Dossiê
Ditadura – A escola francesa, Manaus e Figueiredo: a arquitetura externa da
repressão
Como a
doutrina de guerra contrarrevolucionária nascida na Argélia chegou ao Brasil
pela ponte norte-americana, fez do Centro de Instrução de Guerra na Selva um nó
de difusão, e teve em João Baptista Figueiredo a figura que costura a conexão —
com a separação rigorosa entre o que está provado e o que ainda repousa em
testemunho.
A
versão consagrada da repressão brasileira é endógena: porões, DOI-CODI, um
aparato montado em casa para combater a luta armada. O que o conjunto de fontes
reunido aqui permite demonstrar é que esse aparato teve uma arquitetura externa
— uma doutrina formulada em Paris, testada na Indochina e na Argélia, repassada
aos Estados Unidos e, por fim, descida ao Cone Sul. O Brasil não foi um ponto
terminal passivo desta rota: foi um de seus nós ativos, com um centro de
difusão próprio em Manaus e, no topo da cadeia de informações, um general
formado nessa mesma tradição — João Baptista Figueiredo.
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1. A doutrina, antes do Brasil
A
matriz é a Doutrina da Guerra Revolucionária — ou, na formulação que a
pesquisadora Jussaramar da Silva prefere, Doutrina de Guerra
Contrarrevolucionária. Ela foi gestada na Guerra da Indochina (1946–1954),
quando oficiais franceses como o coronel Charles Lacheroy se debruçaram sobre
as táticas do Viet Minh e sobre a leitura francesa de Mao. A conclusão que
extraíram é o coração de tudo o que viria depois: contra um “inimigo ideológico
e invisível”, a fronteira entre combatente e civil desaparece, e a própria
população se torna o alvo do controle militar.
Na
Batalha de Argel (1957), essa teoria virou método sistemático. Sob Massu e
Bigeard, os paraquedistas assumiram funções de polícia e desenvolveram o tripé
que define a doutrina: o quadrillage (divisão da cidade em zonas rígidas de
controle), a inteligência arrancada por tortura sistemática — a gégène, os
choques elétricos — e a execução seguida de desaparecimento forçado, com os
corpos jogados ao mar de helicóptero, cinicamente apelidados de crevettes
Bigeard.
A
teorização coube a Roger Trinquier, cujo La Guerre Moderne justificava
abertamente a tortura e negava ao “terrorista” sem uniforme a proteção das
convenções de guerra. A síntese mais exata da divisão de trabalho é do próprio
ministro da Defesa francês Pierre Messmer: Trinquier era a cabeça, Aussaresses,
o executor. É a engrenagem do inimigo interno — o adversário diluído na
população civil, que pode ser o professor, o padre, o estudante.
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2. A triangulação: Argélia →
Estados Unidos → Cone Sul
O erro
corrente é imaginar uma transmissão direta França–Brasil. A rota real é
triangular, e o vértice intermediário é decisivo. Como Leneide Duarte-Plon — a
única jornalista brasileira a quem Aussaresses concedeu entrevista — detalha,
os latino-americanos foram treinados primeiro nos Estados Unidos; só depois a
doutrina desceu ao Cone Sul.
A ponte
se arma entre 1961 e 1963, quando Aussaresses dá cursos em Fort Bragg e Fort
Benning, a convite norte-americano intermediado por Messmer e ligado ao
fascínio de Kennedy pela teoria do dominó. Ali, as técnicas da Batalha de Argel
alimentaram diretamente a concepção da Operação Phoenix no Vietnã. O resultado
doutrinário, nas palavras da própria Duarte-Plon, é que os Estados Unidos
incorporaram a doutrina francesa à sua Doutrina de Segurança Nacional — a mesma
DSN que seria o cimento ideológico das ditaduras sul-americanas. O percurso
completo, portanto: Indochina →
Argélia →
Estados Unidos → América
Latina.
Essa
triangulação não é apenas uma tese de Duarte-Plon. Ela é a coluna vertebral da
tese de doutorado de Jussaramar da Silva (As conexões repressivas no Cone Sul,
1960–1990, PUC-SP, 2017), que descreve a fusão da Doutrina de Guerra
Contrarrevolucionária francesa com as Doutrinas de Segurança Nacional
norte-americanas, ambas por orientação externa, formando o que ela chama de
Sistema Internacional de Repressão, sustentado por uma rede de escolas de
formação.
