Um
Auto e muitas tragédias, onde o rio some e as barreiras se erguem
Logo na
primeira frase, os recifenses percebem que não sou daqui. Quando digo que sou
piauiense, noto um olhar diferente. Parece que meu interlocutor está diante de
uma criatura resistente a condições climáticas extremas. A seguir, geralmente
fazem o que chamo de “bullying climático”. Os que já foram ao Piauí contam a
experiência térmica inesquecível que tiveram quando as portas do avião foram
abertas. Outros repetem a piada da ave de rapina que voa com apenas uma asa. E
por aí vai.
Esta
semana, perguntaram-me se vim para o Recife atrás da chuva. Como de costume,
sorri, porque acho mesmo graça. Mas essa simples pergunta puxou um fio de
memórias que, por diferentes caminhos, se conectam aos dias de hoje.
Na
verdade, foi o Recife que me encontrou primeiro. Em 1999, minha escola elencou
Morte e Vida Severina como leitura obrigatória. De início, o Recife do livro se
abriu como uma miragem: um oásis de abundância e fertilidade que salvaria
Severino da fome, da truculência dos latifundiários e da morte precoce. O
Capibaribe foi o fio de água e de esperança que o conduziu rumo à decepção de
constatar que caminhava para o próprio enterro.
Só em
2012 coloquei meus pés na cidade “onde o rio some”. Lembro-me de passar ao lado
de um canal que não me trouxe a melhor experiência olfativa. Perguntei-me como
os transeuntes passavam por ali com tanta naturalidade. Após 14 anos morando
aqui, de repente, percebi que já me acostumei aos canais.
Outra
coisa que me chamou a atenção foi o fato de sempre haver uma escultura na
fachada dos edifícios. De início, pensei que fosse uma espécie de tradição
local. Depois, descobri que há uma lei municipal que obriga construções de
grande porte a manter uma obra de arte na área não edificável. Aliás, o
Habite-se só é concedido após a aprovação do projeto pelo Conselho Municipal de
Cultura e a efetiva implantação da peça artística, que deve ser assinada por um
artista plástico cadastrado na Empresa de Urbanização do Recife. Como se a arte
florescesse do casamento entre a coerção burocrática e o cumprimento de
requisitos.
Ainda
dentro das questões normativas, em algum momento do ano de 2020, ao entrar em
um elevador, deparei-me com uma placa metálica que dizia que, no âmbito do
estado de Pernambuco, ficava proibido o uso de elevadores por crianças
desacompanhadas de um adulto. Pensei: que tipo de sociedade precisa de uma lei
para não permitir que uma criança entre sozinha em um elevador? Mas, ao lembrar
do caso que ensejou a criação da lei, as respostas vieram. Uma sociedade na
qual o grau de cuidado e comiseração despertado por um menino dependerá da cor
da sua pele; na qual o passeio do cachorro é mais importante que a segurança de
uma criança.
Mas o
que isso tem a ver com o fato de terem me perguntado se eu era uma refugiada
climática ou, no português mais seco e regional, uma retirante? Deixe que lhe
diga: no Piauí, percebemos com horas de antecedência que vai chover. Antes da
chuva, vem uma brisa com cheiro de alívio e terra molhada. E, ao menos onde eu
vivia, as primeiras gotas eram a deixa para as crianças irem para a rua. O
tempo da brincadeira ficava por conta de São Pedro, e a única preocupação dos
adultos era retirar as roupas do varal a tempo.
No
Recife, descobri um céu imprevisível. A chuva tem cheiro de lama e, da lama ao
caos, há um caminho curto que Chico Science eternizou. A chuva é um
sobressalto. Traz consigo a perturbação e, eventualmente, um presságio de
morte.
No
último dia 1º de maio, recebemos um alerta da Defesa Civil dizendo que
deveríamos procurar um local seguro. Ocorre que eu já estava muito segura, em
minha casa, em pleno feriado do Dia do Trabalhador. Enquanto isso, Fábio
Pimentel Barros, de 25 anos, saiu do Alto da Bondade, em Olinda, para o bairro
de Beberibe, onde vendia bananas. Deixou Bruna, sua esposa, de 20 anos, com
Pietro, o filho do casal, de 6 meses. Uma barreira rompeu-se e atingiu em cheio
a casa onde estavam a mãe e o bebê.
Ao
saber do ocorrido, Fábio voltou às pressas e participou das buscas ao lado dos
bombeiros. Seu desespero em meio à lama foi televisionado e durou algumas
horas. O desfecho, dispensem-me de contar, pois, desde que me tornei mãe,
parece que toda mãe sou eu e que todo menino é meu filho. Apenas direi que o
“Auto de Natal Pernambucano” teve um final mais feliz, pois uma criança nasceu
e Severino viu, no surgimento dessa vida, um motivo para não dar cabo da sua.
