Rudá
Ricci: Os limites do lulismo
Nos
anos eleitorais, apelo às políticas sociais ganha relevo. Em seguida,
desaparecem o diálogo e a mobilização das bases. Em especial no terceiro
governo, Lula limita disputa ao campo que o governo desenha para si – e
recusa-se a construir um projeto de país...
Num dos
grupos de whatsapp que participo, surgiu a pergunta sobre os motivos da
esquerda latinoamericana vencer, mas não conseguir governar.
Veio à
memória um artigo escrito por Jorge Castañeda, publicado na revista Foreign
Affairs em 2006 sob o título “A Virada à esquerda da América Latina”, sugerindo
que a lógica da esquerda regional oscilar entre o pragmatismo institucional e o
radicalismo vanguardista. Ambos transitariam sobre a vertente discursiva do
antagonismo entre elites e povo. Aliás, estes dois conceitos (elite e povo) são
mais afetos ao campo teórico liberal progressista que propriamente às teorias
clássicas de esquerda, como o marxismo.
Assim,
o getulismo e peronismo dariam lugar a um certo populismo em que parte da
esquerda teria embarcado e que derivaria, nos anos de crise aberta pela adoção
de políticas alinhadas ao Consenso de Washington, à renovação deste ideário em
vários países da América Latina.
Na
outra ponta, o exemplo castrista cubano e as vanguardas organizadas em
organizações guerrilheiras teriam criado braços partidários de massa.
Essas
esquerdas governaram por algum tempo com certa estabilidade – caso da Bolívia e
Venezuela, em especial. Na Argentina e Equador, assim como na Nicarágua, os
destinos foram mais agudos e trágicos.
Contudo,
no Brasil, o advento do lulismo foi mais complexo, além de ter elegido cinco
Presidentes da República neste século, foi o mais longevo modelo de gestão de
Estado do campo progressista latino-americano. Suas peculiaridades sugerem um
detalhamento.
O
lulismo é um modelo de gestão do Estado. Ele não é um projeto de sociedade, é
um modelo de gestão do Estado.
Um
modelo que tem traços nítidos do que o Norberto Bobbio um dia denominou de
social-liberalismo, reconhecido como um ideário com forte preocupação com a
agenda social e com a inclusão, desde que subordinadas aos interesses e ao
acordo com o alto empresariado nacional. O que, na prática, avança até certo
ponto.
A pauta
social do lulismo é muito peculiar, porque ela adota nítidos traços de
populismo eleitoral. Esses traços foram se consolidando a partir da segunda
metade da década de 1990, quando o partido de Lula decide focar sua atenção nas
disputas do campo institucional, e se cristaliza com a vitória eleitoral de
Lula em 2002.
Atualmente,
esta lógica parece revigorada, às portas da eleição nacional que pode dar a
reeleição de Lula. Cito, como mera ilustração, o programa Desenrola2, que
objetiva auxiliar na superação das dívidas das famílias brasileiras. O Novo
Desenrola Brasil (Desenrola 2.0) impacta a economia ao oferecer descontos de
até 90%, juros máximos de 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 vezes para
pessoas físicas com renda de até 5 salários-mínimos. As projeções de
economistas dão conta que este programa tem potencial para adicionar entre 0,15
pontos percentuais e 0,25 pontos percentuais no crescimento do PIB.
Pesquisas
recentes, como as do Datafolha, revelaram que este programa recebeu apoio amplo
mesmo entre eleitores que não aprovam o governo, sendo que 68% dos endividados
dizem esperar benefício pessoal. Entre os brasileiros sem dívidas, 39% dizem
acreditar que também podem obter algum ganho pessoal com a medida, enquanto 73%
enxergam impacto favorável para a economia.
Enfim,
a adoção deste programa segue a rota de anúncios que melhoram a imagem do
governo neste ano eleitoral. Neste caso, os traços de populismo eleitoral não
mobilizam ou articulam as organizações populares para trazer seus interesses e
pautas para dentro do Estado, algo que ainda aparecia nos primeiros dois
governos de Lula (2003 a 2006 e 2007 a 2010).
Na
terceira versão do governo Lula, essas arenas neocorporativas onde movimentos
sociais e sindicatos negociam políticas públicas federais, se diluíram ou
desapareceram.
Neste
sentido, seria o caso de definirmos se o lulismo é realmente representante das
esquerdas latinoamericanas. Porque se trata de um ideário político que
efetivamente governa. Não se trata de uma força que ganha eleição e não
consegue governar por pressões de todos os lados. Na sua quinta versão, o
lulismo no governo tem poder. Porque se trata de uma simbiose entre um ideário
de avanço social no país e fomento à incursão nacional num projeto mais amplo
de pós-modernidade. Talvez daí venha a longevidade do lulismo. Não rompe, mas
não se acomoda plenamente ao status quo. Algo que já se disse parecer com o
Carnaval brasileiro que “transgride dentro da ordem”.
Assim,
em anos eleitorais o populismo das políticas sociais ganham relevo no discurso
lulista, dando a impressão de se inclinar mais à esquerda. Contudo, analisando
com mais profundidade, trata-se de uma agenda que se subordina aos interesses
do grande capital. O grande capital que, paradoxalmente, o lulismo tenta
acanhadamente se aproximar, mas é sempre rejeitado por ele, a despeito de
movimentos bissextos como na articulação de resposta ao tarifaço decretado por
Trump.
O que
parece um ideário é uma nexo ao modelo de gestão do Estado lulista: não projeta
uma nação, um país, mas alinha políticas sociais de alto impacto eleitoral.
No
debate que se seguiu no grupo de WhatsApp, o baiano André Bittencourt citou
três autores que contribuiriam neste diagnóstico.
Citou a
socióloga argentina Maristella Svampa que descreve em escala regional o que
denomina de “consenso das commodities”. Na sua leitura, a ordem política,
econômica e ideológica adotada na América Latina durante o boom das
matérias-primas, consolidou um modelo de desenvolvimento neoextrativista e de
exportação de bens primários em larga escala. Os progressismos, nas suas
palavras, pactuaram com o grande capital, financiaram a inclusão com a renda do
boom e distribuíram sem tocar na estrutura, até o fim de ciclo. Acontece que
tal pacto criou contradições que permanecem, como os conflitos territoriais e
ambientais que acabam por gerar discursos e práticas desencontradas dos
governos de esquerda ou no governo lulista.
André
também cita Massimo Modonesi, da Universidade Nacional Autônoma do México,
denominou de revoluções passivas, ou seja, o desaparecimento do “recurso
político fundamental para a história das classes subalternas: a iniciativa dos
de baixo, a capacidade de organização, de mobilização e de luta”. A iniciativa
viria desde cima, dos governos, que acaba por criar uma hegemonia débil e
instável. Na ânsia de garantir margem de manobra para governar, as cúpulas – ou
elites – partidárias das esquerdas ou lulismo limite qualquer movimento de
participação ou “formação de poder popular ou de contrapoderes pelos de baixo”.
Neste
caso, o lulismo teria dificuldades para governar ou governa como realmente
deseja? Os solavancos e disputas que travam seus projetos no Congresso Nacional
conformariam um recuo programático do lulismo no governo ou seria justamente a
lógica de disputa limitada ao campo institucional que desenhou para si?
Porque
sem relações fluidas e intensas com a base social que o elege, o período
seguinte às eleições passa a ser o de apresentação de agendas negociadas com
forças políticas não alinhadas, acenos ao empresariado, controle dos gastos
públicos, acenos ao empresariado com controle inflacionário e política fiscal.
É como se a aparente tática de negociação permanente fosse mesmo a estratégia.
Neste
caso, as tensões, agruras e jogadas de xadrez diárias seriam o “leitmotiv” da
ordem lulista.
Enfim,
trata-se de uma ordem política, social e econômica. Não é um projeto de
sociedade, mas uma forma de gerir o Estado. Talvez, daí venha sua longevidade.
• Muita coisa em jogo: prioridade da
direita deve ser derrotar Lula, mas como? Por Rodrigo Constantino
A
última pesquisa da Nexus/BTG Pactual (Registro no TSE BR-06645/2026, contratada
pelo Banco BTG Pactual, com 2.017 entrevistados pelo instituto Nexus entre os
dias 12 e 14 de junho de 2026, nível de confiança de 95% e margem de erro de 2
pontos percentuais), divulgada nesta segunda-feira (15), coloca Lula liderando
no primeiro turno com 9 pontos percentuais de vantagem para Flávio Bolsonaro
(PL). Na simulação de segundo turno entre os dois, o petista ainda venceria a
disputa direta.
