Samuel
Jorge Moysés: Palantir – infraestrutura como poder
Há uma
distinção que raramente aparece nas análises sobre vigilância e influência algorítmica
nas pessoas e que me parece decisiva: a diferença entre convencer e gerir. A
empresa Cambridge Analytica queria convencer eleitores,
alterar preferências e manipular intenções de voto por meio de perfis
psicológicos colhidos ilegalmente de 87 milhões de usuários do Facebook. O
escândalo de 2018, revelado pelo whistleblower Christopher
Wylie, expôs como essas técnicas foram usadas na primeira campanha presidencial
de Trump e no referendo do Brexit no Reino Unido, resultando em multas
bilionárias e no encerramento das atividades da empresa. A Palantir
Technologies, por outro lado, quer gerir infraestrutura. Trata-se de um
poder que não aparece em pesquisas eleitorais e não é revertido por resultados
de urna, pois busca tornar-se a própria condição de funcionamento dos serviços
públicos e estruturas governamentais.
Fundada
em 2003 por Peter Thiel e Alex Karp com capital inicial da Agência Central de
Inteligência dos Estados Unidos (CIA), a Palantir consolidou-se fornecendo
sistemas para agências de inteligência e defesa – incluindo o Ministério da
Defesa britânico, as Forças de Defesa de Israel e as forças armadas da Ucrânia
–, participando ativamente da arquitetura de vigilância em massa denunciada por
Snowden em 2013. A empresa vale hoje cerca de 400 bilhões de dólares, mais de
80 vezes sua receita anual, dimensão que por si só evidencia a lógica não
apenas comercial, mas nodal de sua expansão.O nome remete aos palantíri de
Tolkien, as literariamente famosas pedras videntes que permitem ver tudo em
qualquer lugar. É uma metáfora deliberada sobre a ambição de onisciência
analítica da empresa, capturando e integrando dados brutos de fontes diversas e
criando sentido e agregando valor estratégico aos mesmos.
<><>
O ecossistema e as pontes institucionais
Para
entender o que está em jogo para a soberania brasileira no presente ensaio, é
preciso mapear o ecossistema intelectual e político no qual a empresa opera.
Michael Shellenberger é a figura mais visível desse circuito no Brasil, atuando
como vetor de narrativas que buscam deslegitimar o Judiciário brasileiro, como
visto nos episódios dos chamados “arquivos do Twitter”. Contudo, essa
influência não se limita à guerra cultural; ela possui âncoras econômicas
robustas. Michael Shellenberger ocupa uma cátedra na Universidade de Austin
(UATX), instituição fundada como alternativa antagônica ao denominado
progressismo acadêmico e que tem entre seus principais apoiadores Peter Thiel,
cofundador da Palantir.
No
cenário brasileiro, essa rede de influência ganha contornos de articulação
econômica estratégica por meio de figuras como o apresentador de televisão
Luciano Huck. Reportagens de maio de 2026 apontam Luciano Huck como um
interlocutor influente e elo político para os fundos de Peter Thiel no Brasil –
atrelamento que, diga-se, não implica parceria contratual direta com a
Palantir, mas indica alinhamento funcional com o ecossistema de expansão de
Peter Thiel. A conexão mais direta ocorre via Founders Fund, fundo
de capital de risco de Peter Thiel, que liderou recentemente um aporte de mais
de 100 milhões de dólares na lawtech brasileira Enter,
transformando-a em um unicórnio jurídico. A atuação de Luciano Huck se estende
ao campo institucional como padrinho do Instituto Inteligência Artificial de
Verdade (IAV). Embora o projeto se proponha ao letramento digital, análises
críticas sinalizam que essas iniciativas funcionam como pontes institucionais
de fachada educativa, abrindo espaço para que tecnologias derivadas da Palantir
e dos fundos de Peter Thiel operem com maior aceitação no ecossistema
corporativo e governamental brasileiro. É o que Mauro Oliveira denomina “entusiasmo do
colonizado”:
uma celebração acrítica de infraestruturas estrangeiras sem questionar quem
controla o valor produzido ou quais interesses estratégicos estão em jogo. A
metáfora estrutura o argumento com precisão: assim como o Brasil forneceu
borracha enquanto Detroit fabricava automóveis, corre o risco de fornecer dados
e energia enquanto outros operam as refinarias da inteligência.
<><>
Peter Thiel e a filosofia do exit
A
lógica da Palantir é informada pela filosofia do exit de Peter
Thiel. Em 2009, Peter Thiel afirmou não acreditar mais que liberdade e
democracia sejam compatíveis, defendendo que a solução para a liberdade não é o
voto, mas escapar das jurisdições democráticas por meio da dissimulação da
tecnologia autonomizada, sem fronteiras e regulamentações. A Palantir aplica
essa visão tornando-se indispensável à infraestrutura estatal. É precisamente
operando dentro do Estado – aquele que sua filosofia rejeita como instância
legítima de poder – que ela dilui a distinção entre governança democrática e
governança algorítmica na opacidade técnica. A tensão entre a retórica
libertária e a dependência de contratos governamentais bilionários não é uma
inconsistência acidental: é o modelo de negócio. Esse fenômeno é o que Yanis
Varoufakis classifica como “techlordism”.
Os senhores da tecnologia fornecem a cobertura ideológica para colonizar
instituições públicas e comportamentos individuais, transformando o software no hard
power deste século. Como argumentam Karp e Zamiska em seu livro The
Technological Republic, os engenheiros de elite teriam a obrigação de
participar da defesa nacional, militarizando a inteligência artificial para
preservar a hegemonia ocidental. O “manifesto” da Palantir, publicado em abril
de 2026 com mais de 30 milhões de visualizações em dois dias, tornou essa
agenda explícita: não é especulação analítica, mas autodeclaração estratégica.
<><>
O caso NHS e a estratégia land and expand
O
exemplo mais contundente desse avanço sobre a esfera estatal, no caso a saúde
pública, ocorre no Reino Unido. Em novembro de 2023, o National Health Service
(NHS) adjudicou à Palantir um contrato de 330 milhões de libras para operar
a Federated Data Platform (FDP). A estratégia utilizada foi
descrita como land and expand: a empresa “aterrissou” no sistema em
2020 com um contrato simbólico de apenas uma libra para suporte durante a
pandemia, demonstrando uma eficiência inicial que depois serviu para precificar
a dependência construída – mecanismo que a London School of Economics analisa
como poder infraestrutural. Especialistas alertam para o risco de vigilância em massa através
da Federated Data Platform. A plataforma faz a mineração de
centenas de bancos de dados para criar o que a empresa chama de Person
Ontology – uma fonte única da verdade para perfis individuais de
pacientes, já cobrindo 69% dos fundos regionais do NHS. Embora os dados sejam
pseudonimizados, o órgão de fiscalização do Reino Unido adverte que esse
processo é reversível, permitindo a datificação e seu uso não informado ou
consentido.
Em
junho de 2026, o Comitê Multipartidário de Ciência, Inovação e Tecnologia do
Parlamento britânico instou o governo a acionar a cláusula de rescisão do
contrato em 2027, exigindo que o governo revelasse a natureza exata do acesso
da Palantir a dados identificáveis de pacientes e o fundamento legal desse
acesso. Além disso, o CEO da empresa no Reino Unido já admitiu que, sob certas
diretrizes políticas, as ferramentas poderiam ser usadas para visar indivíduos
com base em seu status de imigração para fins de deportação. Há exemplos
análogos de interdependência do NHS com operadoras privadas, tais como a British
United Provident Association (Bupa), que adquiriu a operadora
brasileira Care Plus em dezembro de 2016 e atende mais de 38 milhões de pessoas
em 190 países. Isso intensifica a preocupação sobre como os dados que transitam
entre os setores público e privado serão tratados dentro das plataformas. Não
há, até o momento, evidências de que o software da Palantir esteja sendo
utilizado nas operações brasileiras da Bupa, mas o padrão de expansão observado
no Reino Unido fornece o modelo preditivo relevante.
<><>
A infiltração via setor privado no Brasil
No
Brasil, as evidências da infiltração da Palantir apontam para uma estratégia
indireta via setor privado, evitando inicialmente o escrutínio regulatório de
contratos governamentais diretos. A entrada ocorre por meio de parcerias com
grandes consultorias globais que implementam as ferramentas de análise de
dados Foundry e AIP. Em março de 2026, a Bain
& Company anunciou a expansão de sua parceria global com a Palantir
incluindo operações em São Paulo, focando em projetos de transformação digital
para grandes grupos de saúde. Outra peça-chave é a Cognizant, que opera
um hub em São Paulo para toda a América Latina, atendendo as
maiores farmacêuticas globais instaladas no Brasil – como Sanofi, Merck e
Pfizer – e modernizando sistemas de operadoras de saúde e seguradoras
brasileiras. Essas consultorias fornecem a mão de obra especializada para
integrar o software da Palantir aos sistemas legados dos hospitais nacionais. O
caso de sucesso no setor privado é posteriormente utilizado como argumento
técnico (e político) para pressionar por parcerias de eficiência operacional
com estados e municípios. Há, nesse ponto, um salto que o argumento deve
reconhecer: a trajetória descrita é plausível e documentada em outros
contextos, mas ainda não há contratos governamentais brasileiros diretamente
vinculados à Palantir que confirmem a etapa final dessa cadeia. Haverá?
O SUS
representa um ativo informacional inigualável: são mais de 200 milhões de
pessoas com continuidade longitudinal de dados, algo que nenhum sistema privado
mundial consegue replicar. Contudo, a soberania desses dados está diretamente
ameaçada pelo CLOUD Act dos Estados Unidos. Esta legislação
permite que autoridades estadunidenses requisitem dados controlados por
empresas sob sua jurisdição, independentemente de onde os servidores estejam
fisicamente localizados. O argumento, portanto, não depende de má-fé presumida
da Palantir: depende da estrutura jurídica objetiva criada por mecanismos
como CLOUD Act. Se a infraestrutura de dados do SUS for gerida por
plataformas sob jurisdição americana, a fronteira física brasileira deixa de
ser uma garantia jurídica, independentemente das intenções declaradas da
empresa contratada. Como a Palantir se declara abertamente um instrumento da supremacia ocidental e da defesa
nacional americana em seu “manifesto”, o processamento de dados brasileiros em
suas plataformas, dados de Estado e de enorme importância para a soberania
digital, adquire dimensão estratégica que supera a análise comercial. O Brasil
corre o risco de tornar-se um mero fornecedor de energia, território e dados,
enquanto o controle efetivo sobre a informação é capturado por potências
estrangeiras.
Em
março de 2026, Alex Karp declarou abertamente que sua tecnologia é projetada
para “disromper eleitores com formação em humanidades e aumentar o poder
econômico de trabalhadores técnicos frequentemente alinhados à direita” (leia aqui). Essa confissão
revela que a arquitetura técnica da Palantir não é neutra, mas deliberadamente
alinhada a uma estratégia de redistribuição de poder político. A questão
fundamental que permanece é a da responsabilidade política. Quando uma empresa
privada puder controlar algoritmos que determinam a alocação de leitos ou a
prioridade na distribuição de medicamentos em um sistema universal como o SUS,
quem pode ser responsabilizado se o sistema falhar? O vazio de accountability é
precisamente o que a filosofia do exit busca ocupar. Ou seja,
a empresa escapa da responsabilidade democrática enquanto permanece dentro do
Estado como condição de seu funcionamento. Como alertou o Papa Leão XIV
na encíclica Magnifica
humanitas,
decisões letais ou irreversíveis não devem ser confiadas a sistemas
artificiais, devendo permanecer sob controle humano efetivo. A vigilância sobre
parcerias do Ministério da Saúde com grandes empresas de tecnologia de defesa é
o que impede, por ora, uma entrada decisiva da Palantir no SUS nos moldes
britânicos. No entanto, a soberania precisa ser construída ativamente e com os
devidos alertas prévios deflagrados – distinguindo entre quem abriga a
infraestrutura e quem controla o valor que ela produz – antes que a dependência
infraestrutural esteja permanentemente instalada e a reversão se torne, como no
caso NHS, mais custosa que a continuidade.
¨
Um novo equilíbrio do medo está surgindo no mundo.
PorAndrea Rizzi
O mundo
está testemunhando o surgimento de um novo equilíbrio do medo. A
estabilização das relações entre os Estados Unidos e a China, as
dificuldades enfrentadas pelo Kremlin e pela Casa Branca em seus ataques contra
a Ucrânia e o Irã, e o alerta global em relação às supostas
capacidades dos modelos de Inteligência Artificial (IA) mais
avançados da humanidade são questões muito diversas, mas compartilham um
denominador comum: destacam poderosos mecanismos de dissuasão característicos
de nossa época, seja no âmbito da interdependência econômica, dos
desenvolvimentos militares ou da revolução tecnológica. A competição entre
as duas superpotências demonstrou ao longo do último ano que nenhuma delas
consegue subjugar a outra sem se expor a riscos muito sérios. Trump lançou uma
ofensiva tarifária.
A resposta da China, com restrições à
exportação de matérias-primas estratégicas, causou temor generalizado devido ao
seu impacto na capacidade produtiva global. Reconhecendo essa realidade, ambas
optaram por acalmar os ânimos, como ficou evidente na recente cúpula em
Pequim.
As
guerras travadas pelos EUA e Israel contra o Irã e a guerra
da Rússia contra a Ucrânia demonstram que hoje, mais do que
nunca, a superioridade militar de uma potência sobre um adversário não garante,
por si só, a conquista de seus objetivos.
Essa
constatação, somada ao temor dos danos que Teerã poderia infligir em um ano
eleitoral, sem dúvida explica a contenção e a disposição para negociar
demonstradas por Trump nas últimas semanas. A IA, por sua vez,
também abre possibilidades de dissuasão. Modelos cada vez mais impressionantes
não apenas geram apelos por regulamentação, mas também têm efeitos inibidores,
seja porque melhoram as capacidades de detecção e atribuição de ataques híbridos,
seja porque seu potencial disruptivo induz outros a serem muito cautelosos. É
claro que nada disso significa que a turbulência atual vá diminuir
repentinamente, nem que outros conflitos não possam se intensificar ou eclodir.
Estamos vivenciando uma brutal reconfiguração da ordem mundial, com atores
à solta, e a perspectiva está longe de ser tranquila. Mas elementos relevantes
estão emergindo, entrando nos cálculos estratégicos e têm o potencial de
contribuir, ao menos em alguns aspectos, para conter o conflito.
<><>
Interconexão econômica
A cúpula de Pequim
entre Xi e Trump foi um exemplo claro desse padrão. Ambos os lados
abraçaram o conceito de “nova estabilidade estratégica construtiva”. Essa
distensão decorre da compreensão de que, no cenário atual, a interconexão
econômica gera riscos imensos. Essa é a principal diferença entre este mundo e
a época da Guerra Fria. Marta Peirano, especialista na relação entre
tecnologia e poder, exemplifica essa realidade interconectada e altamente
sensível na cadeia de produção de IA. Embora o pequeno número de empresas
americanas e chinesas que desenvolvem modelos de ponta seja impressionante, o
ecossistema que as apoia é, na verdade, muito mais amplo. “A cadeia de produção
de IA é incrivelmente complexa”, destaca Peirano. “Ela exige mineração, refino,
fabricação, logística, design, e toda essa cadeia está repleta de gargalos,
fragilidades e sérias interdependências. Os chips dependem de Taiwan,
os elementos de terras raras são controlados pela China, e então
tudo se multiplica, porque de tempos em tempos, entre um e três anos, eles
precisam renovar tudo.” É evidente que este ponto é particularmente crítico e
que a distensão entre as duas superpotências tem um efeito benéfico em todo o
planeta. Mas a interconexão e os gargalos estão por toda parte. O bloqueio do Estreito
de Ormuz demonstra
isso. É claro que as cadeias de suprimentos podem ser reconfiguradas,
mas, em alguns casos, a complexidade é tão grande que alcançar isso a curto ou
médio prazo não é realmente viável.
<><>
A assimetria da guerra
A crise
de Ormuz exemplifica outra grande tendência observada este ano. Apesar da
superioridade esmagadora das capacidades dos EUA e de Israel,
o Irã ofereceu uma resistência eficaz ao ataque sofrido. Seus
sucessos decorrem do desenvolvimento habilidoso de táticas de guerra
assimétrica. A Ucrânia também
está demonstrando uma capacidade defensiva impressionante este ano, apesar da
retirada da ajuda dos EUA. “Podemos presumir que muitos países estarão atentos
e observando essas tendências com muita atenção. As lições são muito claras. A
natureza da guerra está mudando. Se as tendências atuais servem de indicação,
as suposições tradicionais de que um certo grau de superioridade permite vencer
guerras não são mais válidas”, afirma Harsh V. Pant, vice-presidente do
think tank indiano ORF e professor do King’s College London, em uma conversa
telefônica realizada no final de maio para a elaboração deste relatório. “A
assimetria sempre foi um elemento importante nos conflitos. No entanto,
hoje ela está adquirindo um papel ainda mais decisivo, mesmo quando grandes
potências estão envolvidas”, continua Pant. “O que está acontecendo é que o
desenvolvimento tecnológico deu aos atores mais fracos uma margem de manobra
que não tinham antes. Esses atores agora podem usar drones, forças por
procuração, ferramentas cibernéticas e guerra da informação para impor custos
desproporcionais a adversários que, de uma perspectiva convencional, podem ser
muito mais poderosos.
Portanto,
as métricas tradicionais de poder militar são cada vez mais insuficientes para
entender os resultados estratégicos. Consequentemente, a adaptabilidade está
emergindo como talvez o fator mais decisivo para o sucesso”, comenta o
especialista. “Como os sistemas de armas estão se tornando mais
baratos e, ao mesmo tempo, melhorando em qualidade, estamos testemunhando uma
certa democratização dos meios de guerra”, concorda Rafael Loss,
especialista em segurança e defesa do think tank ECFR, também
consultado por telefone no final de maio. “Se esses meios de combate não
estiverem vinculados a uma estratégia específica, o simples fato de alcançar
grandes sucessos táticos não garante que os objetivos políticos serão
atingidos”, alerta Loss. Não se pode presumir que a resistência efetiva
da Ucrânia e do Irã se traduzirá em sucessos políticos. Mas
há poucas dúvidas de que as dificuldades enfrentadas pela Rússia e pelos EUA
estão provocando reflexão em governos e quartéis-generais militares em todo o
mundo.
<><>
Dissuasão tecnológica
O
rápido desenvolvimento da IA está causando enorme
turbulência — seja nos mercados de
trabalho ou no desenvolvimento das habilidades cognitivas —
o que tem atraído muita atenção. Mas, em paralelo,
também traz consigo fatores de dissuasão
com potencial estabilizador. Uma delas, por exemplo, diz respeito à maior
capacidade de detectar e atribuir ataques digitais híbridos. “Uma das
características da guerra híbrida é que o
agressor tinha uma boa chance de se esconder, de negar a responsabilidade.
Agora, essa ideia está gradualmente desaparecendo, porque a inteligência
artificial permite atribuir a autoria ao agressor”, afirma Raquel Jorge
Ricart, pesquisadora não residente do Instituto Real Elcano e
especialista em políticas tecnológicas. O especialista destaca que as
capacidades de detecção e atribuição se aplicam não apenas ao mundo digital,
mas também ao mundo físico. A combinação de IA, tecnologia de satélite, sensores
e poder computacional oferece um grande potencial, por exemplo, na detecção de
atos violentos em zonas de conflito. Jorge Ricart menciona o programa
Sentinel no Sudão do Sul, que, por meio da observação por satélite, pode
fornecer informações cruciais para a prevenção de atrocidades. Mas, além da
detecção e da atribuição, a IA possui um potencial dissuasor ligado a toda a
sua gama de capacidades. Alex C. Karp, CEO da Palantir, argumenta que “a era da dissuasão atômica está
chegando ao fim, e uma nova era de dissuasão baseada em IA está
começando”.
Marta
Peirano levanta imediatamente preocupações sobre o caráter interesseiro desse
tipo de declaração. Isso não invalida o fato de que a tecnologia possui, de
fato, capacidades dissuasivas. A especialista destaca que, nesse setor, mesmo
um potencial não comprovado pode influenciar o comportamento. “A IA tem
um enorme poder de projeção. Há receios de que modelos sejam capazes de se
infiltrar em todos os lugares, encontrar vulnerabilidades e atacar redes-chave.
Isso facilita a criação de um efeito dissuasor imaginário por parte da IA,
mesmo sem comprovar totalmente as capacidades que aterrorizam na especulação.” A
corrida para adquirir essas capacidades de forma dominante é, em si, uma
realidade com um potencial efeito dissuasor. Isso foi apontado por Eric
Schmidt — ex-chefe do Google —, Alexandr Wang — chefe de IA da
Meta — e Dan Hendrycks — consultor da xAI — em um breve ensaio
publicado no ano passado. Nesse documento, eles argumentam que uma vantagem
significativa em IA representa uma ameaça muito séria à segurança nacional dos
adversários. Portanto, em vez de correrem o risco de ter essa vantagem usada
contra eles, os adversários agirão para desmantelar projetos ameaçadores. A
relativa facilidade de espionagem cibernética e sabotagem gera consequências
calculadas. Essa dinâmica, que eles definem como Disfunção Mútua
Assegurada da IA —
fazendo alusão ao conceito de Destruição Mútua
Assegurada — "estabiliza o cenário estratégico
sem a necessidade de longas negociações de tratados".
Nada disso garante que o caminho não será turbulento, mas todos esses fatores
estão entrando fortemente nos cálculos estratégicos e, pelo menos em algumas
áreas, mostram sinais de produzir reflexos de contenção.
Fonte: A
Terra é Redonda/El País

Nenhum comentário:
Postar um comentário