‘Brasil
consome muito futebol da Europa e EUA’: jornalista explica como aproveitar a
Copa para olhar a África
Pela
primeira vez, o continente africano está representado com 10 seleções na Copa
do Mundo. Apesar de pouco conhecido e divulgado, o futebol é forte na África. A
partida entre Brasil e Marrocos deu o tom desse cenário, já que a seleção
brasileira encontrou dificuldades e conseguiu apenas o empate por 1 x 1. Nesta
segunda-feira (15), foi a vez de Cabo Verde dar muito trabalho a uma das
seleções favoritas do mundo, a Espanha, em jogo que ficou no 0 x 0, com atuação
histórica do goleiro Vozinha.
Mesmo
antes de chegar dentro das quatro linhas, o continente africano também tem
ocupado o noticiário, já que houve casos de racismo na chegada de algumas
delegações aos Estados Unidos e um episódio emblemático da deportação do
árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, por autoridades da imigração do governo
de Donald Trump.
Ao BdF
Entrevista, o jornalista Luis Fernando Filho, criador do Ponta de Lança,
classifica o caso como racismo evidente. Ele defende que política e futebol são
indissociáveis em algumas questões, e essa é uma delas.
“A
gente está falando de um cara que ficou de 11 a 15 horas sendo interrogado pelo
governo dos Estados Unidos simplesmente porque ele é da Somália, um país que
tem tensões com os Estados Unidos por causa do grupo terrorista Al-Shabaab, que
domina o país, e, infelizmente, dá muita dor de cabeça para o governo somali.
Omar foi interrogado com uma incriminação dos órgãos interrogatórios, dizendo
que ele tinha ligação com membros terroristas do grupo Al-Shabaab, o que não
foi comprovado em nenhum momento. Então, a gente está falando de uma acusação
muito grave contra um árbitro do futebol, que basicamente está dentro daquele
estereótipo que países do Ocidente colocam sobre vários países africanos,
especialmente que eles detectam como inimigo”, pondera.
“O
próprio Donald Trump falou, há um tempo atrás, que a Somália é um país de
quarto mundo”, lembra. “O caso do Omar é bem sintomático dessa relação e desse
estereótipo de algumas regiões do continente africano, do continente asiático,
do Oriente Médio, que são ditos inimigos diplomáticos dos Estados Unidos, e, de
uma forma ou outra, pessoas que não têm nada a ver com nada disso estão
sofrendo.”
Filho
destaca que alguns países africanos vivem, neste momento, cenários de guerra
civil e conflitos internos bastante perturbadores e que é possível que isso
apareça de alguma forma em manifestações durante os jogos. Um dos exemplos é o
Congo. “A gente está falando da República Democrática do Congo tendo um dos
solos mais ricos do mundo e historicamente sendo explorado pelo Ocidente. E
quando eu falo Ocidente, é muito interessante, porque a gente está falando de
muitas guerras e conflitos civis que acontecem no continente africano, mas que
têm o apoio do Ocidente. A gente está vendo um conflito no Sudão, que até agora
está acontecendo, e com um apoio maciço de países fora da África, apoiando ou o
grupo paramilitar ou o Exército militar do Sudão. E no Congo não é diferente;
lá tem muito recurso mineral, o mundo está olhando para aquilo. A mão invisível
do Ocidente está sempre presente no continente africano”, relata.
Luis
Fernando Filho defende que a Copa é uma ótima oportunidade para que os
brasileiros passem a descolonizar um pouco o imaginário futebolístico,
hiperfocado nos campeonatos europeus. “No Brasil, a gente consome muito essa
cultura, ou estadunidense ou europeia”, diz. “A África do Sul, que já estreou
contra o México, tem quase 100% do elenco feito na África do Sul. A maioria dos
jogadores ou é do Mamelodi Sundowns — que é o atual campeão africano, que jogou
contra o Fluminense no Super Mundial de Clubes e está confirmado no Mundial de
Clubes no final do ano já — e do Orlando Pirates, que acabou de ser campeão
sul-africano também. É basicamente a base da África do Sul que está na Copa do
Mundo em 2026. Ao contrário de outras seleções, em que grande parte está
jogando já na Europa, a África do Sul é uma seleção extremamente doméstica. E
se você acompanha pelo menos um jogo, você percebe que tem muito talento”,
destaca.
