terça-feira, 16 de junho de 2026

Samuel Jorge Moysés: Palantir – infraestrutura como poder

Há uma distinção que raramente aparece nas análises sobre vigilância e influência algorítmica nas pessoas e que me parece decisiva: a diferença entre convencer e gerir. A empresa Cambridge Analytica queria convencer eleitores, alterar preferências e manipular intenções de voto por meio de perfis psicológicos colhidos ilegalmente de 87 milhões de usuários do Facebook. O escândalo de 2018, revelado pelo whistleblower Christopher Wylie, expôs como essas técnicas foram usadas na primeira campanha presidencial de Trump e no referendo do Brexit no Reino Unido, resultando em multas bilionárias e no encerramento das atividades da empresa. A Palantir Technologies, por outro lado, quer gerir infraestrutura. Trata-se de um poder que não aparece em pesquisas eleitorais e não é revertido por resultados de urna, pois busca tornar-se a própria condição de funcionamento dos serviços públicos e estruturas governamentais.

Fundada em 2003 por Peter Thiel e Alex Karp com capital inicial da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), a Palantir consolidou-se fornecendo sistemas para agências de inteligência e defesa – incluindo o Ministério da Defesa britânico, as Forças de Defesa de Israel e as forças armadas da Ucrânia –, participando ativamente da arquitetura de vigilância em massa denunciada por Snowden em 2013. A empresa vale hoje cerca de 400 bilhões de dólares, mais de 80 vezes sua receita anual, dimensão que por si só evidencia a lógica não apenas comercial, mas nodal de sua expansão.O nome remete aos palantíri de Tolkien, as literariamente famosas pedras videntes que permitem ver tudo em qualquer lugar. É uma metáfora deliberada sobre a ambição de onisciência analítica da empresa, capturando e integrando dados brutos de fontes diversas e criando sentido e agregando valor estratégico aos mesmos.

<><> O ecossistema e as pontes institucionais

Para entender o que está em jogo para a soberania brasileira no presente ensaio, é preciso mapear o ecossistema intelectual e político no qual a empresa opera. Michael Shellenberger é a figura mais visível desse circuito no Brasil, atuando como vetor de narrativas que buscam deslegitimar o Judiciário brasileiro, como visto nos episódios dos chamados “arquivos do Twitter”. Contudo, essa influência não se limita à guerra cultural; ela possui âncoras econômicas robustas. Michael Shellenberger ocupa uma cátedra na Universidade de Austin (UATX), instituição fundada como alternativa antagônica ao denominado progressismo acadêmico e que tem entre seus principais apoiadores Peter Thiel, cofundador da Palantir.

No cenário brasileiro, essa rede de influência ganha contornos de articulação econômica estratégica por meio de figuras como o apresentador de televisão Luciano Huck. Reportagens de maio de 2026 apontam Luciano Huck como um interlocutor influente e elo político para os fundos de Peter Thiel no Brasil – atrelamento que, diga-se, não implica parceria contratual direta com a Palantir, mas indica alinhamento funcional com o ecossistema de expansão de Peter Thiel. A conexão mais direta ocorre via Founders Fund, fundo de capital de risco de Peter Thiel, que liderou recentemente um aporte de mais de 100 milhões de dólares na lawtech brasileira Enter, transformando-a em um unicórnio jurídico. A atuação de Luciano Huck se estende ao campo institucional como padrinho do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV). Embora o projeto se proponha ao letramento digital, análises críticas sinalizam que essas iniciativas funcionam como pontes institucionais de fachada educativa, abrindo espaço para que tecnologias derivadas da Palantir e dos fundos de Peter Thiel operem com maior aceitação no ecossistema corporativo e governamental brasileiro. É o que Mauro Oliveira denomina “entusiasmo do colonizado”: uma celebração acrítica de infraestruturas estrangeiras sem questionar quem controla o valor produzido ou quais interesses estratégicos estão em jogo. A metáfora estrutura o argumento com precisão: assim como o Brasil forneceu borracha enquanto Detroit fabricava automóveis, corre o risco de fornecer dados e energia enquanto outros operam as refinarias da inteligência.

