Stephanie
Weatherbee Brito: A Copa do Mundo não combina com 'America First'
A Copa
do Mundo de 2026 já nasce marcada, de maneira sem precedentes na história do
torneio, pela política externa e interna dos Estados Unidos. Aquilo que deveria
ser um espetáculo esportivo se converteu em vitrine das prioridades de um
império em reconfiguração: às vésperas do pontapé inicial, o governo Trump
ameaçou não renovar o acordo comercial com México e Canadá (o USMCA); a Rússia
segue banida e suspensa pela FIFA; o Irã foi obrigado a transferir sua base de
treinamento para o México; doze países tiveram a entrada vetada; e, dentro dos
próprios estádios, a presença do ICE — a polícia de imigração — instala um
clima de ameaça que nenhuma competição anterior conheceu.
As
táticas de repulsão e perseguição a imigrantes passaram a ser o pano de fundo
de um evento esportivo. Atualmente, a imigração é o bilhete premiado do governo
Trump, pois à medida que ele fracassa em entregar o que prometeu — seja no
custo de vida, seja no fim das guerras na Ucrânia e na Palestina e na promessa
de não iniciar novas, seja na transparência em torno do caso Epstein —, mostrar
resultados no combate à imigração torna-se decisivo. Segundo o Deportation Data
Project, 167 mil pessoas foram detidas nas onze cidades-sede estadunidenses, e
ao menos 19 morreram sob custódia ao longo deste ano. Durante a Copa,
registra-se um padrão documentado de negações de entrada e detenções que
atingiu jogadores, técnicos, jornalistas, torcedores e seleções participantes.
Tudo
isso aprofundou a deterioração da imagem pública dos Estados Unidos, sobretudo
no Sul Global, onde o país é cada vez mais percebido como uma sociedade
excludente e racista, governada por um déspota. Cabe perguntar, então, por que
os Estados Unidos se mostram tão indiferentes em melhorar a própria imagem. A
resposta está no fato de que os Estados Unidos de Trump projetam de maneira
deliberada e estratégica uma imagem de imunidade ao que os demais países pensam
e ao modo como a opinião pública mundial os percebe. O abandono da construção
multilateral do Império em favor de uma coerção assentada na projeção de força
e na ausência de qualquer dissuasão se resume na fórmula “não nos importa o que
pensem, agora é America First”.
O
destinatário dessa mensagem são, de um lado, os adversários e aliados dos
Estados Unidos, que devem passar a encará-los com mais respeito e até temor,
compreendendo que o país não tem vergonha de impor seu interesse próprio e que
não recuará diante de nada para alcançar seus fins. De outro lado são setores
do próprio movimento MAGA, mobilizados pelo tema do America First e que exigem
esse reforço justamente num momento em que as alas mais “America First” do
partido se distanciaram de Trump em razão da guerra contra o Irã.
Convém,
neste ponto, uma segunda reflexão, relativa ao suposto racismo universal da
população anglo-americana dos Estados Unidos. É inegável que uma sociedade
construída sobre o escravismo, e que dele emergiu para a segregação, esteja
marcada pelo racismo estrutural. Os Estados Unidos são uma sociedade
notavelmente segregada quando comparada a qualquer sociedade latino-americana.
Isso não significa que o racismo seja menos grave ou menos estrutural em
sociedades como a brasileira, onde houve o processo de mestiçagem. A
segregação, contudo, é um fenômeno particular, que ergue fronteiras duradouras
à humanização do outro. Assim, desumanização estrutural de tudo o que é
diferente constitui um traço central da consciência branca estadunidense,
forjada na escravidão e na segregação e reforçada pelo imperialismo.
Desumanização e racismo cumprem o duplo papel de impedir que pessoas de uma
mesma classe se unam contra o inimigo comum e de unir o conjunto da população
contra os “outros” estrangeiros, dessensibilizando-a para a violência que o
aparato militar dos Estados Unidos comete contra esses eles.
Dito
isso, não é verdade que o povo estadunidense seja universalmente racista e
incapaz de aceitar ou acolher a diferença. Isso ficou em evidência com a
chegada da seleção argelina a Lawrence, no Kansas, quando foi recebida por
multidões que a saudavam e carregavam bandeiras da Argélia. A cena vai na
contramão do modo como aprendemos a perceber a população estadunidense;
agressiva, odiosa, racista. Acredito que o calor humano, a curiosidade e a
aceitação de culturas distintas, o respeito e o afeto não são tão raros na
população anglo-americana quanto fomos levados a crer. Essa população foi
doutrinada e instrumentalizada para servir aos interesses de sua classe
dominante, uma classe dominante que igualmente a explora e a vitimiza.
O
crescimento do interesse pelo socialismo, e o fato de que as massas
estadunidenses se mobilizaram mais do que quaisquer outras contra o genocídio
na Palestina, deveriam nos lembrar de que o “MAGAísmo” militante não é um
movimento majoritário, e de que Marco Rubio e Donald Trump não compõem um
retrato completo da classe trabalhadora dos Estados Unidos. Justamente quando a
Copa transforma o país em palco da arrogância imperial, somos obrigados a não
confundir o regime com o povo que ele explora, e a procurar nesse povo os
aliados de uma luta que a todos diz respeito.
¨
O racismo chegou primeiro na Copa do Mundo de 2026. Por
João Raphael Ramos dos Santos
Uma
vez, assistindo a uma série histórica, fiquei chocado com a informação de que,
enquanto escrevia a declaração de independência dos Estados Unidos da América,
George Washington tinha ao seu lado um homem negro escravizado. Enquanto
redigia as belas palavras que iniciam uma Constituição, uma carta de direitos,
garantindo igualdade e liberdade para os homens num Estado fundado por
imigrantes que abandonaram o antigo regime e fundam o Novo Mundo, o
pai-fundador da Nação norte-americana tinha ao seu lado um ser humano que não
faria parte desse mundo novo.
Esses
paradoxos, presentes nas bases de construção da mais antiga democracia do
mundo, representam bastante meu imaginário sobre os Estados Unidos da América.
Nada disso aparece nos filmes de Hollywood. Denise Ferreira da Silva, em seu
livro “Homo modernus: por uma ideia global de raça”, reconstrói as bases sobre
as quais a sociedade moderna foi fundada: o paradigma de um homem universal que
só pode se constituir enquanto tal na medida em que nega a humanidade dos
“outros” da Europa, se tornando uma espécie de “Eu transparente”, que encara a
natureza do mundo enquanto cria os outros de si como um “Eu afetável”,
distinto, sobre o qual todas as violências e desumanizações podem acontecer sem
que haja alguma espécie de culpa ou crise ética.
Por
isso a segregação foi possível, os linchamentos foram aceitáveis, a negação de
direitos políticos às pessoas negras foi um ideal nessa democracia e hoje, a
negação da humanidade segue sendo uma máxima na mais antiga democracia do
mundo.
A Copa
do mundo de 2026 está apenas começando, mas o racismo foi o primeiro e
principal convidado para a festa que deveria unir os povos. A égide do Estado
que a tudo pode em prol da autodeterminação e da segurança contra a ameaça
constante desses “outros” fundamenta os desmandos que selecionam aqueles que
são considerados “aceitáveis” e aqueles que não o são.
Infelizmente,
o técnico somali Omar Artan, eleito melhor árbitro do continente africano em
2025, foi uma das vítimas da tese da transparência dos EUA. Ao desembarcar no
Aeroporto Internacional de Miami portando passaporte diplomático, visto válido
e credenciais oficiais da Fifa, ele foi abordado, detido e obrigado a suportar
mais de onze horas de interrogatório para, logo em seguida, ser despachado em
um voo de volta para a Turquia. O sonho de apitar a primeira Copa do Mundo foi
interrompido, como o de outras autoridades e torcedores considerados “outros”
da universalidade do homem branco europeu.
A
própria Fifa tem se mantido omissa e silenciosa frente a essas injustiças.
Omar, no entanto, foi recebido de volta à Etiópia como herói. Ao menos a tese
da transparência parece estar criando a solidariedade entre esses “outros”, que
têm buscado cada vez mais recuperar sua autodeterminação como inegavelmente
humanos, para além de qualquer suposta determinação do colonizador. A bola
ainda vai rolar, mas dessa vez, ao menos nos EUA, o árbitro seguirá sendo o
racismo.
¨
Organização de monitoramento do racismo pede à Fifa que
afaste dirigente da Copa do Mundo por gesto de "supremacia branca"
O
responsável pelo monitoramento da discriminação na Copa do Mundo da FIFA pediu a
remoção de um árbitro assistente de vídeo (VAR) por este ter aparentemente
feito um gesto com a mão semelhante a um sinal supremacista branco.
Quando
a transmissão oficial do jogo de estreia da Alemanha contra
Curaçao, no
domingo, foi interrompida antes da partida para mostrar a equipe de árbitros de
vídeo (VAR), Shaun Evans, da Austrália, fez o sinal de "OK" com a mão
direita em frente à perna direita. Embora o jogo tenha sido disputado em
Houston, os árbitros de vídeo trabalham em Dallas, no centro de transmissão da
Copa do Mundo. Em 2019, o gesto – com o polegar e o indicador unidos em círculo
e os outros dedos estendidos – foi considerado um símbolo de ódio pela Liga
Antidifamação (ADL), com sede em Nova York.
“Segundo
nossos especialistas, o gesto utilizado se assemelha claramente a um sinal de
'OK' invertido, usado como símbolo de supremacia branca em círculos da
extrema-direita global”, afirmou em comunicado a rede Fare, parceira de longa
data da Fifa e da Uefa, entidade que rege o futebol europeu, no monitoramento
de cânticos, bandeiras e símbolos racistas e discriminatórios em jogos
internacionais. “Claramente, esse árbitro não deveria mais desempenhar nenhuma
função nesta Copa do Mundo”, acrescentou, descrevendo também o gesto como
“neonazista”.
A FIFA
foi contatada para comentar. Na Austrália, a Associação de Árbitros de Futebol Profissionais e a Federação
Australiana de Futebol foram contatadas para se pronunciarem.
Não
ficou claro se Evans, trabalhando em seu primeiro jogo da Copa do Mundo, estava
fazendo um gesto político ou uma brincadeira de criança.
O
"pegadinha" ou "jogo do círculo" consiste em alguém fazer
um sinal de "OK" invertido abaixo da cintura e dar um soco no ombro
de quem olhar para ele. Foi apropriado há uma década como um símbolo de
supremacia branca, tendo começado como uma brincadeira no fórum online de
extrema-direita 4chan.
Em
2019, quando o sinal foi designado como um símbolo de ódio, Oren Segal, diretor
do Centro de Extremismo da ADL (Liga Antidifamação), afirmou que o contexto é
fundamental para interpretar se um símbolo de "OK" é odioso ou
inofensivo. Na época, ele disse: "Há um volume suficiente de uso para fins
odiosos, e por isso sentimos que era importante adicionar essa
classificação."
Evans
está entre os 30 oficiais de VAR selecionados pela Fifa para trabalhar na Copa
do Mundo que está sendo disputada nos Estados Unidos, Canadá e México.
“Por
que um supervisor do VAR está usando esse símbolo em um evento de futebol
global justamente quando sabe que as câmeras estão focadas nele?”, questionou
Fare. “Notamos que, nos dois jogos seguintes, parece que os diretores de TV
pararam de apresentar o painel do VAR ao público.”
¨
Jogadores de futebol iranianos chegam aos EUA em meio a
acordo de paz,
O
atacante iraniano Mehdi Taremi afirmou que a controvérsia e a perturbação em torno da participação do Irã na Copa do
Mundo prejudicam a mensagem de paz da FIFA e admitiu ter sentido a tensão antes
de chegar a Los Angeles na véspera da estreia, horas antes do anúncio de um acordo de paz . Pela primeira
vez desde a criação da competição, um país anfitrião recebeu uma nação com a
qual está em guerra.
No
domingo, o Irã voou de Tijuana, no México, para Los Angeles, onde foi realocado em meio a uma
disputa sobre vistos, mas espera-se que enfrente oposição de iranianos, muitos
dos quais acreditam que a seleção nacional não representa o país. O Irã tem
sido assolado por problemas na preparação para o torneio, com vários dirigentes tendo a entrada nos EUA negada .
“Esse
tipo de tensão mina a alegria e prejudica a mensagem da Fifa e do nosso povo,
que é sobre futebol e a busca pela paz”, disse o atacante do Olympiakos,
Taremi. “Acho que esta Copa do Mundo poderia ter
proporcionado uma atmosfera melhor e espero que no futuro seja melhor para
todos os torcedores, independentemente do time que estejam apoiando.”
“Não
foi só o Irã que foi afetado, outros países também foram, incluindo os árbitros
[o árbitro somali Omar Artan teve a entrada negada ]. Senti a
tensão desde o primeiro momento em que chegamos a esta Copa do Mundo. É claro
que não estamos tendo a mesma experiência maravilhosa da qual costumamos falar
– paz e alegria. Sei que vários países tiveram problemas com vistos e mudanças
nos centros de treinamento. A tensão existe – existia antes mesmo do início da
Copa. A sensação, o sentimento que as pessoas sempre têm ao aguardar uma Copa
do Mundo, acho que desta vez não foi o mesmo.”
Taremi
e seus companheiros de equipe desembarcaram em Los Angeles após a segunda
tentativa de pouso do avião. Ao chegarem ao hotel da equipe em Manhattan Beach,
foram recebidos por alguns manifestantes iranianos, a maioria pertencente à
comunidade iraniana de 375 mil pessoas na Califórnia, a maior fora do Irã , além de uma forte presença policial e de
segurança, incluindo drones, vigilância móvel e cães farejadores. Uma área da
zona oeste de Los Angeles, centrada em Westwood, é apelidada de
"Tehrangeles" devido à grande diáspora iraniana. "O Irã jogará
como se estivesse em Los Angeles, apesar de tudo", disse o técnico da
seleção iraniana, Amir Ghalenoi.
Cerca
de 35 mil torcedores iranianos são esperados para a estreia do Grupo G contra a
Nova Zelândia, e muitos devem protestar contra a equipe antes da partida.
“Estamos aqui para jogar futebol e para representar o povo iraniano, sejam os
iranianos que vivem no Irã ou os da diáspora”, disse Ghalenoi. “Só pensamos no
nosso país. Não somos políticos, e o lema da FIFA é justamente esse: futebol é
coisa de político. Respeitamos todos os iranianos.”
Ghalenoi
admitiu que a viagem complicada afetou a preparação da equipe. "Deveríamos
ter começado a treinar mais cedo, mas, veja bem, chegamos atrasados e não
tivemos tempo suficiente para nos adaptar, é claro que isso nos
afetará", disse ele. "Sei que meus jogadores estão
determinados a dar o seu máximo. Espero que a
Copa do Mundo corra bem, apesar dos problemas de viagem que tivemos... Espero
que isso não afete a qualidade do nosso jogo."
Segundo
relatos, o Irã passou pela alfândega sem problemas, mas chegou com cerca de 20
minutos de atraso para a coletiva de imprensa pré-jogo no Estádio So-Fi. “Não
foi nossa culpa”, disse Taremi. “Os jogadores da seleção nacional jogam por
todos os iranianos… As pessoas têm opiniões diferentes, mas estamos aqui como
jogadores de futebol para unir as pessoas e tentaremos levar alegria a todos os
iranianos, independentemente de onde vivam. Cada um tem direito à sua opinião.
Não estamos aqui para nos envolver em política, estamos aqui para jogar
futebol.”
Ghalenoi
também foi questionado sobre a ausência de Sardar Azmoun em meio a
relatos de um suposto ato de deslealdade ao governo. Azmoun, que joga nos
Emirados Árabes Unidos, teria irritado seu governo ao postar uma foto sua com o
governante dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Rashid al-Maktoum.
Instalações nos Emirados Árabes Unidos foram atacadas pelo Irã durante o
conflito. "Sardar Azmoun é um excelente jogador e fez muito pela seleção
nacional, mas ele não está conosco e gostaríamos que estivesse, mas isso é
futebol, infelizmente", disse Ghalenoi.
Uma
questão que a Fifa enfrenta é a possibilidade de torcedores levarem bandeiras
com a bandeira histórica do país, que apresenta um leão e um sol, de antes da
Revolução Islâmica. Essa bandeira é proibida nos estádios da Copa do Mundo. Um
dirigente da Fifa interrompeu uma pergunta relacionada à bandeira, dizendo que
não era relevante para a partida.
Fonte:
Opera Mundi/The Guardian

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