terça-feira, 16 de junho de 2026

Stephanie Weatherbee Brito: A Copa do Mundo não combina com 'America First'

A Copa do Mundo de 2026 já nasce marcada, de maneira sem precedentes na história do torneio, pela política externa e interna dos Estados Unidos. Aquilo que deveria ser um espetáculo esportivo se converteu em vitrine das prioridades de um império em reconfiguração: às vésperas do pontapé inicial, o governo Trump ameaçou não renovar o acordo comercial com México e Canadá (o USMCA); a Rússia segue banida e suspensa pela FIFA; o Irã foi obrigado a transferir sua base de treinamento para o México; doze países tiveram a entrada vetada; e, dentro dos próprios estádios, a presença do ICE — a polícia de imigração — instala um clima de ameaça que nenhuma competição anterior conheceu.

As táticas de repulsão e perseguição a imigrantes passaram a ser o pano de fundo de um evento esportivo. Atualmente, a imigração é o bilhete premiado do governo Trump, pois à medida que ele fracassa em entregar o que prometeu — seja no custo de vida, seja no fim das guerras na Ucrânia e na Palestina e na promessa de não iniciar novas, seja na transparência em torno do caso Epstein —, mostrar resultados no combate à imigração torna-se decisivo. Segundo o Deportation Data Project, 167 mil pessoas foram detidas nas onze cidades-sede estadunidenses, e ao menos 19 morreram sob custódia ao longo deste ano. Durante a Copa, registra-se um padrão documentado de negações de entrada e detenções que atingiu jogadores, técnicos, jornalistas, torcedores e seleções participantes.

Tudo isso aprofundou a deterioração da imagem pública dos Estados Unidos, sobretudo no Sul Global, onde o país é cada vez mais percebido como uma sociedade excludente e racista, governada por um déspota. Cabe perguntar, então, por que os Estados Unidos se mostram tão indiferentes em melhorar a própria imagem. A resposta está no fato de que os Estados Unidos de Trump projetam de maneira deliberada e estratégica uma imagem de imunidade ao que os demais países pensam e ao modo como a opinião pública mundial os percebe. O abandono da construção multilateral do Império em favor de uma coerção assentada na projeção de força e na ausência de qualquer dissuasão se resume na fórmula “não nos importa o que pensem, agora é America First”.

O destinatário dessa mensagem são, de um lado, os adversários e aliados dos Estados Unidos, que devem passar a encará-los com mais respeito e até temor, compreendendo que o país não tem vergonha de impor seu interesse próprio e que não recuará diante de nada para alcançar seus fins. De outro lado são setores do próprio movimento MAGA, mobilizados pelo tema do America First e que exigem esse reforço justamente num momento em que as alas mais “America First” do partido se distanciaram de Trump em razão da guerra contra o Irã.

Convém, neste ponto, uma segunda reflexão, relativa ao suposto racismo universal da população anglo-americana dos Estados Unidos. É inegável que uma sociedade construída sobre o escravismo, e que dele emergiu para a segregação, esteja marcada pelo racismo estrutural. Os Estados Unidos são uma sociedade notavelmente segregada quando comparada a qualquer sociedade latino-americana. Isso não significa que o racismo seja menos grave ou menos estrutural em sociedades como a brasileira, onde houve o processo de mestiçagem. A segregação, contudo, é um fenômeno particular, que ergue fronteiras duradouras à humanização do outro. Assim, desumanização estrutural de tudo o que é diferente constitui um traço central da consciência branca estadunidense, forjada na escravidão e na segregação e reforçada pelo imperialismo. Desumanização e racismo cumprem o duplo papel de impedir que pessoas de uma mesma classe se unam contra o inimigo comum e de unir o conjunto da população contra os “outros” estrangeiros, dessensibilizando-a para a violência que o aparato militar dos Estados Unidos comete contra esses eles.

