Maria
Luiza Falcão: Patriotismo de conveniência
A
condenação de Eduardo Bolsonaro representa muito mais do que um capítulo
judicial na longa crise política brasileira iniciada nos últimos anos. Trata-se
de um acontecimento que atinge diretamente a identidade política construída
pelo bolsonarismo e lança uma sombra sobre as pretensões eleitorais de Flávio
Bolsonaro para a disputa presidencial de 2026.
A
condenação não decorre de declarações políticas ou de simples manifestações de
opinião. Segundo a decisão, Eduardo Bolsonaro foi responsabilizado por atuar
junto a autoridades e setores políticos dos Estados Unidos para pressionar o
Supremo Tribunal Federal e outras instituições brasileiras durante o julgamento
da tentativa de golpe de Estado que culminou na condenação de Jair Bolsonaro.
Ad
loading
A
Justiça entendeu que essa atuação configurou coação no curso do processo ao
buscar constranger magistrados por meio de pressões externas, incluindo a
defesa de sanções contra autoridades brasileiras e o apoio a medidas econômicas
capazes de atingir o país. A decisão transformou um debate que parecia apenas
político em uma discussão sobre soberania nacional e sobre os limites da
atuação de agentes públicos brasileiros junto a governos estrangeiros.
Pela
primeira vez, um integrante da família que transformou “o patriotismo” em sua
principal bandeira política foi condenado sob a acusação de atuar junto a
autoridades estrangeiras para pressionar instituições brasileiras. Mais do que
as consequências jurídicas do caso, o episódio recoloca em debate uma questão
fundamental: o que significa, afinal, defender os interesses nacionais?
A
pergunta é particularmente relevante porque o bolsonarismo construiu sua
trajetória política apresentando-se como o movimento que resgataria o amor à
pátria, os símbolos nacionais e os valores supostamente abandonados pelos
governos anteriores. Durante anos, a bandeira brasileira, as cores verde e
amarela e o discurso nacionalista tornaram-se marcas registradas do movimento.
Entretanto,
os fatos recentes sugerem uma contradição difícil de ignorar.
Quando
o adversário passa a ser o próprio país
Segundo
as acusações que resultaram na condenação de Eduardo Bolsonaro, o deputado
teria buscado mobilizar autoridades e setores políticos norte-americanos para
pressionar o Supremo Tribunal Federal e influenciar processos relacionados à
tentativa de golpe de Estado e à condenação de Jair Bolsonaro.
Independentemente
das posições partidárias de cada cidadão, a acusação apresenta um problema
político evidente. Ela sugere que disputas internas brasileiras passaram a ser
levadas para o exterior na expectativa de que governos estrangeiros exercessem
pressão sobre instituições nacionais.
Historicamente,
divergências políticas fazem parte da democracia. Governos são criticados,
combatidos e eventualmente derrotados nas urnas. O que chama atenção neste caso
é a utilização de atores externos como instrumento de pressão sobre o próprio
Estado brasileiro.
A
questão torna-se ainda mais delicada quando essas pressões assumem a forma de
ameaças econômicas, sanções ou medidas comerciais capazes de afetar diretamente
o país.
Nesse
momento, a disputa deixa de atingir apenas o governo de ocasião e passa a
atingir o Brasil.
O
tarifaço e a lógica do quanto pior, melhor
A
discussão sobre os tarifaços contra produtos brasileiros ilustra essa
contradição.
Em
qualquer economia do mundo, tarifas adicionais impostas por grandes parceiros
comerciais representam ameaça ao emprego, à produção, às exportações e aos
investimentos. Não prejudicam apenas governos. Afetam empresas, trabalhadores,
produtores rurais, cadeias produtivas e regiões inteiras que dependem do
comércio exterior.
Seria
razoável imaginar que qualquer liderança política comprometida com os
interesses nacionais reagisse com preocupação diante de medidas dessa natureza.
O que
se viu, porém, foi algo diferente. Setores do bolsonarismo passaram a tratar
essas pressões com relativa naturalidade, quando não com entusiasmo explícito.
A lógica implícita parece simples: se o governo Lula sofrer desgaste político,
o prejuízo seria aceitável.
Mas
essa lógica contém um problema fundamental. Tarifas não atingem presidentes da
República. Atingem trabalhadores. Sanções não recaem sobre partidos políticos.
Recaem sobre empresas e setores produtivos. Prejuízos econômicos não são
suportados por governos. São suportados pela população.
Quando
o enfraquecimento do país passa a ser considerado um instrumento legítimo de
disputa política, a fronteira entre oposição e antipatriotismo começa a ficar
perigosamente tênue.
O
patriotismo como espetáculo
Talvez
a maior ironia de toda essa história seja que o bolsonarismo construiu sua
identidade política justamente em torno da ideia de patriotismo.
Durante
anos, seus líderes apresentaram-se como os verdadeiros defensores da pátria.
Quem discordava de suas posições era frequentemente acusado de agir contra o
Brasil. A apropriação dos símbolos nacionais tornou-se tão intensa que, em
muitos momentos, parecia existir uma tentativa de monopólio sobre a própria
ideia de patriotismo.
Mas os
acontecimentos recentes sugerem uma distinção importante entre patriotismo e
nacionalismo performático.
O
patriotismo autêntico manifesta-se na defesa concreta dos interesses nacionais.
Ele aparece na proteção dos empregos brasileiros, da soberania econômica, das
instituições democráticas e da capacidade de decisão do povo brasileiro.
Já o
patriotismo performático preocupa-se mais com os símbolos do que com as
consequências práticas.
A
bandeira está presente.
O
discurso inflamado continua existindo.
Mas a
defesa efetiva dos interesses nacionais torna-se secundária quando entra em
conflito com objetivos partidários ou familiares. A condenação de Eduardo
Bolsonaro expõe precisamente essa contradição.
O
problema de Flávio Bolsonaro
O
episódio também produz efeitos que ultrapassam a situação individual de Eduardo
Bolsonaro.
Caso
Flávio Bolsonaro (PL) consolide sua candidatura à Presidência da República em
2026, inevitavelmente terá de responder a uma pergunta desconfortável: qual é
sua posição diante da estratégia adotada por seu irmão?
Não se
trata apenas de uma questão familiar.
Trata-se
de uma questão política.
Flávio
tentará apresentar-se como herdeiro do legado bolsonarista, defensor da
soberania nacional e representante dos valores patrióticos que marcaram a
trajetória política de seu pai. Contudo, a condenação de Eduardo e as acusações
envolvendo articulações internacionais contra instituições brasileiras criam um
problema de coerência para essa narrativa.
A
dificuldade para Flávio Bolsonaro é que a condenação de Eduardo não pode ser
facilmente apresentada como um episódio isolado. Ela decorre justamente de uma
estratégia política adotada pelo núcleo mais próximo da família Bolsonaro:
buscar apoio externo para enfrentar instituições brasileiras e pressionar
decisões tomadas dentro do país.
Ainda
que Flávio não tenha participado diretamente dos fatos que levaram à condenação
do irmão, será inevitavelmente confrontado com a pergunta sobre até que ponto
concorda ou discorda desse método espúrio de atuação política.
O
eleitorado poderá aceitar divergências sobre economia, segurança pública,
costumes ou política externa. O que pode ser mais difícil de aceitar é a
percepção de que interesses nacionais foram colocados em segundo plano em
função de objetivos políticos e/ou familiares específicos.
Isso é
particularmente sensível porque o Brasil vive um momento em que soberania,
desenvolvimento econômico e inserção internacional voltaram ao centro do debate
público.
A
candidatura de Flávio Bolsonaro poderá descobrir que existe uma diferença
importante entre mobilizar uma base militante e convencer uma maioria nacional.
E essa diferença passa justamente pela capacidade de demonstrar compromisso
inequívoco com os interesses do país.
O
Brasil acima das famílias políticas
A
condenação de Eduardo Bolsonaro não encerra o debate. Na verdade, ela apenas
inaugura uma discussão mais ampla sobre os limites da ação política em uma
democracia.
Governos
passam.
Presidentes
passam.
Partidos
passam.
Famílias
políticas também passam.
O
Brasil permanece.
É por
isso que a questão central levantada por este episódio não é apenas jurídica. É
uma questão política, ética e histórica.
Até que
ponto uma liderança pode ir na defesa de seus interesses sem comprometer os
interesses nacionais?
Não se
trata apenas de procurar apoio internacional. Lula, Fernando Henrique, Dilma
Rousseff e diversos líderes brasileiros buscaram apoio e interlocução
internacional ao longo de suas carreiras. O ponto controverso é outro: a
acusação de que Eduardo buscou apoio externo para pressionar instituições
brasileiras e estimular medidas potencialmente prejudiciais ao país durante um
processo judicial em andamento
Uma
coisa é procurar apoio político no exterior. Outra, muito diferente, é procurar
no exterior instrumentos de pressão contra o próprio Brasil.
Ao
aproximar-se das eleições de 2026, o país será chamado a responder não apenas
quem deseja governar o Brasil, mas também que tipo de patriotismo considera
legítimo. A História costuma ser implacável com aqueles que confundem amor à
pátria com lealdade a um líder, a uma família ou a um projeto de poder.
• Simone Tebet diz esperar que
bolsonarismo seja “varrido da face da terra”
A
ex-ministra do Planejamento e Orçamento Simone Tebet (PSB) afirmou que espera
que o bolsonarismo seja “varrido da face da terra e do país” para que, em sua
avaliação, a “verdadeira direita” volte a ocupar espaço no cenário político
nacional.
Segundo
a Jovem Pan, Tebet defendeu que o Brasil precisa de uma “oposição racional”,
independentemente do campo ideológico. A ex-ministra criticou o que classificou
como um projeto “sectário” e afirmou que disputas centradas apenas em poder não
podem bloquear pautas consideradas relevantes para o país.
Play
Video
“O que
não pode é um projeto muito sectário, muito específico de poder e não de país,
paralisar os projetos relevantes do Brasil. Então, o que eu espero do futuro é
que o bolsonarismo seja varrido da face da terra e do país, e que a direita
conservadora, que é a verdadeira direita, volte a tomar esse papel que ela
deixou de ter nesse protagonismo. Que ela volte a ter o protagonismo ao lado da
esquerda e de partidos de centro”, declarou Tebet.
A fala
da ex-ministra ocorre em um contexto de forte disputa política nacional e de
rearranjo das forças partidárias de olho nas eleições de 2026. Tebet deixou o
cargo no governo em março para se desincompatibilizar e concentrar esforços em
sua pré-candidatura ao Senado por São Paulo, em articulação ao lado do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
<><>
Crítica à polarização política
Tebet,
que se define como uma pessoa de centro, disse que não esperava chegar ao atual
ciclo eleitoral com o Brasil ainda marcado por tamanha polarização. Para ela, o
debate público permanece preso a uma lógica ideológica que impede uma discussão
mais profunda sobre os rumos do país.
A
ex-ministra afirmou chegar a 2026 “entristecida”, mas também “extremamente
otimista”, manifestando a expectativa de que o eleitorado possa expressar sua
vontade nas urnas de maneira livre, considerando seus próprios interesses e não
apenas uma identificação ideológica.
“Mas,
lamentavelmente, a polarização ainda está aí. Eu espero que as minhas projeções
não estejam certas e que a gente tenha realmente esse debate de Brasil. Mas
assim, hoje o que se mostra é que a polarização ainda vai para um debate raso,
um debate de ideologia”, disse.
A
declaração reforça o diagnóstico de Tebet de que a política brasileira ainda
não superou a lógica de antagonismo que marcou os últimos anos. Ao defender uma
oposição “racional”, a ex-ministra busca diferenciar o conservadorismo
institucional do bolsonarismo, que ela associa a um projeto de poder incapaz de
contribuir para consensos nacionais.
<><>
Defesa de uma direita conservadora institucional
Ao
afirmar que a “direita conservadora” precisa retomar seu papel, Tebet indicou
que vê espaço para uma oposição organizada, programática e capaz de dialogar
com o centro e a esquerda em torno de pautas de interesse nacional. Sua fala
também sugere uma tentativa de separar a direita tradicional do movimento
político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na
avaliação da ex-ministra, a democracia brasileira depende de forças políticas
que disputem projetos de país, e não apenas espaços de poder. Por isso, ela
defendeu que diferentes correntes — direita, centro e esquerda — participem do
debate nacional sem paralisar iniciativas relevantes para o Brasil.
A
crítica ao bolsonarismo se conecta à trajetória recente de Tebet. Em 2022,
depois de disputar a Presidência da República, ela declarou apoio a Lula no
segundo turno e passou a integrar o governo federal como ministra do
Planejamento e Orçamento. Agora, fora do cargo, prepara-se para uma nova
disputa eleitoral, desta vez pelo Senado em São Paulo.
<><>
Eleições de 2026 e disputa por São Paulo
A saída
de Tebet do Ministério do Planejamento ocorreu dentro do prazo de
desincompatibilização exigido para quem pretende disputar as eleições. Sua
pré-candidatura ao Senado por São Paulo a coloca em um dos principais palcos
políticos do país e deve ampliar sua presença no debate nacional nos próximos
meses.
Ao
falar sobre o futuro político do Brasil, Tebet demonstrou preocupação com a
permanência da polarização, mas também afirmou manter otimismo em relação ao
papel do eleitor. Para ela, a escolha nas urnas deve refletir uma avaliação
livre sobre o que é melhor para cada cidadão e para o país.
As
declarações da ex-ministra devem repercutir entre diferentes setores políticos,
especialmente por sua defesa explícita de que o bolsonarismo perca espaço e de
que a direita conservadora tradicional volte a atuar como força institucional
no debate democrático.
A
entrevista também evidencia a estratégia discursiva de Tebet para 2026:
apresentar-se como uma liderança de centro, crítica ao bolsonarismo e favorável
a uma reorganização do campo político em torno de uma agenda nacional, com
oposição responsável e debate menos condicionado por radicalizações
ideológicas.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário