terça-feira, 16 de junho de 2026

Paul Krugman: EUA vivem era de oligarquia mais poderosa que a dos “barões ladrões”

Os Estados Unidos vivem hoje uma concentração de riqueza e poder político superior à observada durante a chamada Era Dourada (“Gilded Age”), período marcado pelo domínio dos grandes magnatas industriais entre o final do século XIX e o início do século XX. A afirmação é do economista e vencedor do Nobel Paul Krugman.

Em artigo publicado em seu Substack, Krugman argumenta que a comparação frequentemente feita entre a atualidade e a Era Dourada acaba sendo injusta com o passado: embora os chamados “barões ladrões” da época tenham acumulado fortunas gigantescas, os bilionários contemporâneos concentram uma parcela ainda maior da riqueza nacional e exercem influência política mais ampla e menos sujeita a limitações institucionais.

Para sustentar a tese, o economista compara os patrimônios dos cinco americanos mais ricos de 1918 com os dos quinze mais ricos de 2025 — número ajustado ao crescimento populacional dos Estados Unidos. De acordo com sua análise, a participação dos super-ricos na riqueza total do país e no Produto Interno Bruto (PIB) supera os níveis registrados no auge da Era Dourada.

Krugman destaca ainda que a influência política dos bilionários se manifesta de diversas formas, desde o financiamento de campanhas eleitorais até o controle de grandes veículos e plataformas de comunicação: dados analisados pelo New York Times mostram que cerca de 300 bilionários responderam por 19% das contribuições políticas realizadas durante as eleições de 2024.

O economista também aponta para o crescente papel de empresários da tecnologia e das finanças na definição da agenda pública. Entre os exemplos mencionados estão Elon Musk, controlador da rede social X, e outros grandes empresários que, segundo Krugman, utilizam sua influência econômica para moldar debates políticos, interferir em regulações e influenciar decisões governamentais.

Embora reconheça que figuras históricas como John D. Rockefeller, Andrew Carnegie e Henry Clay Frick tenham construído suas fortunas por meio de práticas empresariais frequentemente monopolistas e agressivas, Krugman ressalta que muitos deles destinaram parcelas expressivas de seus recursos à filantropia, financiando instituições culturais, educacionais e científicas que permanecem relevantes até hoje.

Já os bilionários contemporâneos, afirma, destinariam proporcionalmente menos recursos a iniciativas de interesse público. O economista cita dados da revista Forbes para sustentar que alguns dos homens mais ricos do país doaram apenas uma pequena fração de suas fortunas acumuladas.

Para Krugman, os Estados Unidos já ultrapassaram há décadas os níveis de desigualdade econômica característicos da Era Dourada, mas ao invés de repetir aquele período histórico, a fase atual seria de oligarquização, marcada pela concentração extrema de riqueza e pela capacidade de uma pequena elite econômica de influenciar decisões políticas, econômicas e sociais em escala sem precedentes.

•        Um continente sequestrado do futuro: a América Latina entre o caos neoliberal e o declínio dos Estados Unidos. Por Marcio Pochmann

A América Latina e o Caribe vivem um momento que poderá ser lembrado pelas futuras gerações como o período em que o futuro lhes foi roubado. A cada eleição, acumulam-se governos mais frágeis, sociedades mais divididas e economias mais dependentes. Presidentes entram e saem dos palácios, partidos se alternam no poder e discursos inflamados dominam as campanhas eleitorais. Mas, terminado o espetáculo das urnas, permanece a mesma realidade: Estados enfraquecidos, crescimento medíocre, desigualdade persistente e incapacidade de formular projetos nacionais de longo prazo. O que se observa não é uma crise passageira. Trata-se do esgotamento histórico de um modelo.

Durante mais de quatro décadas, o neoliberalismo prometeu modernização, estabilidade e prosperidade. Em seu nome, privatizaram-se empresas públicas, abriram-se mercados, enfraqueceram-se instrumentos de planejamento estatal e transferiram-se decisões estratégicas para o mercado financeiro internacional. O resultado está diante dos nossos olhos: uma região mais vulnerável, mais desigual e menos soberana.

As democracias latino-americanas passaram a funcionar como sistemas permanentes de administração de emergências. Governos já não governam; apenas reagem. Combatem incêndios fiscais, crises cambiais, ondas migratórias, violência urbana, catástrofes climáticas e explosões de insatisfação social. O horizonte estratégico desapareceu. A política deixou de organizar o futuro para administrar o presente.

Ao mesmo tempo, uma transformação ainda mais profunda ocorre no cenário internacional. O centro do capitalismo mundial desloca-se gradualmente para a Ásia, enquanto os Estados Unidos enfrentam um processo de declínio relativo de sua hegemonia econômica, tecnológica e política. Nenhuma potência abandona voluntariamente sua posição dominante.

Quando já não consegue liderar pelo exemplo econômico, o império tende a recorrer aos instrumentos de força. A história registra esse movimento repetidas vezes. Foi assim com impérios antigos e modernos. O poder que perde capacidade de produzir prosperidade frequentemente amplia sua capacidade de produzir conflitos. A eventual consolidação do trumpismo como eixo duradouro da política norte-americana aponta precisamente nessa direção. A mensagem é clara: menos cooperação internacional, menos integração econômica e mais confrontação geopolítica.

Para a América Latina, isso significa crescente pressão para escolher lados em disputas que não são suas. Significa militarização das fronteiras, criminalização dos fluxos migratórios, intensificação das disputas por recursos naturais e ampliação das tensões em torno da presença chinesa na região. Nesse contexto, emerge uma pergunta inquietante: estaria a América Latina caminhando para uma condição semelhante àquela que marcou o Oriente Médio nas últimas décadas? Não se trata de afirmar que a história irá se repetir. As realidades são distintas. Mas a analogia serve como advertência.

O Oriente Médio converteu-se em espaço geográfico permanentemente submetido a intervenções externas, guerras indiretas, disputas por recursos estratégicos e fragmentação política. Em muitos casos, as agendas das grandes potências passaram a prevalecer sobre os interesses nacionais das populações locais. O risco latino-americano reside justamente aí. Uma região incapaz de construir seu próprio projeto histórico torna-se terreno fértil para que outros decidam seu destino.

Os sinais já estão presentes. O crime organizado atravessa fronteiras nacionais. O tráfico internacional de armas expande-se. A mineração ilegal avança sobre territórios estratégicos. As plataformas digitais estrangeiras controlam fluxos de informação. Os dados produzidos pelas populações latino-americanas são processados e monetizados fora do controle público. A soberania econômica é corroída pela dependência financeira. A soberania tecnológica é capturada pelas grandes corporações globais. Enquanto isso, a região mais desigual do planeta continua exportando riqueza e importando vulnerabilidades.

O mais grave é que tudo isso ocorre justamente quando a América Latina reúne condições excepcionais para desempenhar papel central no século XXI. Água doce, biodiversidade, alimentos, energia renovável, minerais estratégicos e uma população majoritariamente urbana compõem um patrimônio que poucas regiões possuem. Mas riqueza sem projeto nacional transforma-se em maldição. Recursos naturais sem soberania convertem-se em objeto de disputa. Democracias sem desenvolvimento tornam-se fábricas de frustração. E sociedades sem futuro tornam-se territórios de conflito.

O verdadeiro dilema latino-americano não é escolher entre direita e esquerda, mercado ou Estado, globalização ou protecionismo. O desafio histórico é muito mais profundo: decidir se a região continuará ocupando uma posição subordinada na reorganização do sistema mundial ou se será capaz de construir um novo ciclo de desenvolvimento baseado em integração regional, soberania tecnológica, reindustrialização, transição ecológica e redução das desigualdades. A história raramente oferece segundas oportunidades.

O século XXI poderá ser lembrado como o período em que a América Latina finalmente assumiu o controle do próprio destino. Ou como o momento em que aceitou passivamente transformar-se em periferia conflagrada de um mundo em disputa. A escolha ainda está aberta. Mas o tempo para fazê-la está se esgotando.

•        Trump relança tarifas e amplia tensão comercial

O governo do presidente Donald Trump está utilizando denúncias de trabalho forçado nas cadeias globais de produção para justificar uma nova rodada de tarifas comerciais contra dezenas de países, numa iniciativa que pode reacender a guerra comercial dos Estados Unidos com importantes parceiros econômicos.

A proposta, apresentada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), prevê tarifas adicionais de 10% a 12,5% sobre produtos importados de 60 economias. Segundo Washington, esses países não teriam adotado medidas suficientes para impedir a circulação de mercadorias produzidas com mão de obra forçada. A iniciativa surge após a Suprema Corte dos EUA invalidar, em fevereiro, parte das tarifas impostas anteriormente por Trump com base em poderes de emergência nacional.

A nova estratégia recorre à Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento tradicionalmente usado para investigar práticas comerciais consideradas injustas. O governo norte-americano argumenta que a presença de produtos fabricados com trabalho forçado cria uma concorrência desleal para trabalhadores e empresas dos Estados Unidos.

Entre os países e blocos afetados estão União Europeia, Reino Unido, Canadá, Japão, Índia e China. Diversos governos rejeitaram as acusações e classificaram as medidas como injustificadas ou politicamente motivadas. Autoridades europeias destacam que o bloco já aprovou legislação para restringir a entrada de produtos associados ao trabalho forçado, embora sua implementação completa esteja prevista apenas para os próximos anos.

Especialistas em direitos humanos e comércio internacional questionam a eficácia da proposta. Críticos afirmam que as tarifas têm mais relação com a política comercial de Trump do que com o combate efetivo ao trabalho escravo contemporâneo. Também há preocupações de que a medida aumente a incerteza para empresas e provoque novas disputas comerciais sem necessariamente melhorar as condições de trabalho nas cadeias produtivas globais.

A proposta passará por consultas públicas e audiências em julho antes de uma decisão final. Caso seja implementada, a medida poderá marcar uma nova fase da política protecionista de Trump e ampliar as tensões comerciais em um cenário econômico internacional já pressionado por conflitos geopolíticos e desaceleração do comércio global.

 

Fonte: Jornal GGN/Terapia Política/Al Jazeera

 

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