sexta-feira, 19 de junho de 2026

Peter Thiel, da Palantir, avança sobre dados, energia e Estado em liquidação na Argentina de Milei

Peter Thiel, um dos homens mais controversos do nosso tempo está na Argentina. Não como turista encantado pela bela Buenos Aires, mas como uma ave de rapina diante de uma oportunidade histórica. 

O cofundador da Palantir, empresa marcada por contratos com estruturas militares, policiais, migratórias e de inteligência dos Estados Unidos, encontrou na Argentina de Javier Milei uma combinação rara: Estado em liquidação, elite política deslumbrada com bilionários do Vale do Silício, energia abundante, baixa resistência regulatória e um governo disposto a vender desregulação como modernidade. 

A presença de Thiel na Casa Rosada, suas reuniões com Milei, com o assessor presidencial Santiago Caputo e com o ministro da Desregulamentação e Transformação do Estado, Federico Sturzenegger, a compra de uma mansão em Buenos Aires e a instalação temporária de sua família no país desenham algo maior do que uma mudança de endereço. Desenham uma estratégia. 

A Argentina virou vitrine. 

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Sob Milei, o país se oferece como laboratório extremo da direita tecnológica global: menos impostos, menos Estado social, mais dados, mais inteligência artificial, mais capital estrangeiro e menos soberania popular sobre os próprios recursos. 

É nesse tabuleiro que Thiel se move. 

<><>  Palantir, IA e Estado: quando dados públicos viram infraestrutura de poder 

Thiel não é apenas um bilionário excêntrico com simpatia por ideias libertárias. É um operador de uma das engrenagens mais sensíveis do capitalismo contemporâneo: a transformação de bancos de dados em capacidade de vigilância, previsão e intervenção. 

A Palantir cresceu justamente nesse cruzamento entre tecnologia privada e poder estatal. Defesa, segurança, polícia, migração e guerra. Esse é o ambiente natural da empresa. 

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O governo Milei lançou o chamado Gemelo Digital Social, uma ferramenta de inteligência artificial apresentada como mecanismo para prever demandas sociais e orientar políticas públicas.  

Não há prova pública de contrato com a Palantir, mas a coincidência política chama atenção: Thiel chega ao país justamente quando o Estado argentino começa a discutir inteligência artificial aplicada à gestão social, uso de bases de dados e infraestrutura digital.  

Ou seja, chama a atenção que o modelo anunciado pelo governo dialogue diretamente com áreas nas quais a Palantir atua em diferentes partes do mundo. 

A pergunta não é conspiratória. É elementar: quem controlará esses dados? Com qual base legal? Com que supervisão pública? A serviço de quais interesses? 

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Em países periféricos, a promessa de “modernização tecnológica” quase sempre chega embalada como eficiência. Depois, revela sua face real: controle social, privatização da inteligência estatal e dependência tecnológica. 

<><> Milei oferece o que o Vale do Silício deseja 

Já sabemos que data center não é nuvem: é chão, água, eletricidade, território e sobretudo, regime fiscal. 

A economia da inteligência artificial precisa de infraestrutura pesada e energia barata e abundante. Precisa de governos dispostos a conceder benefícios duradouros, blindagem jurídica e pouca disposição para fazer perguntas incômodas. 

A Argentina de Milei quer ser exatamente isso. 

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O chamado Súper RIGI, regime de incentivos para grandes investimentos em inteligência artificial, semicondutores, data centers e infraestrutura digital, abre caminho para projetos bilionários com vantagens fiscais, cambiais e jurídicas por décadas. Não se trata apenas de política econômica. Trata-se de uma reorganização do Estado para atender às novas necessidades do capital tecnológico. 

A Argentina tem: Vaca Muerta, Patagônia, gás, energia nuclear, água e terra. Ativos estratégicos que Thiel e a Palantir desejam. Ele não precisa comprar a Argentina. Basta estar próximo de um governo disposto a transformar energia, dados e soberania regulatória em mercadoria. 

<><> Argentina, Paraguai e Uruguai: a retaguarda no Cone Sul 

O movimento também não termina em Buenos Aires. 

No Paraguai, Thiel reuniu-se com o presidente Santiago Peña para tratar de inteligência artificial, energia e tecnologia financeira. O país oferece baixa carga tributária, energia hidrelétrica e estabilidade conservadora. Para empresas de IA, isso vale ouro. 

No Uruguai, aparecem os elementos de segurança patrimonial: propriedade, estabilidade jurídica e refúgio para grandes fortunas. 

