terça-feira, 16 de junho de 2026

João Filho: Escândalos fazem Flávio Bolsonaro despencar entre evangélicos

A candidatura bolsonarista continua a sofrer as consequências das reportagens da série Vaza Flávio. As profundezas do universo “Dark Horse”, nome do filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, estão ficando cada vez mais conhecidas e os prognósticos são os piores para o bolsonarismo.

O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, está despencando nas pesquisas. Só entre os evangélicos, por exemplo, ele caiu nove pontos na pesquisa Genial/Quaest divulgada essa semana. O estrago foi enorme. Também não era para menos. Quase todo dia aparece uma nova mutreta. Já há material suficiente para a produção de “Dark Horse 2”.

Como o Intercept Brasil mostrou em dezembro de 2025, a dona da produtora de “Dark Horse”, Karina Ferreira da Gama, aquela que nunca havia produzido um longa-metragem na vida, também tem uma ONG. E a organização, quem diria, tem um contrato milionário com a prefeitura de São Paulo, na gestão Ricardo Nunes, do MDB, para fornecer internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda da cidade.

Esse contrato está sendo alvo de investigação policial e do Ministério Público sob suspeita de superfaturamento, fraude em licitação e desvio de dinheiro público. A entidade simplesmente não prestava os serviços contratados e emitia notas frias para receber os pagamentos.

Nesta semana, o Intercept divulgou que essa mesma ONG desviou uma verba milionária do Sesi, como apontaram auditorias da Controladoria-Geral da União, a CGU. Não, não se trata de “dinheiro privado” como gosta de dizer Flávio Bolsonaro. Os valores desviados pelo esquema vêm de recurso público federal.

A CGU identificou nos negócios da ONG com o Sesi problemas que o MP-SP está investigando nos contratos com a prefeitura de São Paulo: superfaturamento e a possibilidade de terem sido emitidas notas frias. As auditorias da CGU revelaram que a ONG operava em um CNPJ sem capital social, que foi utilizado para transferir a grana para uma rede de empresas de fachada.

O fio puxado pelo Intercept não para de sair. Esse novelo é grande e muita coisa ainda vai aparecer. Nesta semana, uma apuração da Folha de S.Paulo revelou que o buraco da bandidagem é ainda mais embaixo e toca num ponto sensível da narrativa bolsonarista: o crime organizado.

De acordo com a reportagem, um mesmo fundo de investimento, chamado Gold Style, fez transações com uma fintech apontada como “banco paralelo” do Primeiro Comando da Capital, o PCC, a BK Bank, e com a empresa responsável por repasses à produção de “Dark Horse”, a Entre Investimentos e Participações, ligada a Daniel Vorcaro. Ainda que não se possa afirmar que existe uma relação direta entre os bolsonaristas e o PCC, o fato é que Vorcaro mandou dinheiro pela Entre Investimentos e Participações, que também negociou com o mesmo fundo de investimento da facção.

Não podemos esquecer também que, entre julho de 2022 e dezembro de 2025, a Entre Investimentos enviou R$ 139 milhões para empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro. As movimentações financeiras envolvem alvos suspeitos de ligação com o PCC e com integrantes da máfia italiana. O esquema funciona de maneira sofisticada, usando debêntures sigilosas e uma rede de empresas de fachada para ocultar a origem dos recursos e dificultar o rastreamento das transações. 

O bolsonarismo comemorou os frutos provenientes do patético encontro entre Flávio Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O governo americano classificou o PCC e o Comando Vermelho, o CV, como grupos terroristas e isso foi tratado pelos bolsonaristas como uma vitória resultante da visita ao presidente dos EUA. De acordo com as leis estadunidenses, qualquer pessoa ou empresa que atue nos Estados Unidos que enviar ou receber dinheiro de grupos terroristas, ainda que indiretamente, está sujeita a penas criminais severas. Daniel Vorcaro, o grande amigo e patrocinador de Flávio, já poderia ser enquadrado pelas novas diretrizes antiterrorismo do governo americano. Não é difícil de imaginar que isso possa acabar respingando na família Bolsonaro em algum momento. Há ainda muita coisa a se puxar desse novelo.

O calvário da candidatura de Flávio Bolsonaro promete ser longo. Não se trata mais apenas de explicar as rachadinhas com funcionários do seu gabinete quando ele era deputado estadual do Rio de Janeiro. Agora, a família Bolsonaro tem que explicar ao eleitor brasileiro — e, teoricamente, ao Departamento de Justiça americano — como o dinheiro chegou aos EUA.

Até aqui as investigações indicam um cinismo absoluto: enquanto os Bolsonaros pregam o combate implacável ao crime organizado, seus aliados e operadores dividem o mesmo balcão de negócios com ele. Mal posso esperar para ver como o roteiro de “Dark Horse 2” irá explicar esse curioso capítulo.

•        Flávio Bolsonaro lança candidatura em meio à escândalo do Banco Master e investigações da PF

Partido Liberal (PL) agendou para 25 de julho, em São Paulo, a convenção nacional que oficializará a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. A escolha da capital paulista rompe com a tradição recente do grupo de lançar candidaturas presidenciais no Rio de Janeiro e mira o maior colégio eleitoral do país.

O movimento ocorre enquanto a Polícia Federal investiga transações financeiras que ligam o senador ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao financiamento de uma cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, com suspeita de evasão de divisas e conexões com esquemas de lavagem de dinheiro.

<><> PL define data e local para lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro

A direção nacional do PL tomou a decisão de sediar a convenção em São Paulo levando em conta o peso eleitoral do estado e a avaliação de que ele concentra um dos palanques mais sólidos da campanha de Flávio Bolsonaro. O senador deve dividir o palco com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que buscará a reeleição, além de lideranças como o presidente da Assembleia Legislativa paulista, André do Prado (PL), e o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), ambos cotados para disputar o Senado.

O apoio do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), e a proximidade de Flávio com setores empresariais e industriais do estado também pesaram na definição. O calendário do Tribunal Superior Eleitoral estabelece que as convenções partidárias devem ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto, e o PL optou por abrir o período com o lançamento.

A mudança de endereço em relação às candidaturas anteriores do grupo não é apenas simbólica. A pré-campanha de Flávio Bolsonaro avalia transferir sua estrutura principal de Brasília para São Paulo, movimento que facilitaria agendas com o empresariado, a Faria Lima, além da proximidade física com Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes.

Parte do núcleo duro da pré-campanha defende que a capital paulista, além de concentrar o maior número de eleitores do país, favorece deslocamentos para outras cidades. Até agora, Flávio havia optado por manter a estrutura em Brasília para permanecer perto da família e do pai, em prisão domiciliar. A possibilidade de mudança já foi comunicada à Polícia Legislativa, responsável pela segurança do senador.

<><> O pano de fundo: as investigações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

O lançamento da candidatura acontece sob a sombra de investigações que a Polícia Federal conduz sobre transações financeiras do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para o suposto financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro

Segundo apurações da Polícia Federal, divulgadas pela Fórum, cerca de R$ 61 milhões teriam sido repassados, a pedido de Flávio Bolsonaro, para o fundo de investimentos Havengate, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado que atua para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A avaliação preliminar da corporação é que as operações podem configurar crime de evasão de divisas, embora os investigadores avaliem que o caso precisa ser mais bem apurado antes de qualquer conclusão definitiva.

O rastro financeiro não para por aí. De acordo com a Polícia Federal, via Revista Fórum, a empresa Entre Investimentos e Participações, intermediária nos repasses ao filme, também movimentou R$ 20 milhões com o FIDC Gold Style, fundo investigado por receber R$ 1 bilhão de empresas identificadas como parte do esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

O emaranhado de conexões financeiras amplia o escopo das investigações e coloca a candidatura de Flávio Bolsonaro em terreno juridicamente sensível antes mesmo de sua oficialização. Há ainda uma terceira frente: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) teria recebido US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro em meio a um acordo que visava barrar a CPI do Master no Senado, com suposto envolvimento de Flávio Bolsonaro nas tratativas.

<><> Implicações políticas e jurídicas da candidatura em meio a escândalos

O impacto das revelações aparece nas pesquisas eleitorais. Levantamentos da Genial/Quaest, do Datafolha e do Nexus indicam queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro após o vazamento de mensagens trocadas com Daniel Vorcaro. Na simulação de segundo turno captada pela Genial/Quaest em junho, Lula (PT) aparece com 44% das intenções de voto contra 38% do senador, uma vantagem de 6 pontos. Em maio, os dois estavam empatados com 42% e 41%, respectivamente. Em abril, Flávio chegou a aparecer numericamente à frente. Vale notar que o primeiro levantamento a captar a queda do senador, da AtlasIntel, foi suspenso pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques.

Para além das urnas, a situação de Daniel Vorcaro lança luz sobre os interesses que orbitam a candidatura. Segundo apuração da Fórum, o banqueiro aposta na eleição de Flávio Bolsonaro e no apoio do grupo político que o ajudou a obter prisão domiciliar para evitar a cadeia, especialmente diante da iminente rejeição de seu segundo acordo de delação premiada pela PF e pela PGR.

A aposta de Vorcaro inclui a influência de ministros do STF: Kassio Nunes Marques já suspendeu uma pesquisa desfavorável ao senador, e Gilmar Mendes pode votar pela prisão domiciliar de familiares do banqueiro, segundo a Revista Fórum. A PF deve emitir parecer desfavorável ao acordo de delação, que tentou blindar figuras como Ciro Nogueira (PP-PI) e o próprio Flávio Bolsonaro. Com a rejeição, Vorcaro corre o risco de perder o benefício da prisão na Superintendência da PF em Brasília e ser transferido para o Complexo Penitenciário da Papuda. O cenário revela que o lançamento formal da candidatura, marcado para 25 de julho, ocorre em meio a uma teia de interesses jurídicos e políticos cujos desdobramentos ainda estão em aberto.

•        Banco Master: PF acessa celular de Cláudio Castro e provoca apreensão entre bolsonaristas

Polícia Federal conseguiu desbloquear o celular usado por Cláudio Castro no dia a dia, segundo informação publicada pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo. O aparelho estava protegido por senha, que não foi informada às autoridades.

O telefone foi apreendido na residência do ex-governador do Rio de Janeiro em uma das etapas das investigações que miram sua gestão. Ao todo, três celulares foram recolhidos, sendo um deles inativo há anos e outro apenas com dez dias de uso. Por isso, a atenção dos investigadores se voltou para o aparelho de uso cotidiano.

Com o desbloqueio, a PF iniciou a análise do conteúdo armazenado no celular. O material pode conter mensagens, registros de chamadas, arquivos e outras informações consideradas relevantes para as apurações em andamento.

<><> Investigações

A frente mais recente envolve o Rioprevidência e o Banco Master. A investigação apura aplicações bilionárias feitas pelo fundo previdenciário dos servidores do Rio em produtos ligados ao banco de Daniel Vorcaro. Em maio, a PF cumpriu mandados de busca no Rio e em Brasília, por determinação do Supremo Tribunal Federal.

Segundo a Agência Brasil, a operação mira aportes de R$ 3,6 bilhões em fundos ligados ao Master. Os recursos têm origem no Rioprevidência, responsável por administrar aposentadorias e benefícios de mais de 235 mil servidores ativos e inativos do estado.

Castro também aparece em outras frentes de investigação, como os casos da Fundação Ceperj, das chamadas “folhas secretas”, da Fundação Leão XIII e da Refit, antiga Refinaria de Manguinhos. As apurações envolvem suspeitas de irregularidades administrativas, favorecimento empresarial, uso político da máquina pública e pagamentos sem transparência.

No caso da Ceperj, o Tribunal Superior Eleitoral tornou Cláudio Castro inelegível por oito anos. Ele renunciou ao mandato antes do julgamento que poderia levar à cassação. A defesa afirma que recorrerá e sustenta que os fatos discutidos não influenciaram o resultado da eleição de 2022.

A defesa do ex-governador nega irregularidades. Em notas anteriores, afirmou que Castro sempre atuou dentro da legalidade, que os investimentos do Rioprevidência seguiram trâmites técnicos e que não houve benefício pessoal ou favorecimento indevido.

 

Fonte: The Intercept/Fórum

 

Nenhum comentário: