Formas
da atenção
Nos
últimos anos, o conceito de atenção tem conquistado considerável – muita, muita
– atenção. Dizem-nos que ela se tornou uma mercadoria dentro da “economia da
atenção”, um recurso limitado pelo qual lutam anunciantes, redes sociais,
serviços de streaming e similares. Embora tudo isso tenha se tornado cada vez
mais proeminente na era da internet e dos smartphones, o fato pode ser
rastreado até um passado mais longínquo.
Desde a
década de 1960 especialmente, a hipertrofia no uso das telas e das imagens, no
contexto de um mercado em constante expansão, tem corroído, ou pelo menos
transformado, nossa vida coletiva – relações familiares e comunitárias, o
ambiente natural e construído, a produção e recepção cultural. Hoje enfrentamos
um salto adicional nesse processo por meio da Inteligência artificial. Segundo
um artigo recente de Ross Douthat, no New York Times, tudo isso anuncia “uma
era de extinção”.
“A era
digital”, escreve Ross Douthat, “oferece substitutos virtuais de coisas
corpóreas; move, assim, mundos inteiros de interação e engajamento humano para
a tela do computador”. Já nos absorvemos em romances e em grandes dramas; hoje
temos a Netflix. Já conversamos cara a cara; hoje mandamos mensagem pelo
telefone celular. Tivemos no passado universidades dominadas pelas artes
liberais; hoje dispomos de salas de aula “inteligentes”.
Talvez
o mais revelador esteja no âmbito da sexualidade; eis que ela já foi algo bem
próximo ao sagrado na vida secular; hoje temos pornografia e aplicativos de
namoro. Em todos os casos, substituímos algo mais difícil e mais satisfatório
por algo mais excitante, acessível e muitas vezes estupediante. Assim como nas
mudanças climáticas, às vezes parece que já passamos do ponto sem volta. Na
busca por novas e cada vez mais empolgantes formas de distração, podemos estar
destruindo as bases para uma vida significativa.
Para
compreender essa imensa explosão cultural, precisamos olhar mais de perto para
o que vem a ser a atenção. Uma definição clássica foi fornecida por William
James em seus Princípios de psicologia (1890): “É a posse pela mente, em forma
clara e vívida, de um entre vários objetos ou linhas de pensamento
simultaneamente possíveis. Focalização, concentração da consciência são sua
essência. Implica um afastamento de algumas coisas para lidar efetivamente com
outras. Trata-se de uma condição que tem um verdadeiro oposto no estado
confuso, atordoado e distraído que em francês é chamado de distração, e
Zerstreutheit em alemão”.
A
definição de William James é brilhante, mas não se afigura adequada para
compreender a nossa situação contemporânea, pois agora o foco da atenção tem se
tornado largamente quantitativo e utilitário. Como alternativa, podemos
recorrer ao pensamento de Walter Benjamin. Ao contrário de William James,
Walter Benjamin não teorizou sobre a atenção em geral; ele a apreendeu por meio
de uma abordagem histórica; assumiu, assim, que a capacidade psicológica da
atenção, assim como os estímulos à ela, mudam à medida que muda a tecnologia e
que surgem novas’ forças produtivas. Ele refletiu sobre a atenção no interior
de uma visão de esquerda e como parte de uma teoria do capitalismo.
Walter
Benjamin começou a se interessar pela atenção ainda jovem, por meio de sua
leitura de Blaise Pascal, que argumentava que os males que afetavam o mundo
moderno podiam ser atribuídos à incapacidade dos homens e das mulheres de se
manterem sozinhos, calmos, em seus aposentos. A causa de sua inquietação, de
sua necessidade de entretenimento (divertissement ou distração), vinha do fato
de que eles não se sentiam confortáveis consigo mesmos, não se sentiam em casa
em sua morada natural. Pascal tinha um remédio para isso: o cristianismo, ou
melhor, o jansenismo, uma versão puritana do catolicismo. Desde a época de
Pascal, porém, a necessidade de divertimento, longe de ser resolvida, tornou-se
a força motriz por trás da moda, do entretenimento, das redes sociais e do
consumismo – mantendo, aliás fácil coexistência com o cristianismo.
A
origem do drama trágico alemão (1928), o primeiro livro de Walter Benjamin,
baseou-se profundamente em Pascal. Walter Benjamin afirmava que a ordem
comunitária medieval apresentava o sofrimento e a transitoriedade como estações
no caminho da salvação, enquanto o Trauerspiel ocupava-se totalmente com a
desesperança da condição terrena. As peças eram formas de divertissement:
melodramas logo esquecíveis, marcados por certa bombástica, truques teatrais,
assim como por fogos de artifício retóricos grosseiros. Benjamin, no entanto,
as interpretou não como meras distrações, mas como mensagens alegóricas
deixadas por um tempo de catástrofe.
O que
se encontra aí, entretanto, antecede a compreensão da atenção encontrada em A
obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1935), assim como de seus
diversos ensaios sobre contadores de histórias, Franz Kafka, dadaísmo,
fotografia, surrealismo e haxixe. Nesses escritos, Walter Benjamin distingue
três formas de atenção, que podem ser chamadas de atenção absortiva, atenção
hipnótica e atenção flutuante.
A
atenção absortiva baseia-se no conceito de “aura” ou emanação, definida como “a
aparência singular ou aparência distante”. Familiar para qualquer um que tenha
estudado artes visuais, tal ideia se baseia em dois parâmetros que estão no
centro da pintura: distância e luz. O que, aliás, tem raízes antigas. Benjamin
chamou a aura de “fonte da poesia”, “um elemento arcaico em nosso presente, um
vestígio esquecido do nosso vínculo material com a natureza não humana”.
O
pré-requisito para a aura é algo concreto, único e localizado em um ponto
específico do espaço e do tempo. Benjamin usa o termo em relação a ídolos,
relíquias, catedrais e obras de arte. A autenticidade de um objeto único,
escreveu ele, “é a essência de tudo o que é transmissível desde seu início,
desde sua duração substantiva até seu testemunho da história vivida”. Histórias
e sabedoria também podem possuir aura no sentido de serem recontadas de pessoa
para pessoa e, assim, possuem os traços dos contadores, assim como os vasos
mantêm as marcas das mãos do oleiro. Até a natureza pode comandar a atenção
absortiva no sentido de aura.
“Mas, o
que é a aura, afinal?” – ele perguntou: “uma estranha trama de espaço e tempo:
uma manifestação singular de distanciamento, por mais próxima que esteja de
quem olha. Descansando numa tarde de verão, seguindo as curvas de uma montanha
no horizonte ou prestando atenção a um galho de árvore, que projeta sua sombra
sobre o espectador, no momento ou na hora em que se dá a aparição da coisa – ou
seja, em que se respira a aura dessas montanhas, desse galho”.
Nossa
atenção em tais objetos, afirmou ele, é dialógica. “Inerente a tal olhar… é a
expectativa de que aquilo que foi concedido será devolvido”. A aura põe
distância, não para precipitar admiração, mas para tornar possível a
contemplação ou uma autorreflexão. A oração é um exemplo dessa forma de
atenção. Quando oramos, nós nos rendemos a Deus, tal como expressa a palavra
árabe Islã, mas ao mesmo tempo o Deus nos responde. Há, assim, uma expansão do
espaço interior.
Para
Walter Benjamin, isso é muito diferente da atenção hipnótica que damos às
imagens reproduzidas em massa. A disseminação de imagens reproduzíveis
normalmente ocorre como parte de um processo que destrói as instituições e as
coisas tradicionais; pois, as substitui por coisas recentes, empolgantes,
fascinantes ou cativantes. Essa disseminação centraliza e coordena os
substitutos sob novas e inesperadas formas de poder anônimo, sob vigilância e
controle panóptico.
Nas
palavras de Walter Benjamin, “a técnica de reprodução separa o objeto
reproduzido do domínio da tradição. Ao multiplicar as reproduções, uma
pluralidade de cópias substitui uma existência única”. A atenção hipnótica a
essa profusão é viciante, como sabemos por nos relacionarmos com os algoritmos,
que se aproveitam de ganchos visuais, usam gatilhos emocionais e otimizam
imagens com base na constância do uso. A atenção hipnótica destrói a atenção
absortiva.
Esse
segundo tipo de atenção caracterizou o fascismo. Os fascistas criaram uma
espécie de “aura farsesca”: rotularam o líder ou Führer como artista,
redefiniram o Estado como uma obra de arte, encenaram espetáculos estetizados,
desfiles, arquitetura monumental, cerimônias, noticiários, cartazes e eventos
folclóricos. Ao instrumentalizar valores rituais, eles criaram uma forma de
psicologia de massa: “a massa passou a olhar para si mesma no rosto do Führer”.
Por
meio do êxtase dos desfiles, das imagens de guerreiros e de outros espetáculos,
eles deram às massas não direitos, observou Walter Benjamin, mas apenas a
chance de se expressarem emocionalmente. Donald Trump, hoje, é outro exemplo
óbvio de um gerador altamente desenvolvido de imagens – tweets, participações
especiais, obras públicas, guerras – que insiste que prestemos atenção apenas a
ele sem que ofereça qualquer olhar em resposta.
Considerando
que a atenção absortiva enriquece nosso mundo interior e que a atenção
hipnótica o destrói, pode-se pensar que Walter Benjamin valorizava a primeira
forma de atenção e que denegria a segunda, mas este não foi o caso. Na verdade,
ele acolheu a destruição da aura como a marca distintiva do mundo moderno.
Durante o Renascimento, afirmou ele, a aura renasceu como o culto da beleza e,
assim, se vinculou a conceitos como “obra de gênio”, “valor eterno” e “mistério
profundo”.
Ora, o
ato de dissipar tais conceitos veio a se dissipar a superioridade burguesa. O
seu modelo, nesse aspecto, foi Bertold Brecht, cujo objetivo consistia em
transformar o teatro de um templo em um centro de reunião política. Walter
Benjamin também elogiou artistas “destrutivos” como os dadaístas, que buscavam
degradar a aura artística e, com ela, a “imagem tradicional da humanidade –
cerimoniosa, nobre, enfeitada”.
Além
disso, as consequências da reprodutibilidade técnica não eram de forma alguma
predeterminadas. A imprensa, que substituiu os livros únicos copiados à mão,
fez surgir o romance, que requer atenção absortiva; ela trouxe também o que
Benjamin chamou de “informação” – ou seja, notícias fragmentadas e
descontextualizadas, exemplares de Erlebnis, sensações dissociadas ou
transitórias.
Em seu
ensaio, Walter Benjamin sustentou a vanguarda contra a política cultural da
Frente Popular Francesa, defensora da tese de que a cultura era mais importante
do que o progresso material e que o comunismo era capaz de quebrar as barreiras
que enclausuravam as obras plenas de aura, reservando a arte para uma elite
privilegiada. Em outras palavras, Walter Benjamin buscou encontrar as
possibilidades emancipadoras, sem seguir esquemas predeterminados.
Walter
Benjamin associou o termo Zerstreung à desintegração da aura, o qual é
traduzido em geral como “distração”, mas que é melhor pensado como “dispersão”.
Em vez de oposta à atenção, como William James sugeriu, Walter Benjamin via a
distração como um terceiro tipo de atenção: “a capacidade de registrar
estímulos, de pensar e agir de maneiras não lineares e associativas, de
processar informações casualmente, em um estado de atenção flutuante”.
Uma
expressão viva da atenção flutuante era o flâneur, que absorve a cidade na
forma de uma montagem cinematográfica. Uma outra, pensava Walter Benjamin, era
o espectador do cinema (em sua época, mudo) – pois, o cinema veio a ser a
primeira arte verdadeiramente sem aura, democrática e experimental, que tornava
todos, como o esporte, especialistas.
Atenção
flutuante não é um estado de “confusão, atordoamento, distração” sobre o qual
James escreveu. Muito provavelmente, a expressão foi retirada dos escritos de
Freud sobre técnica analítica, onde também é traduzida como “atenção suspensa
uniformemente” ou “atenção pairando uniformemente’”. A ideia de Freud era que o
terapeuta ou analista deveria abandonar os preconceitos para poder “ouvir” com
seu inconsciente.
Trata-se
da associação livre, que também ocorre em devaneios, enquanto fazemos palavras
cruzadas ou quando tentamos nos lembrar onde deixamos algo. Walter Benjamin não
buscava chaves, mas imagens poéticas, imagens que apresentavam um complexo
intelectual e emocional em um instante de tempo. Ele tirou de Freud a ideia de
que essas imagens se formavam quando a experiência entrava na mente ignorando a
consciência, ou seja, sem atenção – uma possibilidade que James deixou passar.
A
tipologia da atenção de Walter Benjamin ajuda a complicar a ideia da economia
da atenção, possivelmente a principal forma fenomenal da cultura capitalista em
nossos dias. Ela nos permite nos distanciar um pouco, sem nostalgia ou
preconceito ludita, da marcha implacável da inteligência artificial.
Permite-nos apreciar as conquistas do passado sem nos submeter à sua
autoridade. Abre assim, para nós, as novas formas de consciência que surgiram
com a ciência e com a tecnologia modernas.
Em
outras palavras, abre-nos para o inconsciente – um depósito de imagens –
compreendido, porém, em sua dimensão coletiva. É notável, nesse sentido, que
Benjamin seja frequentemente descrito como um pensador judeu, mas enquanto o
cerne do judaísmo rabínico é a distinção entre religião e magia, Benjamin pegou
a noção de aura da Cabala, uma versão heterodoxa do judaísmo marcada pela
crença na magia. A palavra tem a mesma raiz que “imagem”, significando
influenciar ou exercer poder.
Fonte:
Por Eli Zaretsky, no blog Sidecar da New Left Review - Tradução: Eleutério F.
S. Prado, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário