Roberto
Amaral: Crescimento para poucos - a armadilha do capitalismo
Ao
contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta
Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura
distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda,
como a promove. Trata-se, simplesmente, de determinismo da lógica de acumulação
do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na
contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o
aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos salários. De um
lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e,
como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o
desemprego estrutural — alimento do exército industrial de reserva — pressiona
os salários para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que
se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão
de obra e intensivas em capital, e a articulação de grandes e poucas corporações
operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio,
com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político,
frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.
A
história testemunha que o crescimento da renda per capita pode conviver com
estagnação relativa ou perda do poder aquisitivo dos trabalhadores. Marx, no
século XIX, explicou a contradição entre a expansão das forças produtivas e as
relações sociais de produção. Tal disfunção se agrava na periferia do
capitalismo contemporâneo, onde o desenvolvimento econômico se conjuga com
setores altamente atrasados. Celso Furtado, ainda nos anos 1960, referia-se ao
que denominou “difusão restrita do progresso técnico”: os ganhos de
produtividade concentram-se em setores modernos, todavia sem irradiar para o
conjunto da economia, acentuando as desigualdades. Como em uma ordem de vasos
comunicantes, as elites econômicas reproduzem padrões de consumo dos países
centrais, canalizando renda para setores de alto valor agregado e baixa
absorção de mão de obra.
Segundo
o coeficiente de Gini (que varia de 0 — igualdade total — a 1 — desigualdade
máxima), nosso índice de desigualdade já chega a 0,51. Nesse coeficiente
encontram-se, segundo dados do Banco Mundial, Madagascar e Ruanda, e, em suas
vizinhanças, Moçambique (0,54) e Zâmbia (0,57). Mas, ao contrário desses
países, extremamente pobres, somos a décima economia do mundo. Ou seja, a
desigualdade social que nos assola é fruto da concentração da riqueza,
acumulada pelo capital, que cresce mesmo em sua expressão financeira — capital
fictício, segundo Marx — e passa à margem da produção.
Dados
recentes do IBGE, lamentavelmente sem revelarem novidade, dizem que os 10% de
brasileiros “mais ricos” — algo como 20,3 milhões de pessoas em uma população
estimada em 213,5 milhões — concentram cerca de 40% da renda total, ou seja, 13
a 14 vezes mais que os 40% mais pobres, estimados em 81,2 milhões. Em 2018,
essa diferença chegou a 17 vezes. A massa de rendimentos domiciliares, em 2025,
foi de cerca de R$ 5,8 trilhões, e os 10% “mais ricos” se apropriaram de algo
como R$ 2,4 trilhões/ano, considerando o PIB de R$ 12,7 trilhões. Ou seja, 18%
do PIB escorrem diretamente para o fosso desses 10% mais ricos, como renda
corrente. Entre os “mais pobres” — brasileiros integrados no processo
produtivo, trabalhadores e assalariados de um modo geral — situam-se os que
percebem renda mensal variável entre R$ 400 e R$ 500 mensais (o salário-mínimo
nacional é de R$ 1.621), contra entre R$ 7 mil e R$ 9 mil, renda estimada dos
10% mais ricos.
Mas o
sistema rentista nada tem a reclamar. É o que proclamam os lucros médios dos
cinco maiores bancos privados que atuam no Brasil: Itaú, 46,8 bilhões de reais;
Bradesco, 24,6 bilhões; Santander, 15,6 bilhões; BTG Pactual, 16,7 bilhões; e
Safra, 3,9 bilhões.
É o
Brasil que a direita pretende preservar.
A
hegemonia das finanças e as transformações tecnológicas aceleradas dos últimos
anos, ao alterarem as regras do sistema produtivo, estamparam a tendência
estrutural do capitalismo como fator de desigualdade. Longe de se dissipar com
o desenvolvimento econômico, o capitalismo globalizado das últimas décadas
reina sob novas formas e novos mecanismos de reprodução, refazendo-se após
crises sistêmicas constitutivas do seu funcionamento, como, no século passado,
a estagflação dos anos 1970 e, mais recentemente, a crise financeira global de
2008.
Marx
observou que o capital, ao se acumular, tende inevitavelmente à concentração. A
concorrência entre capitais individuais, escreveu, leva à centralização — os
maiores absorvem os menores, e o sistema se reorganiza continuamente em torno
de unidades cada vez mais poderosas. Esse movimento não é acidental, mas
constitutivo do próprio funcionamento do capitalismo. Em sua lógica interna,
não há freios naturais para esse processo, mas a busca incessante por lucro e
expansão sem fim, de que depende.
O
desenvolvimento científico e tecnológico, ao tempo em que traz para nossos dias
um futuro inimaginável há poucas décadas, vem reforçar a concentração de renda
e riqueza. A chamada quarta revolução industrial — marcada pela disseminação da
inteligência artificial, da automação avançada e das grandes plataformas
digitais — redefine a relação entre capital e trabalho. Empresas intensivas em
tecnologia requerem investimentos crescentes em capital e, ao mesmo tempo,
reduzem drasticamente os postos de trabalho. A substituição do trabalho humano
por máquinas e algoritmos comprime a participação dos salários na renda
nacional, enquanto amplia os ganhos do capital. O trabalho, antes principal
meio de distribuição de renda, é subsumido pelo capital — especialmente o
capital financeiro. As consequências, como lembrava o conselheiro Acácio, vêm
depois: a queda dos postos de trabalho, o crescimento dos exércitos de reserva,
as restrições aos direitos sociais dos trabalhadores e a queda do poder
aquisitivo dos salários.
Nada
está fora das regras de funcionamento do capitalismo, e isso nos diz que o
desenvolvimento econômico não é uma autarquia, condicionado que está por opções
políticas. A classe dominante brasileira, herdeira do latifúndio e do
escravismo, é que optou por este sistema e o sustenta a qualquer preço, como
nos lembra a ditadura militar.
A
financeirização da economia, traço marcante do capitalismo globalizado,
determina a subordinação das economias nacionais à lógica da valorização
financeira e, assim, desfaz-se dos projetos de expansão e crescimento para
optar pela maximização do valor para o acionista, especialmente por meio da
distribuição de dividendos. Os Estados nacionais, por sua vez, tornam-se cada
vez mais condicionados pelos mercados financeiros globais, limitando sua
capacidade de intervenção redistributiva.
Mais e
mais é consumida a soberania das nações não hegemônicas. A clivagem não é
necessariamente entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos — ou emergentes,
como se queira —, nem entre nações ricas e pobres, mas entre ricos e pobres no
interior de cada país.
Retornemos
a Celso Furtado, lembrando-nos de que a concentração de renda não é um efeito
colateral do crescimento econômico, mas elemento constitutivo de certas formas
de desenvolvimento capitalista dependente, precisamente aquela pela qual as
elites econômicas brasileiras optaram. Para Celso, o problema central das
economias periféricas não se concentrava apenas na escassez de capital, pois
muito resultava da forma como ele se distribuía e se utilizava. Ou seja, de sua
concentração. A modernização produtiva coexistia com estruturas sociais
arcaicas, gerando crescimento que beneficiava poucos e excluía muitos. Essa
interpretação permanece atual, especialmente quando se observa a integração
subordinada dessas economias às cadeias globais de valor e aos fluxos
financeiros internacionais.
Esse
quadro vem se agravando à medida que se consolida a globalização capitalista,
potencializada pela ascensão do neoliberalismo, com seus penduricalhos: a
desregulamentação como conditio sine qua non; a liberalização financeira como
regra; a redução do papel do Estado; as privatizações; as políticas fiscais
regressivas; o enfraquecimento dos sindicatos; a flexibilização do mercado de
trabalho; e a precarização dos mecanismos de previdência social. Ao fim e ao
cabo, a fragilidade dos sindicatos — isto é, dos mecanismos de defesa do
trabalho e dos trabalhadores — altera a correlação de forças, condiciona o
processo político e, nesses termos, interfere no andamento da história. O
capital continua a se expandir, a se acumular e a se concentrar em escala planetária
e em velocidade impensável no século passado.
A
desigualdade — que cresce em ritmo insustentável — não é, jamais foi, uma
disfunção do sistema capitalista, mas sua consequência lógica, acelerada nas
últimas décadas pela revolução tecnológica. O resultado é uma dinâmica
cumulativa: o capital gera mais capital, enquanto o trabalho perde participação
relativa. A concentração de renda e riqueza — um projeto de classe — é o
fundamento da concentração do poder político. Em última instância, a questão da
desigualdade remete ao próprio sentido do desenvolvimento, que é uma decisão
política. Diz respeito ao projeto de país. A pergunta é: crescer para quem?
A
questão que se coloca não é a óbvia necessidade de desenvolvimento econômico,
mas a afirmação de que sociedade se deseja construir. Uma sociedade em que o
desenvolvimento econômico e o progresso tecnológico se traduzam em bem-estar
compartilhado pela universalidade dos brasileiros — projeto que deve ser da
esquerda e das forças progressistas de um modo geral — ou uma sociedade
socialmente ainda mais atrasada, projeto da direita brasileira?
A
resposta poderá ser ouvida nas eleições de outubro próximo.
Até
aqui nenhuma novidade. O que é de serra acima, e assusta, é que esses números —
a certidão do capitalismo globalizado, perverso de um modo geral e
especialmente perverso nos países do Sul Global — estejam passando ao largo das
reflexões e do discurso da esquerda brasileira e da ação de nossos governos.
Ausentes na denúncia do sistema de opressão, confundimo-nos, no governo e na
ação política, com os partidos da ordem e somos, assim, justamente condenados
como comprometidos com o “sistema” porque, por incapacidade de leitura correta
do processo histórico, assumimos o destino frustrado da socialdemocracia:
simplesmente administrar o capitalismo, suavizando seus males.
À
noite, todos os gatos são pardos.
Fonte:
Brasil 247

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