Extrema-direita
e governo petista estão disputando Trump
Quem
não se deixa inebriar pelos discursos ideológicos
da extrema-direita e da esquerda e analisa a realidade a
partir da complexidade vivida, percebe que estamos num labirinto. Essa foi a
imagem que José Cláudio Alves usou para dizer que estamos “num
cenário muito ruim” quando o assunto
é segurança pública, violência e propostas para
o enfrentamento do crime. “A insegurança que a população
identifica cada vez mais não é falsa. Não é uma percepção equivocada,
deturpada, manipulada. É uma percepção real. As pessoas estão vivendo essa
insegurança”, afirma José Cláudio Alves na entrevista a seguir
concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
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Confira a entrevista.
·
O que significa a classificação do Primeiro Comando da
Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo
Departamento de Estado dos Estados Unidos?
José
Cláudio Alves – Vejo
por trás dessa designação um jogo muito mais político do que
efetivamente um jogo de políticas públicas para resolver o problema em si
mesmo. Essa classificação faz com que as cooperações que já existiam entre as
forças brasileiras e estadunidenses saiam da alçada das polícias e passem para
outra esfera, que é a que vai definir políticas de segurança nacional. Tudo
indica que a cooperação que existia começará a sofrer modificações e estará sob
a análise do Departamento de Segurança Nacional.
·
A decisão do Departamento de Estado americano foi
anunciada depois do encerramento da viagem de Flávio Bolsonaro a Washington. Há
correlação entre os acontecimentos? A decisão tem influência da extrema-direita
ou Trump pode estar tentando favorecer a futura candidatura de Flávio no
Brasil?
José
Cláudio Alves – As
duas coisas. A extrema-direita tem influenciado isso e, ao mesmo
tempo, Trump tem interesse em se aproximar dela por mais que faça
acenos para Lula e estabeleça uma linha de diálogo bastante
contraditória. As notícias anteriores a esse fato informavam que as tarifas
tinham sido apaziguadas. Lula tinha se aproximado de Trump. Ele
foi aos EUA tentar uma mediação. O Brasil está numa posição de diálogo e de
interesses econômicos. Mas, de repente, tem-se uma configuração paralela àquele
cenário mais favorável. Há um jogo de empurra-empurra para ver quem
consegue pressionar mais e obter mais favorecimento discursivo e midiático para
a sua bandeira. Logo após as aproximações e conquistas de Lula, que se
mostrou um estadista, as matérias apresentam que a extrema-direita está dizendo
o que os bolsonaristas precisam ouvir: possibilidade de intervenção,
de transformar as facções em organizações terroristas, aumento das tarifas
para determinados produtos por causa do Pix ou uma suposta política protecionista
que prejudica os interesses americanos. Parece um campo de guerra onde
a extrema-direita e o governo petista estão disputando a
mesma figura: a figura de Trump. É impressionante, mas é disso que se
trata, hoje, na política nacional. É uma forma de usar essa dimensão a seu
favor. Agora é a vez da extrema-direita fazer isso com esse discurso. No caso
das taxações e da crítica ao Pix, Lula está se saindo melhor. Ele mostra
que isso vai prejudicar a economia, mostra o vínculo disso com o projeto bolsonarista
e Trump, enquanto o bolsonarismo tenta se desvincular da ideia de que quer
bloquear o Pix. Na questão da classificação das facções como organizações
terroristas não há essa disputa tão intensa de dizer que isso é
responsabilidade do PT. O discurso da extrema-direita é que o Lula,
o PT e a esquerda se aproximam das facções e, por isso, Trump
interfere para impedi-las. Há uma manipulação nesse sentido, mas,
concretamente, não existe essa vinculação entre governo e facções.
·
Há quem veja nessa classificação uma ameaça à soberania e
riscos de uma futura intervenção norte-americana aqui, como aconteceu na
Venezuela. Esse raciocínio é plausível? Abre-se essa brecha?
