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos,
promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Minha presença no
evento foi viabilizada graças ao apoio da Rede Lawfare Nunca Mais e da Rede
pela Soberania. Mais do que um gesto de apoio individual, essa decisão revelou
uma compreensão estratégica rara sobre a importância do tema. Em um momento em
que boa parte do debate público ainda dedica pouca atenção aos minerais
críticos, essas organizações compreenderam que a disputa em torno desses
recursos influenciará diretamente o desenvolvimento econômico, tecnológico e
industrial do Brasil nas próximas décadas. Registro aqui não apenas meu
agradecimento, mas meu reconhecimento político e intelectual pela lucidez
daqueles que entenderam a dimensão histórica desse debate.
Eu não
fui a Brasília para descobrir a importância dos minerais críticos. A relevância
desse tema já se tornou evidente há muito tempo para quem acompanha a disputa
global por tecnologia, energia, infraestrutura digital, inteligência artificial
e capacidade industrial. O que encontrei no seminário foi a confirmação de que
uma questão antes restrita a especialistas, pesquisadores e formuladores de
políticas públicas passou definitivamente a ocupar o centro das disputas
estratégicas do nosso tempo.
O
próprio perfil do evento revelava isso. Reunidos no mesmo espaço estavam
representantes das maiores mineradoras em operação no país, membros do governo
federal, parlamentares, bancos públicos, universidades, centros de pesquisa,
agências reguladoras e instituições ligadas à política industrial e
tecnológica. Raramente atores tão distintos convergem em torno de um mesmo tema
sem que algo estrutural esteja em movimento.
Talvez
essa tenha sido a principal constatação daqueles dois dias.
Os
minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão mineral. Tornaram-se uma
questão de poder.
Estão
presentes nas cadeias produtivas que sustentam a inteligência artificial, os
semicondutores, os sistemas avançados de defesa, os veículos elétricos, as
redes de telecomunicações, os data centers e boa parte das tecnologias que
reorganizam a economia mundial. Quem observa apenas a mina vê apenas uma parte
da história. Quem observa as cadeias produtivas, os fluxos tecnológicos e os
interesses geopolíticos percebe algo maior: estamos diante de uma das mais
importantes disputas econômicas e estratégicas do século XXI.
Por
essa razão, este artigo inaugura uma série dedicada a analisar os debates
observados em Brasília e suas implicações para o Brasil. O objetivo não é
reproduzir palestras nem resumir apresentações. É compreender o significado
histórico de um fenômeno que atravessa indústria, tecnologia, geopolítica,
desenvolvimento e soberania.
A
pergunta que orientará toda esta série é simples.
O
Brasil entrou definitivamente na corrida mineral do século XXI.
O que
permanece em disputa é a forma como pretende participar dela.
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Um seminário corporativo diante de uma questão nacional
O
primeiro aspecto que chamou atenção no seminário foi uma aparente contradição.
Embora organizado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), principal
entidade representativa do setor mineral, o evento ultrapassava em muito os
limites de uma discussão corporativa. Não era difícil compreender por quê.
As
empresas presentes tinham razões evidentes para estar ali. Vale, BHP, Anglo
American, CBMM, Serra Verde e outras companhias sabem que a corrida global
pelos minerais críticos abriu uma das maiores oportunidades econômicas das
próximas décadas. A expansão dos veículos elétricos, dos data centers, da
inteligência artificial, das redes de energia e da indústria avançada
transformou terras raras, lítio, cobre, grafita e nióbio em ativos cada vez
mais valorizados.
Mas
seria ingenuidade imaginar que todos os participantes do seminário estavam ali
defendendo exatamente os mesmos objetivos.
Para as
grandes corporações mineradoras, o desafio central consiste em ampliar
investimentos, acelerar projetos e garantir condições regulatórias favoráveis
para disputar mercados globais em rápida expansão. Para setores do Estado, da
pesquisa científica e da política industrial, a questão é mais complexa. O que
estava em discussão não era apenas como extrair mais, mas como evitar que uma
riqueza estratégica produzisse, mais uma vez, benefícios desproporcionais para
agentes privados enquanto os maiores ganhos tecnológicos, industriais e
econômicos fossem apropriados em outras etapas das cadeias globais de valor.
Essa
tensão raramente aparecia de forma aberta nos discursos. Mas estava presente no
ambiente. E ajuda a explicar por que um seminário sobre mineração acabou se
transformando, na prática, em um debate sobre desenvolvimento, poder econômico
e futuro nacional.
Afinal,
quando se fala em minerais críticos, não se está discutindo apenas mineração.
Está-se discutindo quem controlará os benefícios econômicos, tecnológicos e
produtivos associados a recursos que se tornaram essenciais para a
reorganização da economia mundial.
Foi
essa tensão que transformou o seminário em algo muito maior do que um encontro
empresarial.
Por
trás das apresentações técnicas, dos painéis e dos debates regulatórios, o que
se observava era o encontro entre diferentes projetos para o futuro desses
recursos estratégicos. Um debate que, embora ainda pouco visível para a maior
parte da sociedade brasileira, tende a influenciar decisões econômicas,
industriais e tecnológicas que ultrapassarão em muito os limites do setor
mineral.
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O novo mapa material do poder
Durante
boa parte do século XX, compreender a geopolítica mundial significava
compreender o petróleo. A localização das reservas, o controle das rotas
marítimas, os oleodutos, as refinarias e os grandes produtores influenciaram
guerras, alianças internacionais, crises econômicas e estratégias nacionais
durante décadas.
No
século XXI, essa equação tornou-se mais complexa.
O
petróleo continua importante, mas uma nova camada de recursos estratégicos
passou a ocupar posição central na economia mundial. Terras raras, lítio,
cobre, grafita, níquel, silício e outros minerais deixaram de ser insumos
industriais relativamente especializados para se transformar em componentes
indispensáveis das tecnologias que estruturam a nova fase do desenvolvimento
global.
Essa
transformação ocorreu porque a economia contemporânea passou a depender de
sistemas físicos muito mais sofisticados do que aqueles que marcaram os ciclos
anteriores da industrialização. Um veículo elétrico demanda quantidades
significativas de minerais estratégicos. Uma turbina eólica depende deles. Um
semicondutor depende deles. Um data center depende deles. Um satélite depende
deles. Uma rede de telecomunicações depende deles.
Até
mesmo a inteligência artificial, frequentemente apresentada como uma tecnologia
abstrata e imaterial, depende de uma infraestrutura física gigantesca.
Servidores, chips avançados, sistemas de armazenamento de energia, redes
elétricas e centros de processamento de dados são construídos sobre cadeias
produtivas intensivas em minerais críticos.
Foi
essa mudança que reposicionou esses recursos no centro das atenções de
governos, indústrias e centros de pesquisa ao redor do mundo.
Existe
uma ironia pouco percebida nessa transformação.
Durante
anos, a economia digital foi apresentada como uma espécie de superação da
economia material. Falava-se em plataformas, algoritmos, inteligência
artificial, computação em nuvem e virtualização de processos como se o futuro
estivesse cada vez menos dependente de recursos físicos.
O que a
corrida pelos minerais críticos está demonstrando é exatamente o contrário.
Quanto
mais digital se torna a economia, mais ela depende de infraestrutura material.
Quanto mais avançados se tornam os algoritmos, maior é a necessidade de
energia, servidores, chips, redes elétricas, centros de processamento de dados
e sistemas industriais capazes de sustentar essa arquitetura tecnológica. E
tudo isso começa muito antes dos laboratórios de software. Começa na mineração,
no processamento mineral, na metalurgia e na manufatura avançada.
Sob
esse aspecto, os minerais críticos estão produzindo uma espécie de reencontro
entre geologia e geopolítica. O debate sobre inteligência artificial, transição
energética e indústria avançada volta a depender de questões que pareciam
pertencer ao passado: recursos naturais, capacidade produtiva, infraestrutura
física e planejamento estratégico.
Talvez
seja essa a principal mudança histórica em curso.
O
século XXI não está substituindo a economia material.
Está
reconstruindo-a sobre novas bases.
O
petróleo moveu a economia do século XX. Os minerais críticos alimentam as
infraestruturas que sustentarão o século XXI.
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Da mina ao ímã: onde a riqueza realmente aparece
Uma das
contribuições mais interessantes do seminário foi deslocar o debate da extração
para a transformação.
Durante
décadas, a discussão sobre mineração no Brasil esteve concentrada na descoberta
de reservas, na abertura de minas e no aumento da produção. Os minerais
críticos introduzem uma lógica diferente. A pergunta relevante já não é apenas
quem possui os recursos, mas quem domina as etapas capazes de transformá-los em
produtos de alto valor agregado.
Foi
justamente nesse ponto que alguns dos projetos apresentados em Brasília se
tornaram particularmente reveladores.
O
exemplo mais impressionante apresentado durante o seminário foi o MAGBRAS. À
primeira vista, trata-se de um projeto voltado à produção de ímãs permanentes
de terras raras. Na prática, porém, representa algo muito maior: uma tentativa
de reconstruir, dentro do território brasileiro, etapas tecnológicas que hoje
permanecem concentradas em um número reduzido de países.
O
projeto reúne mineradoras, universidades, institutos de pesquisa e empresas
industriais em uma cadeia que começa na extração mineral e percorre sucessivas
etapas de transformação tecnológica. O minério extraído em Minas Gerais segue
para processamento e separação química, passa por centros tecnológicos no Rio
de Janeiro e em São Paulo, incorpora conhecimento científico desenvolvido por
instituições como o CETEM, o IPT e a UFSC e retorna à indústria na forma de
componentes de alta complexidade tecnológica. Empresas como a WEG participam da
etapa de aplicação industrial desses materiais.
O que
torna essa iniciativa tão relevante é que ela revela algo frequentemente
ignorado no debate público: entre a mina e o produto final existe um universo
inteiro de ciência, engenharia, tecnologia, propriedade intelectual e
capacidade industrial. É nesse espaço que surgem os empregos mais qualificados,
os maiores ganhos econômicos e as competências tecnológicas que diferenciam
países capazes de produzir tecnologia daqueles que apenas fornecem insumos para
que outros a produzam.
Em
outras palavras, o verdadeiro salto econômico não ocorre quando o minério sai
do solo. O salto ocorre quando conhecimento, pesquisa e capacidade produtiva
são incorporados à matéria-prima e a transformam em tecnologia.
Esse
detalhe é fundamental porque ajuda a compreender onde a riqueza realmente é
gerada.
Em
geral, a etapa de extração representa apenas uma fração do valor econômico
associado aos minerais críticos. À medida que o material avança pelas
diferentes etapas de processamento, incorporação tecnológica e transformação
industrial, seu valor cresce de forma exponencial. É por isso que países
industrializados raramente disputam apenas minas. O objetivo é controlar as
etapas que concentram conhecimento, tecnologia, propriedade intelectual e
capacidade produtiva.
A
experiência internacional oferece exemplos claros. A China não se tornou
referência global em terras raras apenas porque possui reservas significativas.
Sua posição foi construída ao longo de décadas de investimentos em refino,
processamento químico, engenharia de materiais e manufatura avançada. O mesmo
raciocínio pode ser observado em setores estratégicos desenvolvidos por Japão,
Coreia do Sul e Alemanha, países que compreenderam que a riqueza associada aos
recursos naturais depende menos da extração e mais da capacidade de transformar
matéria-prima em produtos complexos.
Foi
exatamente essa lógica que apareceu diversas vezes ao longo do seminário.
Quando pesquisadores discutiam separação de óxidos, quando engenheiros
apresentavam soluções para materiais avançados ou quando empresas demonstravam
aplicações industriais para terras raras e nióbio, o debate já não era sobre
mineração. Era sobre tecnologia.
Talvez
essa seja uma das principais lições dos minerais críticos.
No
século XXI, possuir recursos naturais continua sendo importante. Mas cada vez
mais decisivo é possuir a capacidade científica, tecnológica e industrial
necessária para transformá-los em conhecimento, produtos e riqueza.
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Quando a disputa chega ao Congresso
Em
algum momento, toda transformação econômica relevante produz uma disputa
política correspondente.
Os
minerais críticos não são exceção.
À
medida que governos, empresas, centros de pesquisa e investidores passaram a
reconhecer a importância estratégica desses recursos, tornou-se inevitável a
necessidade de construir regras capazes de orientar sua exploração, seu
financiamento e sua inserção nas cadeias produtivas nacionais. É nesse contexto
que surge o Projeto de Lei 2780/2024, que institui a Política Nacional de
Minerais Críticos e Estratégicos.
O
aspecto mais importante do projeto, porém, não está em seus dispositivos
específicos.
Está no
fato de que ele se transformou em um espaço de disputa entre diferentes
interesses econômicos e diferentes visões sobre o papel que esses recursos
deverão desempenhar no futuro do país.
Ao
longo do seminário, essa tensão apareceu diversas vezes, ainda que nem sempre
de forma explícita.
De um
lado, representantes do setor mineral defendiam a necessidade de ampliar a
competitividade brasileira diante de uma corrida global cada vez mais
acelerada. O argumento central é conhecido: excesso de condicionantes, demora
regulatória e insegurança jurídica poderiam afastar investimentos e reduzir a
capacidade do país de aproveitar uma oportunidade histórica.
Do
outro lado, representantes de instituições públicas, centros de pesquisa e
setores ligados à política industrial demonstravam preocupação com uma questão
diferente: como garantir que a corrida pelos minerais críticos produza
benefícios duradouros para o país e não apenas a ampliação das exportações de
recursos estratégicos.
A
experiência internacional mostra que momentos como este costumam produzir
consequências que ultrapassam em muito o setor que lhes deu origem. As regras
estabelecidas nos períodos iniciais de uma nova fronteira econômica
frequentemente condicionam, por décadas, a distribuição dos investimentos, das
capacidades produtivas e dos benefícios associados a ela.
Um
aspecto particularmente revelador do seminário não foi apenas aquilo que
apareceu nos debates, mas também aquilo que permaneceu ausente deles.
Ao
longo de dois dias de discussões, falou-se muito sobre investimentos,
competitividade, expansão da produção, cadeias produtivas e oportunidades
econômicas associadas aos minerais críticos. No entanto, temas relacionados ao
papel do Estado na coordenação desse processo, à criação de instrumentos
públicos permanentes de governança ou mesmo propostas como a Terrabras
apareceram de forma marginal ou simplesmente não apareceram.
Essa
ausência chama atenção.
As
experiências internacionais mais bem-sucedidas na construção de setores
estratégicos raramente foram resultado exclusivo das forças de mercado. Dos
Estados Unidos à China, passando por Japão, Coreia do Sul e União Europeia, a
consolidação de cadeias produtivas consideradas estratégicas esteve associada,
em diferentes graus, à ação coordenadora do Estado, ao financiamento público,
ao planejamento de longo prazo e à definição de objetivos nacionais claros.
Não se
trata de defender modelos específicos nem de ignorar o papel da iniciativa
privada. Trata-se de registrar uma questão que permaneceu relativamente fora do
centro dos debates: se existe consenso sobre a importância estratégica dos
minerais críticos, ainda permanece aberta a discussão sobre quais instrumentos
institucionais serão necessários para garantir que essa riqueza seja
administrada de acordo com interesses de longo prazo do país.
Talvez
justamente por tocar em temas mais sensíveis, essa tenha sido uma das ausências
mais eloquentes observadas ao longo do seminário. Em um encontro dedicado a
discutir recursos considerados estratégicos para o futuro econômico e
tecnológico do país, o relativo silêncio em torno dos instrumentos de
coordenação estatal acabou se tornando, paradoxalmente, uma das informações
mais relevantes produzidas pelo próprio evento
É
justamente por isso que o debate sobre minerais críticos ultrapassa os limites
da mineração.
O que
está sendo discutido não é apenas uma política setorial.
É a
forma como o Brasil pretende administrar um conjunto de recursos que passou a
ocupar posição central na reorganização econômica do século XXI.
Talvez
essa seja a principal razão pela qual o PL 2780 desperta tanto interesse.
Ele não
responde sozinho às questões colocadas pelos minerais críticos. Mas ajudará a
definir as condições sob as quais essas questões serão enfrentadas nos próximos
anos. E, em momentos históricos como este, as regras importam tanto quanto os
recursos.
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A escolha brasileira
Ao
final dos dois dias de debates em Brasília, ficou evidente que os minerais
críticos representam muito mais do que uma nova fronteira econômica. Eles se
transformaram em um teste histórico para a capacidade brasileira de formular um
projeto nacional compatível com as transformações tecnológicas, energéticas e
geopolíticas em curso no século XXI.
A
relevância dessa discussão não decorre apenas da existência de reservas
minerais expressivas em território nacional. Outros países também possuem
recursos estratégicos. A diferença está na capacidade de transformar riqueza
geológica em riqueza econômica, capacidade científica, poder industrial e
autonomia tecnológica.
A
história internacional oferece exemplos eloquentes. Há países que permaneceram
presos à condição de exportadores de matérias-primas mesmo dispondo de recursos
abundantes. Há outros que utilizaram seus recursos estratégicos para construir
indústria, tecnologia, infraestrutura, conhecimento e poder econômico. Em
geral, a diferença não esteve no subsolo. Esteve nas decisões políticas tomadas
acima dele.
Essa
talvez seja a principal reflexão que emerge do seminário.
Os
minerais críticos não produzirão desenvolvimento por conta própria. Não criarão
indústria por inércia. Não fortalecerão a posição internacional do Brasil
apenas porque existem em abundância no território nacional. Recursos naturais
são potenciais. Transformar potencial em desenvolvimento depende de estratégia,
planejamento, coordenação institucional e, sobretudo, de uma clara definição
dos interesses nacionais que devem orientar esse processo.
É
justamente por isso que o debate sobre minerais críticos ultrapassa os limites
da mineração. O que está em jogo não é apenas a exploração de determinadas
reservas. O que está em disputa é a capacidade do Brasil de utilizar uma
riqueza que pertence à nação para fortalecer sua base produtiva, ampliar sua
capacidade tecnológica e construir uma inserção menos subordinada na economia
mundial.
Foi
essa a principal impressão que trouxe de Brasília.
A
corrida global pelos minerais críticos já começou. Governos, corporações e
centros industriais ao redor do mundo compreenderam que esses recursos ocuparão
posição central na reorganização das cadeias produtivas das próximas décadas. O
Brasil entrou nessa corrida com vantagens que poucos países possuem. Mas
vantagem geológica não garante vitória histórica.
A
verdadeira disputa começa agora.
O
seminário revelou apenas a camada mais visível desse processo. Por trás dos
debates técnicos, das apresentações corporativas e das discussões regulatórias
existe uma disputa muito maior envolvendo Estados, corporações, cadeias
produtivas globais, estratégias industriais e diferentes projetos de
desenvolvimento.
Nos
próximos artigos desta série, aprofundaremos justamente aquilo que apareceu
apenas parcialmente em Brasília. Investigaremos a corrida internacional pelas
terras raras, os movimentos de China, Estados Unidos e União Europeia sobre o
subsolo brasileiro, as disputas em torno do PL 2780, os limites e
possibilidades da industrialização nacional e o papel que minerais críticos
passaram a desempenhar nas cadeias de inteligência artificial, defesa, energia
e tecnologia avançada.
Porque
a questão central nunca foi apenas mineral.
A
disputa do século XXI não ocorre apenas sobre jazidas, territórios ou reservas
naturais. Ela ocorre sobre os fluxos que conectam recursos, conhecimento,
tecnologia, indústria e poder. Extrair minério gera riqueza. Controlar as
cadeias que transformam esse minério em tecnologia gera algo muito maior:
capacidade de definir quem captura essa riqueza e quem permanece dependente
dela.
Os
minerais críticos são apenas o ponto de partida.
A
verdadeira discussão é sobre desenvolvimento, soberania e o lugar que o Brasil
pretende ocupar na nova geografia do poder mundial. E essa história está apenas
começando.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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