Mineração
urbana: edifícios antigos viram nova matéria-prima
Vasculhando
uma caixa de ladrilhos de piso recuperados, Micheal Ghyoot retira um modelo com
um padrão art nouveau em azul, cinza e branco.
"É
fácil gostar destes, porque têm esse padrão floral", diz Ghyoot,
pesquisador especializado em reutilização arquitetônica, enquanto segura o
ladrilho quadrado de cimento que era comum em muitas casas construídas na
Bélgica no início do século 20. "Nas décadas de 1930 e 1940, começaram a
produzir padrões mais modernos. Também são superinteressantes".
A caixa
é apenas uma de dezenas que contêm ladrilhos de estilos, tamanhos e cores
variados, todos à espera de serem limpos e classificados para revenda na Rotor
DC, uma cooperativa sediada em Bruxelas especializada em materiais de
construção recuperados.
Em um
armazém próximo, portas altas de madeira maciça, com puxadores originais, estão
alinhadas ao longo da parede, ao lado de várias grandes janelas com tonalidade
dourada resgatadas de um prédio de escritórios de meados do século 20. No
gramado externo, um fotógrafo organiza pias de banheiro sobre a grama molhada
para registrá-las para a loja online.
Desde a
abertura da loja em um antigo edifício de escritórios no final de 2016, a Rotor
DC vem promovendo o conceito de mineração urbana em Bruxelas. Caçadores de
materiais procuram edifícios destinados à demolição, e especialistas resgatam
cuidadosamente tudo o que pode ser reutilizado em outro lugar — de luminárias
de vidro Murano a pisos de carvalho maciço e alvenaria decorativa feita à mão.
Não é a
única organização desse tipo na Bélgica, e lojas semelhantes existem em toda a
Europa, América do Norte e outras regiões. Mas o estúdio de design Rotor também
oferece orientação para projetos que buscam usar componentes reaproveitados e
publica pesquisas sobre sustentabilidade, circularidade e economia de
materiais.
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Impacto ambiental
A
reutilização de materiais de construção não é um conceito novo. Construtores
medievais, por exemplo, usavam partes de estruturas da antiga Roma para
economizar tempo e dinheiro, e alguns desses edifícios ainda existem hoje —
especialmente na capital italiana. No entanto, a industrialização e os métodos
modernos de fabricação, sobretudo no século 20, deslocaram o foco para longe da
reutilização.
"Todo
o sistema de construção — aquisição, responsabilidade, regulamentação,
cronograma, seguros, normas — foi estruturado em torno de materiais
novos", conta Areti Markopoulou, diretora acadêmica do Instituto de
Arquitetura Avançada da Catalunha. "A reutilização direta de componentes
em sua forma original — janelas, portas, vigas, elementos de fachada,
instalações sanitárias, pisos — ainda é menos comum do que a reciclagem de
menor qualidade [o produto resultante tem qualidade inferior ao material
original] ou o reaproveitamento degradado [quando um material é reutilizado,
mas com perda de qualidade, valor ou funcionalidade em relação ao original.].”
Reutilizar
componentes de construção pode parecer simples, mas, segundo Markopoulou,
envolve diversos desafios: desmontagem cuidadosa, armazenamento, certificação e
a adequação entre oferta e novos projetos.
"Sabemos
demolir edifícios de forma muito eficiente, mas ainda estamos aprendendo a
desmontá-los de maneira inteligente", explica.
Como
resultado, a maior parte desses resíduos acaba sendo utilizada como
preenchimento em novos projetos ou como cobertura de solo — isso quando são
reutilizados. Hoje, os resíduos de construção e demolição representam mais de
um terço de todo o lixo da União Europeia (UE).
Esse
foco em materiais novos tem um custo ambiental significativo: apenas na UE, o
setor da construção consome cerca de 50% de todos os materiais extraídos, e as
emissões de gases de efeito estufa associadas são estimadas entre 5% e 12% das
emissões totais do bloco.
"A
reutilização é importante não apenas porque reduz os resíduos, mas porque pode
evitar totalmente as emissões associadas à produção de novos materiais”,
afirmou Markopoulou.
Um
relatório de 2019 da organização britânica Ellen MacArthur Foundation apontou
que a reutilização de materiais como aço, alumínio, concreto e plástico
reduziria a demanda por novos produtos. Essa mudança para uma economia circular
poderia ajudar o setor global da construção a reduzir as emissões em até 40%
até 2050.
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Reutilização avança, mas ainda é de nicho
Ghyoot
afirma que convencer empreiteiros e arquitetos a usar materiais de construção
de segunda mão não é fácil. Qualquer mudança leva tempo e pode aumentar os
custos, e nem sempre há fornecimento constante de produtos idênticos. Além
disso, materiais provenientes de edifícios antigos podem estar degradados,
conter elementos tóxicos ou ser difíceis de desmontar.
"É
preciso repensar como se projeta, como se organiza o fluxo de trabalho e como
se trabalha com os construtores", diz Ghyoot. "Fazemos o possível
para facilitar isso. Mas ainda continua sendo uma prática um pouco de nicho na
indústria da construção".
Nos
primeiros anos, a Rotor DC fazia todo o trabalho de recuperação e preparação
dos materiais. Isso mudou quando a cooperativa criou um sistema de recompra de
elementos de construção recuperados — de particulares e, principalmente, de
empreiteiros gerais e equipes de demolição.
"O
que descobrimos é que não se tratava de falta de habilidade da parte deles —
geralmente sabem fazer isso corretamente", garante Ghyoot. "Mas,
quando se introduz algum retorno financeiro, eles passam a estar dispostos a
investir o esforço, porque há um benefício para eles".
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IA e ferramentas digitais podem ajudar
Markopoulou
e sua equipe também estudam como ferramentas digitais e inteligência artificial
(IA) podem ajudar a aumentar a recuperação de componentes valiosos
reutilizáveis, como madeira maciça, pedra, aço e tijolos, a partir de projetos
de demolição.
"As
cidades são enormes reservatórios de materiais", explica. "A ideia é
usar o Google Street View, imagens aéreas, escaneamentos, dados cadastrais e
licenças para estimar quais materiais e componentes estão presentes nos
edifícios, quando poderão ficar disponíveis e em que quantidades.”
A
pesquisa já foi testada em cidades como Barcelona, Nova Délhi e Helsinque.
Houve experimentos também em Singapura.
"Ainda
não conseguimos prever cada janela ou viga reutilizável, mas já conseguimos
estimar estoques urbanos de materiais com precisão suficiente para planejar a
reutilização em escala urbana", ressalta. "A IA não pode dizer tudo
sobre o interior de um edifício, mas pode melhorar radicalmente nossa
capacidade de prever esses recursos antes mesmo de a demolição ou renovação
começar."
Para
Markopoulou, esses incentivos e ferramentas digitais precisarão ser
acompanhados por mudanças políticas. Certificados energéticos obrigatórios, por
exemplo, ajudam a direcionar o setor para práticas mais sustentáveis.
Passaportes de materiais e edifícios — que listam informações detalhadas sobre
todos os componentes de uma estrutura — podem facilitar o planejamento da
reutilização futura.
"É
uma mudança de mentalidade, porque os edifícios sempre foram vistos como
permanentes", afirma. "Precisamos projetá-los levando em consideração
para onde os materiais irão após o fim da sua vida útil", conclui.
Fonte:
DW Brasil

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