José
Cláudio Alves – No
caso venezuelano tinha um interesse mais concreto e preciso, como a crise da
democracia venezuelana, a questão das eleições não reconhecidas e um bem que
os Estados Unidos sempre quiseram colocar a mão, que é
o petróleo. A economia brasileira tem uma pujança e uma dimensão
diferentes. A estrutura política brasileira e sua presença no mundo em termos
internacionais é muito diferente da venezuelana. As pessoas falam
do risco de uma intervenção, mas não vejo, concretamente, como isso seja
possível hoje. A ideia de uma intervenção ou ameaça à sociedade brasileira e à
política nacional pode ser parte desse jogo. Talvez, o uso de uma possibilidade
de intervenção seja mais plausível do que a intervenção em si mesma. Escalar
uma guerra numa dimensão desse porte é pouco provável. Trump está mal
politicamente desde a escalada da guerra do Irã. Ele tem afundado nas
pesquisas e se colocado cada vez em posições piores. Mas ele tem
um neoimperialismo absoluto. Há uma imprevisibilidade porque a decisão
dele prevalece sobre tudo e sobre todos. Nesse cenário conturbado, ele é muito
mais parte de um jogo que pode ser usado e simbolicamente manipulado pela
direita brasileira para nos colocar numa situação de fragilidade, de
indeterminação e incapacidade. Mas uma intervenção como aconteceu na Venezuela é
pouco provável.
·
Que efeitos concretos podem ser esperados a partir dessa
classificação?
José
Cláudio Alves – Economicamente,
as implicações disso podem ser mais graves. Se qualquer estrutura do sistema
financeiro brasileiro (bancos, fintechs) for identificada como
parte da estrutura do tráfico ou das facções, essas contas financeiras podem
ser bloqueadas, causando muito prejuízo. Isso impede ações de cooperações e
pode fazer com que haja mudanças na estrutura financeira em função dos impactos
na própria dimensão financeira nacional, mas a estrutura em si, de onde vem a
grana do crime organizado, das facções, não será impactada por essa
classificação. Não vejo como a classificação como terroristas vai
dificultar realmente ou impedir a ação das facções. Esse é um jogo discursivo,
politizado, que está sendo jogado para favorecer Flávio Bolsonaro. A
estrutura criminal das facções é cada vez mais ampla. Em todas as esferas temos
notícia dessa amplitude de uso do setor financeiro, de produção de bens de
serviços, ou seja, de uma lógica cada vez mais ampliada e diversificada. Nesse
momento, tudo vai se encaminhar para o debate político eleitoral. Não sei como
vai ser daqui para frente, mas tenho observado uma dinâmica de intensificação
de disputa de território – assassinatos no campo político têm ocorrido em
função dessa disputa. Mercados do tráfico e da estrutura miliciana têm sido
intensificados em termos de disputa territorial e tudo está
voltado à disputa eleitoral: obtenção de voto e grana que se volta
para o voto. Tanto as facções quanto as milícias são acionadas para isso. Tudo
indica que essa mudança de nomenclatura está associada a essa disputa. Agora,
isso não é algo imediato. Não é que o CV vai votar
no Lula ou as milícias vão votar
no Flávio Bolsonaro. Não existe essa vinculação imediata. Existem
territórios em disputa.
·
IHU – Onde a esquerda está falhando quando se trata de
enfrentar o tráfico de drogas e os problemas relativos à segurança pública?
Alguns críticos avaliam que o PT e a esquerda em geral estão dissociados dos
problemas reais da população, como insegurança e a violência. É isso
mesmo?
José
Cláudio Alves – Fala-se
muito – através de matérias – de uma sensação de insegurança da população que
não corresponde à realidade, porque a realidade mostra que os homicídios
diminuíram. A série histórica do Atlas da Violência mostra que em
2024 foram registrados os mais baixos índices em termos de homicídios dolosos.
A partir disso, questiona-se por que a população tem essa sensação de que a
insegurança e a violência estão crescendo. A sociedade tem essa sensação não
porque a população é manipulável, mas porque a realidade tem sido esta: tem
sido muito mais complexa e mais difícil; é uma realidade onde os dados não são
dados. O maior exemplo é o que estudo: os desaparecimentos forçados. Eles
estão submersos num índice muito maior que é o de “pessoas desaparecidas” – mas
não se dá a conhecer a causa do desaparecimento. Então, não tem como provar o
desaparecimento forçado, mas esse é um dado que está no meio dos
desaparecimentos em geral, que podem ter várias causas. É um dado que está ali,
escondido, ocultado, ou seja, não se consegue ter firmeza de que aquilo é
aquilo mesmo. Isso vale para os outros indicadores de segurança. Se
formos falar de morte por intervenção policial, veremos que elas estão
aumentando. Não estão diminuindo. Embora os homicídios dolosos estejam caindo
como um todo, os homicídios por intervenção policial têm aumentado. Ou seja,
esse é um dado escondido que ninguém vai debater, mas que amplia
a sensação de insegurança da população. Os dados que não são coletados são
sub-registros. Os sub-registros indicam que as pessoas não estão
registrando as dimensões da violência. Elas têm muito receio porque estão em
territórios muito mais controlados e violentos. Logo, a população não vai
registrar esses casos porque ela não é louca e porque está se escondendo dessa
estrutura extremamente violenta.
A estrutura
é violenta e está cada vez mais próxima das pessoas: é o vizinho, o
parente. O mundo do crime se tornou realmente uma alternativa num cenário onde
as pessoas não têm salário, não têm emprego, não têm estabilidade. O mundo do
crime se amplia, cresce e está ao lado da vida das pessoas. Como as pessoas vão
registrar as dimensões criminais estando essas dimensões na sua porta, ao seu
lado? Quando querem fazer o registro, as pessoas se deparam com os
perpetradores da violência dentro da estrutura de segurança. As facções têm
aproximações com a estrutura de segurança pública. As facções não estariam onde
estão se não fossem as próprias dimensões da segurança pública do Estado, como
os presídios, onde estão os agentes penitenciários. As milícias têm conexão com
tudo: com o mercado imobiliário, com estruturas das prefeituras, com
as Organizações da Sociedade Civil (OSCs) que prestam serviço na área
da saúde no Rio de Janeiro. Então, ao tentar fazer algum tipo de denúncia,
as pessoas se deparam com a estrutura estatal envolvida naqueles esquemas. O
que as pessoas vão fazer? Vão recuar. A insegurança que a população
identifica cada vez mais não é falsa. Não é uma percepção equivocada,
deturpada, manipulada. É uma percepção real. As pessoas estão vivendo essa
insegurança. Os índices e os indicadores é que não captam isso e não estão
sendo capazes de captar. Essa situação está muito mais subterrânea dentro da
sociedade. Isso tudo está desembocando num discurso mais generalizado, neste
que hegemoniza tanto a direita quanto a esquerda, o discurso da necessidade de
um punitivismo maior. Nesse sentido, o discurso do governo não confronta
o discurso do punitivismo. Não se faz um debate mais intenso e
eficaz, esclarecedor e mais qualificado. Se o governo tivesse o mesmo interesse
e empenho que tem no debate sobre programas sociais e econômicos para a
população, numa dimensão de comunicação governamental voltado à segurança
pública, ele não estaria enfrentando o que está enfrentando agora. Isso virou
uma área comum meio acinzentada entre a direita e a esquerda no
Brasil e, no fundo, isso contribui para uma dimensão de insegurança e percepção
de insegurança muito maior porque ela é muito maior.
·
Em várias cidades do país os comerciantes denunciam a
cobrança de pedágios e ameaças por parte de facções locais. O governo apresenta
o Programa Brasil contra o Crime Organizado como uma nova estratégia de combate
ao tráfico. Trata-se de uma nova estratégia? Os quatro eixos propostos têm
potencial de atacar a estrutura que permite, organiza e expande o funcionamento
do crime organizado?
José
Cláudio Alves – Não
adianta o governo dizer que vai atuar contra as estruturas
financeiras simplesmente. É preciso elencar isso dentro de uma dimensão
organizativa de combate, de uma governança e arranjo de várias instituições e
de um comprometimento muito maior com a estrutura de planejamento, orçamento e
operacionalização. Primeiro, essa proposta chega num momento muito
atrasado. O governo resolve se aproximar do problema e tentar propor coisas no
momento final, próximo das eleições, o que reduz muito a capacidade de
interferir, de fato, na situação. Segundo, olha-se para o problema de forma
hegemonizada pelo discurso punitivista, que virou hegemônico, sem entender
que a estrutura criminosa emerge no país a partir da lógica punitivista.
As grandes facções, como o CV, surgida nos anos 1970, e o PCC,
surgida no início dos anos 1990, só se transformaram no que são graças à nossa
estrutura punitivista gigantesca – somos o terceiro país mais encarcerador do
mundo e permitimos que elas se organizassem por dentro da estrutura
estatal prisional. A repressão aumenta o mercado e tende a aumentar o valor das
mercadorias criminais, sobretudo na lógica do tráfico de drogas e do tráfico de
armas. Também tem as questões relacionadas às milícias: a milícia opera em
vários mercados. Hoje, isso tudo se transformou num volume muito maior e muito
mais amplo. As dimensões da pobreza e da insegurança em termos
econômicos da população crescem ao longo desse período e tudo se cruza nesse
momento. Hoje, trava-se um debate dentro de um campo minado, onde uma
resposta mais adequada, coerente e eficaz se vê tolhida. Não vamos avançar
nesse cenário. Primeiro porque ele é fragmentado e não há uma governança
federal como um todo. Os governos querem tocar suas políticas de segurança e
não querem intervenções do governo federal que, por sua vez, tenta organizar
isso e não consegue.
·
O terceiro dos quatro eixos apresentados pelo governo
federal trata da qualificação da investigação dos homicídios, que é um tema
para o qual o senhor chama atenção há muitos anos, ao denunciar a não
investigação de muitos casos. Esse eixo específico pode significar uma mudança
de rota na investigação dos homicídios não investigados, por exemplo?
José
Cláudio Alves – Tudo
vai depender de como as coisas vão se desenrolar. Para fazer uma política de
esclarecimento de homicídios que funcione, de fato vários passos são
necessários. Um deles é vontade política para, de fato, chegar à estrutura
dos homicídios. Isso significa cruzar com interesses políticos de outros grupos
numa determinada região. Não tem saída. Toda estrutura criminal existente no
país hoje – facções, milícias, grupos de extermínio, jagunçagem que prospera no
interior, tráfico de drogas e de armas, toda a dimensão dos corredores de bens
e serviços criminais, como tráfico de madeira, de ouro, de minério, de seres
humanos, de exploração sexual, de caça de carnes exóticas, roubo de terra,
grilagem, invasão – está vinculada às estruturas políticas. Elas não existiriam
na proporção, na intensidade e nos impactos sob a população que têm hoje se não
tivessem esses vínculos políticos. Isso é disseminado no país. Faz parte da
dimensão criminal. Ela existe a partir disso. Então, ficamos num cenário
muito mais complicado porque se quer avançar e fazer investigação dos
homicídios. Nessas investigações, chegando nesses grupos, vão cruzar os
interesses dos grupos políticos que querem manter as estruturas criminais
próximas de si porque têm benefícios imediatos para os grupos organizados
politicamente? Tem um prefeito na cidade X, um deputado estadual na
cidade Y, e isso tudo cortado por partidos que se dissolvem para configurar
dimensões regionais de apoio a essas estruturas criminais que darão benefícios
econômicos que são fundamentais na época da eleição, além de benefícios
eleitorais, ou seja, votos. O homicídio vai incidir diretamente nessa
estrutura. Se quiserem, de fato, investigar homicídios, darão de cara contra
essa muralha.
Vou dar
um exemplo. Acompanho mães que tiveram seus filhos assassinados e
desaparecidos. Uma mãe me contou que o filho não tinha pai e se aproximou de um
vereador, que chegou a ser secretário de ordem pública, mas era líder de uma
milícia na mesma cidade. A partir de uma interação paternal, esse homem virou
uma espécie de pai para o garoto. Aproveitou-se dele e, num determinado
momento, o matou. O vereador foi preso, ficou anos na prisão e foi solto depois
de cumprir parte da pena. A mãe sabe de tudo o que aconteceu, mas ninguém na
cidade vai denunciar esse homicídio porque essa pessoa tem muito poder. Então,
se houver a vontade de investigar os homicídios no Brasil, precisará
haver, fundamentalmente, uma vontade política de prejudicar as pessoas que são
aliadas dessa estrutura e que contam com prefeitos e deputados. Segundo,
precisa haver uma estrutura de perícia autônoma, capaz de investigar e trazer
os elementos reais do que aconteceu para atingir aqueles que cometeram o
homicídio. Mais uma vez aqui é uma questão política: vão dar autonomia real
para as perícias investigarem e trazerem à luz todos os elementos envolvidos
numa morte? Terceiro, precisa ter um judiciário que não esteja comprometido com
essa estrutura.
Lembro
de um caso que ocorreu em Duque de Caxias nos anos 1980, em que uma
promotora pública descobriu que um juiz acautelava armas apreendidas de outros
crimes na mão de um oficial de justiça que era um matador. A política vai se
contrapor a essa estrutura? Numa tese de doutorado que ajudei a orientar na
Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), o pesquisador disse que nos
casos em que os milicianos foram levados ao tribunal de júri, não foram
condenados porque o standard probatório das provas do crime é
muito pobre e, portanto, o júri não os condena. Quem deveria produzir provas
para levar à condenação não as produz porque é parceiro nessa estrutura. É a
própria estrutura policial que vai investigar. Nesse sentido, é muito mais
fácil condenar à prisão os mais pobres ligados ao crack do que os
milicianos. Então tem aí um conjunto de fatores para atuar no campo dos
homicídios que é um leque de interações com outras instituições
interinstitucionais do Estado, com grupos da sociedade e grupos políticos. Se
não houver, de fato, investimento, vontade política, autonomia de perícia e uma
dimensão do judiciário capaz de atuar e criar material que o próprio judiciário
possa utilizar para levar à condenação, as coisas irão permanecer como estão.
Tânia
Maria Sales Moreira, que foi promotora pública por sete anos em Duque de
Caxias, só saiu quando Zito, que foi líder de grupo de extermínio na
cidade, virou prefeito. Ocorreu o que costumamos chamar de queda para o alto.
Ela foi tirada de lá. Antes disso, ela levou para julgamento 34 matadores
da Baixada Fluminense e conseguiu condenar 27 deles. O que ela fez é
algo que ninguém nesse país consegue fazer. O que ela fez? Ela protegia as
testemunhas. Como ela fazia isso? Conseguiu uma parceria com o bispo da diocese
à época, dom Mauro Morelli, e colocava as testemunhas dentro da casa de
fiéis da Igreja Católica. Ela escondia as testemunhas. Elas não eram
identificadas nem ameaçadas. Iam direto para o tribunal de júri e conseguiam
depor e condenar os matadores. Quem é que faz uma atuação desse porte no
Brasil? Ninguém. Essa mulher fez isso na década de 1990. Estou dizendo isso
para mostrar como esse debate é difícil, é travado. Aí o governo quer, meses
antes das eleições, fazer ações para investigar homicídios. É muito complicado,
é muito difícil, muito frágil.
·
Concretamente, como pensa que poderia ser feito um debate
sério entre os candidatos à eleição sobre o enfrentamento do tráfico, da
violência e da insegurança pública, para além da lógica punitivista e das
disputas ideológicas entre esquerda e extrema-direita? Vislumbra a
possibilidade de pautar esse debate em uma nova perspectiva?
José
Cláudio Alves – Nós
somos bons em diagnosticar. Eu moro no meio do problema, convivo com ele e
tenho uma percepção mais aguçada que foi sendo acumulada ao longo do tempo.
Para fazer algo mais complexo, o diagnóstico tem que ser mais complexo e não
essa simplificação de diagnósticos que vemos por aí. Como produzir dados
a partir de tudo isso que relatei para você? Para isso, é
necessário construir uma metodologia de produção de informações, de
reflexão, de dados, de análises. É isso que teríamos que fazer. Teríamos que
ter um Ministério de Segurança Pública, o que não existe. Hoje, a
Segurança Pública está dentro do Ministério da Justiça. Seria preciso ter
mais investigação, estudo, pesquisa, produção de dados e uma visão mais
complexa da realidade. Seria também preciso abandonar o discurso
maniqueísta do bem contra o mal, no sentido de que o Estado é quem traz as
soluções para nos proteger, e começar a entender o Estado como parte essencial
do problema. Ou seja, necessitamos pensar o Judiciário, o Legislativo e o
Executivo como parte da estrutura criminal, se não diretamente envolvida, pelo
menos atuando no campo do não funcionamento, da não condenação, da não
investigação. Precisaria haver uma forma diferente de abordar a segurança
pública, de modo mais complexo para gerar uma proposta mais adequada. Mesmo
entre meus pares, muitos têm uma visão próxima da lógica governamental imediata
e punitivista. Outros ficam restritos aos interesses de cada região. Eu moro
na Baixada Fluminense, mas o Rio de Janeiro tem seus
interesses. Então, como dar para cada área, com suas especificidades, uma
capacidade de ter dados, metodologia, reflexão e construção de práticas que
possam ser eficazes e eficientes para cada realidade sem subsumir-se dentro de
um discurso populista punitivista que está no campo da direita?
A
direita domina esse campo e a esquerda não foi capaz de produzir nada melhor do
que esse punitivismo. Não fomos capazes de fazer esse debate. Somos criticados
como os que protegem bandidos. Sempre vamos ser acusados de coniventes,
ineficientes, incapazes, cúmplices porque há uma construção, desde o fim da
ditadura militar, de que se resolve desta forma: matando, atirando, torturando.
Isso nunca foi desmontado dentro da estrutura da Segurança Pública do país como
um todo.
Com
a estrutura bolsonarista isso foi amplificado. Estamos, hoje, num
campo muito minado e retrocedido. Não há uma saída fácil. Eu não conseguiria
dar uma receita. Apresento as linhas gerais do que vejo e sinto.
Fonte:
Entrevista com José Cláudio Alves para Patricia Fachin, em IHU

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