Das
10 companhias que mais receberam do Master, 4 têm sinais de empresa de fachada
Números
de telefone (11) 1111-1111, emails contato@contato.com e endereços em bairros
periféricos. Sócios ocultos ou que receberam auxílio emergencial. Estas são as
características de algumas das empresas que ganharam os maiores pagamentos do
Master em transações classificadas pelo banco como serviços prestados.
Das 10
firmas que receberam mais dinheiro da instituição de Daniel Vorcaro –somando R$
1,2 bilhão no total–, 4 têm algum sinal de empresa de fachada ou possuem
informações inconsistentes registradas nos cadastros da Receita Federal,
segundo levantamento feito pela Folha a partir de dados enviados pelo fisco à
CPI do Crime Organizado. Além da Midias Promotora, que no mês passado foi alvo
de busca e apreensão na esteira do caso Master, as outras empresas se chamam
Telure, Metanoein e Nanook.
Outras
cinco companhias –Ouro Negro, MSG, MDSV, Terra Firme e uma filial dela– se
encaixam em perfil diferente: possuem alguma ligação direta com a cúpula do
próprio banco.
A única
que foge a esses dois padrões é o escritório Barci de Moraes, da mulher do
ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
Procurada
pela reportagem em 28 de abril, a assessoria de imprensa do Master disse que
não iria se manisfestar.
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Veja o ranking das firmas que receberam os maiores pagamentos do banco entre
2022 e 2025
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1º – Ouro Negro
No topo
da lista, com quase R$ 220 milhões recebidos, está a Ouro Negro Empreendimentos
e Participações, sociedade anônima que tem como diretor David Lopes Monteiro.
Ele é irmão de Daniel Lopes Monteiro, advogado preso na operação Compliance
Zero, apontado como operador jurídico-financeiro da estrutura do Master.
No CNPJ
(Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da Ouro Negro está registrado como sede
um endereço na avenida Luiz Carlos Berrini, centro empresarial na zona sul de
São Paulo, porém, o telefone e o email para contato são da empresa Zero
Burocracia, que fica na avenida Sapopemba, zona leste da capital. O local é um
pequeno prédio com pichações na fachada. No térreo há uma loja de colchões e um
serviço de reparo de vidros automotivos.
A
reportagem entrou em contato pelo telefone atribuído à Ouro Negro no cadastro
da Receita. Quem atendeu foi André Cardoso da Silva, sócio-administrador da
Zero Burocracia. Ele diz não ter ligação com o caso. Afirmou que foi contratado
só para fazer “serviços paralegais” para a Ouro Negro e que, por “erro de uma
funcionária”, seus dados foram parar no cadastro da firma de David Monteiro.
A Folha
também tentou contato com David Monteiro, em 13 de maio, pelos emails de outras
dez empresas em que ele figura como diretor ou sócio. Procurada em 29 de abril,
a assessoria de imprensa de seu irmão Daniel Monteiro também não se manifestou.
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2º – Terra Firme
Em
segundo lugar no ranking, com quase R$ 186 milhões, vem a Terra Firme da Bahia
LTDA, de Augusto Lima, ex-sócio do Master, que também chegou a ser preso na
Compliance Zero e passou a usar tornozeleira eletrônica. A Terra Firme tem um
outro braço, com CNPJ diferente, que aparece em décimo no ranking.
Procurada
em 29 de abril, a assessoria de imprensa de Lima diz que a defesa dele não vai
comentar e não respondeu quais foram os serviços prestados.
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3º – Midias Promotora
Na
sequência vem a Midias Promotora LTDA, que recebeu mais de R$ 126 milhões
registrados como serviços prestados ao Master. Conforme revelou a Folha em
abril, a empresa tem como sócio-administrador Gilson Bahia Vasconcelos,
beneficiário do auxílio emergencial do governo na pandemia e réu em processo
por golpe de um call center contra aposentados do INSS.
Bahia
Vasconcelos também é administrador de outra firma chamada Midias Promotora LTDA
– SCP1, que tem como sócia a Midias Promotora. O modelo de SCP (Sociedade em
Conta de Participação) é uma estrutura com menor regulação que permite a
entrada de sócios em posição oculta.
O
endereço informado pela Midias SCP1 em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, é
exatamente o mesmo que aparece no cadastro da Metanoein, empresa que ocupa a
sexta posição do ranking.
Um mês
após a reportagem da Folha, a Midias Promotora foi alvo de busca e apreensão em
operação que investiga aplicações de R$ 3 bilhões do Rioprevidência (fundo de
pensão dos servidores do Rio de Janeiro), no Master.
Na
reportagem sobre Bahia Vasconcelos, a Folha conversou com o advogado dele, que
negou participação do administrador no call center do caso em que é reú por
estelionato e diz que ele cumpre medidas cautelares. Sobre a Midias Promotora
LTDA, diz que as movimentações financeiras são legais.
A
reportagem voltou a procurar o advogado em 29 de abril e em 6 de maio, mas não
houve atualização de suas manifestações.
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4º – Telure
A
quarta empresa também está ligada a uma pessoa que foi beneficiária de auxílio
emergencial na pandemia. Fabia Franca, que recebeu R$ 5.250 do governo, aparece
como diretora da Telure Participações S.A, que obteve R$ 110,8 milhões do
Master.
A Folha
não conseguiu contato pelo telefone (11) 1111-1111 nem pelo email
contato@contato.com, registrados no CNPJ. As tentativas foram feitas em 29 de
abril.
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5º – MSG
Em
quinto lugar, com quase R$ 106 milhões, está a MSG Serviços Empresariais LTDA–
dos ex-sócios do banco Felipe Wallace Simonsen e de Armando Miguel Gallo Neto.
Em 29
de abril e em 14 de maio, a Folha tentou contato pelos emails e telefones
registrados no cadastro da empresa, mas não teve resposta.
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6º – Metanoein
Com R$
102 milhões, a sexta é a Metanoein Participações e Consultoria LTDA, que fica
no mesmo endereço da Midias SCP1, em Bangu. Essa empresa também tem uma SCP
vinculada –no mesmo endereço– e dívida ativa superior a R$ 9 milhões com a
União por falta de pagamento de impostos.
Em
abril, uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do RJ impediu a transferência de
valores ligados à Metanoein em desdobramento de investigação sobre crimes de
constituição de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O caso envolve uma
rede de postos de gasolina operada por meio de laranjas.
A Folha
tentou contato, desde 27 de abril, por email e WhatsApp, mas não teve resposta.
A sócia-administradora da firma, a advogada Rose Evelyn Coité, atendeu uma
ligação da reportagem, mas desligou.
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7º – MDSV
A
próxima na lista é a MDSV Participações LTDA, do ex-sócio do banco Maurício
Quadrado e sua mulher Denise, com R$ 100 milhões.
A MDSV
fica em um prédio residencial de bairro nobre na capital paulista, perto do
parque Ibirapuera.Procurada pela Folha, a assessoria de imprensa de Quadrado
diz que a MDSV atua com assessoria e consultoria financeira para firmas de
diversos setores. Ele nega que a empresa tenha recebido este valor, mas não
revela a quantia exata.
Em
nota, diz apenas que os valores são inferiores a R$ 100 milhões, que os
serviços foram regularmente prestados, conforme as práticas de mercado, e que
“decorrem da prestação de serviços de assessoria na estruturação de operações
financeiras diversas, incluindo, entre outras, operações de mercado de
capitais, sendo que estas últimas resultaram na captação de recursos pelo banco
em montante superior a R$ 2 bilhões”.
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8º – Nanook
A
oitava é a Nanook Participações S.A., com R$ 92,8 milhões. Essa empresa também
tem a beneficiária de auxílio Fabia Franca na direção, assim como a Telure.
Ambas apresentam a mesma atividade principal, correspondente de instituições
financeiras. Os cadastros da Telure e da Nanook na Receita têm endereços
diferentes, em São Caetano do Sul e Goiânia, mas usam os mesmos telefones e
emails: 1111-1111 e contato@contato.com. As tentativas de contato foram feitas
pela reportagem em 29 de abril.
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9º – Barci de Moraes
O nono
do ranking é o escritório Barci de Moraes, com mais de R$ 80 milhões recebidos.
Procurada pela reportagem, sua assessoria enviou nota com uma lista de
atividades. Segundo o comunicado, o serviço incluiu consultoria e atuação
jurídica com uma equipe de 15 advogados, além da contratação de outros três
escritórios. A nota menciona 94 reuniões de trabalho, 36 pareceres e opiniões
legais, elaboração de manuais, implementação de código de ética do banco,
consultorias e atuação na área penal e administrativa, entre outras funções.
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10º – Terra Firme (outro CNPJ)
A
décima, que recebeu R$ 73,6 milhões, é novamente uma Terra Firme da Bahia LTDA,
de Augusto Lima, mas aparece como filial, com outro CNPJ.
• Master pagou R$ 102 mi a grupo
investigado por lavagem de dinheiro em combustíveis
Um
repasse de R$ 102 milhões feito pelo Master de 2023 a 2025 pode conectar o
banco de Daniel Vorcaro a um setor suspeito de ligações com o crime organizado:
o varejo de postos de gasolina.
Os
pagamentos, classificados pela instituição financeira como prestação de
serviços, foram feitos a uma empresa chamada Metanoein Participações e
Consultoria Ltda, que hoje é alvo de investigação por um suposto esquema de
lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa no Rio de Janeiro. A
sócia-administradora da firma, Rose Evelyn Machado Coité, é apontada pelo
Ministério Público Federal como dona de uma rede de postos operada por meio de
laranjas.
Rose
Evelyn é conhecida em Bangu, bairro da zona oeste da capital fluminense, como
importante empresária do mercado de combustíveis, viúva do advogado
criminalista César Pimentel Coité, que morreu em 2020. Porém, não há nenhum
posto registrado no nome dela nem dos filhos do casal, também apontados como
donos de estabelecimentos.
Oficialmente,
os registros da Receita Federal mostram participação de Rose Evelyn em apenas
cinco firmas de outros ramos, como escritório de advocacia, consultoria e
empresa de diagnósticos médicos, todos na zona oeste do Rio.
O CNPJ
(Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da Metanoein tampouco a situa no setor
de abastecimento. As atividades da empresa são registradas como serviços de
escritório, consultoria em gestão e negócios em geral.
Desde a
deflagração da operação Carbono Oculto, iniciada em agosto do ano passado, as
investigações têm avançado sobre a infiltração do crime organizado no setor de
combustíveis e no sistema financeiro, mas ainda não veio a público o repasse
direto de dinheiro do Master no varejo de postos de gasolina.
A Folha
tentou contato com Rose Evelyn desde 27 de abril, por email e WhatsApp, mas não
teve resposta. Ela atendeu uma ligação da reportagem, mas desligou. A
assessoria de imprensa de Vorcaro diz que a defesa dele não se manifestará
sobre o tema.
Nos
últimos meses, paralelamente ao avanço das apurações do caso Master, a
Metanoein foi alvo de uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro,
que impediu a transferência de valores ligados à empresa.
O
processo está em segredo de Justiça, mas algumas informações foram divulgadas
nos documentos da Metanoein na junta comercial. Os dados mostram um pedido do
Ministério Público Federal para o sequestro de contas e aplicações financeiras
de Rose Evelyn e seus filhos, apontados como reais proprietários de postos de
gasolina mantidos em nome de terceiros.
Também
são citados mais quatro nomes apontados como donos de postos e outros 17 que
seriam interpostas pessoas, os chamados laranjas. Essa investigação envolve 46
empresas, e a ordem judicial foi registrada na certidão da Metanoein na junta
comercial no dia 7 de maio, um dia depois da operação Centelha, deflagrada pela
Polícia Federal contra um esquema de lavagem de dinheiro e sonegação ligado ao
jogo do bicho no Rio.
A Folha
procurou a assessoria de imprensa da PF, mas o órgão não revela se a família de
Rose Evelyn foi alvo da Centelha.
De
acordo com reportagem da Folha publicada na data da operação, as investigações
da operação também apuram ligação com integrantes da família do bicheiro
Rogério de Andrade, herdeiro de uma das principais estruturas do jogo do bicho
no estado. A suspeita remonta ao período em que o bicheiro Castor de Andrade
exercia forte influência sobre a contravenção no Rio.
Um dos
alvos da operação foi o posto Castor, cujo dono formal é sócio de uma firma de
informática chamada Softcoop, que tinha Cesar Coité entre os sócios. Em 1997,
Rose Evelyn trabalhou como advogada do posto Castor.
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Mesmo endereço
A
Metanoein tem características semelhantes a outra firma que transacionou com o
banco de Vorcaro, a Mídias Promotora, que foi alvo de busca e apreensão no mês
passado no contexto das apurações sobre investimentos temerários do
Rioprevidência, fundo que gere os benefícios de aposentados e pensionistas do
Rio de Janeiro.
A
Mídias, que recebeu R$ 126,6 milhões do Master, divide com a Metanoein um
escritório vizinho ao calçadão de Bangu, tradicional centro do comércio popular
do bairro.
As duas
firmas têm mais coincidências entre si: cada uma é sócia de uma SCP (Sociedade
em Conta de Participação), as quais foram fundadas exatamente no mesmo dia, 28
de julho de 2021. SCP é uma estrutura empresarial de menor regulação, que
trabalha com dois tipos de sócio, aquele que aparece nos dados oficiais
(chamado de sócio ostensivo, como indica o próprio nome), e aqueles que
permanecem ocultos.
Ambas
também estão entre as empresas que receberam os maiores volumes de dinheiro do
Master, de acordo com os dados enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão
Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado.
Conforme
a Folha revelou em abril, a Mídias Promotora tem como sócio-administrador
Gilson Bahia Vasconcelos, um homem que, a despeito das cifras milionárias
recebidas do Master por sua empresa, foi beneficiário do auxílio emergencial do
governo na pandemia. Ele também é réu em um processo por golpe de um call
center contra aposentados e pensionistas do INSS.
Na
primeira reportagem sobre Bahia Vasconcelos, publicada em 24 de abril, a Folha
conversou com o advogado dele, que negou participação do administrador no call
center do caso em que é réu por estelionato e diz que ele cumpre medidas
cautelares. Sobre a Mídias Promotora LTDA, afirma que as movimentações
financeiras são legais.
Fonte:
FolhaPress/ICL Notícias

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