sexta-feira, 19 de junho de 2026

Copa do Mundo lança um raio de luz em meio à escuridão em Gaza

Um telão chama a atenção em um mercado escuro, um raro ponto de luz na Faixa de Gaza, que há meses enfrenta escassez de eletricidade.

Dezenas de homens e rapazes assistem ansiosos à partida Bélgica-Egito da primeira fase da Copa do Mundo de 2026, um dos duelos mais aguardados pelos torcedores palestinos, impacientes para ver as façanhas de seu ídolo, o "Faraó" Mohamed Salah.

O empate (1 a 1) não os desanima; alguns sobem nos ombros dos amigos, outros agitam enormes bandeiras egípcias.

Ao fim da tarde, o clima de Copa do Mundo havia se espalhado por todo o bairro de Nuseirat, no centro da Faixa de Gaza.

Os sorrisos se multiplicavam em meio às ruínas onipresentes após mais de dois anos de guerra entre Israel e o movimento islamista palestino Hamas.

- Fuga -

"A Copa do Mundo não é um evento trivial qualquer para os habitantes de Gaza", explica à AFP Mustafa Siam, membro da Federação Palestina de Futebol, cujo presidente não conseguiu visto para os Estados Unidos e o Canadá, dois dos países anfitriões do Mundial.

"Os torcedores palestinos vão tentar acompanhar as partidas e esquecer suas preocupações e sua dor", afirma esse homem de jaqueta vermelha, cor da seleção palestina.

De fato, vários proprietários dos pequenos cafés que surgiram na Faixa de Gaza se esforçam para recriar o clima das grandes competições anteriores. E não faltam clientes, apesar da miséria e da tristeza que predominam no ambiente.

Em Zawaida, no centro da Faixa, há um estabelecimento rudimentar montado sob a lona de um acampamento improvisado para deslocados, que transmite os jogos em uma pequena tela. Os comentários dos espectadores se misturam ao zumbido de um gerador.

- Éramos felizes -

"O mundo vive e aproveita a vida, enquanto nós não temos nem sequer um teto, uma escola ou eletricidade para poder assistir aos jogos", afirma.

Na beira-mar, vários pequenos cafés exibem as partidas, mas os geradores frequentemente param de funcionar, para irritação dos espectadores.

Os garçons têm de se virar para pôr em funcionamento aparelhos obsoletos, ligados por fios elétricos gastos, e torcer para que dê certo.

Várias pessoas ouvidas pela AFP citaram lembranças do Mundial anterior, em 2022, no Catar, quando telões foram instalados nos estádios Palestina e Yarmuk, na Cidade de Gaza, onde milhares de torcedores se reuniam para assistir às partidas noturnas.

Outros estabelecimentos de hospedagem e alimentação onde as pessoas costumavam assistir aos jogos, como o café Istambul, foram destruídos durante a guerra.

Marouane al-Cheikh, de 30 anos, que atualmente vive em uma tenda, lembra que acompanhou a edição anterior do torneio com seus amigos em diferentes cafés da moda em Gaza.

"Éramos felizes", recorda. "Já não sinto esse entusiasmo, assisto às partidas em um café instalado sob um toldo, hoje somos miseráveis, nossa visão de mundo mudou, não só em relação ao futebol".

•        Entre as ruínas, a Copa do Mundo vista em Gaza

Fadi al-Arawi, jogador de futebol da Primeira Divisão da Faixa de Gaza, não consegue mais voltar a entrar em campo desde que as competições esportivas profissionais foram suspensas há mais de dois anos, por conta do genocídio que Israel comete no enclave.

Assim como a maioria dos habitantes de Gaza, ele já não tem sequer um lar para assistir à Copa pela televisão. Quando o jogo de sábado entre Catar e Suíça estava prestes a começar, vestiu seu velho uniforme profissional do Gaza Sports Club e as medalhas que conquistou em competições internacionais. Inclinou-se na penumbra sobre um notebook de tela trêmula, tentando captar sinal de internet para ver a partida com um grupo de amigos, em uma sala de uma escola transformada em abrigo para os deslocados pelos ataques israelenses.

“Olha, esta é a internet, já está falhando e o jogo nem começou”, disse Al-Arawi, de 38 anos, à Reuters em Khan Younis, enquanto zumbidos de drones israelenses ouviam-se sobre suas cabeças. “Está ouvindo os drones? Podemos viver ou morrer, podemos ser bombardeados a qualquer momento.”

Grande parte de Gaza foi destruída e sua infraestrutura sofreu danos severos durante a ofensiva militar de dois anos de Israel no território. “Apesar de tudo, vamos assistir aos jogos.”

Quase toda a população de mais de dois milhões de palestinos vive em uma estreita faixa de território controlado pelo Hamas ao longo da costa, a maioria em barracas e edifícios danificados.

Alaa Babli, que administra o Royal Café na cidade de Gaza, instalou duas linhas elétricas alternativas e uma bateria reserva para garantir que os jogos noturnos possam continuar sendo transmitidos depois do desligamento os geradores a combustível, à meia-noite.

Hani Abu Rizq, que foi assistir a uma partida sob as bandeiras do Egito e de Marrocos penduradas na parede do café, disse que os moradores de Gaza nunca estão livres do medo quando saem às ruas.

“O café pode ser um alvo”, afirmou. “Algo ao meu lado pode ser um alvo, e eu posso perder a vida, mas, apesar de todo o sofrimento, seguimos em frente e vamos assistir aos jogos.”

A Associação Palestina de Futebol informa que, entre os 73 mil palestinos mortos por Israel desde 2023, estavam cerca de mil atletas, incluindo crianças, amadores de todas as modalidades e até árbitros e profissionais.

Israel também destruiu cerca de 285 instalações esportivas – algumas completamente arrasadas, outras bombardeadas. As forças israelenses transformaram estádios em campos de detenção, alguns dos quais se tornaram tristemente conhecidos por denúncias de tortura aos prisioneiros ali mantidos.

O emblemático estádio Al-Yarmouk, na cidade de Gaza, onde Al-Arawi e outros profissionais jogavam diante de milhares de espectadores, é agora um acampamento de barracas para famílias deslocadas. “Desde o extermínio israelense de 2023, o esporte palestino tem sido um dos principais alvos da máquina de guerra israelense”, disse Mustafa Siam, da Associação Palestina de Futebol.

<><> Em campo de refugiados em Gaza, palestinos acompanham jogo da Copa

Enquanto milhares de pessoas acompanhavam das arquibancadas do Estádio Lumen Field, em Seattle, o empate por 1 x 1, na segunda-feira (15/6), entre Egito e Bélgica, outra torcida vivia a partida a milhares de quilômetros dali. No campo de refugiados de Nuseirat, na Faixa de Gaza, uma multidão se reuniu diante de telões improvisados para assistir à estreia egípcia na Copa do Mundo. Em meio às marcas da guerra e da incerteza, o futebol transformou-se, por algumas horas, em refúgio para toda uma população. Segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos (UNRWA), a Faixa de Gaza abriga entre 1,6 e 1,7 milhão de refugiados palestinos registrados.

Em vídeos publicados nas redes sociais, é possível ver inúmeras bandeiras do Egito, cartazes dedicados ao craque Mohamed Salah e uma multidão concentrada na partida em Seattle. Durante 90 minutos, os palestinos em Gaza puderam desviar o olhar do horror cotidiano imposto pela guerra com Israel. O futebol ofereceu uma pequena trégua em meio aos escombros.

Em campo, a alegria chegou cedo para os egípcios. Ainda na primeira etapa, Emam Ashour abriu o placar e fez explodir em festa a multidão reunida em Gaza. Por alguns instantes, entre bandeiras agitadas e abraços, a guerra pareceu distante. No entanto, o futebol também conhece a crueldade: aos 66 minutos, um gol contra de Mohamed Hany devolveu o empate à Bélgica e silenciou parte da comemoração palestina. As nações, juntamente com Irã e Nova Zelândia, figuram no grupo G da Copa do Mundo.

Influenciada pelo grupo extremista Hamas, a Faixa de Gaza sofre com o conflito entre Israel e Palestina. Grande parte da infraestrutura do local foi gravemente danificada pelos bombardeios israelenses. Desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, em 7 de outubro de 2023, o número de mortos na região supera 73 mil vítimas, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

•        “Trump está apenas ganhando tempo”: iranianos encaram a assinatura do acordo de paz com Washington com ceticismo

Na cidade rural de Sirik, no sul do Irã, as temperaturas chegaram a 45 graus Celsius na última semana. Enquanto isso, moradores ainda faziam fila para encher baldes de água dias depois de ataques aéreos dos EUA terem supostamente danificado duas estações de tratamento de água potável que abastecem vilarejos próximos.

Em meio à escassez de água e à ameaça iminente de guerra, chegaram notícias de um possível acordo entre Washington e Teerã. No entanto, para aqueles que lutavam para se recuperar dos acontecimentos, o anúncio trouxe pouco alívio.

“Estou preocupada com a incerteza em torno do [acordo de paz]”, diz Nahid*, uma mãe de Sirik, descrevendo como os vizinhos fazem fila para conseguir água no calor sufocante, temendo que a escassez de água dure muito mais tempo. Embora o abastecimento de água tenha sido restabelecido após 12 horas, a quantidade que chegava às casas ainda estava longe de ser suficiente para beber e para as tarefas diárias.

“Minha filha de quatro anos acordou chorando por causa da desidratação e da dor entre as pernas, causada por assaduras e falta de água para higiene básica”, conta ela.

Nahid, que trabalha como costureira e é a única fonte de renda para sua família, diz temer pela saúde e pelo futuro de sua filha.

A reação de Nahid é uma das muitas compartilhadas por iranianos em todo o país, à medida que os Estados Unidos e o Irã se aproximam da assinatura oficial de um acordo.

Alborz, de 36 anos, escritor residente em Teerã, afirma que a situação levou muitos a sentirem que o mundo é governado por "pessoas completamente malucas".

“Ontem acordei minha esposa para contar que havíamos chegado a um acordo — e com concessões mínimas. Ficamos muito felizes. Pelo menos respiramos aliviados”, disse ele.

Ele afirma que as reações ao seu redor se dividem em três grupos principais: “O grupo cujos corações estão ligados ao regime; o grupo que está ligado à família Pahlavi [antiga família real] e defende a intervenção militar estrangeira; e o grupo que despreza ambos os anteriores”. Com o passar do tempo, o terceiro grupo parece estar crescendo, diz Alborz.

Para os linha-dura, que se reúnem quase todas as noites para celebrar a “vitória” da Guarda Revolucionária Islâmica e participam de treinamentos para aprender a manusear fuzis Kalashnikov, a perspectiva de um acordo com o “inimigo” provocou indignação, afirma Mina, roteirista residente em Teerã.

“Neste momento, todos estão com raiva, mas cada um por motivos diferentes. Os mulás vêm incitando seus seguidores a gritar ‘Morte à América’ há décadas, então qualquer acordo com o inimigo enfraquece o prestígio deles entre eles. E depois há pessoas como eu: odeio o regime e odeio que [Donald] Trump nos tenha traído”, diz ele.

“Embora Barack Obama não estivesse do lado do povo iraniano e tenha optado por negociar com os aiatolás, pelo menos ele agiu como um verdadeiro político e não como um empresário. Com ele, conseguimos o que esperávamos. Mas com Trump, fomos apunhalados pelas costas”, afirmou.

Mina apoia o retorno de Reza Pahlavi, filho do antigo xá, como um "líder de transição" e afirma não acreditar que jamais haverá um acordo de paz com o regime iraniano.

Ele também expressou sua indignação com o que chamou de duplo padrão internacional em relação às mortes de iranianos.

“O ataque dos EUA à escola [no qual 120 crianças morreram] foi horrível e deve ser condenado, e meus mais profundos pêsames às famílias inocentes que perderam entes queridos nos ataques. Mas por que vocês ignoram as crianças mortas nas ruas pelo regime apenas algumas semanas antes? Por que deveríamos confiar na sua defesa dos direitos humanos se vocês optam por lutar apenas por aqueles que se alinham politicamente com a sua agenda?”, questiona ele.

Embora muitos iranianos aguardassem ansiosamente por avanços diplomáticos, para outros o anúncio mal provocou qualquer reação.

Shaghayegh, de 24 anos, que participou das manifestações "Mulher, Vida, Liberdade" em Teerã e foi ferida na cabeça por balas de borracha, afirma categoricamente: "Tudo deixou de fazer sentido depois de 2022".

“Duvido que a guerra esteja prestes a terminar. A única coisa que mudou é que agora temos uma compreensão mais clara de quem são nossos verdadeiros aliados. E está ficando cada vez mais claro que Trump não é um deles.”

Com o aumento do ceticismo e a divisão de opiniões, muitas conversas revelam um sentimento compartilhado de exaustão — e raiva porque, na realidade, nada mudou.

"Fico feliz que ninguém mais inocente vá morrer por causa das bombas americanas, mas vocês podem concordar em voltar aos seus verões felizes na Europa e nos deixar voltar a ser mortos pelo regime?", pergunta Shaghayegh.

Alborz afirma que o acordo permanece frágil e incerto. "Todos dizem que Trump está apenas ganhando tempo até o fim da Copa do Mundo", diz ele, prevendo que "qualquer coisa pode acontecer no próximo mês".

*Os nomes foram alterados.

 

Fonte: UOL/Outras Palavras/El Diário

 

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