A
nova economia do sofrimento
A
modernidade nasceu sob a promessa da emancipação humana. Ao deslocar o centro
da explicação do mundo da vontade divina para a razão, o Iluminismo europeu
rompeu com a ordem transcendental que sustentava as sociedades agrárias.
Durante séculos, a Igreja havia organizado não apenas a fé, mas também os
sentidos atribuídos à vida, à morte, à culpa, à pobreza, à obediência e ao
sofrimento. Nas sociedades agrárias, marcadas pela tradição, hierarquia e
religiosidade, a dor humana podia ser interpretada como provação, destino,
pecado, penitência ou promessa de salvação.
A razão
moderna, ao superar progressivamente o poder transcendente da Igreja, abriu
caminho para a ciência, para o Estado secular, para o indivíduo autônomo e para
a ideia de progresso. Mas essa libertação teve também seu reverso. Ao
desencantar o mundo, a modernidade retirou do sofrimento parte de sua antiga
moldura simbólica. A dor deixou de pertencer apenas ao campo da alma, do
mistério e da salvação para ser incorporada ao campo da norma, da ciência, da
produtividade e da adaptação social.
No
século XX, Sigmund Freud (1856-1939) percebeu com lucidez que a civilização
moderna não havia eliminado o sofrimento humano. Ao contrário, havia deslocado
suas formas. Nas sociedades urbanas e industriais, o mal-estar passou a
expressar as tensões próprias da vida civilizada como a repressão dos desejos,
disciplina do trabalho, culpa, competição, solidão, renúncia e conflito
permanente entre liberdade individual e exigências coletivas. A promessa
moderna de autonomia convivia, assim, com novas formas de contenção psíquica e
social.
O
século XXI radicalizou esse processo. O sofrimento humano deixou de ser apenas
uma condição existencial para se transformar em uma das mais lucrativas
fronteiras de acumulação do capitalismo contemporâneo. Nunca se falou tanto em
saúde mental. Nunca se diagnosticou tanto. Nunca se consumiram tantos
psicofármacos. E, paradoxalmente, nunca tantas pessoas declararam sofrer de
ansiedade, depressão, esgotamento emocional, transtornos de atenção e
dificuldades de adaptação à vida cotidiana.
A
expansão da indústria farmacêutica ocorre simultaneamente ao crescimento dos
diagnósticos relacionados à saúde mental. O que antes era compreendido como
parte das tensões da vida social, dos conflitos do trabalho, das desigualdades
econômicas e das incertezas da existência passou a ser cada vez mais
interpretado como problema individual, passível de enquadramento clínico e
tratamento medicamentoso.
Não se
trata de negar a existência dos transtornos mentais, nem os avanços científicos
obtidos pela psiquiatria, psicologia e neurociência. O problema emerge quando a
lógica da medicalização avança sobre a própria compreensão da condição humana.
A tristeza converte-se em depressão. A inquietação, em transtorno. A diferença,
em patologia. A singularidade, em desvio estatístico.
Nesse
contexto, o diagnóstico deixa progressivamente de ser apenas um instrumento
médico para se tornar uma identidade social. Categorias clínicas como TDAH,
transtorno do espectro autista e diversas síndromes comportamentais passam a
organizar formas de pertencimento, reconhecimento e proteção institucional. Em
muitos casos, o indivíduo não apenas possui um diagnóstico, mas passa a existir
socialmente por meio dele.
A
transformação do diagnóstico em identidade revela uma mudança profunda na forma
de governança das populações no território. Em vez do controle exercido sobre
grandes coletividades, típico da sociedade urbana e industrial, emerge um novo
modelo centrado na gestão das subjetividades na sociedade de serviços
hiperconectada da era digital. Cada pessoa torna-se responsável por administrar
o próprio sofrimento, monitorar seus comportamentos, regular suas emoções e
consumir os recursos necessários para manter-se funcional.
O que
antes era questão política converte-se em problema clínico. O desemprego
transforma-se em ansiedade. A precarização do trabalho, em depressão. O
isolamento social, em transtorno comportamental. A competição permanente, em
síndrome de burnout. A violência da vida contemporânea desaparece das
estatísticas sociais para reaparecer nos prontuários médicos.
Nesse
cenário, a indústria farmacêutica ocupa posição estratégica. O sofrimento
converte-se em mercado. A expansão dos diagnósticos amplia o universo de
consumidores. Novas classificações geram novas terapias, novos medicamentos e
novos nichos de rentabilidade. A fronteira entre cuidado e mercantilização
torna-se cada vez mais tênue.
Paralelamente,
as plataformas digitais aprofundam a individualização da experiência humana.
Algoritmos monitoram comportamentos, registram emoções, capturam padrões
cognitivos e produzem novas formas de dependência psicológica. A saúde mental
torna-se, simultaneamente, objeto de intervenção médica, exploração econômica e
vigilância tecnológica.
O
resultado é a consolidação de um modelo de sociedade em que indivíduos cada vez
mais diagnosticados, medicados e monitorados convivem com condições estruturais
que permanecem intocadas. Em vez de transformar as causas sociais, econômicas e
políticas do sofrimento, administram-se permanentemente as emergências dos
sintomas.
A
grande questão contemporânea talvez não seja apenas explicar por que crescem os
transtornos mentais. A pergunta decisiva é outra, pois até que ponto se está
diante de uma crise da saúde mental ou de uma crise da própria organização
social, econômica e política contemporânea?
Talvez
a epidemia mais silenciosa do século XXI não seja apenas a dos transtornos
psicológicos. Talvez seja a naturalização de um sistema que transforma
sofrimento em mercadoria, diagnóstico em identidade, cuidado em oportunidade de
negócios e conexão digital em governança de população em território.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em A Terra é Redonda

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