terça-feira, 16 de junho de 2026

Das 10 companhias que mais receberam do Master, 4 têm sinais de empresa de fachada

Números de telefone (11) 1111-1111, emails contato@contato.com e endereços em bairros periféricos. Sócios ocultos ou que receberam auxílio emergencial. Estas são as características de algumas das empresas que ganharam os maiores pagamentos do Master em transações classificadas pelo banco como serviços prestados.

Das 10 firmas que receberam mais dinheiro da instituição de Daniel Vorcaro –somando R$ 1,2 bilhão no total–, 4 têm algum sinal de empresa de fachada ou possuem informações inconsistentes registradas nos cadastros da Receita Federal, segundo levantamento feito pela Folha a partir de dados enviados pelo fisco à CPI do Crime Organizado. Além da Midias Promotora, que no mês passado foi alvo de busca e apreensão na esteira do caso Master, as outras empresas se chamam Telure, Metanoein e Nanook.

Outras cinco companhias –Ouro Negro, MSG, MDSV, Terra Firme e uma filial dela– se encaixam em perfil diferente: possuem alguma ligação direta com a cúpula do próprio banco.

A única que foge a esses dois padrões é o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Procurada pela reportagem em 28 de abril, a assessoria de imprensa do Master disse que não iria se manisfestar.

<><> Veja o ranking das firmas que receberam os maiores pagamentos do banco entre 2022 e 2025

>>> 1º – Ouro Negro

No topo da lista, com quase R$ 220 milhões recebidos, está a Ouro Negro Empreendimentos e Participações, sociedade anônima que tem como diretor David Lopes Monteiro. Ele é irmão de Daniel Lopes Monteiro, advogado preso na operação Compliance Zero, apontado como operador jurídico-financeiro da estrutura do Master.

No CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da Ouro Negro está registrado como sede um endereço na avenida Luiz Carlos Berrini, centro empresarial na zona sul de São Paulo, porém, o telefone e o email para contato são da empresa Zero Burocracia, que fica na avenida Sapopemba, zona leste da capital. O local é um pequeno prédio com pichações na fachada. No térreo há uma loja de colchões e um serviço de reparo de vidros automotivos.

A reportagem entrou em contato pelo telefone atribuído à Ouro Negro no cadastro da Receita. Quem atendeu foi André Cardoso da Silva, sócio-administrador da Zero Burocracia. Ele diz não ter ligação com o caso. Afirmou que foi contratado só para fazer “serviços paralegais” para a Ouro Negro e que, por “erro de uma funcionária”, seus dados foram parar no cadastro da firma de David Monteiro.

A Folha também tentou contato com David Monteiro, em 13 de maio, pelos emails de outras dez empresas em que ele figura como diretor ou sócio. Procurada em 29 de abril, a assessoria de imprensa de seu irmão Daniel Monteiro também não se manifestou.

>>> 2º – Terra Firme

Em segundo lugar no ranking, com quase R$ 186 milhões, vem a Terra Firme da Bahia LTDA, de Augusto Lima, ex-sócio do Master, que também chegou a ser preso na Compliance Zero e passou a usar tornozeleira eletrônica. A Terra Firme tem um outro braço, com CNPJ diferente, que aparece em décimo no ranking.

Procurada em 29 de abril, a assessoria de imprensa de Lima diz que a defesa dele não vai comentar e não respondeu quais foram os serviços prestados.

>>> 3º – Midias Promotora

Na sequência vem a Midias Promotora LTDA, que recebeu mais de R$ 126 milhões registrados como serviços prestados ao Master. Conforme revelou a Folha em abril, a empresa tem como sócio-administrador Gilson Bahia Vasconcelos, beneficiário do auxílio emergencial do governo na pandemia e réu em processo por golpe de um call center contra aposentados do INSS.

Bahia Vasconcelos também é administrador de outra firma chamada Midias Promotora LTDA – SCP1, que tem como sócia a Midias Promotora. O modelo de SCP (Sociedade em Conta de Participação) é uma estrutura com menor regulação que permite a entrada de sócios em posição oculta.

O endereço informado pela Midias SCP1 em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, é exatamente o mesmo que aparece no cadastro da Metanoein, empresa que ocupa a sexta posição do ranking.

Um mês após a reportagem da Folha, a Midias Promotora foi alvo de busca e apreensão em operação que investiga aplicações de R$ 3 bilhões do Rioprevidência (fundo de pensão dos servidores do Rio de Janeiro), no Master.

Na reportagem sobre Bahia Vasconcelos, a Folha conversou com o advogado dele, que negou participação do administrador no call center do caso em que é reú por estelionato e diz que ele cumpre medidas cautelares. Sobre a Midias Promotora LTDA, diz que as movimentações financeiras são legais.

A reportagem voltou a procurar o advogado em 29 de abril e em 6 de maio, mas não houve atualização de suas manifestações.

>>> 4º – Telure

A quarta empresa também está ligada a uma pessoa que foi beneficiária de auxílio emergencial na pandemia. Fabia Franca, que recebeu R$ 5.250 do governo, aparece como diretora da Telure Participações S.A, que obteve R$ 110,8 milhões do Master.

A Folha não conseguiu contato pelo telefone (11) 1111-1111 nem pelo email contato@contato.com, registrados no CNPJ. As tentativas foram feitas em 29 de abril.

>>> 5º – MSG

Em quinto lugar, com quase R$ 106 milhões, está a MSG Serviços Empresariais LTDA– dos ex-sócios do banco Felipe Wallace Simonsen e de Armando Miguel Gallo Neto.

Em 29 de abril e em 14 de maio, a Folha tentou contato pelos emails e telefones registrados no cadastro da empresa, mas não teve resposta.

>>> 6º – Metanoein

Com R$ 102 milhões, a sexta é a Metanoein Participações e Consultoria LTDA, que fica no mesmo endereço da Midias SCP1, em Bangu. Essa empresa também tem uma SCP vinculada –no mesmo endereço– e dívida ativa superior a R$ 9 milhões com a União por falta de pagamento de impostos.

Em abril, uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do RJ impediu a transferência de valores ligados à Metanoein em desdobramento de investigação sobre crimes de constituição de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O caso envolve uma rede de postos de gasolina operada por meio de laranjas.

A Folha tentou contato, desde 27 de abril, por email e WhatsApp, mas não teve resposta. A sócia-administradora da firma, a advogada Rose Evelyn Coité, atendeu uma ligação da reportagem, mas desligou.

>>> 7º – MDSV

A próxima na lista é a MDSV Participações LTDA, do ex-sócio do banco Maurício Quadrado e sua mulher Denise, com R$ 100 milhões.

A MDSV fica em um prédio residencial de bairro nobre na capital paulista, perto do parque Ibirapuera.Procurada pela Folha, a assessoria de imprensa de Quadrado diz que a MDSV atua com assessoria e consultoria financeira para firmas de diversos setores. Ele nega que a empresa tenha recebido este valor, mas não revela a quantia exata.

Em nota, diz apenas que os valores são inferiores a R$ 100 milhões, que os serviços foram regularmente prestados, conforme as práticas de mercado, e que “decorrem da prestação de serviços de assessoria na estruturação de operações financeiras diversas, incluindo, entre outras, operações de mercado de capitais, sendo que estas últimas resultaram na captação de recursos pelo banco em montante superior a R$ 2 bilhões”.

>>> 8º – Nanook

A oitava é a Nanook Participações S.A., com R$ 92,8 milhões. Essa empresa também tem a beneficiária de auxílio Fabia Franca na direção, assim como a Telure. Ambas apresentam a mesma atividade principal, correspondente de instituições financeiras. Os cadastros da Telure e da Nanook na Receita têm endereços diferentes, em São Caetano do Sul e Goiânia, mas usam os mesmos telefones e emails: 1111-1111 e contato@contato.com. As tentativas de contato foram feitas pela reportagem em 29 de abril.

>>> 9º – Barci de Moraes

O nono do ranking é o escritório Barci de Moraes, com mais de R$ 80 milhões recebidos. Procurada pela reportagem, sua assessoria enviou nota com uma lista de atividades. Segundo o comunicado, o serviço incluiu consultoria e atuação jurídica com uma equipe de 15 advogados, além da contratação de outros três escritórios. A nota menciona 94 reuniões de trabalho, 36 pareceres e opiniões legais, elaboração de manuais, implementação de código de ética do banco, consultorias e atuação na área penal e administrativa, entre outras funções.

>>> 10º – Terra Firme (outro CNPJ)

A décima, que recebeu R$ 73,6 milhões, é novamente uma Terra Firme da Bahia LTDA, de Augusto Lima, mas aparece como filial, com outro CNPJ.

•        Master pagou R$ 102 mi a grupo investigado por lavagem de dinheiro em combustíveis

Um repasse de R$ 102 milhões feito pelo Master de 2023 a 2025 pode conectar o banco de Daniel Vorcaro a um setor suspeito de ligações com o crime organizado: o varejo de postos de gasolina.

Os pagamentos, classificados pela instituição financeira como prestação de serviços, foram feitos a uma empresa chamada Metanoein Participações e Consultoria Ltda, que hoje é alvo de investigação por um suposto esquema de lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa no Rio de Janeiro. A sócia-administradora da firma, Rose Evelyn Machado Coité, é apontada pelo Ministério Público Federal como dona de uma rede de postos operada por meio de laranjas.

Rose Evelyn é conhecida em Bangu, bairro da zona oeste da capital fluminense, como importante empresária do mercado de combustíveis, viúva do advogado criminalista César Pimentel Coité, que morreu em 2020. Porém, não há nenhum posto registrado no nome dela nem dos filhos do casal, também apontados como donos de estabelecimentos.

Oficialmente, os registros da Receita Federal mostram participação de Rose Evelyn em apenas cinco firmas de outros ramos, como escritório de advocacia, consultoria e empresa de diagnósticos médicos, todos na zona oeste do Rio.

O CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da Metanoein tampouco a situa no setor de abastecimento. As atividades da empresa são registradas como serviços de escritório, consultoria em gestão e negócios em geral.

Desde a deflagração da operação Carbono Oculto, iniciada em agosto do ano passado, as investigações têm avançado sobre a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no sistema financeiro, mas ainda não veio a público o repasse direto de dinheiro do Master no varejo de postos de gasolina.

A Folha tentou contato com Rose Evelyn desde 27 de abril, por email e WhatsApp, mas não teve resposta. Ela atendeu uma ligação da reportagem, mas desligou. A assessoria de imprensa de Vorcaro diz que a defesa dele não se manifestará sobre o tema.

Nos últimos meses, paralelamente ao avanço das apurações do caso Master, a Metanoein foi alvo de uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que impediu a transferência de valores ligados à empresa.

O processo está em segredo de Justiça, mas algumas informações foram divulgadas nos documentos da Metanoein na junta comercial. Os dados mostram um pedido do Ministério Público Federal para o sequestro de contas e aplicações financeiras de Rose Evelyn e seus filhos, apontados como reais proprietários de postos de gasolina mantidos em nome de terceiros.

Também são citados mais quatro nomes apontados como donos de postos e outros 17 que seriam interpostas pessoas, os chamados laranjas. Essa investigação envolve 46 empresas, e a ordem judicial foi registrada na certidão da Metanoein na junta comercial no dia 7 de maio, um dia depois da operação Centelha, deflagrada pela Polícia Federal contra um esquema de lavagem de dinheiro e sonegação ligado ao jogo do bicho no Rio.

A Folha procurou a assessoria de imprensa da PF, mas o órgão não revela se a família de Rose Evelyn foi alvo da Centelha.

De acordo com reportagem da Folha publicada na data da operação, as investigações da operação também apuram ligação com integrantes da família do bicheiro Rogério de Andrade, herdeiro de uma das principais estruturas do jogo do bicho no estado. A suspeita remonta ao período em que o bicheiro Castor de Andrade exercia forte influência sobre a contravenção no Rio.

Um dos alvos da operação foi o posto Castor, cujo dono formal é sócio de uma firma de informática chamada Softcoop, que tinha Cesar Coité entre os sócios. Em 1997, Rose Evelyn trabalhou como advogada do posto Castor.

<><> Mesmo endereço

A Metanoein tem características semelhantes a outra firma que transacionou com o banco de Vorcaro, a Mídias Promotora, que foi alvo de busca e apreensão no mês passado no contexto das apurações sobre investimentos temerários do Rioprevidência, fundo que gere os benefícios de aposentados e pensionistas do Rio de Janeiro.

A Mídias, que recebeu R$ 126,6 milhões do Master, divide com a Metanoein um escritório vizinho ao calçadão de Bangu, tradicional centro do comércio popular do bairro.

As duas firmas têm mais coincidências entre si: cada uma é sócia de uma SCP (Sociedade em Conta de Participação), as quais foram fundadas exatamente no mesmo dia, 28 de julho de 2021. SCP é uma estrutura empresarial de menor regulação, que trabalha com dois tipos de sócio, aquele que aparece nos dados oficiais (chamado de sócio ostensivo, como indica o próprio nome), e aqueles que permanecem ocultos.

Ambas também estão entre as empresas que receberam os maiores volumes de dinheiro do Master, de acordo com os dados enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado.

Conforme a Folha revelou em abril, a Mídias Promotora tem como sócio-administrador Gilson Bahia Vasconcelos, um homem que, a despeito das cifras milionárias recebidas do Master por sua empresa, foi beneficiário do auxílio emergencial do governo na pandemia. Ele também é réu em um processo por golpe de um call center contra aposentados e pensionistas do INSS.

Na primeira reportagem sobre Bahia Vasconcelos, publicada em 24 de abril, a Folha conversou com o advogado dele, que negou participação do administrador no call center do caso em que é réu por estelionato e diz que ele cumpre medidas cautelares. Sobre a Mídias Promotora LTDA, afirma que as movimentações financeiras são legais.

 

Fonte: FolhaPress/ICL Notícias

 

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