• Copa do Mundo: como histórias de
colonização e tortura unem França, Senegal, Argentina e Argélia
Os
jogos da Copa do Mundo na terça-feira (16) reuniram países com disputas que vão
muito além das quatro linhas.
Coordenador
de jornalismo do Brasil de Fato, Lucas Estanislau lembra que o embate entre
Argentina e Argélia marcará a estreia de Lionel Messi no mundial. Mas as
conexões históricas entre os países remontam aos anos 1950 e envolvem a
violência colonial.
“Em
1954, quando a Argélia ainda não era um país independente, o povo argelino
lutava contra a dominação francesa”, recorda. “Naquele ano, vários movimentos
independentistas se unificaram na chamada FLN, a Frente de Libertação Nacional,
para empreender uma luta armada de todo um povo. Isso implicava em táticas
insurgentes de guerra revolucionária e contava com a atuação do Kasbah de
Argel, um grande bairro popular, que derrubou a dominação francesa. Como
funcionava isso? Não apenas os guerrilheiros iam para a luta armada contra o
Exército francês, mas também a população local, que acobertava os
guerrilheiros. O Exército da FLN foi muito vitorioso durante anos”, conta.
Após
essa disputa, os franceses criaram técnicas para conter movimentos rebeldes,
que incluíam perseguição, invasão de domicílios e tortura, e exportaram esse
modelo de repressão para diversos países, inclusive a Argentina. “Quando o
peronismo ficou proibido na Argentina, após o golpe, militantes peronistas
foram perseguidos e ali, naquele momento, a presença de militares franceses se
deu de forma muito intensa para ensinarem os argentinos essas táticas”,
relembra.
“Os
povos argelino e argentino guardam, de certa forma, um passado de luta contra a
repressão francesa e a repressão argentina e toda uma luta pelos direitos
humanos e pela memória e justiça. Inclusive, há documentos que provam que o
Exército dos EUA ficava até com inveja das táticas militares de perseguição e
tortura contra movimentos insurgentes”, destaca. “A França fez escola e
exportou modelo de perseguição a militantes, processos de tortura e
desaparecimentos forçados.”
Assim
como a Argélia, o Senegal foi colônia francesa. Lucas conta que a independência
dos dois países está conectada. “Mesmo com todo o aparato de repressão, a
França não estava conseguindo derrotar a FLN, porque era a luta de todo um povo
contra a dominação”, conta. Senegal acabou então sendo inspirado pela luta
argelina e, em 1960, consegue iniciar seu processo de libertação.
“Acho
que não tem como [essas questões políticas] não entrarem em campo. O sentimento
de pátria, nacionalidade está muito arraigado em cada um de nós. Tanto nesse
passado africano, como no nosso latino-americano, tem a história de ter sido
colônia europeia; esse sentimento de identidade fica arraigado e acho que entra
em campo, sim”, avalia Lucas Estanislau.
• Brasil "busca o antigo
encanto" na Copa, diz mídia alemã
A
imprensa alemã não poupou críticas à estreia da seleção brasileira na Copa do
Mundo de 2026, no empate em 1 a 1 com o Marrocos neste sábado. Publicações
afirmaram neste domingo (14/06) que a equipe se apresentou em um "duelo
intenso", exibiu "duas caras", jogando sem forma de campeão, com
um desempenho que ficou muito aquém do brilho do passado de uma seleção
pentacampeã.
Para as
publicações, o Brasil mostrou talento, mas também exibiu fragilidades que
colocam em dúvida seu status de favorito logo na largada.
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"Duas caras"
O site
esportivo Kicker foi direto ao caracterizar o jogo como um "duelo
intenso" e apontar que o Brasil demorou a entrar na partida. Segundo o
veículo, a seleção não conseguiu controlar o jogo e precisou recorrer à
qualidade individual de Vinícius Júnior para evitar um resultado pior.
Na
avaliação do portal, o Brasil apresentou "duas caras": uma equipe
apática e desorganizada no primeiro tempo e outra mais competitiva depois do
empate, mas ainda sem domínio real do adversário.
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Em busca do velho encanto
Já o
renomado diário Süddeutsche Zeitung veículo destacou que o Brasil segue em
busca do "antigo encanto" (ou seja, do futebol brilhante que
consagrou a seleção historicamente) e indicou que o empate só foi possível
graças a um momento de genialidade individual. Ao mesmo tempo, ressaltou que o
Marrocos já se consolidou como adversário de alto nível, capaz de enfrentar as
potências de igual para igual.
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Adversários "exigiram tudo um do outro"
O site
Tagesschau, da emissora pública ARD, uma das principais referências
jornalísticas da Alemanha, destacou o caráter equilibrado do confronto,
afirmando que Brasil e Marrocos "exigiram tudo um do outro".
A
análise ressaltou a intensidade do duelo e o fato de que, embora o Brasil tenha
melhorado ao longo do jogo, não conseguiu transformar esse crescimento em
domínio claro. A leitura reforça a ideia de uma partida parelha, na qual a
seleção teve dificuldades para impor seu ritmo diante de um adversário bem
estruturado.
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Lembranças do 7 a 1
A
agência de notícias alemã SID, especializada em informações esportivas,
classificou a estreia brasileira no Mundial como uma exibição de "pouco
brilho" e destacou que, apesar de Vinícius Júnior ter evitado um
"início desastroso", o empate gerou forte inquietação no Brasil, com
direito a comparações com o traumático 7 a 1 de 2014.
Segundo
o veículo, o desempenho brasileiro no primeiro tempo foi marcado por
nervosismo, falta de ideias e baixa qualidade técnica. Esse cenário, na
avaliação da agência, fez crescer a pressão sobre Carlo Ancelotti, embora o
treinador tenha reagido com calma, afirmando que "uma Copa não se ganha no
primeiro jogo" e garantindo que a equipe tende a evoluir.
A SID
também enfatizou a dependência da seleção em relação a Vinícius Júnior, ao
mesmo tempo em que apontou a ausência de Neymar como um fator que amplia as
incertezas. O recado implícito é claro: o Brasil evitou a derrota, mas não
convenceu.
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Fora dos favoritos
A
agência alemã DPA afirmou que os brasileiros não mostraram forma de favoritos –
"mesmo que isso não se encaixe na autoimagem deles".
Para o
veículo, o empate não chega a ser um desastre, mas funciona como um forte sinal
de alerta e um freio nas expectativas em torno da equipe.
Segundo
a DPA, a equipe brasileira, neste momento, não pode ser considerada entre as
principais favoritas ao título, algo incomum para um país pentacampeão. O
desempenho foi descrito como pesado e pouco criativo, especialmente no primeiro
tempo, quando a equipe acumulou erros de passe e demonstrou falta de
equilíbrio.
A
agência também destacou que Vinícius Júnior foi o grande destaque – autor do
gol de empate e melhor jogador da partida –, mas ressaltou que "precisa
vir mais do resto do time". A avaliação reforça a ideia de que o Brasil
depende excessivamente de sua principal estrela, algo visto como perigoso em um
torneio longo.
Além
disso, a DPA mencionou as críticas vindas do próprio Brasil e até provocações
da imprensa argentina (citando a alfinetada do jornal portenho Página/12,
alegando que o Brasil "esqueceu o samba no hotel"), reforçando que o
empate não passou despercebido no cenário internacional.
Fonte:
Brasil de Fato/DW Brasil

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