Dito isso, não é verdade que o povo estadunidense seja universalmente racista e incapaz de aceitar ou acolher a diferença. Isso ficou em evidência com a chegada da seleção argelina a Lawrence, no Kansas, quando foi recebida por multidões que a saudavam e carregavam bandeiras da Argélia. A cena vai na contramão do modo como aprendemos a perceber a população estadunidense; agressiva, odiosa, racista. Acredito que o calor humano, a curiosidade e a aceitação de culturas distintas, o respeito e o afeto não são tão raros na população anglo-americana quanto fomos levados a crer. Essa população foi doutrinada e instrumentalizada para servir aos interesses de sua classe dominante, uma classe dominante que igualmente a explora e a vitimiza.

O crescimento do interesse pelo socialismo, e o fato de que as massas estadunidenses se mobilizaram mais do que quaisquer outras contra o genocídio na Palestina, deveriam nos lembrar de que o “MAGAísmo” militante não é um movimento majoritário, e de que Marco Rubio e Donald Trump não compõem um retrato completo da classe trabalhadora dos Estados Unidos. Justamente quando a Copa transforma o país em palco da arrogância imperial, somos obrigados a não confundir o regime com o povo que ele explora, e a procurar nesse povo os aliados de uma luta que a todos diz respeito.

¨      O racismo chegou primeiro na Copa do Mundo de 2026. Por João Raphael Ramos dos Santos

Uma vez, assistindo a uma série histórica, fiquei chocado com a informação de que, enquanto escrevia a declaração de independência dos Estados Unidos da América, George Washington tinha ao seu lado um homem negro escravizado. Enquanto redigia as belas palavras que iniciam uma Constituição, uma carta de direitos, garantindo igualdade e liberdade para os homens num Estado fundado por imigrantes que abandonaram o antigo regime e fundam o Novo Mundo, o pai-fundador da Nação norte-americana tinha ao seu lado um ser humano que não faria parte desse mundo novo.

Esses paradoxos, presentes nas bases de construção da mais antiga democracia do mundo, representam bastante meu imaginário sobre os Estados Unidos da América. Nada disso aparece nos filmes de Hollywood. Denise Ferreira da Silva, em seu livro “Homo modernus: por uma ideia global de raça”, reconstrói as bases sobre as quais a sociedade moderna foi fundada: o paradigma de um homem universal que só pode se constituir enquanto tal na medida em que nega a humanidade dos “outros” da Europa, se tornando uma espécie de “Eu transparente”, que encara a natureza do mundo enquanto cria os outros de si como um “Eu afetável”, distinto, sobre o qual todas as violências e desumanizações podem acontecer sem que haja alguma espécie de culpa ou crise ética. 

Por isso a segregação foi possível, os linchamentos foram aceitáveis, a negação de direitos políticos às pessoas negras foi um ideal nessa democracia e hoje, a negação da humanidade segue sendo uma máxima na mais antiga democracia do mundo. 

A Copa do mundo de 2026 está apenas começando, mas o racismo foi o primeiro e principal convidado para a festa que deveria unir os povos. A égide do Estado que a tudo pode em prol da autodeterminação e da segurança contra a ameaça constante desses “outros” fundamenta os desmandos que selecionam aqueles que são considerados “aceitáveis” e aqueles que não o são. 

Infelizmente, o técnico somali Omar Artan, eleito melhor árbitro do continente africano em 2025, foi uma das vítimas da tese da transparência dos EUA. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Miami portando passaporte diplomático, visto válido e credenciais oficiais da Fifa, ele foi abordado, detido e obrigado a suportar mais de onze horas de interrogatório para, logo em seguida, ser despachado em um voo de volta para a Turquia. O sonho de apitar a primeira Copa do Mundo foi interrompido, como o de outras autoridades e torcedores considerados “outros” da universalidade do homem branco europeu. 

A própria Fifa tem se mantido omissa e silenciosa frente a essas injustiças. Omar, no entanto, foi recebido de volta à Etiópia como herói. Ao menos a tese da transparência parece estar criando a solidariedade entre esses “outros”, que têm buscado cada vez mais recuperar sua autodeterminação como inegavelmente humanos, para além de qualquer suposta determinação do colonizador. A bola ainda vai rolar, mas dessa vez, ao menos nos EUA, o árbitro seguirá sendo o racismo.

¨      Organização de monitoramento do racismo pede à Fifa que afaste dirigente da Copa do Mundo por gesto de "supremacia branca"

O responsável pelo monitoramento da discriminação na Copa do Mundo da FIFA pediu a remoção de um árbitro assistente de vídeo (VAR) por este ter aparentemente feito um gesto com a mão semelhante a um sinal supremacista branco.

Quando a transmissão oficial do jogo de estreia da Alemanha contra Curaçao, no domingo, foi interrompida antes da partida para mostrar a equipe de árbitros de vídeo (VAR), Shaun Evans, da Austrália, fez o sinal de "OK" com a mão direita em frente à perna direita. Embora o jogo tenha sido disputado em Houston, os árbitros de vídeo trabalham em Dallas, no centro de transmissão da Copa do Mundo. Em 2019, o gesto – com o polegar e o indicador unidos em círculo e os outros dedos estendidos – foi considerado um símbolo de ódio pela Liga Antidifamação (ADL), com sede em Nova York.

“Segundo nossos especialistas, o gesto utilizado se assemelha claramente a um sinal de 'OK' invertido, usado como símbolo de supremacia branca em círculos da extrema-direita global”, afirmou em comunicado a rede Fare, parceira de longa data da Fifa e da Uefa, entidade que rege o futebol europeu, no monitoramento de cânticos, bandeiras e símbolos racistas e discriminatórios em jogos internacionais. “Claramente, esse árbitro não deveria mais desempenhar nenhuma função nesta Copa do Mundo”, acrescentou, descrevendo também o gesto como “neonazista”.

A FIFA foi contatada para comentar. Na Austrália, a Associação de Árbitros de Futebol Profissionais e a Federação Australiana de Futebol foram contatadas para se pronunciarem.

Não ficou claro se Evans, trabalhando em seu primeiro jogo da Copa do Mundo, estava fazendo um gesto político ou uma brincadeira de criança.

O "pegadinha" ou "jogo do círculo" consiste em alguém fazer um sinal de "OK" invertido abaixo da cintura e dar um soco no ombro de quem olhar para ele. Foi apropriado há uma década como um símbolo de supremacia branca, tendo começado como uma brincadeira no fórum online de extrema-direita 4chan.

Em 2019, quando o sinal foi designado como um símbolo de ódio, Oren Segal, diretor do Centro de Extremismo da ADL (Liga Antidifamação), afirmou que o contexto é fundamental para interpretar se um símbolo de "OK" é odioso ou inofensivo. Na época, ele disse: "Há um volume suficiente de uso para fins odiosos, e por isso sentimos que era importante adicionar essa classificação."

Evans está entre os 30 oficiais de VAR selecionados pela Fifa para trabalhar na Copa do Mundo que está sendo disputada nos Estados Unidos, Canadá e México.

“Por que um supervisor do VAR está usando esse símbolo em um evento de futebol global justamente quando sabe que as câmeras estão focadas nele?”, questionou Fare. “Notamos que, nos dois jogos seguintes, parece que os diretores de TV pararam de apresentar o painel do VAR ao público.”

¨      Jogadores de futebol iranianos chegam aos EUA em meio a acordo de paz,

O atacante iraniano Mehdi Taremi afirmou que a controvérsia e a perturbação em torno da participação do Irã na Copa do Mundo prejudicam a mensagem de paz da FIFA e admitiu ter sentido a tensão antes de chegar a Los Angeles na véspera da estreia, horas antes do anúncio de um acordo de paz . Pela primeira vez desde a criação da competição, um país anfitrião recebeu uma nação com a qual está em guerra.

No domingo, o Irã voou de Tijuana, no México, para Los Angeles, onde foi realocado em meio a uma disputa sobre vistos, mas espera-se que enfrente oposição de iranianos, muitos dos quais acreditam que a seleção nacional não representa o país. O Irã tem sido assolado por problemas na preparação para o torneio, com vários dirigentes tendo a entrada nos EUA negada .

“Esse tipo de tensão mina a alegria e prejudica a mensagem da Fifa e do nosso povo, que é sobre futebol e a busca pela paz”, disse o atacante do Olympiakos, Taremi. “Acho que esta Copa do Mundo poderia ter proporcionado uma atmosfera melhor e espero que no futuro seja melhor para todos os torcedores, independentemente do time que estejam apoiando.”

“Não foi só o Irã que foi afetado, outros países também foram, incluindo os árbitros [o árbitro somali Omar Artan teve a entrada negada ]. Senti a tensão desde o primeiro momento em que chegamos a esta Copa do Mundo. É claro que não estamos tendo a mesma experiência maravilhosa da qual costumamos falar – paz e alegria. Sei que vários países tiveram problemas com vistos e mudanças nos centros de treinamento. A tensão existe – existia antes mesmo do início da Copa. A sensação, o sentimento que as pessoas sempre têm ao aguardar uma Copa do Mundo, acho que desta vez não foi o mesmo.”

Taremi e seus companheiros de equipe desembarcaram em Los Angeles após a segunda tentativa de pouso do avião. Ao chegarem ao hotel da equipe em Manhattan Beach, foram recebidos por alguns manifestantes iranianos, a maioria pertencente à comunidade iraniana de 375 mil pessoas na Califórnia, a maior fora do Irã , além de uma forte presença policial e de segurança, incluindo drones, vigilância móvel e cães farejadores. Uma área da zona oeste de Los Angeles, centrada em Westwood, é apelidada de "Tehrangeles" devido à grande diáspora iraniana. "O Irã jogará como se estivesse em Los Angeles, apesar de tudo", disse o técnico da seleção iraniana, Amir Ghalenoi.

Cerca de 35 mil torcedores iranianos são esperados para a estreia do Grupo G contra a Nova Zelândia, e muitos devem protestar contra a equipe antes da partida. “Estamos aqui para jogar futebol e para representar o povo iraniano, sejam os iranianos que vivem no Irã ou os da diáspora”, disse Ghalenoi. “Só pensamos no nosso país. Não somos políticos, e o lema da FIFA é justamente esse: futebol é coisa de político. Respeitamos todos os iranianos.”

Ghalenoi admitiu que a viagem complicada afetou a preparação da equipe. "Deveríamos ter começado a treinar mais cedo, mas, veja bem, chegamos atrasados ​​e não tivemos tempo suficiente para nos adaptar, é claro que isso nos afetará", disse ele. "Sei que meus jogadores estão determinados a dar o seu máximo. Espero que a Copa do Mundo corra bem, apesar dos problemas de viagem que tivemos... Espero que isso não afete a qualidade do nosso jogo."

Segundo relatos, o Irã passou pela alfândega sem problemas, mas chegou com cerca de 20 minutos de atraso para a coletiva de imprensa pré-jogo no Estádio So-Fi. “Não foi nossa culpa”, disse Taremi. “Os jogadores da seleção nacional jogam por todos os iranianos… As pessoas têm opiniões diferentes, mas estamos aqui como jogadores de futebol para unir as pessoas e tentaremos levar alegria a todos os iranianos, independentemente de onde vivam. Cada um tem direito à sua opinião. Não estamos aqui para nos envolver em política, estamos aqui para jogar futebol.”

Ghalenoi também foi questionado sobre a ausência de Sardar Azmoun em meio a relatos de um suposto ato de deslealdade ao governo. Azmoun, que joga nos Emirados Árabes Unidos, teria irritado seu governo ao postar uma foto sua com o governante dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Rashid al-Maktoum. Instalações nos Emirados Árabes Unidos foram atacadas pelo Irã durante o conflito. "Sardar Azmoun é um excelente jogador e fez muito pela seleção nacional, mas ele não está conosco e gostaríamos que estivesse, mas isso é futebol, infelizmente", disse Ghalenoi.

Uma questão que a Fifa enfrenta é a possibilidade de torcedores levarem bandeiras com a bandeira histórica do país, que apresenta um leão e um sol, de antes da Revolução Islâmica. Essa bandeira é proibida nos estádios da Copa do Mundo. Um dirigente da Fifa interrompeu uma pergunta relacionada à bandeira, dizendo que não era relevante para a partida.

 

Fonte: Opera Mundi/The Guardian

 

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