Ricardo
Amaral: Lula no G7 fala pelos excluídos do mundo e reage à ofensiva de Trump e
Bolsonaro
O
presidente Lula não precisou pronunciar o nome de Donald Trump para responder à
mais nova ofensiva do governo dos Estados Unidos contra o Brasil e criticar
abertamente o unilateralismo da política externa dos Estados Unidos na reunião
do G7, na manhã desta terça. Lula estava lá, na sofisticada estância francesa
de Evian, no papel de consciência crítica do planeta, fazendo a voz dos
excluídos. Era o convidado talvez inconveniente na reunião dos países ricos que
orbitam em torno dos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA: Reino Unido,
França, Alemanha, Itália, Canadá e Japão, e que hoje enfrentam as consequências
de sua prolongada submissão.
Num
tom acima de anteriores participações em palcos globais, Lula foi contundente
na crítica ao neoliberalismo e à financeirização da economia global. Afirmou
que o primeiro “agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje
assolam as democracias” e que a cada vez maior concentração de riquezas
“decorre de décadas de políticas pró-bilionários”. No momento em que apenas um
trilionário tem mais dinheiro do que toda a soma de recursos dos 46% mais
pobres, Lula denunciou “um sistema que produz riqueza em abundância, mas que
distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica.”
É
no mínimo improvável que aquele conjunto de chefes de estado de países
capitalistas concedam ao discurso de Lula algo além de um silêncio constrangido
ou palavras de aprovação envergonhada e inútil. O próprio Lula iniciou seu
discurso lembrando as inúmeras reuniões desse tipo de que participou e não
levaram a nenhum resultado prático. Os debates que ele propôs teriam mais
consequência num encontro de países do sul global, com participação da China e
da Rússia, da Índia e de países asiáticos, da África do Sul e outros do
continente africano.
Mas
Lula não deixou de incluir, ao longo de seu discurso no G7, recados diretos à
ingerência do governo Trump em assuntos que tocam mais imediatamente ao Brasil.
A primeira foi a menção ao unilateralismo e ao protecionismo, que chamou de
“respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”. Nada
mais unilateral e protecionista que as tarifas extraordinárias e outras sanções
previstas na mal afamada Seção 301 da legislação de comércio externo
estadunidense, que Trump vem de impor ao Brasil. Da mesma forma, veio a defesa
do respeito à soberania dos países na cooperação para o combate ao crime e ao
narcotráfico.
Não
menos importante foi a abordagem de Lula aos temas da inteligência digital e da
exploração de terras raras, apresentada no final do discurso: “As transições
energética e digital não podem reproduzir padrões históricos que concentram
benefícios econômicos em poucos atores. Os países detentores de minerais
críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, por
meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de
capacidades, conforme suas necessidades nacionais.”
Lula
nem precisou falar do Pix para reagir ao conjunto de ofensas dos EUA à
soberania brasileira, especificamente, num discurso de abrangência global. E
para o público interno, ficou ainda mais claro o recado: as eleições de outubro
serão uma escolha entre Lula, o candidato do Brasil, e Flávio Bolsonaro, o
candidato dos Estados Unidos da América e da curriola global da
extrema-direita.
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No G7 e na presença de Trump, Lula critica
"protecionismo e unilateralismo"
Em
discurso no G7 e na presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o
presidente Lula (PT) criticou nesta terça-feira (16), em Évian, na França, o
avanço do “protecionismo e unilateralismo” como respostas à crise
internacional, ao afirmar que essas saídas “ressurgem como respostas falaciosas
para a complexidade dos nossos problemas”.
A
declaração foi feita durante a reunião ampliada do G7, no segmento dedicado ao
tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”. Lula
agradeceu ao presidente Emmanuel Macron pelo convite e lembrou que, em 2003,
uma de suas primeiras agendas internacionais como presidente do Brasil foi
justamente a participação na Cúpula do então G8, também realizada em Évian.
Lula
afirmou que, desde então, participou de outras nove cúpulas do G8 ou do G7,
sempre em meio a crises e desafios com impacto sobre milhões de pessoas em
diferentes regiões do mundo. Segundo ele, apesar da repetição desses encontros,
a comunidade internacional não conseguiu construir respostas coletivas e
duradouras.
O
presidente criticou o que chamou de dogmas baseados na desregulamentação dos
mercados, no Estado mínimo e na austeridade fiscal como objetivos em si mesmos.
Para Lula, o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política
que atingem as democracias. “Agora, o protecionismo e o unilateralismo
ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”,
afirmou.
Lula
também destacou que a distância entre a prosperidade de Évian e a realidade
vivida por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo. Segundo ele,
nos últimos anos, a desigualdade entre países ricos e pobres aumentou, enquanto
a concentração extrema de riqueza reflete décadas de políticas favoráveis aos
bilionários.
O
presidente afirmou que o mundo caminha na contramão da Agenda 2030. De acordo
com ele, faltam US$ 4 trilhões por ano para cumprir os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável, enquanto a COP-30 voltou a evidenciar a distância
entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos
efetivamente mobilizados.
Para
Lula, a implementação do Acordo de Paris exige a ampliação do financiamento
climático para, pelo menos, US$ 1,3 trilhão. Ele disse ainda que, enquanto os
desafios globais se multiplicam, a solidariedade internacional encolhe.
O
presidente citou a queda histórica de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento
no ano passado, além da perda de cerca de 40% do financiamento do Programa
Mundial de Alimentos. Também mencionou reduções superiores a 20% nos orçamentos
da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF.
“Não
são cifras abstratas”, disse Lula. Ele afirmou que esses cortes afetam
diretamente o cotidiano de pessoas em países em desenvolvimento, com impacto
sobre o acesso à alimentação, à educação, à proteção de mulheres e à prevenção
de doenças em comunidades vulneráveis.
Lula
também criticou o peso das guerras e conflitos na agenda internacional. Segundo
ele, os gastos militares anuais chegam a quase US$ 3 trilhões, enquanto o mundo
em desenvolvimento transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida,
valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos.
O
presidente defendeu a correção das desigualdades de um sistema que produz
riqueza em abundância, mas distribui oportunidades de forma assimétrica. Para
ele, a Conferência de Sevilha sobre Financiamento para o Desenvolvimento
apontou uma direção adequada, embora a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento
continue sendo responsabilidade primordial dos Estados.
“Precisamos
de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre
pagar credores e alimentar suas crianças”, afirmou.
Lula
disse que o problema central não é a escassez, mas a falta de implementação e
de vontade política. Ele citou mecanismos como a troca de dívida por ação
climática ou por investimentos sociais como instrumentos capazes de ampliar o
espaço fiscal dos países mais vulneráveis.
O
presidente também apresentou iniciativas defendidas pelo Brasil. Entre elas,
mencionou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, voltado a canalizar
investimentos para a conservação do bioma e de seus habitantes, e a Aliança
Global contra a Fome, criada para compartilhar experiências e apoiar políticas
públicas de redução das desigualdades.
Lula
ainda citou o Painel Internacional sobre Desigualdade, proposto pela
presidência sul-africana do G20, como ferramenta para apoiar, com dados e
evidências, a formulação de respostas coordenadas ao problema.
Na área
de segurança, o presidente afirmou que crimes transnacionais também devem
integrar a agenda de desenvolvimento. Ele destacou o crime organizado, que,
segundo ele, aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser
usados na construção de escolas, hospitais e estradas.
Lula
defendeu que esse enfrentamento respeite a soberania dos Estados. Segundo ele,
a Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas é um passo
positivo, mas o combate ao narcotráfico não pode ser separado de outros
ilícitos, como lavagem de dinheiro e tráfico de armas.
O
presidente também defendeu o fortalecimento do diálogo e da cooperação
institucional, inclusive por meio da INTERPOL, para localizar ativos e
indivíduos vinculados a atividades criminosas.
No fim
do discurso, Lula afirmou que o acesso a tecnologias de ponta, como a
Inteligência Artificial, também precisa fazer parte do debate sobre
desenvolvimento. Ele disse que as transições energética e digital não podem
repetir padrões históricos de concentração de benefícios econômicos em poucos
atores.
Segundo
o presidente, países detentores de minerais críticos devem participar das
etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva, por meio da
industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades,
conforme suas necessidades nacionais.
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Lula diz a Trump para não se meter nas eleições do Brasil
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu nesta quarta-feira (17)
declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a política
brasileira e afirmou que o líder norte-americano não deve interferir nos
assuntos internos do país, especialmente nas eleições. As declarações ocorreram
durante a participação de ambos na cúpula do G7, realizada em Évian-les-Bains,
na França.
Segundo
informações divulgadas pelo g1, Lula também
explicou que não solicitou uma reunião bilateral com Trump durante o encontro
internacional, argumentando que Brasil e Estados Unidos já mantêm negociações
em andamento sobre temas comerciais e de segurança. O presidente brasileiro
ainda classificou como inadequadas algumas das recentes manifestações do
mandatário norte-americano sobre o Brasil.
Ao
comentar a relação entre os dois países, Lula criticou a postura adotada por
Trump e afirmou que o presidente dos Estados Unidos tem falado mais do que
escutado durante as discussões envolvendo o Brasil.
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Lula critica declarações de Trump
Ao
abordar as recentes falas do líder norte-americano, Lula disse que a posição de
Trump não contribui para o diálogo entre as duas nações.
"Não
pedi bilateral com Trump porque estamos em negociação. O que ele fez foi uma
coisa desaforada. Nós estamos negociando. Entreguei documento. Se quiser
combater crime organizado, Brasil está muito disposto. Inclusive dizendo que
todas as armas que PF apreende são de Miami. Entreguei por escrito e não quero
só falar. Trump fala muito e ouve pouco."
O
presidente brasileiro também indicou que as críticas feitas por Trump revelam
desconhecimento sobre a realidade política e institucional do Brasil. Segundo
Lula, a soberania nacional deve ser respeitada por qualquer governo
estrangeiro.
As
declarações ocorreram em meio ao aumento das tensões diplomáticas após
manifestações públicas de Trump sobre a situação política brasileira e decisões
recentes da Justiça do país.
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Trump diz que situação política do Brasil é "perigosa"
Mais
cedo, durante uma coletiva de imprensa após compromissos da cúpula do G7, Trump
afirmou que o cenário político brasileiro se tornou preocupante. De acordo com
a CNN Brasil, o presidente dos Estados Unidos foi questionado sobre sua
conversa com Lula e sobre temas como as novas tarifas comerciais impostas por
Washington ao Brasil e a classificação de facções criminosas brasileiras como
organizações terroristas pelo governo norte-americano.
Ao
comentar o encontro com o presidente brasileiro, Trump afirmou:
"A
verdade é que passei bastante tempo com ele [Lula]. E o Brasil se tornou um
país um pouco complicado, não é? Politicamente. A situação política ficou um
pouco perigosa. Você está falando do Brasil, certo? Tem sido algo desagradável.
Ouvi dizer que prenderam hoje uma pessoa que estava concorrendo a um cargo
público. Fiquei sabendo disso depois que saí de lá."
A fala
foi interpretada como uma referência ao ambiente político brasileiro e a
decisões judiciais recentes envolvendo integrantes do campo político ligado ao
ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Menção a Eduardo Bolsonaro e críticas ao Judiciário
Durante
a mesma entrevista, Trump mencionou o ex-deputado federal cassado Eduardo
Bolsonaro (PL-SP), a quem chamou de "Bolsonaro Jr.". O presidente dos
Estados Unidos afirmou ter tomado conhecimento do caso após sua reunião com
Lula.
"Ele
estava indo bem nas pesquisas e o prenderam porque fez uma declaração no Texas.
Prenderam, ou querem prendê-lo, para ter algo contra ele."
A
declaração reforça a postura que Trump vem adotando em defesa de aliados
políticos de Jair Bolsonaro. Na terça-feira (16), a Primeira Turma do Supremo
Tribunal Federal votou pela condenação de Eduardo Bolsonaro. Segundo a
Procuradoria-Geral da República, o ex-parlamentar atuou junto a autoridades dos
Estados Unidos para buscar a imposição de sanções contra integrantes do
Judiciário brasileiro e contra o próprio Brasil, o que fundamentou a acusação
de coação judicial.
O
episódio ampliou a repercussão internacional das disputas políticas envolvendo
o campo bolsonarista e gerou novas manifestações de autoridades brasileiras em
defesa da autonomia das instituições nacionais.
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Lula questiona dinâmica do G7
Além
das críticas a Trump, Lula aproveitou sua participação no encontro para
questionar a dinâmica de funcionamento do G7. Segundo o presidente brasileiro,
os países convidados para a cúpula têm pouca influência sobre os documentos e
decisões produzidos pelos membros permanentes do grupo.
Na
avaliação do presidente, quando as delegações convidadas chegam ao evento, as
principais resoluções já estão praticamente definidas, limitando a
possibilidade de contribuições adicionais.
"Esse
debate está virando um samba de uma nota só."
A
declaração reflete uma crítica recorrente do governo brasileiro aos fóruns
internacionais dominados pelas grandes potências econômicas. Lula defende uma
maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões globais e tem
utilizado espaços multilaterais para cobrar reformas na governança
internacional.
Fonte:
Brasil 247

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