<><> Peter Thiel e a filosofia do exit

A lógica da Palantir é informada pela filosofia do exit de Peter Thiel. Em 2009, Peter Thiel afirmou não acreditar mais que liberdade e democracia sejam compatíveis, defendendo que a solução para a liberdade não é o voto, mas escapar das jurisdições democráticas por meio da dissimulação da tecnologia autonomizada, sem fronteiras e regulamentações. A Palantir aplica essa visão tornando-se indispensável à infraestrutura estatal. É precisamente operando dentro do Estado – aquele que sua filosofia rejeita como instância legítima de poder – que ela dilui a distinção entre governança democrática e governança algorítmica na opacidade técnica. A tensão entre a retórica libertária e a dependência de contratos governamentais bilionários não é uma inconsistência acidental: é o modelo de negócio. Esse fenômeno é o que Yanis Varoufakis classifica como “techlordism”. Os senhores da tecnologia fornecem a cobertura ideológica para colonizar instituições públicas e comportamentos individuais, transformando o software no hard power deste século. Como argumentam Karp e Zamiska em seu livro The Technological Republic, os engenheiros de elite teriam a obrigação de participar da defesa nacional, militarizando a inteligência artificial para preservar a hegemonia ocidental. O “manifesto” da Palantir, publicado em abril de 2026 com mais de 30 milhões de visualizações em dois dias, tornou essa agenda explícita: não é especulação analítica, mas autodeclaração estratégica.

<><> O caso NHS e a estratégia land and expand

O exemplo mais contundente desse avanço sobre a esfera estatal, no caso a saúde pública, ocorre no Reino Unido. Em novembro de 2023, o National Health Service (NHS) adjudicou à Palantir um contrato de 330 milhões de libras para operar a Federated Data Platform (FDP). A estratégia utilizada foi descrita como land and expand: a empresa “aterrissou” no sistema em 2020 com um contrato simbólico de apenas uma libra para suporte durante a pandemia, demonstrando uma eficiência inicial que depois serviu para precificar a dependência construída – mecanismo que a London School of Economics analisa como poder infraestrutural. Especialistas alertam para o risco de vigilância em massa através da Federated Data Platform. A plataforma faz a mineração de centenas de bancos de dados para criar o que a empresa chama de Person Ontology – uma fonte única da verdade para perfis individuais de pacientes, já cobrindo 69% dos fundos regionais do NHS. Embora os dados sejam pseudonimizados, o órgão de fiscalização do Reino Unido adverte que esse processo é reversível, permitindo a datificação e seu uso não informado ou consentido.

Em junho de 2026, o Comitê Multipartidário de Ciência, Inovação e Tecnologia do Parlamento britânico instou o governo a acionar a cláusula de rescisão do contrato em 2027, exigindo que o governo revelasse a natureza exata do acesso da Palantir a dados identificáveis de pacientes e o fundamento legal desse acesso. Além disso, o CEO da empresa no Reino Unido já admitiu que, sob certas diretrizes políticas, as ferramentas poderiam ser usadas para visar indivíduos com base em seu status de imigração para fins de deportação. Há exemplos análogos de interdependência do NHS com operadoras privadas, tais como a British United Provident Association (Bupa), que adquiriu a operadora brasileira Care Plus em dezembro de 2016 e atende mais de 38 milhões de pessoas em 190 países. Isso intensifica a preocupação sobre como os dados que transitam entre os setores público e privado serão tratados dentro das plataformas. Não há, até o momento, evidências de que o software da Palantir esteja sendo utilizado nas operações brasileiras da Bupa, mas o padrão de expansão observado no Reino Unido fornece o modelo preditivo relevante.

<><> A infiltração via setor privado no Brasil

No Brasil, as evidências da infiltração da Palantir apontam para uma estratégia indireta via setor privado, evitando inicialmente o escrutínio regulatório de contratos governamentais diretos. A entrada ocorre por meio de parcerias com grandes consultorias globais que implementam as ferramentas de análise de dados Foundry e AIP. Em março de 2026, a Bain & Company anunciou a expansão de sua parceria global com a Palantir incluindo operações em São Paulo, focando em projetos de transformação digital para grandes grupos de saúde. Outra peça-chave é a Cognizant, que opera um hub em São Paulo para toda a América Latina, atendendo as maiores farmacêuticas globais instaladas no Brasil – como Sanofi, Merck e Pfizer – e modernizando sistemas de operadoras de saúde e seguradoras brasileiras. Essas consultorias fornecem a mão de obra especializada para integrar o software da Palantir aos sistemas legados dos hospitais nacionais. O caso de sucesso no setor privado é posteriormente utilizado como argumento técnico (e político) para pressionar por parcerias de eficiência operacional com estados e municípios. Há, nesse ponto, um salto que o argumento deve reconhecer: a trajetória descrita é plausível e documentada em outros contextos, mas ainda não há contratos governamentais brasileiros diretamente vinculados à Palantir que confirmem a etapa final dessa cadeia. Haverá?

O SUS representa um ativo informacional inigualável: são mais de 200 milhões de pessoas com continuidade longitudinal de dados, algo que nenhum sistema privado mundial consegue replicar. Contudo, a soberania desses dados está diretamente ameaçada pelo CLOUD Act dos Estados Unidos. Esta legislação permite que autoridades estadunidenses requisitem dados controlados por empresas sob sua jurisdição, independentemente de onde os servidores estejam fisicamente localizados. O argumento, portanto, não depende de má-fé presumida da Palantir: depende da estrutura jurídica objetiva criada por mecanismos como CLOUD Act. Se a infraestrutura de dados do SUS for gerida por plataformas sob jurisdição americana, a fronteira física brasileira deixa de ser uma garantia jurídica, independentemente das intenções declaradas da empresa contratada. Como a Palantir se declara abertamente um instrumento da supremacia ocidental e da defesa nacional americana em seu “manifesto”, o processamento de dados brasileiros em suas plataformas, dados de Estado e de enorme importância para a soberania digital, adquire dimensão estratégica que supera a análise comercial. O Brasil corre o risco de tornar-se um mero fornecedor de energia, território e dados, enquanto o controle efetivo sobre a informação é capturado por potências estrangeiras.

Em março de 2026, Alex Karp declarou abertamente que sua tecnologia é projetada para “disromper eleitores com formação em humanidades e aumentar o poder econômico de trabalhadores técnicos frequentemente alinhados à direita” (leia aqui). Essa confissão revela que a arquitetura técnica da Palantir não é neutra, mas deliberadamente alinhada a uma estratégia de redistribuição de poder político. A questão fundamental que permanece é a da responsabilidade política. Quando uma empresa privada puder controlar algoritmos que determinam a alocação de leitos ou a prioridade na distribuição de medicamentos em um sistema universal como o SUS, quem pode ser responsabilizado se o sistema falhar? O vazio de accountability é precisamente o que a filosofia do exit busca ocupar. Ou seja, a empresa escapa da responsabilidade democrática enquanto permanece dentro do Estado como condição de seu funcionamento. Como alertou o Papa Leão XIV na encíclica Magnifica humanitas, decisões letais ou irreversíveis não devem ser confiadas a sistemas artificiais, devendo permanecer sob controle humano efetivo. A vigilância sobre parcerias do Ministério da Saúde com grandes empresas de tecnologia de defesa é o que impede, por ora, uma entrada decisiva da Palantir no SUS nos moldes britânicos. No entanto, a soberania precisa ser construída ativamente e com os devidos alertas prévios deflagrados – distinguindo entre quem abriga a infraestrutura e quem controla o valor que ela produz – antes que a dependência infraestrutural esteja permanentemente instalada e a reversão se torne, como no caso NHS, mais custosa que a continuidade.

¨      Um novo equilíbrio do medo está surgindo no mundo. PorAndrea Rizzi

O mundo está testemunhando o surgimento de um novo equilíbrio do medo. A estabilização das relações entre os Estados Unidos e a China, as dificuldades enfrentadas pelo Kremlin e pela Casa Branca em seus ataques contra a Ucrânia e o Irã, e o alerta global em relação às supostas capacidades dos modelos de Inteligência Artificial (IA) mais avançados da humanidade são questões muito diversas, mas compartilham um denominador comum: destacam poderosos mecanismos de dissuasão característicos de nossa época, seja no âmbito da interdependência econômica, dos desenvolvimentos militares ou da revolução tecnológica. A competição entre as duas superpotências demonstrou ao longo do último ano que nenhuma delas consegue subjugar a outra sem se expor a riscos muito sérios. Trump lançou uma ofensiva tarifária. A resposta da China, com restrições à exportação de matérias-primas estratégicas, causou temor generalizado devido ao seu impacto na capacidade produtiva global. Reconhecendo essa realidade, ambas optaram por acalmar os ânimos, como ficou evidente na recente cúpula em Pequim.

As guerras travadas pelos EUA e Israel contra o Irã e a guerra da Rússia contra a Ucrânia demonstram que hoje, mais do que nunca, a superioridade militar de uma potência sobre um adversário não garante, por si só, a conquista de seus objetivos.

Essa constatação, somada ao temor dos danos que Teerã poderia infligir em um ano eleitoral, sem dúvida explica a contenção e a disposição para negociar demonstradas por Trump nas últimas semanas. A IA, por sua vez, também abre possibilidades de dissuasão. Modelos cada vez mais impressionantes não apenas geram apelos por regulamentação, mas também têm efeitos inibidores, seja porque melhoram as capacidades de detecção e atribuição de ataques híbridos, seja porque seu potencial disruptivo induz outros a serem muito cautelosos. É claro que nada disso significa que a turbulência atual vá diminuir repentinamente, nem que outros conflitos não possam se intensificar ou eclodir. Estamos vivenciando uma brutal reconfiguração da ordem mundial, com atores à solta, e a perspectiva está longe de ser tranquila. Mas elementos relevantes estão emergindo, entrando nos cálculos estratégicos e têm o potencial de contribuir, ao menos em alguns aspectos, para conter o conflito.

<><> Interconexão econômica

A cúpula de Pequim entre Xi e Trump foi um exemplo claro desse padrão. Ambos os lados abraçaram o conceito de “nova estabilidade estratégica construtiva”. Essa distensão decorre da compreensão de que, no cenário atual, a interconexão econômica gera riscos imensos. Essa é a principal diferença entre este mundo e a época da Guerra Fria. Marta Peirano, especialista na relação entre tecnologia e poder, exemplifica essa realidade interconectada e altamente sensível na cadeia de produção de IA. Embora o pequeno número de empresas americanas e chinesas que desenvolvem modelos de ponta seja impressionante, o ecossistema que as apoia é, na verdade, muito mais amplo. “A cadeia de produção de IA é incrivelmente complexa”, destaca Peirano. “Ela exige mineração, refino, fabricação, logística, design, e toda essa cadeia está repleta de gargalos, fragilidades e sérias interdependências. Os chips dependem de Taiwan, os elementos de terras raras são controlados pela China, e então tudo se multiplica, porque de tempos em tempos, entre um e três anos, eles precisam renovar tudo.” É evidente que este ponto é particularmente crítico e que a distensão entre as duas superpotências tem um efeito benéfico em todo o planeta. Mas a interconexão e os gargalos estão por toda parte. O bloqueio do Estreito de Ormuz demonstra isso. É claro que as cadeias de suprimentos podem ser reconfiguradas, mas, em alguns casos, a complexidade é tão grande que alcançar isso a curto ou médio prazo não é realmente viável.

<><> A assimetria da guerra

A crise de Ormuz exemplifica outra grande tendência observada este ano. Apesar da superioridade esmagadora das capacidades dos EUA e de Israel, o Irã ofereceu uma resistência eficaz ao ataque sofrido. Seus sucessos decorrem do desenvolvimento habilidoso de táticas de guerra assimétrica. A Ucrânia também está demonstrando uma capacidade defensiva impressionante este ano, apesar da retirada da ajuda dos EUA. “Podemos presumir que muitos países estarão atentos e observando essas tendências com muita atenção. As lições são muito claras. A natureza da guerra está mudando. Se as tendências atuais servem de indicação, as suposições tradicionais de que um certo grau de superioridade permite vencer guerras não são mais válidas”, afirma Harsh V. Pant, vice-presidente do think tank indiano ORF e professor do King’s College London, em uma conversa telefônica realizada no final de maio para a elaboração deste relatório. “A assimetria sempre foi um elemento importante nos conflitos. No entanto, hoje ela está adquirindo um papel ainda mais decisivo, mesmo quando grandes potências estão envolvidas”, continua Pant. “O que está acontecendo é que o desenvolvimento tecnológico deu aos atores mais fracos uma margem de manobra que não tinham antes. Esses atores agora podem usar drones, forças por procuração, ferramentas cibernéticas e guerra da informação para impor custos desproporcionais a adversários que, de uma perspectiva convencional, podem ser muito mais poderosos.

Portanto, as métricas tradicionais de poder militar são cada vez mais insuficientes para entender os resultados estratégicos. Consequentemente, a adaptabilidade está emergindo como talvez o fator mais decisivo para o sucesso”, comenta o especialista. “Como os sistemas de armas estão se tornando mais baratos e, ao mesmo tempo, melhorando em qualidade, estamos testemunhando uma certa democratização dos meios de guerra”, concorda Rafael Loss, especialista em segurança e defesa do think tank ECFR, também consultado por telefone no final de maio. “Se esses meios de combate não estiverem vinculados a uma estratégia específica, o simples fato de alcançar grandes sucessos táticos não garante que os objetivos políticos serão atingidos”, alerta Loss. Não se pode presumir que a resistência efetiva da Ucrânia e do Irã se traduzirá em sucessos políticos. Mas há poucas dúvidas de que as dificuldades enfrentadas pela Rússia e pelos EUA estão provocando reflexão em governos e quartéis-generais militares em todo o mundo.

<><> Dissuasão tecnológica

O rápido desenvolvimento da IA ​​está causando enorme turbulência seja nos mercados de trabalho ou no desenvolvimento das habilidades cognitivas o que tem atraído muita atenção. Mas, em paralelo, também traz consigo fatores de dissuasão com potencial estabilizador. Uma delas, por exemplo, diz respeito à maior capacidade de detectar e atribuir ataques digitais híbridos. “Uma das características da guerra híbrida é que o agressor tinha uma boa chance de se esconder, de negar a responsabilidade. Agora, essa ideia está gradualmente desaparecendo, porque a inteligência artificial permite atribuir a autoria ao agressor”, afirma Raquel Jorge Ricart, pesquisadora não residente do Instituto Real Elcano e especialista em políticas tecnológicas. O especialista destaca que as capacidades de detecção e atribuição se aplicam não apenas ao mundo digital, mas também ao mundo físico. A combinação de IA, tecnologia de satélite, sensores e poder computacional oferece um grande potencial, por exemplo, na detecção de atos violentos em zonas de conflito. Jorge Ricart menciona o programa Sentinel no Sudão do Sul, que, por meio da observação por satélite, pode fornecer informações cruciais para a prevenção de atrocidades. Mas, além da detecção e da atribuição, a IA possui um potencial dissuasor ligado a toda a sua gama de capacidades. Alex C. Karp, CEO da Palantir, argumenta que “a era da dissuasão atômica está chegando ao fim, e uma nova era de dissuasão baseada em IA está começando”.

Marta Peirano levanta imediatamente preocupações sobre o caráter interesseiro desse tipo de declaração. Isso não invalida o fato de que a tecnologia possui, de fato, capacidades dissuasivas. A especialista destaca que, nesse setor, mesmo um potencial não comprovado pode influenciar o comportamento. “A IA tem um enorme poder de projeção. Há receios de que modelos sejam capazes de se infiltrar em todos os lugares, encontrar vulnerabilidades e atacar redes-chave. Isso facilita a criação de um efeito dissuasor imaginário por parte da IA, mesmo sem comprovar totalmente as capacidades que aterrorizam na especulação.” A corrida para adquirir essas capacidades de forma dominante é, em si, uma realidade com um potencial efeito dissuasor. Isso foi apontado por Eric Schmidt — ex-chefe do Google —, Alexandr Wang — chefe de IA da Meta — e Dan Hendrycks — consultor da xAI — em um breve ensaio publicado no ano passado. Nesse documento, eles argumentam que uma vantagem significativa em IA representa uma ameaça muito séria à segurança nacional dos adversários. Portanto, em vez de correrem o risco de ter essa vantagem usada contra eles, os adversários agirão para desmantelar projetos ameaçadores. A relativa facilidade de espionagem cibernética e sabotagem gera consequências calculadas. Essa dinâmica, que eles definem como Disfunção Mútua Assegurada da IA ​​ fazendo alusão ao conceito de Destruição Mútua Assegurada "estabiliza o cenário estratégico sem a necessidade de longas negociações de tratados". Nada disso garante que o caminho não será turbulento, mas todos esses fatores estão entrando fortemente nos cálculos estratégicos e, pelo menos em algumas áreas, mostram sinais de produzir reflexos de contenção.

 

Fonte: A Terra é Redonda/El País

 

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