O desenho regional é claro: Argentina como laboratório político; Paraguai como plataforma energética e fiscal; Uruguai como retaguarda patrimonial. 

O Cone Sul, mais uma vez, aparece no mapa das elites globais não como sujeito soberano, mas como reserva estratégica. Ontem, soja, carne, lítio, petróleo e água. Hoje, também dados, energia computacional e infraestrutura para inteligência artificial. 

<><> O laboratório de Milei para exportação 

A experiência argentina importa porque Milei governa como propaganda viva de um projeto: destruir o Estado social, converter direitos em custos, tratar soberania como atraso e vender dependência externa como liberdade de mercado. 

Para Thiel e setores da direita tecnológica global, a Argentina pode funcionar como prova de conceito. 

Se o choque libertário sobreviver politicamente, se a austeridade for naturalizada, se a infraestrutura pública for aberta ao capital tecnológico e se a população for disciplinada pelo medo, o modelo poderá circular. 

Essa é a aposta. 

Não se trata de um bilionário apaixonado por Buenos Aires. Trata-se de uma elite tecnológica testando onde ainda é possível reorganizar um país inteiro segundo suas necessidades. 

<><> Por que uma reunião com o peronista Grabois? 

No meio de reuniões com Javier Milei, empresários e operadores centrais do governo argentino, um encontro destoou do restante da agenda de Peter Thiel. 

O bilionário recebeu em sua residência em Buenos Aires o dirigente social Juan Grabois, uma das figuras mais conhecidas do campo nacional-popular argentino.  

Advogado, militante peronista e histórico aliado do papa Francisco, Grabois construiu sua trajetória política junto a movimentos de trabalhadores informais, cooperativas, organizações comunitárias e setores empobrecidos da sociedade argentina. 

À primeira vista, a reunião pareceria improvável. 

De um lado, um dos homens mais influentes da direita tecnológica global. Do outro, um dirigente que construiu sua carreira denunciando os efeitos sociais do neoliberalismo e defendendo maior participação popular na economia e na política. 

Segundo o elDiarioAR, foi o próprio Thiel quem procurou Grabois e o convidou para conversar. Oficialmente, a pauta teria sido a encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV, dedicada aos impactos éticos da inteligência artificial. 

Mas a importância do encontro talvez esteja menos no tema declarado do que no significado político do gesto. 

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa tecnológica. Tornou-se uma disputa sobre trabalho, democracia, concentração de riqueza, vigilância e poder. Nesse debate, o Vaticano passou a ocupar um papel cada vez mais relevante, assim como movimentos sociais que enxergam a nova revolução tecnológica como um processo capaz de aprofundar desigualdades já existentes. 

Grabois transita justamente nesse universo. 

Por isso, a reunião sugere que Thiel não está apenas interessado nos governos dispostos a abrir mercados, flexibilizar regulações e oferecer incentivos ao capital tecnológico. Também busca compreender quais setores poderão questionar ou impor limites a esse processo. 

Se Milei representa a porta de entrada institucional para a nova economia digital na Argentina, Grabois ajuda a identificar onde podem surgir as resistências sociais, políticas e morais a esse projeto. 

O episódio deixa uma pista incômoda: para avançar, a direita tecnológica não precisa apenas de governos aliados. Precisa conhecer, antecipar e neutralizar os setores capazes de impor limites ao seu projeto. 

¨      Palantir avança na América Latina com apoio do Comando Sul

Em menos de 30 dias, três operações em três países distintos revelam uma mesma lógica. A empresa estadunidense USA Rare Earth anunciou a compra da mineradora brasileira Serra Verde Group por US$ 2,8 bilhões. Peter Thiel, cofundador da Palantir Technologies, chegou à Argentina. E o general Francis L. Donovan, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, ordenou a criação do SOUTHCOM Autonomous Warfare Command (SAWC), um comando dedicado a sistemas não tripulados com capacidade de operar desde o fundo marinho até o espaço e em todo o âmbito cibernético.

O pesquisador venezuelano William Serafino mostra a sequência. Cada movimento, documentou, faz parte de “uma mesma sequência geopolítica, militarização estadunidense da região operada sob um modelo de privatização corporativa, cujo eixo é o enfoque distópico de vigilância extrema da Palantir”. Os documentos estratégicos de Washington não deixam outra leitura possível.

<><> O subsolo de que Washington necessita na América Latina

A mina Pela Ema, no estado brasileiro de Goiás, é a única produtora em grande escala fora da Ásia de quatro elementos magnéticos de terras raras essenciais para ímãs avançados. Sem esses materiais, não há veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas eletrônicos de precisão nem equipamentos militares de nova geração.

A China controla aproximadamente 90% do processamento global dessas substâncias e impôs, em 2025, restrições temporárias às exportações de terras raras pesadas, com impacto direto sobre fabricantes norte-americanos e europeus. A aquisição da Serra Verde foi a resposta de Washington a essa demonstração de poder.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva classificou o acordo como “uma vergonha” e acusou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de ter extrapolado suas competências. As deputadas Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna, junto ao deputado Glauber Braga, apresentaram uma denúncia formal à Procuradoria-Geral da República para impugnar a compra e investigar a atuação de Caiado. Trata-se de uma ocupação do Brasil que tem escala muito maior.

Essa escala envolve o Triângulo do Lítio — Argentina, Bolívia e Chile —, que concentra mais de 50% das reservas mundiais do minério. A Bolívia sozinha acumula entre 21% e 23% das reservas globais. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e reservas significativas de coltan, minério imprescindível para condensadores em dispositivos eletrônicos e sistemas de armas de precisão. Para o professor Fernando Esteche, a Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025 traçou esse mapa com clareza.

O documento, preparado sob autoridade da Casa Branca, estabelece o que Esteche denomina Corolário Trump da Doutrina Monroe, que rejeita qualquer capacidade de competidores extra-hemisféricos — China, Rússia e Irã — de posicionar forças, ativos estratégicos ou infraestrutura crítica na região. O documento não descreve intenções; estabelece uma arquitetura.

<><> A doutrina, o saque e a cadeia de comando

A Estratégia de Defesa Nacional de janeiro de 2026 adotou um conceito expandido de homeland, que abrange todo o hemisfério ocidental, do Ártico à Argentina. O Pentágono foi instruído a fornecer ao presidente opções militares críveis contra o que chama de narcoterroristas — uma categoria suficientemente elástica para abranger qualquer governo que se desvie do alinhamento hemisférico requerido — em qualquer ponto do continente.

Esteche situou nesse marco a Operação Resolução Absoluta, de 3 de janeiro de 2026, que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Foi a primeira aplicação de uma missão cujo rascunho levava meses em elaboração quando a operação foi executada.

O mecanismo de controle que essa doutrina articula prescinde da ocupação militar formal. Esteche chama isso de Projeto Vault. Basta que os Estados assinem acordos de fornecimento de minerais críticos que excluam Pequim para que suas Forças Armadas interajam com o Pentágono e que seus chanceleres viajem a Washington para rubricar marcos de dependência elaborados por outros.

Em 4 de fevereiro de 2026, o Edifício Truman reuniu representantes de 54 países, entre eles 43 chanceleres, junto ao vice-presidente JD Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio. Os países da América Latina, da África Subsaariana e da Ásia Central compareceram como fornecedores. O G7 e seus aliados tecnológicos participaram como processadores e fabricantes.

Controle sem ocupação. Subordinação sem conquista formal. Essa arquitetura requer uma coluna vertebral capaz de operar em tempo real, e a Palantir foi construída exatamente para isso. A presença de Thiel em Buenos Aires foi a verificação em campo de que essa arquitetura já está ancorada no Cone Sul.

<><> Palantir Technologies:  A vigilância como infraestrutura de Estado

Peter Thiel não é um milionário excêntrico com ideias libertárias. É o cofundador da Palantir Technologies, empresa de análise de dados e inteligência artificial que a Agência Central de Inteligência (CIA) financiou inicialmente por meio de seu braço de investimentos, a In-Q-Tel. Uma empresa concebida desde o primeiro dia como ferramenta de vigilância estatal, financiada pela CIA e construída para servi-la, não para conquistar um mercado que chegou depois como álibi.

Em novembro de 2024, Thiel recebeu Javier Milei no Vale do Silício e o elogiou com a condescendência com que um acionista majoritário elogia um gerente regional que cumpre sua função.

O alcance da Palantir na estrutura federal estadunidense revela o modelo que se pretende exportar para o Sul Global. A empresa opera com mais de 27 agências federais. Um acordo com o Exército por US$ 10 bilhões consolidou dezenas de contratos em um único marco. Um acordo com o Departamento de Segurança Nacional por US$ 1 bilhão abrange o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP), a Administração de Segurança nos Transportes (TSA), a Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) e o Serviço Secreto. Quando um único fornecedor se incrusta em toda parte, o cliente perde a capacidade de se retirar. O Estado deixa de construir capacidade própria e arrenda suas próprias funções.

Na Argentina, Patricia Bullrich negociou um acordo com a Palantir para implementar em uma Agência de Segurança Migratória a mesma plataforma que o serviço de imigração estadunidense usa em suas operações de deportação e coordenação de listas de expulsão. O processo foi interrompido devido a disputas internas sobre os contratos.

Kim Dotcom, empresário e hacker conhecido por fundar o Megaupload, publicou uma denúncia segundo a qual a Palantir sofreu um ataque informático com acesso de superusuário, por meio do qual os invasores descobriram que Thiel e Alex Karp organizaram vigilância massiva sobre líderes mundiais e magnatas, com milhares de horas de conversas transcritas de Trump, JD Vance e Elon Musk, além de mecanismos de escuta implantados em celulares, automóveis e aviões de políticos.

Karp nunca negou a vocação da empresa. Seu manifesto corporativo de 22 pontos propõe transformar a elite de engenheiros do Vale do Silício em uma nova aristocracia com obrigações defensivas, rejeita o “pluralismo vazio e oco” e celebra o poder duro que, neste século, será construído sobre software.

O papel da Palantir no Projeto Maven vinculou a empresa a sistemas de suporte à tomada de decisões em ambientes de campo de batalha do Pentágono. A plataforma processa inteligência. O SAWC a executa em campo. Essa é a cadeia que Serafino identificou desde o primeiro momento e que os documentos estratégicos de Washington formalizam com nome e orçamento.

<><> A autonomização da guerra regional

O SOUTHCOM Autonomous Warfare Command foi estabelecido para implantar sistemas autônomos, semiautônomos e não tripulados em todos os domínios, desde o fundo marinho até o espaço, por meio do âmbito cibernético. Sua missão declarada inclui “desarticular e degradar redes narcoterroristas e de cartéis”, a mesma categoria elástica que a Estratégia de Defesa Nacional de 2026 usa como justificativa para exercer força sobre qualquer governo que cruze a linha de alinhamento requerida.

A sequência que Serafino documentou alcança aqui sua dimensão mais concreta. A Palantir processa a inteligência. O SAWC executa a ação. A Serra Verde assegura os materiais que alimentam os sistemas. Os três vértices do triângulo coincidiram em menos de um mês.

O que o SAWC formaliza como comando, o Pentágono já vinha praticando. Segundo relatou o The New York Times, desde setembro passado registraram-se 54 ataques contra embarcações suspeitas no Caribe e no Pacífico oriental, com saldo de pelo menos 185 mortos. Em abril, o ritmo chegou a sete ataques em um único mês, com o deslocamento de mais aeronaves de ataque do que em qualquer etapa anterior da campanha. Os sistemas operam a partir de bases em El Salvador e Porto Rico, com drones MQ-9 Reaper e aeronaves de asa fixa de caráter secreto. Um oficial militar citado pelo jornal indicou que a probabilidade de uma embarcação suspeita evitar a detecção caiu de 50% para 25%. O Caribe já é cenário de execução, não de preparação.

A área ao norte do Equador — México, América Central, Caribe, Colômbia, Venezuela, Equador e as Guianas — funciona nessa doutrina como espaço de controle direto, o território em que Washington exerce soberania efetiva sobre os recursos, as rotas, as Forças Armadas e as decisões políticas de Estados formalmente independentes.

Esteche descreve essa relação como lebensraum (“espaço vital”) em seu sentido geopolítico clássico, ainda que Washington prefira o eufemismo de defesa do lar estendido. Os Estados conservam suas bandeiras e seus presidentes, mas perdem a capacidade de decidir sobre seus recursos estratégicos, sua política externa e sua arquitetura militar. Para os povos do Caribe e da América do Sul, a pergunta deixou de ser se esse processo avança. Agora é com qual resposta.

O que Serafino identificou como sequência geopolítica, Esteche considerou arquitetura doutrinária e os próprios documentos oficiais de Washington confirmam como política de Estado.

O Escudo das Américas é a fase superior do Estado de Segurança Nacional estadunidense, em que o poder militar estatal e o capitalismo corporativo convergem para assegurar o controle geopolítico do hemisfério.

A América Latina não está no tabuleiro. É o próprio tabuleiro.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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