Maria
Luiza Falcão: A questão da desdolarização
Durante
boa parte do século XX e do início do século XXI, o dólar ocupou uma posição
que nenhuma outra moeda havia alcançado na história moderna. Para compreender
por que as discussões atuais sobre desdolarização despertam tanto interesse, é
preciso voltar algumas décadas no tempo.
Ao
final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como a principal
potência econômica, financeira e militar do planeta. Enquanto a Europa
encontrava-se devastada pelos combates e o Japão iniciava um longo processo de
reconstrução, a economia americana respondia por parcela expressiva da produção
industrial mundial e concentrava a maior parte das reservas internacionais de
ouro.
Foi
nesse contexto que, em 1944, representantes de quarenta e quatro países
reuniram-se na pequena cidade de Bretton Woods para desenhar a arquitetura
econômica do pós-guerra. O acordo estabeleceu um sistema em que as principais
moedas seriam vinculadas ao dólar, enquanto o próprio dólar seria conversível
em ouro a uma taxa fixa.
Na
prática, o mundo passou a funcionar em torno da moeda americana.
Mesmo
quando o presidente Richard Nixon encerrou unilateralmente a conversibilidade
do dólar em ouro, em 1971, a posição privilegiada da moeda não desapareceu.
Poucos anos depois, Washington consolidou acordos com grandes produtores de
petróleo, especialmente a Arábia Saudita, fazendo com que a principal commodity
do planeta passasse a ser negociada predominantemente em dólares.
Nascia,
assim, o chamado sistema dos petrodólares.
O
mecanismo era simples e extremamente eficiente. Países que precisavam importar
petróleo necessitavam antes obter dólares. Os exportadores acumulavam enormes
reservas na moeda americana e frequentemente reinvestiam esses recursos em
títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O resultado foi uma demanda permanente
por dólares em praticamente todos os continentes.
Ao
longo das décadas seguintes, essa centralidade foi reforçada por outros
fatores. As maiores bolsas de valores estavam nos Estados Unidos. Os mercados
financeiros mais profundos e líquidos encontravam-se em Nova York. O comércio
internacional era amplamente faturado em dólares. Os bancos centrais acumulavam
reservas denominadas na moeda americana. E, sempre que surgia uma crise global,
investidores corriam para comprar títulos do Tesouro americano, considerados os
ativos mais seguros do mundo.
O dólar
transformou-se em algo muito maior do que uma moeda nacional. Tornou-se a
espinha dorsal do sistema financeiro internacional.
Essa
posição conferiu aos Estados Unidos um privilégio extraordinário. O governo
americano passou a financiar déficits externos sem enfrentar as restrições
normalmente impostas a outros países. Empresas americanas tiveram acesso
privilegiado ao crédito internacional. E Washington adquiriu um poderoso
instrumento geopolítico: a capacidade de utilizar o próprio sistema financeiro
como mecanismo de pressão econômica e diplomática.
Durante
décadas, parecia impossível imaginar uma alternativa.
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As fissuras de uma ordem aparentemente eterna
A
história, entretanto, raramente permanece imóvel.
Nas
últimas duas décadas, transformações profundas começaram a alterar gradualmente
os fundamentos dessa ordem monetária construída após a Segunda Guerra Mundial.
O
primeiro fator foi econômico. A participação relativa dos Estados Unidos na
produção mundial diminuiu. Não porque a economia americana tenha deixado de ser
poderosa, mas porque outras economias cresceram mais rapidamente.
A China
é o exemplo mais evidente. Em poucas décadas, o país passou de economia
periférica a principal potência industrial do planeta. Hoje, é o maior parceiro
comercial de mais de uma centena de países, lidera setores estratégicos da
transição energética, tornou-se protagonista em tecnologias emergentes e
ampliou sua influência financeira e diplomática.
O
segundo fator foi geopolítico. A crescente utilização das sanções econômicas
como instrumento de política externa produziu consequências inesperadas.
Congelamentos de ativos, restrições bancárias e exclusões de sistemas de
pagamento internacionais passaram a ser observados por muitos governos como um
alerta.
A
pergunta começou a surgir em diversas capitais: se isso aconteceu com a Rússia
hoje, poderia acontecer conosco amanhã? Pouco a pouco, países passaram a buscar
mecanismos alternativos de pagamento, financiamento e compensação financeira.
O
objetivo inicial não era necessariamente substituir o dólar. Era reduzir
vulnerabilidades.
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O concorrente que nunca chegou a substituir o dólar
Antes
mesmo de a ascensão da China alimentar discussões sobre desdolarização, muitos
acreditavam que o principal desafio à supremacia monetária americana viria da
Europa.
A
criação do euro, em 1999, representou um dos projetos monetários mais
ambiciosos da história contemporânea. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra
Mundial, surgia uma moeda apoiada por um bloco econômico capaz de rivalizar com
os Estados Unidos em termos de produção, comércio e capacidade tecnológica.
Durante
alguns anos, parecia possível imaginar um sistema monetário bipolar, dividido
entre dólar e euro.
A
realidade mostrou-se mais complexa.
A crise
financeira global de 2008 e, posteriormente, a crise das dívidas soberanas
europeias revelaram limitações estruturais da união monetária. Embora
compartilhassem uma moeda comum, os países da zona do euro continuavam
possuindo políticas fiscais distintas e emitindo títulos públicos separados.
Faltava à Europa um equivalente ao mercado de Treasuries americanos,
considerado o ativo seguro por excelência da economia mundial.
O
resultado foi paradoxal. O euro consolidou-se como a segunda moeda mais
importante do planeta, mas não conseguiu substituir o dólar como principal
reserva internacional, principal moeda financeira ou principal instrumento de
liquidez em momentos de crise.
Ainda
assim, sua relevância permanece enorme. Em uma eventual ordem monetária
multipolar, o euro provavelmente continuará desempenhando papel central ao lado
do dólar e do yuan, especialmente nas relações econômicas entre Europa, África
e parte do Mediterrâneo.
A
incapacidade do euro de substituir o dólar não significou o fim da busca por
alternativas. Pelo contrário. Enquanto a Europa enfrentava dificuldades para
aprofundar sua união monetária, a China consolidava sua posição como principal
potência comercial do planeta. A partir daquele momento, a questão deixou de
ser se haveria um concorrente para o dólar e passou a ser quantos concorrentes
poderiam emergir simultaneamente.
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A guerra na Ucrânia e o efeito bumerangue das sanções
A
guerra na Ucrânia acelerou dramaticamente esse processo.
Quando
os Estados Unidos e seus aliados adotaram um conjunto sem precedentes de
sanções financeiras contra a Rússia, muitos analistas acreditaram que Moscou
enfrentaria um colapso econômico prolongado.
As
dificuldades foram reais. No entanto, o resultado mostrou-se mais complexo.
A
Rússia ampliou significativamente o uso do yuan em suas transações
internacionais. Intensificou relações comerciais com China, Índia e outros
países do Sul Global. Desenvolveu mecanismos alternativos de pagamento e passou
a vender parcela crescente de suas exportações energéticas fora do circuito
tradicional dominado pelo dólar.
Não se
trata de afirmar que a Rússia derrotou o sistema financeiro ocidental. Isso
seria um exagero. Mas é impossível ignorar que as sanções produziram um efeito
colateral importante: aceleraram a construção de alternativas.
Aquilo
que talvez levasse vinte anos passou a ocorrer em poucos.
A
própria China percebeu a oportunidade. Pequim intensificou os esforços para
internacionalizar o yuan, expandiu acordos de swap cambial, fortaleceu seu
sistema internacional de pagamentos e passou a incentivar a utilização de sua
moeda em transações comerciais bilaterais.
Ao
mesmo tempo, os BRICS ampliaram o debate sobre mecanismos financeiros próprios.
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A ascensão silenciosa dos pagamentos alternativos
Talvez
a transformação mais interessante esteja ocorrendo longe dos grandes discursos
diplomáticos. Ela acontece no cotidiano.
Sistemas
de pagamento instantâneo conectando países asiáticos, experiências de
integração financeira regional, moedas digitais emitidas por bancos centrais e
novas plataformas de compensação estão criando uma infraestrutura paralela ao
sistema tradicional.
Essas
iniciativas podem parecer pequenas quando observadas isoladamente. Mas possuem
enorme potencial cumulativo.
Ao
longo da história econômica, mudanças estruturais raramente ocorrem de forma
abrupta. Elas começam em nichos específicos, expandem-se gradualmente e, em
determinado momento, tornam-se suficientemente amplas para alterar o
funcionamento do sistema.
Foi
assim com a libra esterlina no século XIX.
Foi
assim com o dólar no século XX.
Pode
ser assim com a nova arquitetura financeira multipolar do século XXI.
O mais
importante é perceber que a desdolarização não depende necessariamente de uma
decisão política única. Ela pode ocorrer por meio de milhares de decisões
descentralizadas tomadas diariamente por empresas, bancos, governos e
consumidores.
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Por que o dólar continua forte
Apesar
dessas mudanças, seria um erro concluir que o dólar está prestes a perder sua
posição dominante.
Os
fundamentos de sua força persistem. Os Estados Unidos ainda possuem o mercado
financeiro mais profundo e líquido do planeta. Os títulos do Tesouro americano
continuam sendo considerados os ativos mais seguros da economia mundial. A
capacidade de absorver capitais em momentos de crise permanece sem equivalente.
Existe
ainda um fator frequentemente ignorado. As moedas internacionais dependem de
confiança. Investidores não compram apenas ativos. Compram instituições,
regras, previsibilidade e liquidez.
Por
mais que existam críticas à política externa americana, os mercados continuam
enxergando os Estados Unidos como um porto relativamente seguro.
Além
disso, a própria China enfrenta desafios. Pequim deseja ampliar o papel
internacional do yuan, mas sem renunciar ao controle sobre os fluxos de
capitais e sobre seu sistema financeiro doméstico. Essa combinação produz
limitações objetivas.
Uma
moeda verdadeiramente global exige um grau de abertura financeira que as
autoridades chinesas ainda observam com cautela. Por isso, o yuan cresce, mas
não substitui automaticamente o dólar.
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O mundo pós-hegemônico
Talvez
o maior equívoco dos debates atuais seja imaginar que o futuro obrigatoriamente
reproduzirá o passado.
Durante
décadas, acostumamo-nos à ideia de que o sistema internacional precisava de uma
única moeda dominante.
Mas
talvez a realidade do século XXI seja diferente.
Talvez
estejamos caminhando para uma ordem monetária plural.
Nesse
cenário, o dólar continuará sendo a principal moeda global. O euro manterá
relevância regional. O yuan ganhará espaço crescente na Ásia, na África e em
parte da América Latina. Moedas nacionais poderão ser utilizadas em acordos
bilaterais. Sistemas digitais reduzirão custos de transação e ampliarão opções
de pagamento.
A
questão central não é quem substituirá o dólar. A questão central é que o dólar
já não possui o monopólio das alternativas. E isso altera profundamente a
distribuição de poder na economia mundial.
Os
países do BRICS, por exemplo, não precisam criar uma moeda única para reduzir a
dependência do dólar. Basta ampliar mecanismos de comércio em moedas locais,
expandir sistemas próprios de pagamento e fortalecer instituições financeiras
alternativas.
O
resultado pode ser menos espetacular do que imaginam os entusiastas da
desdolarização, mas potencialmente mais duradouro.
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O fim da solidão do dólar
Estamos
diante de uma transformação histórica.
Não da
queda do dólar. Não do triunfo inevitável do yuan. Nem do colapso do sistema
financeiro internacional construído após Bretton Woods.
O que
observamos é algo mais sutil e talvez mais importante.
Pela
primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a hegemonia monetária
americana encontra concorrentes relevantes. Não suficientemente fortes para
derrubá-la, mas suficientemente robustos para limitar seu alcance.
O dólar
continuará reinando por muitos anos.
Mas já
não governa sozinho.
E
talvez essa seja uma das características mais marcantes da ordem internacional
que emerge diante de nossos olhos: um mundo cada vez mais multipolar na
geopolítica, na economia, na tecnologia e, gradualmente, também nas finanças
internacionais.
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E o Brasil?
O
Brasil participa da tendência de diversificação monetária observada entre os
BRICS, especialmente por meio da ampliação das relações financeiras com a China
e do uso crescente de mecanismos de liquidação em moedas locais. Contudo,
diferentemente da Rússia ou mesmo da China, o país não possui estratégia
explícita de redução acelerada da dependência do dólar. A postura brasileira
tem sido pragmática: ampliar opções sem abandonar a moeda que continua sendo o
principal eixo das finanças internacionais.
Fonte:
Brasil 247

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