quarta-feira, 17 de junho de 2026

Rudá Ricci: Os limites do lulismo

Nos anos eleitorais, apelo às políticas sociais ganha relevo. Em seguida, desaparecem o diálogo e a mobilização das bases. Em especial no terceiro governo, Lula limita disputa ao campo que o governo desenha para si – e recusa-se a construir um projeto de país...

Num dos grupos de whatsapp que participo, surgiu a pergunta sobre os motivos da esquerda latinoamericana vencer, mas não conseguir governar.

Veio à memória um artigo escrito por Jorge Castañeda, publicado na revista Foreign Affairs em 2006 sob o título “A Virada à esquerda da América Latina”, sugerindo que a lógica da esquerda regional oscilar entre o pragmatismo institucional e o radicalismo vanguardista. Ambos transitariam sobre a vertente discursiva do antagonismo entre elites e povo. Aliás, estes dois conceitos (elite e povo) são mais afetos ao campo teórico liberal progressista que propriamente às teorias clássicas de esquerda, como o marxismo.

Assim, o getulismo e peronismo dariam lugar a um certo populismo em que parte da esquerda teria embarcado e que derivaria, nos anos de crise aberta pela adoção de políticas alinhadas ao Consenso de Washington, à renovação deste ideário em vários países da América Latina.

Na outra ponta, o exemplo castrista cubano e as vanguardas organizadas em organizações guerrilheiras teriam criado braços partidários de massa.

Essas esquerdas governaram por algum tempo com certa estabilidade – caso da Bolívia e Venezuela, em especial. Na Argentina e Equador, assim como na Nicarágua, os destinos foram mais agudos e trágicos.

Contudo, no Brasil, o advento do lulismo foi mais complexo, além de ter elegido cinco Presidentes da República neste século, foi o mais longevo modelo de gestão de Estado do campo progressista latino-americano. Suas peculiaridades sugerem um detalhamento.

O lulismo é um modelo de gestão do Estado. Ele não é um projeto de sociedade, é um modelo de gestão do Estado.

Um modelo que tem traços nítidos do que o Norberto Bobbio um dia denominou de social-liberalismo, reconhecido como um ideário com forte preocupação com a agenda social e com a inclusão, desde que subordinadas aos interesses e ao acordo com o alto empresariado nacional. O que, na prática, avança até certo ponto.

A pauta social do lulismo é muito peculiar, porque ela adota nítidos traços de populismo eleitoral. Esses traços foram se consolidando a partir da segunda metade da década de 1990, quando o partido de Lula decide focar sua atenção nas disputas do campo institucional, e se cristaliza com a vitória eleitoral de Lula em 2002.

Atualmente, esta lógica parece revigorada, às portas da eleição nacional que pode dar a reeleição de Lula. Cito, como mera ilustração, o programa Desenrola2, que objetiva auxiliar na superação das dívidas das famílias brasileiras. O Novo Desenrola Brasil (Desenrola 2.0) impacta a economia ao oferecer descontos de até 90%, juros máximos de 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 vezes para pessoas físicas com renda de até 5 salários-mínimos. As projeções de economistas dão conta que este programa tem potencial para adicionar entre 0,15 pontos percentuais e 0,25 pontos percentuais no crescimento do PIB.

Pesquisas recentes, como as do Datafolha, revelaram que este programa recebeu apoio amplo mesmo entre eleitores que não aprovam o governo, sendo que 68% dos endividados dizem esperar benefício pessoal. Entre os brasileiros sem dívidas, 39% dizem acreditar que também podem obter algum ganho pessoal com a medida, enquanto 73% enxergam impacto favorável para a economia.

Enfim, a adoção deste programa segue a rota de anúncios que melhoram a imagem do governo neste ano eleitoral. Neste caso, os traços de populismo eleitoral não mobilizam ou articulam as organizações populares para trazer seus interesses e pautas para dentro do Estado, algo que ainda aparecia nos primeiros dois governos de Lula (2003 a 2006 e 2007 a 2010).

Na terceira versão do governo Lula, essas arenas neocorporativas onde movimentos sociais e sindicatos negociam políticas públicas federais, se diluíram ou desapareceram.