Muito
perto dali, no bairro de Dois Unidos, já dentro dos limites do Recife, outra
barreira se rompeu e atingiu a casa de José, de 30 anos, e Jaqueline, de 24,
grávida de dois meses. Com eles estavam os filhos Riquelmy, de 7 anos, e Maria
Helena, de apenas 1. José também sobreviveu ao inominável.
O que
aconteceu nas horas subsequentes foi uma coreografia que já conhecemos:
reuniões, decretos, declarações, entrevistas e postagens de políticos
oferecendo seus préstimos de apoio e solidariedade. Mas esse foi apenas o
primeiro ato da tragédia.
Poucos
dias depois, Fábio apresentou uma série de sinais e sintomas que a família
creditou a um simples quadro viral. No dia 13 de maio, devido à persistência
das queixas, procurou atendimento na UPA de Paulista; após ser medicado,
recebeu alta. Diante da ausência de melhora, dirigiu-se à UPA de Nova
Descoberta, onde foi levantada a hipótese diagnóstica de leptospirose. Evoluiu
com rápida piora clínica e morreu na manhã do dia 14.
O
período de incubação da leptospirose varia de 1 a 30 dias após o contato com
água contaminada. Fábio perdeu sua família no contexto de uma tragédia que
mistura componentes urbanísticos e naturais e, em consequência disso, sofreu
exposição de risco. Em qualquer país civilizado, estaria sob rigoroso
acompanhamento médico, psicológico e social, principalmente ao longo desses 30
dias de maior vulnerabilidade.
Entretanto,
em vez de encontrar o acolhimento compatível com a gravidade e a delicadeza de
sua situação, Fábio atravessou, de forma solitária, o percurso burocrático e
penitente que só quem depende exclusivamente do SUS conhece: uma senha, uma
espera, uma triagem, outra espera, um médico, medicações, mais espera, exames,
mais uma espera, uma receita, uma alta, voltar para casa e… enfrentar tudo
outra vez.
Segundo
o art. 6º da Constituição Federal, são direitos sociais a educação, a saúde, a
alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a
previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos
desamparados. Ou seja, a chuva do dia 1º de maio não soterrou apenas as casas
de duas famílias; fez desmoronar metade de um dispositivo constitucional.
No dia
1º de maio, duas barreiras físicas romperam-se. Entre os dias 13 e 14,
múltiplas barreiras invisíveis ergueram-se entre Fábio e seus direitos. A
barreira física e toda a lama que dela transborda atraem visibilidade midiática
e geram comoção. As barreiras invisíveis matam muito mais e a todo momento; são
tratadas como se fossem a sina de cada um, quando, na realidade, são desfechos
evitáveis, previstos e precificados nos balcões da necropolítica. Afinal,
sempre se pode atribuir à ação da natureza o resultado da inércia ou da
venalidade dos homens.
Já me
acostumei com os canais. Mas pretendo não me acostumar com o fato de que a
manutenção da desigualdade é, ao mesmo tempo, causa e consequência do ideal de
sucesso disseminado em nossa sociedade: a ascensão econômica individual,
indiferente ao estado de bem-estar social.
Aliás,
o próprio adoecer tem sido transformado em uma experiência estética e de
distinção de classes. Hospitais privados vêm investindo em segmentos de luxo,
com quartos e serviços que remetem à hotelaria de alto padrão, pois a doença
também se converteu em uma oportunidade de exposição e reafirmação de status.
Enquanto isso, a saúde pública segue de forma intermitente, heterogênea,
retardatária, analógica e clientelista.
Enquanto
proliferam os prédios residenciais batizados com nomes como Park, Prince,
Plaza, Grand e Privilege, as encostas estão abarrotadas de ruas sem nome e
gente sem sobrenome. Enquanto os edifícios são obrigados a ostentar esculturas,
os pobres se apinham nos morros sem que haja a menor obrigação estatal em lhes
assegurar direitos fundamentais. A fruição estética é obrigatória por lei, mas
a dignidade humana segue sendo opcional para as figuras de poder.
As 133
mortes de maio de 2022 e os destinos de Fábio e José se encontram em um ponto
fronteiriço, onde se torna nebulosa a diferença entre padrão, repetição e
convergência. Mas também nos conduzem à certeza de que o acaso de muitos é
filho do arbítrio de poucos.
Até
quando vamos continuar fingindo que todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza? Até que a próxima chuva de maio dilua o fino
verniz de humanidade que passamos na cara.
Eu e
você moramos em ruas com nomes de homens históricos e em prédios com
estrangeirismos associados à nobreza e distinção. Aparentemente, nomeamos as
coisas de acordo com as aspirações que temos dentro de nós. Fábio morava no
Alto da Bondade, e isso diz muito sobre o que as pessoas que lá residem
almejam, esperam ou sentem falta.
Fonte:
Maria Tereza Paraguassú Martins Guerra, no Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário