A
'guerra silenciosa' entre China e Panamá por controle de portos no Canal
A
história da empresa CK Hutchison Holdings e do Panamá se transformou em um dos
maiores conflitos geopolíticos ligados ao Canal do Panamá nos últimos anos.
O
embate envolve duas superpotências, Estados Unidos e China, uma hidrovia por
onde passa até 6% do comércio mundial e alguns dos mais importantes operadores
portuários do planeta.
E a
exclusão dessa empresa chinesa sediada em Hong Kong da administração de dois
portos provocou o que parece ser uma dura punição por parte de Pequim, em meio
à crescente disputa por influência entre Estados Unidos e China na América
Latina.
"Desde
8 de março de 2026, e ainda hoje, a China vem retendo navios mercantes de
bandeira panamenha em um ritmo sem precedentes, justificando a medida como
inspeções do Estado do porto", explica a Ambrey Analytics, divisão de
inteligência da empresa britânica de segurança marítima Ambrey.
Somente
em abril, a China reteve 136 embarcações registradas sob bandeira panamenha,
número 6,4 vezes superior à média de 2025. Em março, foram 96 navios, cerca de
74% de todas as retenções realizadas pela China naquele mês. Somando todas as
embarcações imobilizadas desde o início do ano, o total chega a 272.
"As
retenções são justificadas por deficiências técnicas e costumam durar entre um
e cinco dias, mas interrompem escalas e aumentam os custos", explica a
empresa de análise.
A
situação coincide com uma decisão da Suprema Corte do Panamá que retirou da CK
Hutchison a concessão de dois terminais de contêineres no Canal do Panamá.
Um
deles é o porto de Balboa, o segundo mais movimentado do país em volume de
contêineres. O outro é o porto de Cristóbal. Ambos ficam em áreas adjacentes ao
canal.
Por sua
localização estratégica, em cada extremidade das entradas do canal pelo
Pacífico e pelo Atlântico, esses dois portos despertavam especial preocupação
na administração Trump, que transformou o tema em prioridade de sua agenda logo
após assumir a Casa Branca.
A
pressão americana atingiu seu ponto máximo quando Trump ameaçou o governo
panamenho com retomar à força o controle do canal — administrado pelo país
centro-americano desde 1999 — alegando interferência chinesa.
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'Um ato de má-fé'
Não há
evidências públicas de que o governo chinês exerça qualquer controle sobre o
canal. No entanto, empresas chinesas têm presença significativa na região e, ao
longo dos anos, realizaram investimentos relevantes na hidrovia e em sua
infraestrutura.
O
presidente do Panamá, José Raúl Mulino, afirmou repetidamente que não existe
"absolutamente nenhuma interferência chinesa" no canal.
Mas, no
fim de janeiro, a Suprema Corte panamenha declarou inconstitucional a concessão
de 1997 — e sua renovação em 2021 — que permitia à Panama Ports Company,
subsidiária da CK Hutchison, operar os terminais.
As
autoridades da China e de Hong Kong manifestaram oposição à decisão e a
classificaram como um "ato de má-fé".
Já a CK
Hutchison, que administrou os portos durante quase 30 anos, acusou as
autoridades panamenhas de confiscarem ilegalmente seus ativos e iniciou uma
arbitragem internacional contra o país, reivindicando uma indenização superior
a US$ 2 bilhões por perdas e danos.
Pequim
argumenta que a decisão da Justiça panamenha foi motivada pela pressão dos
Estados Unidos, e não por um processo judicial independente.
Enquanto
isso, a Autoridade Portuária Nacional do Panamá assumiu o controle dos dois
portos, e as represálias chinesas começaram do outro lado do mundo.
A
punição a navios panamenhos que chegam a portos chineses é o estágio mais
recente de uma escalada de tensões entre China e Estados Unidos, intensificada
por disputas sobre infraestrutura portuária estratégica e o controle de rotas
comerciais fundamentais.
"Por
meio dessas detenções em massa de navios de bandeira panamenha, Pequim está
enviando uma mensagem direta e prática: decisões que afetem os interesses de
empresas chinesas ou ligadas a Hong Kong terão um custo tangível e
imediato", afirmou à BBC News Mundo Alicia García-Herrero,
economista-chefe para a Ásia-Pacífico do banco de investimentos Natixis e
pesquisadora sênior do centro de estudos europeu Bruegel.
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Uma mensagem clara
Para
García-Herrero, as retenções vão muito além da burocracia portuária. Elas
representam uma forma de pressão econômica assimétrica destinada a gerar
atrasos, custos e transtornos reais ao comércio marítimo.
"O
objetivo é dissuadir outros países de adotarem medidas semelhantes e lembrar
que Pequim reage quando considera que seus 'direitos legítimos' foram
violados", afirma.
Evan
Ellis, professor e pesquisador de estudos latino-americanos do Instituto de
Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos Estados Unidos,
concorda.
"Parece
bastante evidente que o assédio chinês a navios de bandeira panamenha faz parte
de uma mensagem mais ampla que a China está enviando ao governo do Panamá,
assim como a outros governos, sobre o preço de não cooperar com Pequim ou de
adotar medidas que prejudiquem suas empresas", diz.
"A
atuação da China neste caso específico parece um pouco mais explícita e
abrangente do que vimos em respostas a ações de outros governos",
acrescenta o analista.
O
aumento das retenções faz parte de uma resposta chinesa mais ampla, que também
inclui a suspensão dos serviços de contêineres da COSCO em Balboa, a convocação
de executivos da Maersk e da MSC — as duas maiores empresas de transporte
marítimo do mundo — para reuniões em Pequim, além da paralisação de novos
investimentos chineses no Panamá.
"Há
tentativas documentadas de pressionar a Maersk e a Mediterranean Shipping
Company para que suas subsidiárias não aceitem os contratos concedidos para as
operações temporárias dos portos que estão sendo retirados da Hutchison",
afirma Ellis.
A BBC
News Mundo entrou em contato com o Conselho de Estado da República Popular da
China e com a embaixada chinesa em Londres para conhecer sua posição sobre o
tema, mas não havia recebido resposta até a publicação desta reportagem.
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Ofensiva em várias frentes
A razão
para essa ofensiva chinesa em diversas frentes é que o Canal do Panamá
representa um ponto crítico na estratégia marítima do gigante asiático,
conectando dois oceanos e servindo como porta de entrada privilegiada para a
América Latina.
"Os
terminais de Balboa e Cristóbal eram peças importantes da rede global de portos
que Pequim construiu para garantir rotas de abastecimento, reduzir a
dependência de pontos controlados por terceiros e ampliar sua influência
comercial no Hemisfério Ocidental", explica García-Herrero.
Por
isso, perder o controle operacional desses terminais representa um revés para
sua capacidade logística e de projeção econômica em uma área que Washington
historicamente considera parte de sua esfera de influência.
Shengyu
Wang, pesquisador assistente do Centro de Análise da China do Instituto de
Política da Sociedade Asiática, que conversou com a BBC, lembra que os
interesses empresariais chineses e o Estado chinês nem sempre atuam como um
único ator.
Por
isso, ele acredita que as represálias chinesas também podem ter como alvo a
própria CK Hutchison Holdings.
Em
março de 2025, a empresa anunciou um acordo para vender a maior parte de seu
negócio portuário global — incluindo os portos de Balboa e Cristóbal, no Panamá
— a um consórcio liderado pela BlackRock e pela MSC por cerca de US$ 20
bilhões, algo que pode ter desagradado Pequim.
"A
tentativa de vender esses ativos portuários pode ter criado um problema para o
governo chinês. Na visão de Pequim, o fato de uma empresa ligada à China vender
ativos portuários estratégicos sem consultar as autoridades pode ser
interpretado como um desafio ao Estado", afirma o analista.
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Disciplinar empresas
A
reação inicial talvez não tenha como alvo apenas o Panamá ou os Estados Unidos.
"Ela
também pode refletir o esforço de Pequim para disciplinar empresas ligadas à
China e demonstrar que acordos estratégicos de infraestrutura não podem ser
desfeitos de uma maneira que prejudique o Estado chinês", acrescenta.
As
retenções de navios também provocaram forte insatisfação nos Estados Unidos, já
que embarcações de bandeira panamenha transportam uma parcela significativa da
carga conteinerizada americana.
Por
isso, "essas ações podem acarretar consequências comerciais e estratégicas
importantes para o transporte marítimo dos Estados Unidos", afirmou a
Comissão Marítima Federal americana em comunicado.
O fato
é que ainda não ocorreu uma mudança em massa de registros de embarcações para
fora do Panamá.
A
maioria dos navios mercantes que utilizam a bandeira panamenha pertence a
armadores estrangeiros que buscam evitar regulamentações marítimas mais rígidas
impostas por seus próprios países.
O
Panamá opera um sistema conhecido como registro aberto. Sua bandeira oferece
vantagens como processos de registro mais simples — muitas vezes feitos online
— e a possibilidade de contratar mão de obra estrangeira mais barata.
No
entanto, a Ambrey Analytics afirma que empresas chinesas de leasing marítimo
estão exigindo que armadores transfiram seus registros para outros países,
deixando de usar a bandeira panamenha, como condição para financiar a
construção de novos navios. Isso poderá gerar impactos de longo prazo para o
registro naval panamenho.
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Outros castigos da China à América Latina
"Tudo
isso se encaixa em um padrão mais amplo de coerção chinesa discreta que vem se
desenvolvendo há anos e que possivelmente é até mais agressiva do que a pressão
normalmente exercida pelos Estados Unidos", afirma Ellis.
O
analista argumenta que a China costuma preferir mecanismos indiretos de pressão
em vez de sanções comerciais formais.
Como
exemplo, ele cita a suspensão das compras de óleo de soja da Argentina após
ações antidumping movidas contra empresas chinesas pelo Congresso argentino em
2010.
"Ou
as ameaças contra a Guiana quando seu governo cogitava permitir que Taiwan
abrisse um escritório de representação comercial no país sul-americano em 2020,
bem como a suspensão das compras de castanhas e outros produtos da Guatemala
quando o presidente eleito Bernardo Arévalo declarou que pretendia manter a
cooperação com Taiwan", lembra.
As
cerejas e as uvas chilenas também conhecem esse tipo de pressão.
A China
alegou problemas fitossanitários para interromper as importações desses
produtos, em "um lembrete sutil do poder da China de deixar de comprar
produtos estratégicos", conclui Ellis.
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EUA transformam petróleo venezuelano em arma para dividir
Índia e Rússia nos Brics
Durante
anos, Washington tratou o petróleo venezuelano como produto
proibido. Impôs sanções, perseguiu compradores, ameaçou empresas e asfixiou
Caracas economicamente.
Agora,
o mesmo petróleo volta a circular com autorização estadunidense — desde que
cumpra uma função estratégica: ajudar a afastar a Índia do óleo russo e manter
o comércio energético venezuelano sob a chave jurídica dos Estados
Unidos.
Portanto,
não se trata de normalização, mas de controle.
O pano
de fundo é ainda mais sensível. A Índia participa simultaneamente dos Brics, da
Organização de Cooperação de Xangai e do Diálogo de Segurança Quadrilateral
(Quad) — este último formado por Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia, e
visto por Washington como peça de contenção da influência chinesa no
Indo-Pacífico.
Essa
sobreposição torna Nova Délhi um campo privilegiado de disputa: parceira
energética da Rússia, integrante de blocos multipolares e, ao mesmo tempo,
aliada estratégica dos EUA em iniciativas voltadas a conter Pequim.
Entre
os fundadores dos Brics, a Índia é o país que mantém a relação mais ambivalente
com Washington. Sob Narendra Modi, líder do partido de direita Bharatiya Janata
Party (BJP), Nova Délhi combina participação no bloco multipolar, parceria
energética com a Rússia e aproximação estratégica com os Estados Unidos.
A
movimentação ganha ainda mais peso porque ocorre justamente em 2026, ano em que
a Índia exerce a presidência rotativa dos Brics, assumida oficialmente em 1º de
janeiro, sob o tema “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and
Sustainability”.
A
estratégia foi explicitada por Washington ainda em fevereiro de 2026, quando o
embaixador estadunidense Sergio Gor afirmou que os EUA estavam em “negociação
ativa” com a Índia sobre a venda de petróleo venezuelano.
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Mas
a Reuters registrou o dado central:
Washington incentiva a diversificação indiana desde que ela não envolva o
petróleo russo. Essa era a condição. Segundo Gor, “os Estados Unidos não querem
ninguém comprando petróleo russo”.
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O papel estratégico da Venezuela
Desde
janeiro, após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, mantido ilegalmente em
cativeiro junto com sua esposa, a deputada Cilia Flores, a Venezuela tem sido
instrumentalizada por Washington e se tornou uma espécie de protetorado dos Estados Unidos.
Já em
maio, Marco Rubio anunciou que a
presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, viajaria à Índia para
oferecer o petróleo caribenho ao país asiático.
De
fato, poucas semanas depois, ela viajou à Índia, entre 3 e 7 de junho, para
discutir energia, investimentos e cooperação bilateral. A viagem ocorreu poucos
dias após Rubio visitar o país para uma reunião do Quad.
Apesar
da aparente normalidade da visita de Delcy Rodríguez, Rubio declarou reiteradas
vezes que Washington mantém a
última palavra sobre
a política estratégica do petróleo venezuelano.
O
secretário de Estado informou também que as receitas obtidas com a venda do
petróleo venezuelano estão sendo mantidas em Nova York, não mais no Catar.
Mediante a Executive Order 14.373, toda receita proveniente
dos hidrocarbonetos e minerais venezuelanos é desviada para uma conta do
Tesouro dos Estados Unidos sob administração discricionária estadunidense,
destinada única e exclusivamente à aquisição de bens produzidos naquele
país, segundo o intelectual venezuelano Luis Britto
García.
Também
chama atenção que Delcy tenha feito uma “visita de cortesia” ao embaixador dos
Estados Unidos na Índia, Sergio Gor, com quem teria conversado sobre “avanços
na relação bilateral em benefício de ambos os países”.
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Sanções não são punição, são alfândega imperial
As
sanções impostas pelos Estados Unidos funcionam como uma alfândega imperial
extraterritorial. Washington decide qual barril é ilegal, qual barril é
aceitável e qual barril pode servir para dividir adversários.
Esse é
o mecanismo mais sofisticado do imperialismo contemporâneo. Ele não precisa
ocupar formalmente um território para controlar parte de sua renda. Basta
controlar bancos, seguros, fretes, pagamentos, licenças, compradores e ameaças
secundárias.
A
Venezuela de Maduro passou anos denunciando o bloqueio como guerra econômica.
Agora, a retomada parcial das exportações escancara que Washington não
“perdoou” a Venezuela. Apenas percebeu que o petróleo venezuelano pode ser útil
em outra frente: a disputa contra a Rússia e a contenção da coesão energética
dos Brics.
O
episódio não é apenas uma venda de petróleo. É uma disputa sobre quem tem o
direito de organizar o comércio energético mundial.
Se a
Índia compra petróleo russo, Washington pune. Se compra petróleo venezuelano
sob licença estadunidense, Washington autoriza. A diferença não está no
petróleo. Está na obediência.
O
petróleo é venezuelano. O comprador é indiano. O alvo é russo. Mas quem opera o
circuito continua sendo os Estados Unidos. Essa é a denúncia central.
Fonte: BBC
News Mundo/Diálogos do Sul Global

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