terça-feira, 16 de junho de 2026

Formas da atenção

Nos últimos anos, o conceito de atenção tem conquistado considerável – muita, muita – atenção. Dizem-nos que ela se tornou uma mercadoria dentro da “economia da atenção”, um recurso limitado pelo qual lutam anunciantes, redes sociais, serviços de streaming e similares. Embora tudo isso tenha se tornado cada vez mais proeminente na era da internet e dos smartphones, o fato pode ser rastreado até um passado mais longínquo.

Desde a década de 1960 especialmente, a hipertrofia no uso das telas e das imagens, no contexto de um mercado em constante expansão, tem corroído, ou pelo menos transformado, nossa vida coletiva – relações familiares e comunitárias, o ambiente natural e construído, a produção e recepção cultural. Hoje enfrentamos um salto adicional nesse processo por meio da Inteligência artificial. Segundo um artigo recente de Ross Douthat, no New York Times, tudo isso anuncia “uma era de extinção”.

“A era digital”, escreve Ross Douthat, “oferece substitutos virtuais de coisas corpóreas; move, assim, mundos inteiros de interação e engajamento humano para a tela do computador”. Já nos absorvemos em romances e em grandes dramas; hoje temos a Netflix. Já conversamos cara a cara; hoje mandamos mensagem pelo telefone celular. Tivemos no passado universidades dominadas pelas artes liberais; hoje dispomos de salas de aula “inteligentes”.

Talvez o mais revelador esteja no âmbito da sexualidade; eis que ela já foi algo bem próximo ao sagrado na vida secular; hoje temos pornografia e aplicativos de namoro. Em todos os casos, substituímos algo mais difícil e mais satisfatório por algo mais excitante, acessível e muitas vezes estupediante. Assim como nas mudanças climáticas, às vezes parece que já passamos do ponto sem volta. Na busca por novas e cada vez mais empolgantes formas de distração, podemos estar destruindo as bases para uma vida significativa.

Para compreender essa imensa explosão cultural, precisamos olhar mais de perto para o que vem a ser a atenção. Uma definição clássica foi fornecida por William James em seus Princípios de psicologia (1890): “É a posse pela mente, em forma clara e vívida, de um entre vários objetos ou linhas de pensamento simultaneamente possíveis. Focalização, concentração da consciência são sua essência. Implica um afastamento de algumas coisas para lidar efetivamente com outras. Trata-se de uma condição que tem um verdadeiro oposto no estado confuso, atordoado e distraído que em francês é chamado de distração, e Zerstreutheit em alemão”.

A definição de William James é brilhante, mas não se afigura adequada para compreender a nossa situação contemporânea, pois agora o foco da atenção tem se tornado largamente quantitativo e utilitário. Como alternativa, podemos recorrer ao pensamento de Walter Benjamin. Ao contrário de William James, Walter Benjamin não teorizou sobre a atenção em geral; ele a apreendeu por meio de uma abordagem histórica; assumiu, assim, que a capacidade psicológica da atenção, assim como os estímulos à ela, mudam à medida que muda a tecnologia e que surgem novas’ forças produtivas. Ele refletiu sobre a atenção no interior de uma visão de esquerda e como parte de uma teoria do capitalismo.

Walter Benjamin começou a se interessar pela atenção ainda jovem, por meio de sua leitura de Blaise Pascal, que argumentava que os males que afetavam o mundo moderno podiam ser atribuídos à incapacidade dos homens e das mulheres de se manterem sozinhos, calmos, em seus aposentos. A causa de sua inquietação, de sua necessidade de entretenimento (divertissement ou distração), vinha do fato de que eles não se sentiam confortáveis consigo mesmos, não se sentiam em casa em sua morada natural. Pascal tinha um remédio para isso: o cristianismo, ou melhor, o jansenismo, uma versão puritana do catolicismo. Desde a época de Pascal, porém, a necessidade de divertimento, longe de ser resolvida, tornou-se a força motriz por trás da moda, do entretenimento, das redes sociais e do consumismo – mantendo, aliás fácil coexistência com o cristianismo.

A origem do drama trágico alemão (1928), o primeiro livro de Walter Benjamin, baseou-se profundamente em Pascal. Walter Benjamin afirmava que a ordem comunitária medieval apresentava o sofrimento e a transitoriedade como estações no caminho da salvação, enquanto o Trauerspiel ocupava-se totalmente com a desesperança da condição terrena. As peças eram formas de divertissement: melodramas logo esquecíveis, marcados por certa bombástica, truques teatrais, assim como por fogos de artifício retóricos grosseiros. Benjamin, no entanto, as interpretou não como meras distrações, mas como mensagens alegóricas deixadas por um tempo de catástrofe.

O que se encontra aí, entretanto, antecede a compreensão da atenção encontrada em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1935), assim como de seus diversos ensaios sobre contadores de histórias, Franz Kafka, dadaísmo, fotografia, surrealismo e haxixe. Nesses escritos, Walter Benjamin distingue três formas de atenção, que podem ser chamadas de atenção absortiva, atenção hipnótica e atenção flutuante.

A atenção absortiva baseia-se no conceito de “aura” ou emanação, definida como “a aparência singular ou aparência distante”. Familiar para qualquer um que tenha estudado artes visuais, tal ideia se baseia em dois parâmetros que estão no centro da pintura: distância e luz. O que, aliás, tem raízes antigas. Benjamin chamou a aura de “fonte da poesia”, “um elemento arcaico em nosso presente, um vestígio esquecido do nosso vínculo material com a natureza não humana”.

O pré-requisito para a aura é algo concreto, único e localizado em um ponto específico do espaço e do tempo. Benjamin usa o termo em relação a ídolos, relíquias, catedrais e obras de arte. A autenticidade de um objeto único, escreveu ele, “é a essência de tudo o que é transmissível desde seu início, desde sua duração substantiva até seu testemunho da história vivida”. Histórias e sabedoria também podem possuir aura no sentido de serem recontadas de pessoa para pessoa e, assim, possuem os traços dos contadores, assim como os vasos mantêm as marcas das mãos do oleiro. Até a natureza pode comandar a atenção absortiva no sentido de aura.

“Mas, o que é a aura, afinal?” – ele perguntou: “uma estranha trama de espaço e tempo: uma manifestação singular de distanciamento, por mais próxima que esteja de quem olha. Descansando numa tarde de verão, seguindo as curvas de uma montanha no horizonte ou prestando atenção a um galho de árvore, que projeta sua sombra sobre o espectador, no momento ou na hora em que se dá a aparição da coisa – ou seja, em que se respira a aura dessas montanhas, desse galho”.

Nossa atenção em tais objetos, afirmou ele, é dialógica. “Inerente a tal olhar… é a expectativa de que aquilo que foi concedido será devolvido”. A aura põe distância, não para precipitar admiração, mas para tornar possível a contemplação ou uma autorreflexão. A oração é um exemplo dessa forma de atenção. Quando oramos, nós nos rendemos a Deus, tal como expressa a palavra árabe Islã, mas ao mesmo tempo o Deus nos responde. Há, assim, uma expansão do espaço interior.

Para Walter Benjamin, isso é muito diferente da atenção hipnótica que damos às imagens reproduzidas em massa. A disseminação de imagens reproduzíveis normalmente ocorre como parte de um processo que destrói as instituições e as coisas tradicionais; pois, as substitui por coisas recentes, empolgantes, fascinantes ou cativantes. Essa disseminação centraliza e coordena os substitutos sob novas e inesperadas formas de poder anônimo, sob vigilância e controle panóptico.

Nas palavras de Walter Benjamin, “a técnica de reprodução separa o objeto reproduzido do domínio da tradição. Ao multiplicar as reproduções, uma pluralidade de cópias substitui uma existência única”. A atenção hipnótica a essa profusão é viciante, como sabemos por nos relacionarmos com os algoritmos, que se aproveitam de ganchos visuais, usam gatilhos emocionais e otimizam imagens com base na constância do uso. A atenção hipnótica destrói a atenção absortiva.

Esse segundo tipo de atenção caracterizou o fascismo. Os fascistas criaram uma espécie de “aura farsesca”: rotularam o líder ou Führer como artista, redefiniram o Estado como uma obra de arte, encenaram espetáculos estetizados, desfiles, arquitetura monumental, cerimônias, noticiários, cartazes e eventos folclóricos. Ao instrumentalizar valores rituais, eles criaram uma forma de psicologia de massa: “a massa passou a olhar para si mesma no rosto do Führer”.

Por meio do êxtase dos desfiles, das imagens de guerreiros e de outros espetáculos, eles deram às massas não direitos, observou Walter Benjamin, mas apenas a chance de se expressarem emocionalmente. Donald Trump, hoje, é outro exemplo óbvio de um gerador altamente desenvolvido de imagens – tweets, participações especiais, obras públicas, guerras – que insiste que prestemos atenção apenas a ele sem que ofereça qualquer olhar em resposta.

Considerando que a atenção absortiva enriquece nosso mundo interior e que a atenção hipnótica o destrói, pode-se pensar que Walter Benjamin valorizava a primeira forma de atenção e que denegria a segunda, mas este não foi o caso. Na verdade, ele acolheu a destruição da aura como a marca distintiva do mundo moderno. Durante o Renascimento, afirmou ele, a aura renasceu como o culto da beleza e, assim, se vinculou a conceitos como “obra de gênio”, “valor eterno” e “mistério profundo”.

Ora, o ato de dissipar tais conceitos veio a se dissipar a superioridade burguesa. O seu modelo, nesse aspecto, foi Bertold Brecht, cujo objetivo consistia em transformar o teatro de um templo em um centro de reunião política. Walter Benjamin também elogiou artistas “destrutivos” como os dadaístas, que buscavam degradar a aura artística e, com ela, a “imagem tradicional da humanidade – cerimoniosa, nobre, enfeitada”.

Além disso, as consequências da reprodutibilidade técnica não eram de forma alguma predeterminadas. A imprensa, que substituiu os livros únicos copiados à mão, fez surgir o romance, que requer atenção absortiva; ela trouxe também o que Benjamin chamou de “informação” – ou seja, notícias fragmentadas e descontextualizadas, exemplares de Erlebnis, sensações dissociadas ou transitórias.

Em seu ensaio, Walter Benjamin sustentou a vanguarda contra a política cultural da Frente Popular Francesa, defensora da tese de que a cultura era mais importante do que o progresso material e que o comunismo era capaz de quebrar as barreiras que enclausuravam as obras plenas de aura, reservando a arte para uma elite privilegiada. Em outras palavras, Walter Benjamin buscou encontrar as possibilidades emancipadoras, sem seguir esquemas predeterminados.

Walter Benjamin associou o termo Zerstreung à desintegração da aura, o qual é traduzido em geral como “distração”, mas que é melhor pensado como “dispersão”. Em vez de oposta à atenção, como William James sugeriu, Walter Benjamin via a distração como um terceiro tipo de atenção: “a capacidade de registrar estímulos, de pensar e agir de maneiras não lineares e associativas, de processar informações casualmente, em um estado de atenção flutuante”.

Uma expressão viva da atenção flutuante era o flâneur, que absorve a cidade na forma de uma montagem cinematográfica. Uma outra, pensava Walter Benjamin, era o espectador do cinema (em sua época, mudo) – pois, o cinema veio a ser a primeira arte verdadeiramente sem aura, democrática e experimental, que tornava todos, como o esporte, especialistas.

Atenção flutuante não é um estado de “confusão, atordoamento, distração” sobre o qual James escreveu. Muito provavelmente, a expressão foi retirada dos escritos de Freud sobre técnica analítica, onde também é traduzida como “atenção suspensa uniformemente” ou “atenção pairando uniformemente’”. A ideia de Freud era que o terapeuta ou analista deveria abandonar os preconceitos para poder “ouvir” com seu inconsciente.

Trata-se da associação livre, que também ocorre em devaneios, enquanto fazemos palavras cruzadas ou quando tentamos nos lembrar onde deixamos algo. Walter Benjamin não buscava chaves, mas imagens poéticas, imagens que apresentavam um complexo intelectual e emocional em um instante de tempo. Ele tirou de Freud a ideia de que essas imagens se formavam quando a experiência entrava na mente ignorando a consciência, ou seja, sem atenção – uma possibilidade que James deixou passar.

A tipologia da atenção de Walter Benjamin ajuda a complicar a ideia da economia da atenção, possivelmente a principal forma fenomenal da cultura capitalista em nossos dias. Ela nos permite nos distanciar um pouco, sem nostalgia ou preconceito ludita, da marcha implacável da inteligência artificial. Permite-nos apreciar as conquistas do passado sem nos submeter à sua autoridade. Abre assim, para nós, as novas formas de consciência que surgiram com a ciência e com a tecnologia modernas.

Em outras palavras, abre-nos para o inconsciente – um depósito de imagens – compreendido, porém, em sua dimensão coletiva. É notável, nesse sentido, que Benjamin seja frequentemente descrito como um pensador judeu, mas enquanto o cerne do judaísmo rabínico é a distinção entre religião e magia, Benjamin pegou a noção de aura da Cabala, uma versão heterodoxa do judaísmo marcada pela crença na magia. A palavra tem a mesma raiz que “imagem”, significando influenciar ou exercer poder.

 

Fonte: Por Eli Zaretsky, no blog Sidecar da New Left Review - Tradução: Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda 

 

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