Estudo
brasileiro acha sinal químico que denuncia estrelas que comeram planetas;
entenda
Duas
estrelas "gêmeas", nascidas ao mesmo tempo e da mesma nuvem de gás e
poeira, deveriam ter exatamente a mesma composição química.
Mas não
é isso que astrônomos têm observado em alguns sistemas binários — pares de
estrelas que orbitam uma à outra.
Em
alguns casos, uma das estrelas aparece mais "enriquecida" em
determinados elementos do que sua gêmea, e os cientistas ainda não sabiam
exatamente por quê.
Uma
nova pesquisa, liderada por astrônomos do Instituto de Astronomia, Geofísica e
Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), em parceria com
cientistas da Polônia, Itália, China e Austrália, encontrou uma explicação para
esse mistério.
E, de
quebra, uma nova ferramenta para identificar estrelas que, no passado, podem
ter devorado um de seus próprios planetas.
O
estudo, publicado na revista "Astronomy & Astrophysics", analisou
o par de estrelas HD 129171 e HD 129209 e descobriu que uma delas tem uma
quantidade maior de certos elementos químicos do que a outra.
Para os
cientistas, essa diferença é a "marca" deixada por um planeta rochoso
que foi engolido.
Em
entrevista ao g1, a astrônoma Anne Rathsam, aluna de doutorado no IAG/USP e
autora principal do estudo, explicou o passo a passo da descoberta e o que ela
representa.
Segundo
Rathsam, para entender o que aconteceu com essas estrelas, é preciso primeiro
olhar para sua composição química.
"O
que 'entrega' que a estrela engoliu um planeta é a sua composição
química", explicou a pesquisadora. "Quando a estrela ingere um de
seus planetas, esse material é misturado na sua superfície."
A
astrônoma destaca que existem dois grandes grupos de elementos químicos: os
voláteis, que costumam existir na forma de gás, e os refratários, que
normalmente formam sólidos — e que são justamente os principais ingredientes de
planetas rochosos, como a Terra, e dos núcleos de planetas gigantes, como
Júpiter.
Foi
exatamente esse segundo grupo que chamou a atenção dos pesquisadores. Ao
comparar as duas estrelas do par, eles notaram algo curioso: quanto mais
"refratário" era o elemento analisado, maior era a diferença entre as
duas estrelas.
A
estrela HD 129171 se mostrou consistentemente mais rica nesses materiais do que
sua gêmea, HD 129209 — um padrão que, segundo os cientistas, só faz sentido se
ela tiver "absorvido" rocha extra em algum momento de sua história.
Dentro
desse grupo de elementos refratários, dois deles roubaram a cena na pesquisa: o
lítio e, principalmente, o berílio.
A
explicação está na forma como esses elementos se comportam dentro de uma
estrela.
Nenhum
dos dois é produzido no interior estelar — ou seja, qualquer "sobra"
inesperada desses elementos só pode ter vindo de fora, da ingestão de material
rochoso.
Ao
mesmo tempo, ambos vão sendo lentamente destruídos pelo calor extremo do núcleo
da estrela conforme o tempo passa.
A
diferença é que o lítio é destruído a temperaturas mais baixas — cerca de 2,5
milhões de graus Celsius — enquanto o berílio resiste até cerca de 3,5 milhões
de graus. Para se ter uma ideia, mesmo o Sol, com sua superfície
"amena" de 5.800°C, tem um núcleo que chega a 15 milhões de graus.
Isso
significa que, quando uma estrela engole um planeta, ela ganha um
"excesso" temporário de lítio e berílio — mas, com o tempo, esse
sinal vai se apagando.
Como o
berílio aguenta temperaturas mais altas antes de ser destruído, sua marca dura
mais tempo do que a do lítio.
Por
essa razão, segundo a pesquisadora, estudos anteriores sobre possíveis casos de
"estrelas devoradoras de planetas" haviam deixado o berílio de lado,
justamente pela dificuldade técnica de medi-lo — uma lacuna que esta pesquisa
ajudou a preencher.
Como o
berílio é destruído a temperaturas mais altas, ele é mais resistente, e sua
assinatura pode durar mais tempo do que a assinatura de lítio. Dessa forma, o
berílio pode ser um indicador mais forte de ingestão planetária do que o lítio.
— Anne
Rathsam, aluna de doutorado no IAG/USP e autora principal do estudo.
Para
chegar a essas conclusões, a equipe usou dados do espectrógrafo UVES, instalado
no telescópio VLT (Very Large Telescope), de 8,2 metros, do Observatório
Europeu do Sul, no Chile. Esse instrumento funciona como um prisma sofisticado,
separando a luz das estrelas em diferentes frequências e revelando a presença
de cada elemento químico.
A
análise mostrou que HD 129171 e HD 129209 têm composições parecidas quando se
trata de elementos voláteis — como esperado para duas estrelas
"gêmeas".
Porém,
quando o foco passa para os elementos refratários, HD 129171 se destaca como a
mais "enriquecida" das duas, com abundâncias maiores também de lítio
e berílio.
"Como
HD 129171 é muito mais rica em elementos refratários do que HD 129209 (e quanto
mais refratário o elemento, maior a diferença), e em especial, possui uma maior
abundância de lítio e berílio, nós temos evidências fortes que indicam que HD
129171 ingeriu um planeta", explica Rathsam.
E dá
para saber que tipo de planeta foi engolido ou quando isso aconteceu? Segundo
Rathsam, só parcialmente.
A
assinatura química mostra que houve ingestão de material rochoso, mas não
revela se ele veio de um único planeta grande ou de vários corpos menores — em
estrelas com massa parecida com a do Sol, como as do estudo, todo o material
acrescido se mistura e some rapidamente, tornando os dois cenários
indistinguíveis.
Já o
"quando" tem uma pista: como o lítio e o berílio extras ainda não
foram totalmente destruídos, o evento precisa ter sido relativamente recente na
escala astronômica, embora uma data exata dependa de modelos teóricos ainda
pouco precisos.
O ponto
mais intrigante, porém, está nas implicações para a busca por vida fora da
Terra. Pares de estrelas "gêmeas" com química diferente intrigavam os
astrônomos: ou as nuvens que formam as estrelas não são tão homogêneas quanto
se pensava, ou parte das estrelas engole seus próprios planetas em algum
momento.
A
descoberta do par HD 129171/HD 129209, com a nova "ferramenta" do
berílio, reforça a segunda hipótese — bem diferente do Sistema Solar, que tem
"oito planetas com órbitas quase circulares e muito estáveis", como
destacou Rathsam.
Se
sistemas instáveis forem comuns no universo, sistemas como o Solar podem ser
mais raros do que se imagina.
E isso
importa porque a vida complexa requer milhares de anos para que possa surgir e
evoluir — algo que só acontece em um planeta que não seja destruído pela
própria estrela ao longo do caminho.
Fonte:
g1

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