terça-feira, 16 de junho de 2026

Por que ditaduras dependem de pessoas com "baixo desempenho"

Pesquisadores explicam como "perdedores" e "desqualificados" se tornam úteis para autocratas e seus planos de extermínio. Fenômeno foi visto durante o governo de Jair Bolsonaro, apontam...

Não há remorso nos olhos de Waldemar Klingelhöfer.

Uma foto tirada no julgamento dos membros das unidades móveis de extermínio nazistas (Einsatzgruppen) mostra o major da SS (Schutzstaffel, organização paramilitar) olhando calmamente para a câmera. Sua camisa xadrez está abotoada até o pescoço; as sobrancelhas estão franzidas, mas o rosto não revela emoção.

A imagem foi registrada entre 1947 e 1948, pouco antes de Klingelhöfer ser condenado à morte por crimes contra a humanidade e por integrar uma organização criminosa. O processo fez parte dos julgamentos de Nurembergue, que condenaram líderes nazistas por crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial.

<><> De cantor de ópera a assassino nazista

Antes de integrar a máquina de extermínio de Hitler, Klingelhöfer era cantor de ópera. Em 1935, deixou o Teatro Estatal de Kassel, no centro da Alemanha, para assumir o departamento cultural do SD, o serviço de inteligência nazista liderado diretamente por Reinhard Heydrich e, indiretamente, por Heinrich Himmler – apontados como arquitetos do Holocausto. Uma de suas funções era analisar a eficácia da propaganda do regime.

Fluente em russo, Klingelhöfer migrou em 1941 para o Einsatzgruppe B, inicialmente como tradutor, segundo seu próprio depoimento. Esses grupos foram responsáveis pelo extermínio da população judaica no Leste Europeu e de outras populações consideradas inimigas.

Ali, ele foi promovido ao cargo de líder de unidade de assalto — um dos mais altos — no Vorkommando Moscow, um destacamento do Einsatzgruppe B. Nesse posto, ele ordenou e participou pessoalmente de inúmeras execuções de civis.

O que leva um cantor de ópera a abandonar o palco — e depois um emprego burocrático cômodo — para matar a mando de Hitler?

<><> "Homens comuns" e carreiras moldadas pela lealdade

Para Christian Gläßel, cientista político do Centro de Segurança Internacional da Hertie School, em Berlim, e coautor do livro Making a Career in Dictatorship ("Fazendo Carreira em uma Ditadura", em tradução livre), a resposta é direta: "O desejo de ascender na carreira".

Por muito tempo, pesquisadores consideraram que a ideologia era o principal motor daqueles dispostos a cometer crimes pelo regime. No livro Os Carrascos Voluntários de Hitler: O Povo Alemão e o Holocausto, publicado na Alemanha em 1996, Daniel Goldhagen defendeu que o antissemitismo explicava a transformação desses homens em assassinos.

Décadas antes, a filósofa política alemã Hannah Arendt chegou a outra conclusão ao analisar o criminoso nazista Adolf Eichmann: "Não acho que ele fosse especialmente ávido por poder. Era um burocrata típico. Não creio que a ideologia tenha desempenhado papel tão grande", afirmou, em 1964.

<><> Desempenho ruim por trás da motivação

Gläßel e seu coautor, Adam Scharpf, encontraram na Argentina evidências empíricas para as suas suspeitas. 

Ao analisar dados de milhares de oficiais do Exército argentino desde 1870, eles identificaram um padrão: quanto pior o desempenho de um oficial, maior o risco de exclusão — e maior a probabilidade de ingresso na polícia secreta.

Durante a ditadura militar argentina, esses quadros eram formados por oficiais com baixo desempenho. Ao torturar e matar em nome do regime, eles conseguiam provar lealdade e impulsionar a própria carreira.

"Eles são frequentemente pessoas rejeitadas por um sistema ou que não conseguem mais avançar", explica Gläßel. "Nesse ponto, recorrem a medidas extremas para demonstrar lealdade."

<><> Pressão profissional se sobrepõe à ideologia?

O interesse dos pesquisadores surgiu de um comentário solto por acaso: durante uma visita à Argentina, alguém disse a Scharpf que a polícia secreta durante a ditatura militar era formada por "idiotas".

A princípio, Scharpf interpretou a frase como puro insulto. Só que quanto mais discutia o assunto com Christian Gläßel, mais desconfiados ficavam de que deveriam considerar a hipótese de forma literal.

"É um enigma: por que um ditador dependeria de idiotas para sua polícia secreta?", questiona Gläßel.

Os dados mostraram que o Exército argentino operava com base meritocrática: bons desempenhos eram recompensados; maus resultados levavam à exclusão.

"Em outras palavras, aqueles que têm um bom desempenho sobem na hierarquia; aqueles que não têm, acabam sendo expulsos", explica Gläßel.

Para os funcionários com baixo desempenho, a polícia secreta funcionava como um atalho para subir na carreira. Aqueles com antecedentes ruins podiam salvar suas carreiras por meio desse desvio.

Após passar alguns anos nesse sistema, esses indivíduos conseguiam voltar ao Exército com melhores cargos e salários, em outras áreas das Forças Armadas. Então, quanto maior a pressão que enfrentavam, maior a probabilidade de torturarem e matarem para salvar suas carreiras

<><> Meritocracia como fator de risco

Para Gläßel, esse é um efeito colateral de sistemas que produzem vencedores e perdedores. "Os perdedores se tornam um recurso que pode ser explorado por autocratas."

Gläßel acredita que a meritocracia nao é uma proteção nem contra a erosão das instituições democráticas nem contra o autoritarismo. Pelo contrário, a pesquisa dele e de Scharpf sugere que sistemas baseados em desempenho podem levar pessoas comuns a cometer crimes extremos.

"O perverso é que o desempenho motiva — quem fica para trás tende a ir mais longe para compensar."

<><> Perfil de novato

Os pesquisadores analisaram também casos da Alemanha nazista, Gâmbia e União Soviética. Entre eles, o de Klingelhöfer.

Não existe uma base de dados abrangente sobre a Alemanha nazista comparável aos registros argentinos. Mas algumas biografias permitiram a Gläßel e Scharpf conhecer mais sobre os "homens comuns" da Alemanha nazista.

A maioria tinha pouca ou nenhuma experiência em trabalho policial e, portanto, sentia uma necessidade maior de provar seu valor, argumentam os pesquisadores. Segundo eles, líderes nazistas como Reinhard Heydrich e Heinrich Himmler exploraram deliberadamente essa dinâmica.

Entre os comandantes nazistas havia advogados, professores, historiadores da arte, dentistas e até um pastor: Ernst Biberstein.

Biberstein foi um dos primeiros pastores protestantes a se filiar ao Partido Nazista. Ele galgou posições até chegar ao Ministério de Assuntos Eclesiásticos dos Nazistas, enquanto simultaneamente espionava para o SD.

Mas o ministério acabou insatisfeito com seu trabalho, de modo que ele fez carreira no SD e na SS. Em 1942, tornou-se comandante do Einsatzkommando 6, subordinado ao Einsatzgruppe C, em Kiev, na Ucrânia, onde ordenou o assassinato de milhares de pessoas inocentes.. 

<><> Promoção nunca garantida

A pressão por desempenho também existia dentro da SS e do SD. Há relatos de que Heydrich e Himmler promoveram deliberadamente um clima de competição

Himmler, por exemplo, defendia a necessidade de "realizar um processo de seleção rigoroso e reduzir o efetivo para que os remanescentes trabalhassem ainda mais arduamente, pois sabiam que sua promoção não estava de forma alguma garantida".

Heydrich descrevia o serviço nos Einsatzgruppen como "uma oportunidade de se provar e conquistar distinção".

Ainda assim, ignorar o papel da ideologia seria simplista. As unidades eram fortemente doutrinadas, e seus líderes, escolhidos pessoalmente.

O próprio Klingelhöfer tinha histórico antissemita antes de integrar o regime. Ele havia se juntado à associação antissemita "Jovem Ordem Alemã" em 1920 e publicado um livro sobre a "influência de judeus e maçons nos acontecimentos políticos na Rússia" antes de sua passagem pelo SD.

<><> Lições para o presente

Gläßel vê seu trabalho como um alerta: mesmo democracias produzem desigualdades que podem gerar indivíduos dispostos a tudo para ascender, inclusive cometer crimes.

Nas democracias contemporâneas, não faltam exemplos de novatos a serviço de um projeto de destruição. Os autores lembram do caso do ex-policial Marcelo Xavier da Silva, nomeado presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) pelo governo de Jair Bolsonaro, mesmo sendo um opositor declarado dos direitos indígenas.

Outro exemplo que ilustra bem esse fenômeno, segundo os pesquisadores, é o do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que anteriormente trabalhava como apresentador da Fox News.

"Quem não aprende com a história acaba sendo alcançado por ela", afirma Gläßel.

Mas esse não parece ter sido o caso do nazista Klingelhöfer. Condenado à morte em Nurembergue, em 1948, ele teve a pena comutada para prisão perpétua em 1951 e ganhou liberdade condicional em 1956. Depois, trabalhou como funcionário administrativo na cidade de Villingen, no sudoeste da Alemanha, onde morreu aos 76 anos.

¨      Guarda Revolucionária põe Irã rumo à ditadura militar

Estaria o Irã à beira de uma transição para uma ditadura militar? Após a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em fevereiro, muitos analistas veem sinais de que o poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) teria assumido o poder e o controle em Teerã.

O cientista político e pesquisador da paz Damon Golriz, da Universidade de Ciências Aplicadas de Haia, na Holanda, resume a questão de maneira sucinta. "Sob a fachada clerical, o centro do poder se deslocou para os quartéis. [O filho de Khamenei, o aiatolá] Mojtaba Khamenei fornece a cobertura ideológica, enquanto a Guarda Revolucionária assume o trabalho real de governar."

Mojtaba Khamenei se tornou o líder supremo do Irã após a morte de seu pai em um ataque aéreo conjunto realizado pelos Estados Unidos e Israel, no início da guerra.

Desde então, cargos de alto escalão em ministérios, empresas estatais e instituições de propaganda vêm sendo sistematicamente preenchidos por comandantes da Guarda Revolucionária. O próprio Mojtaba Khamenei serviu no Batalhão Habib da IRGC durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Essa rede composta pela linha-dura do regime forma atualmente o núcleo da liderança da IRGC e coordena as atividades de inteligência.

<><> Paramilitares por trás das decisões

"Durante a repressão aos protestos de 2009, Mojtaba Khamenei assumiu o comando direto da milícia voluntária Basij, que luta em nome da Guarda Revolucionária, e transferiu as reuniões de segurança para a 'Casa do Líder'", explica Damon Golriz.

A Casa do Líder é um complexo de alta segurança no centro de Teerã onde o líder supremo trabalha com seu gabinete paralelo religioso. Ali Khamenei foi morto no bunker subterrâneo do complexo durante os ataques dos EUA e de Israel.

"Embora o poder executivo oficial resida no presidente, ele pode apenas executar as decisões do líder supremo, e não toma nenhuma decisão por conta própria. O poder real agora está nas mãos de Mojtaba Khamenei e de uma rede de militares linha-dura", afirma o especialista.

No entanto, ainda vigora no Irã a doutrina islâmica oficial Velayat-e Faghih – que significa "regência do jurista islâmico" – e o clero como seu representante. A doutrina foi formulada pela primeira vez pelo líder histórico do país, o aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1970.

Um aiatolá é um clérigo xiita e jurista islâmico. O novo líder supremo foi eleito em março de 2026, embora não seja de fato um aiatolá. Seu título religioso é Hojatoleslam, um grau abaixo dos aiatolás. O homem de 56 anos nunca proferiu um sermão público. Tampouco participou de uma eleição ou ocupou um alto cargo religioso.

Especialistas suspeitam que sua eleição como líder espiritual possa ter ocorrido devido à forte pressão da Guarda Revolucionária. "A nomeação de Mojtaba Khamenei consolida a realidade de que o cálculo político e o equilíbrio de poder se tornaram o fator decisivo, e não mais a legitimidade religiosa", observou Damon Golriz. "Ele é um líder no papel, mas, na realidade, uma figura puramente decorativa."

<><> Tomada gradual de poder

Após a Guerra Irã-Iraque, a Guarda Revolucionária, fundada poucos anos antes como uma milícia ideológica, se tornou cada vez mais presente na vida econômica do país. Os esforços de reconstrução resultaram em grandes contratos para empresas intimamente ligadas ao grupo paramilitar. Isso deu à Guarda acesso à infraestrutura e aos recursos naturais, que ela transformou em riqueza e controle.

Esses lucrativos negócios paralelos da unidade militar, com seus aproximadamente 190 mil soldados ativos, foram posteriormente legalizados por uma emenda constitucional de 2004.

A Guarda Revolucionária foi então autorizada a assumir o controle de grandes porções de ativos estratégicos. Segundo estimativas, ela controla atualmente cerca de 50% da produção de petróleo do Irã. Dessa forma, esse Exército estruturado conseguiu criar um Estado paralelo autossuficiente.

O analista Faraj Sarkouhi afirma que, desde o início da guerra com o Iraque, a Guarda Revolucionária assumiu um "modelo híbrido de transição": a estrutura tradicional do Estado teocrático permanece como fachada, enquanto a Guarda Revolucionária controla os bastidores.

<><> Sem apoio popular

O povo iraniano, no entanto, está insatisfeito com o sistema. A população jovem, com idade média de 34,5 anos, foi praticamente forçada viver sob o regime Velayat-e Faghih desde a década de 1970. Os conflitos com o Ocidente e a guerra atual alimentam o descontentamento.

Com a economia estagnada, economistas preveem uma contração de 8,8% a 10% do PIB em 2026. A taxa de inflação em algumas partes do país ultrapassa os 80%. Estima-se que entre 22% e 50% dos iranianos já vivam abaixo da linha da pobreza.

"A maioria da população já se distanciou da ideologia dominante em sua vida privada", resumiu Faraj Sarkouhi. "O regime perdeu sua legitimidade política e ideológica há anos."

Segundo Golriz, cerca de 80% dos iranianos sentem profunda aversão ao sistema. A liderança religiosa reprimiu com violência armada as opiniões dissidentes da geração mais jovem, como, por exemplo, a ideia de que as mulheres não precisariam mais usar o véu islâmico em público.

Em 2022, jovem curda Mahsa Amini, de 23 anos, foi presa pela chamada polícia da moralidade por supostamente não usar o véu corretamente. Sua morte sob custódia policial, em decorrência da violência com que foi tratada, desencadeou uma onda de protestos que durou meses em todo o país.

As próprias instituições estatais já preveem novos protestos, à medida que o descontentamento continua a crescer. Ambos os analistas concordam que o país, em sua nova forma militar-religiosa, não é mais governável. Mas nenhum deles se atreve a prever como o país no Golfo Pérsico e seus 93 milhões de habitantes poderão encontrar o caminho para uma paz duradoura.

 

Fonte: DW Brasil

 

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