Nas
outras simulações de segundo turno, o petista também venceria Romeu Zema
(Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão). A polarização está clara
entre petistas e antipetistas, mas parece que nenhum nome mais à direita tem
sido convincente, nem mesmo o de Flávio, com o sobrenome Bolsonaro como
principal trunfo.
O
presidente eleito este ano poderá indicar um quinto dos ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF), além de vários para tribunais superiores. Além da
questão mais iminente de recuperar a economia, rumo ao abismo, há, portanto, um
foco de longo prazo: o Brasil talvez não aguente mais quatro anos de PT, com um
grau de aparelhamento completo das instituições. A prioridade deve ser derrotar
o Lula. A dúvida é: como?
O caso
Banco Master machucou a pré-candidatura de Flávio, fato inegável que mesmo seu
coordenador de campanha, o senador Rogerio Marinho, admitiu em entrevista
recente ao Globo. Se o senador tivesse sido mais transparente desde o começo,
talvez não houvesse um custo tão alto. Mas da forma que tudo veio a público, e
com a reação dos bolsonaristas, o efeito negativo é evidente.
Se Jair
Bolsonaro fosse o candidato, ou pudesse ao menos comandar a campanha do seu
filho, tudo seria diferente. Mas ele está preso e calado, pois esse era o
intuito do sistema. E seus filhos não possuem o mesmo carisma, o mesmo capital
político e a mesma desenvoltura para articulações partidárias. O risco que o
Brasil corre, como resultado disso, é enorme
Não
importa se isso é injusto ou falsa equivalência; importa a percepção. E, sendo
assim, a direita perde sua principal bandeira contra o lulismo: a bandeira da
ética. Uma campanha contra o lulismo que não pode usar o caso Daniel Vorcaro
como munição, por exemplo, larga em desvantagem. Uma propaganda antissistema
que sequer pode bater de frente com Alexandre de Moraes soa falsa. É um
problema real para a candidatura de Flávio.
Além
disso, seus irmãos Carlos e Eduardo passam o dia implodindo pontes. Eduardo
chegou a defender que o PL rompa qualquer aliança com o Partido Novo, por conta
das críticas feitas por Romeu Zema. Eduardo também defendeu Júlia Zanatta como
vice, uma escolha que fica totalmente limitada à bolha bolsonarista. Zanatta
imediatamente embarcou na campanha de Eduardo para se afastar do Novo. Será que
Jair Bolsonaro concordaria?
Bolsonaro
é mais capaz de engolir sapos e tem mais pragmatismo, mas está ostracizado pelo
sistema, incapaz de articular politicamente e comandar a campanha do filho. Já
chegou, por carta, a pedir que a direita parasse com ataques mútuos e que
deixassem sua esposa em paz, mas em vão: a ala “bolsonarista” mais fanática
ignora cada pedido e insiste em ataques constantes contra “traidores”. Essa
turma passa o dia detonando Nikolas Ferreira, Michelle Bolsonaro, Rogério
Marinho e tantos outros. Ajuda a atrair algum voto?
Fazer
uma análise realista da situação é fundamental para evitar falsas ilusões. Há
bolsonaristas que ainda falam em vitória no primeiro turno, ignorando
completamente a realidade. Podemos, aqui, traçar um paralelo com a Copa do
Mundo e a estreia sofrível da nossa seleção. Eu torço para o Brasil, mas,
infelizmente, eu não acho que vamos levar essa Copa. Isso é uma análise
imparcial e independente, não uma torcida. E minha torcida, aliás, não tem o
poder de mudar o resultado. Não sou o técnico, muito menos um jogador em campo.
Minha previsão realista tampouco me transforma em traidor.
Mas os
nervos estão à flor da pele, as redes sociais foram dominadas por gente
agressiva, e poucos querem escutar a verdade. Preferem xingar os outros,
principalmente quem “toca a real”. Se Jair Bolsonaro fosse o candidato, ou
pudesse ao menos comandar a campanha do seu filho, tudo seria diferente. Mas
ele está preso e calado, pois esse era o intuito do sistema. E seus filhos não
possuem o mesmo carisma, o mesmo capital político e a mesma desenvoltura para
articulações partidárias. O risco que o Brasil corre, como resultado disso, é
enorme. Há muita coisa em jogo, e a direita não tem se mostrado capaz de
apresentar uma alternativa realmente competitiva.
Fonte:
Outras Palavras/Gazeta do Povo

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