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3. 1963: o Estado que barrava os mercenários
Há uma
cena de abertura perfeita para esse arco, e ela está num recorte de Última Hora
de março de 1963. Quatro militantes da OAS — a organização terrorista da
extrema-direita francesa, dissolvida em junho de 1962 com o fim da Argélia
francesa — fizeram naquele mês uma espécie de tournée forçada pela América do
Sul. Argentina e Chile os recusaram; no Galeão, o Brasil de João Goulart os
barrou, sem deixá-los desembarcar.
O
enquadramento é seguro, ainda que as biografias individuais desses quatro nomes
não tenham deixado rastro nominal nas fontes francesas acessíveis. O que
importa é o contraste histórico: em 1963, o Estado brasileiro expulsa os
foot-soldiers da guerra suja francesa. Pouco mais de uma década depois, já sob
a ditadura, o mesmo Estado importa os mestres dela. O recorte de Última Hora é
o “antes” do qual o CIGS será o “depois”.
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4. Manaus: o CIGS como nó — e não como porão
O ponto
de aterrissagem da doutrina no Brasil é o Centro de Instrução de Guerra na
Selva (CIGS), em Manaus, ligado ao Comando Militar da Amazônia (CMA) — criado
em Belém em 1956 e transferido para Manaus em 1969.
O CIGS
não foi um porão nos moldes do DOI-CODI. Era, oficialmente, uma escola de
guerra na selva. O que a tese de Jussaramar e a documentação reunida demonstram
é que, sobretudo a partir de 1973, ele se converteu em nó de difusão da
doutrina de contrainsurgência — e é por isso que entra nas investigações como
peça do aparato repressivo, não como central de interrogatórios de massa. A
documentação local é mais escassa que a do Sudeste, o que pesa na hora de
cravar fatos.
A
genealogia do CIGS é, ela própria, a prova material da triangulação. Criado em
1964 e em funcionamento a partir de 1966, seu quadro fundador foi formado pelos
norte-americanos: oficiais e sargentos enviados antes à Escola das Américas, no
Forte Sherman (Zona do Canal do Panamá), na condição de “Jungle Experts”; o 1º
Curso de Guerra na Selva concluiu-se em novembro de 1966. É a ponte EUA → Manaus que escapa a
quem só enxerga a perna francesa.
Os
números do próprio Centro — extraídos do Almanaque do CIGS (2010) — fecham o
argumento. O CIGS formou 4.984 pessoas, das quais 407 estrangeiros de 24
nações. A maioria era latino-americana, mas duas nacionalidades se destacam
pela quantidade: 22 norte-americanos e 84 franceses. Esse duplo contingente — o
maior bloco, francês; o segundo, norte-americano — é a marca material da
triangulação EUA–França–Brasil no chão de Manaus. Não por acaso, Jussaramar
batiza o CIGS, num subtítulo de sua tese, como “o complemento ‘sujo’ da Escola
das Américas” — a imagem que costura, numa frase, a escola francesa e a escola
americana.
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5. Aussaresses, o “professor” — e os limites da prova
A
figura que personifica a perna francesa em Manaus é o general Paul Aussaresses,
torturador confesso da Argélia e adido militar francês no Brasil entre novembro
de 1973 e novembro de 1975 — período que coincide com sua atuação como
instrutor no CIGS.
Sobre
ele incide a distorção mais recorrente das fontes, e convém blindar o texto
contra ela: Aussaresses foi instrutor/professor no CIGS, não seu comandante. O
centro foi criado e comandado por oficiais brasileiros. Há fontes de boa-fé — o
portal Documentos Revelados entre elas — que afirmam, na mesma página, que o
CIGS foi “comandado pelo general francês Aussaresses” e que “foi criado por
oficiais brasileiros formados na Escola das Américas”. As duas coisas não se
sustentam juntas. O defensável é: instrutor e inspirador, não comandante. Seus
antecessores no posto de adido, Yves Boulnois e Jean-Louis Guillot (1969–1975),
também eram especialistas em guerra anti-subversiva; Boulnois chegou a reportar
a Messmer os avanços na estruturação das forças de repressão brasileiras.
A
afirmação de que Aussaresses deu “aulas regulares” no CIGS tem por base, em
essência, o próprio testemunho dele — não um documento interno do Centro. Quem
o registra é Duarte-Plon, sua única entrevistadora brasileira, no livro A
tortura como arma de guerra: da Argélia ao Brasil (Civilização Brasileira,
2016). E a própria autora, ao ser interrogada sobre se as aulas eram teóricas
ou práticas, é categórica: ele sempre disse que eram teóricas — sobre a Batalha
de Argel — e que, embora “haja controvérsias” e seja possível que tenham sido
também práticas, “ainda não temos nada que prove”. Some-se um detalhe
revelador: nos seus próprios informes oficiais como adido, Aussaresses omitia o
próprio papel de instrutor, registrando apenas que a direção da escola seguia
ministrando o currículo da “guerra revolucionária”.
Ou
seja: a transferência da doutrina e a relação Brasil–França estão documentadas
(inclusive nos relatórios secretos franceses que a edição francesa do livro de
Duarte-Plon, pela L’Harmattan, abril de 2026, promete trazer). O que permanece
ancorado apenas na palavra de um homem afeito à autopromoção é a instrução
prática de tortura propriamente dita.
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6. Figueiredo: a figura que costura a conexão
Se há
uma única pessoa em que essas linhas convergem, é João Baptista Figueiredo. Ele
não é um detalhe da história da escola francesa no Brasil; é o seu ponto de
articulação no Estado.
Primeiro,
pela formação. A investigação da Agência Pública sobre os relatórios dos adidos
militares franceses individualiza quem, entre os quadros do regime, era
especialista em doutrina francesa ou ex-aluno da Escola Superior de Guerra
francesa. Figueiredo aparece nessa lista — ao lado do coronel Walter de Menezes
Paes (comandante do IV Exército e depois chefe da ESG, formado na 69ª promoção
da Escola Superior de Guerra de Paris e fluente em francês) e do general Sílvio
Frota. É importante atribuir corretamente: esses nomes vêm dos relatórios dos
adidos franceses garimpados pela Agência Pública, não da boca de Aussaresses no
documentário. O mesmo material francês registra que a ditadura brasileira foi
lida, em Paris, como oportunidade de recuperar a influência das missões
militares francesas no país, perdida para os americanos.
Segundo,
pelo perfil. Duarte-Plon traça um paralelo preciso entre Aussaresses e
Figueiredo: ambos militares de carreira, mas, antes de tudo, homens do Serviço
Secreto — discretos por ofício. Não é coincidência que Figueiredo tenha
comandado o SNI (de 1974 a 1978) exatamente no período em que a doutrina se
institucionaliza e em que o CIGS atinge sua função de nó difusor.
Terceiro,
pelas amizades. Aussaresses dizia-se amigo de Figueiredo. E Manuel Contreras,
chefe da DINA chilena, descreveu-se em depoimento como “amigo pessoal” de
Figueiredo. Não se trata de detalhe biográfico: as duas pontas externas da rede
— o executor da doutrina francesa e o operador-mor da Operação Condor — se
declaravam próximas do mesmo general brasileiro.
Quarto,
pelo documento. É a Figueiredo, à frente do SNI, que Contreras endereça a carta
de 28 de agosto de 1975 — o documento, autenticado pelo próprio Contreras em
depoimento ao MPF em 2015, em que Kubitschek e Orlando Letelier são apontados
como capazes de “influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul”. Um mês
depois da morte de JK, Letelier seria assassinado em Washington. (O
detalhamento dessa carta e de sua procedência está tratado em peça específica
do Dossiê.)
Por
fim, a revelação mais grave — e a que exige mais cautela. A edição francesa do
livro de Duarte-Plon atribui a Aussaresses uma afirmação inédita: a de que
Figueiredo teria participado pessoalmente da tortura de uma mulher acusada de
ser agente do KGB enviada para matá-lo. Vale como linha de investigação, não
como fato estabelecido.
A
figura que emerge, então, não é a de um burocrata que recebeu uma carta. É a de
um general formado na tradição da ESG francesa, amigo declarado do executor da
doutrina (Aussaresses) e do operador do Condor (Contreras), no comando do
serviço de informações brasileiro no exato momento em que a arquitetura externa
da repressão se fecha.
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7. A ponte para o Condor
O CIGS
não foi um fim em si: foi uma escola que exportava de volta. Segundo o
depoimento do próprio Contreras, numerosos oficiais chilenos fizeram estágio no
Brasil, e o Centro de Manaus — apontado como tendo Aussaresses entre seus
inspiradores — formou oficiais brasileiros, chilenos e argentinos
especializados em repressão. É a conexão Manaus → Cone Sul sustentada também
pelo lado chileno, e não apenas pela memória de um general
francês.
A
institucionalidade dessa conexão está na Comissão Nacional da Verdade: é o
Volume I, Parte II do relatório final que trata das alianças repressivas no
Cone Sul e da Operação Condor. E há um antecedente que recua a cronologia
habitual: um estudo da PUC-SP sobre o “protótipo” do Condor sustenta, com
fontes primárias, que as conexões repressivas já operavam desde 1972 por meio
da Confederação Anticomunista Latino-americana (CAL), braço da Liga
Anticomunista Mundial (WACL) — e que o Brasil sediou o II Congresso da CAL no
Rio em 1974, um ano antes da formalização do Condor no Chile, em dezembro de
1975. Um documento desclassificado da CIA, de maio de 1977, fixa o papel
específico do Brasil: ainda que ausente da reunião fundadora de 1974, o país
concordou em fornecer equipamento para a “Condortel”, a rede de comunicações do
grupo, cujas equipes enviadas ao exterior tinham por missão “liquidar” alvos de
alto nível.
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8. O que está provado, o que falta
A
honestidade sobre os limites documentais é parte da força do argumento, não sua
fraqueza.
No
plano da autoria individual, o registro público é magro: na lista dos 377
agentes do Estado da CNV, o general Thaumaturgo Sotero Vaz é o único oficial do
CIGS individualizado. Mas aqui é obrigatório um cuidado que a defesa militar
exploraria de imediato: as graves violações que a CNV lhe atribui — a
participação na execução de Bergson Gurjão Farias (1972, na Guerrilha do
Araguaia) e a tortura de Danilo Carneiro no PIC de Brasília — não ocorreram
fisicamente no CIGS de Manaus. O vínculo de Thaumaturgo com Manaus é de comando
e biografia (foi comandante do CIGS e do 1º Batalhão de Infantaria de Selva); a
materialidade de seus crimes está no Araguaia e em Brasília. Na arquitetura do
Dossiê, o CIGS é o nó doutrinário e institucional — a escola —, e Thaumaturgo é
a figura nomeada que passou por esse comando. Tratar as duas coisas como uma só
é o tipo de atalho a evitar.
No
plano da prática repressiva amazônica, o caso mais sólido e ancorado em
depoimento primário é o genocídio do povo Waimiri-Atroari, na abertura da
BR-174 pelo Batalhão de Infantaria de Selva — a CNV contabilizou 2.650 mortos
dessa etnia. Mas mesmo aí a documentação trata a tropa de forma institucional,
sem individualizar oficiais do CIGS além de Thaumaturgo.
E há um
terceiro plano, que é tese, não lacuna: a obstrução documental. A própria CNV
registrou a resistência generalizada das Forças Armadas ao acesso a seus
arquivos — a certa altura o Exército alegou que a documentação havia sido
destruída, o que depois se revelou falso. O arquivo do CIGS daquele período é
exatamente um dos pontos onde esse apagamento morde mais fundo. A ausência de
nomes não atesta ausência de crime; atesta arquivo fechado. É por isso que
pesquisadores como Fermino Fechio defendem a divulgação dos documentos do CIGS:
é ali que a investigação ganharia tração documental definitiva.
O que o
Dossiê estabelece, em síntese. A
repressão brasileira teve uma matriz externa documentada — uma doutrina
francesa que chegou pela ponte norte-americana e teve em Manaus um centro de
difusão próprio, comprovado pelos números do próprio CIGS. A perna mais “dura”
e citável dessa história brasileira — os nomes de Figueiredo, Menezes Paes e
Frota como quadros da ESG francesa — vem dos relatórios dos adidos franceses,
não da memória de Aussaresses. E o que permanece no terreno do testemunho a ser
cruzado — a instrução prática de tortura no CIGS, a participação pessoal de
Figueiredo numa sessão de tortura — deve ser apresentado como linha de
investigação, não como fato. É essa disciplina entre o provado e o alegado que
torna o conjunto resistente à contestação.
Fonte:
Jornal GGN

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