Neste sentido, seria o caso de definirmos se o lulismo é realmente representante das esquerdas latinoamericanas. Porque se trata de um ideário político que efetivamente governa. Não se trata de uma força que ganha eleição e não consegue governar por pressões de todos os lados. Na sua quinta versão, o lulismo no governo tem poder. Porque se trata de uma simbiose entre um ideário de avanço social no país e fomento à incursão nacional num projeto mais amplo de pós-modernidade. Talvez daí venha a longevidade do lulismo. Não rompe, mas não se acomoda plenamente ao status quo. Algo que já se disse parecer com o Carnaval brasileiro que “transgride dentro da ordem”.

Assim, em anos eleitorais o populismo das políticas sociais ganham relevo no discurso lulista, dando a impressão de se inclinar mais à esquerda. Contudo, analisando com mais profundidade, trata-se de uma agenda que se subordina aos interesses do grande capital. O grande capital que, paradoxalmente, o lulismo tenta acanhadamente se aproximar, mas é sempre rejeitado por ele, a despeito de movimentos bissextos como na articulação de resposta ao tarifaço decretado por Trump.

O que parece um ideário é uma nexo ao modelo de gestão do Estado lulista: não projeta uma nação, um país, mas alinha políticas sociais de alto impacto eleitoral.

No debate que se seguiu no grupo de WhatsApp, o baiano André Bittencourt citou três autores que contribuiriam neste diagnóstico.

Citou a socióloga argentina Maristella Svampa que descreve em escala regional o que denomina de “consenso das commodities”. Na sua leitura, a ordem política, econômica e ideológica adotada na América Latina durante o boom das matérias-primas, consolidou um modelo de desenvolvimento neoextrativista e de exportação de bens primários em larga escala. Os progressismos, nas suas palavras, pactuaram com o grande capital, financiaram a inclusão com a renda do boom e distribuíram sem tocar na estrutura, até o fim de ciclo. Acontece que tal pacto criou contradições que permanecem, como os conflitos territoriais e ambientais que acabam por gerar discursos e práticas desencontradas dos governos de esquerda ou no governo lulista.

André também cita Massimo Modonesi, da Universidade Nacional Autônoma do México, denominou de revoluções passivas, ou seja, o desaparecimento do “recurso político fundamental para a história das classes subalternas: a iniciativa dos de baixo, a capacidade de organização, de mobilização e de luta”. A iniciativa viria desde cima, dos governos, que acaba por criar uma hegemonia débil e instável. Na ânsia de garantir margem de manobra para governar, as cúpulas – ou elites – partidárias das esquerdas ou lulismo limite qualquer movimento de participação ou “formação de poder popular ou de contrapoderes pelos de baixo”.

Neste caso, o lulismo teria dificuldades para governar ou governa como realmente deseja? Os solavancos e disputas que travam seus projetos no Congresso Nacional conformariam um recuo programático do lulismo no governo ou seria justamente a lógica de disputa limitada ao campo institucional que desenhou para si?

Porque sem relações fluidas e intensas com a base social que o elege, o período seguinte às eleições passa a ser o de apresentação de agendas negociadas com forças políticas não alinhadas, acenos ao empresariado, controle dos gastos públicos, acenos ao empresariado com controle inflacionário e política fiscal. É como se a aparente tática de negociação permanente fosse mesmo a estratégia.

Neste caso, as tensões, agruras e jogadas de xadrez diárias seriam o “leitmotiv” da ordem lulista.

Enfim, trata-se de uma ordem política, social e econômica. Não é um projeto de sociedade, mas uma forma de gerir o Estado. Talvez, daí venha sua longevidade.

•        Muita coisa em jogo: prioridade da direita deve ser derrotar Lula, mas como? Por Rodrigo Constantino

A última pesquisa da Nexus/BTG Pactual (Registro no TSE BR-06645/2026, contratada pelo Banco BTG Pactual, com 2.017 entrevistados pelo instituto Nexus entre os dias 12 e 14 de junho de 2026, nível de confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais), divulgada nesta segunda-feira (15), coloca Lula liderando no primeiro turno com 9 pontos percentuais de vantagem para Flávio Bolsonaro (PL). Na simulação de segundo turno entre os dois, o petista ainda venceria a disputa direta.

Nas outras simulações de segundo turno, o petista também venceria Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão). A polarização está clara entre petistas e antipetistas, mas parece que nenhum nome mais à direita tem sido convincente, nem mesmo o de Flávio, com o sobrenome Bolsonaro como principal trunfo.

O presidente eleito este ano poderá indicar um quinto dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), além de vários para tribunais superiores. Além da questão mais iminente de recuperar a economia, rumo ao abismo, há, portanto, um foco de longo prazo: o Brasil talvez não aguente mais quatro anos de PT, com um grau de aparelhamento completo das instituições. A prioridade deve ser derrotar o Lula. A dúvida é: como?

O caso Banco Master machucou a pré-candidatura de Flávio, fato inegável que mesmo seu coordenador de campanha, o senador Rogerio Marinho, admitiu em entrevista recente ao Globo. Se o senador tivesse sido mais transparente desde o começo, talvez não houvesse um custo tão alto. Mas da forma que tudo veio a público, e com a reação dos bolsonaristas, o efeito negativo é evidente.

Se Jair Bolsonaro fosse o candidato, ou pudesse ao menos comandar a campanha do seu filho, tudo seria diferente. Mas ele está preso e calado, pois esse era o intuito do sistema. E seus filhos não possuem o mesmo carisma, o mesmo capital político e a mesma desenvoltura para articulações partidárias. O risco que o Brasil corre, como resultado disso, é enorme

Não importa se isso é injusto ou falsa equivalência; importa a percepção. E, sendo assim, a direita perde sua principal bandeira contra o lulismo: a bandeira da ética. Uma campanha contra o lulismo que não pode usar o caso Daniel Vorcaro como munição, por exemplo, larga em desvantagem. Uma propaganda antissistema que sequer pode bater de frente com Alexandre de Moraes soa falsa. É um problema real para a candidatura de Flávio.

Além disso, seus irmãos Carlos e Eduardo passam o dia implodindo pontes. Eduardo chegou a defender que o PL rompa qualquer aliança com o Partido Novo, por conta das críticas feitas por Romeu Zema. Eduardo também defendeu Júlia Zanatta como vice, uma escolha que fica totalmente limitada à bolha bolsonarista. Zanatta imediatamente embarcou na campanha de Eduardo para se afastar do Novo. Será que Jair Bolsonaro concordaria?

Bolsonaro é mais capaz de engolir sapos e tem mais pragmatismo, mas está ostracizado pelo sistema, incapaz de articular politicamente e comandar a campanha do filho. Já chegou, por carta, a pedir que a direita parasse com ataques mútuos e que deixassem sua esposa em paz, mas em vão: a ala “bolsonarista” mais fanática ignora cada pedido e insiste em ataques constantes contra “traidores”. Essa turma passa o dia detonando Nikolas Ferreira, Michelle Bolsonaro, Rogério Marinho e tantos outros. Ajuda a atrair algum voto?

Fazer uma análise realista da situação é fundamental para evitar falsas ilusões. Há bolsonaristas que ainda falam em vitória no primeiro turno, ignorando completamente a realidade. Podemos, aqui, traçar um paralelo com a Copa do Mundo e a estreia sofrível da nossa seleção. Eu torço para o Brasil, mas, infelizmente, eu não acho que vamos levar essa Copa. Isso é uma análise imparcial e independente, não uma torcida. E minha torcida, aliás, não tem o poder de mudar o resultado. Não sou o técnico, muito menos um jogador em campo. Minha previsão realista tampouco me transforma em traidor.

Mas os nervos estão à flor da pele, as redes sociais foram dominadas por gente agressiva, e poucos querem escutar a verdade. Preferem xingar os outros, principalmente quem “toca a real”. Se Jair Bolsonaro fosse o candidato, ou pudesse ao menos comandar a campanha do seu filho, tudo seria diferente. Mas ele está preso e calado, pois esse era o intuito do sistema. E seus filhos não possuem o mesmo carisma, o mesmo capital político e a mesma desenvoltura para articulações partidárias. O risco que o Brasil corre, como resultado disso, é enorme. Há muita coisa em jogo, e a direita não tem se mostrado capaz de apresentar uma alternativa realmente competitiva.

 

Fonte: Outras Palavras/Gazeta do Povo

 

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