Quem
paga mais impostos na América Latina?
Os
impostos financiam escolas, hospitais, estradas e aposentadorias. Em teoria,
além disso, têm outra função-chave: reduzir as desigualdades. Mas, na América
Latina, uma das regiões mais desiguais do mundo, os sistemas tributários
parecem estar longe disso.
"Na
América Latina e no Caribe, a política fiscal arrecada pouco, de forma injusta,
e aprofunda a extrema desigualdade", afirma a Oxfam em sua publicação
Riqueza sem controle, democracia em risco: por que a América Latina e o Caribe
precisam de um novo pacto fiscal. Segundo a organização internacional de
combate à pobreza, "a estrutura tributária funciona de maneira contrária
ao que deveria: desperdiça seu potencial de redistribuição e protege aqueles
que mais têm".
Para
Verónica Paz Arauco, diretora de programas da Oxfam na região, o resultado é
claro: "Hoje, quem sustenta o sistema tributário são, proporcionalmente,
os que menos têm", afirma à DW. "Os lares de baixa e média renda o
financiam principalmente por meio de impostos sobre o consumo", explica.
"Enquanto uma pessoa pertencente aos 50% mais pobres pode destinar cerca
de 45% de sua renda ao pagamento de impostos, o 1% mais rico contribui com
menos de 20%", critica.
O
gráfico acima, que mostra o peso da arrecadação tributária no Produto Interno
Bruto (PIB) dos países da América Latina e do Caribe, expõe outra disparidade:
comparada aos países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), entidade popularmente conhecida como "clube dos países
ricos", a região arrecada bem menos impostos.
A
diferença é ainda mais gritante na comparação com as nações que lideram o
Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado à Desigualdade (IDHAD): Islândia,
Dinamarca, Noruega, Suíça, Holanda, Bélgica, Finlândia, Alemanha, Irlanda e
Suécia. Nesses países, o peso dos impostos no PIB é de mais de 35% e chega a
até 45%, no caso dinamarquês. As únicas exceções da lista são Suíça (27,2%) e
Irlanda (21,7%).
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Quem tem mais paga menos
Boa
parte da arrecadação fiscal latino-americana vem de impostos sobre o consumo,
enquanto os tributos sobre renda, lucros e riqueza têm um peso muito menor. Ou
seja: a região tributa mais o consumo cotidiano do que as grandes rendas e
patrimônios.
"As
famílias de menor renda têm menos poupança, por isso destinam proporcionalmente
mais de sua renda ao consumo. Isso faz com que os impostos sobre o consumo
tenham um efeito regressivo", explica, em entrevista à DW, Ricardo Cantú
Calderón, pesquisador do Centro de Investigação Econômica e Orçamentária
(CIEP), no México.
"A
tributação se baseia em impostos que aprofundam a desigualdade", afirma à
DW, no mesmo sentido, a economista María Julia Eliosoff, diretora de projetos
econômicos da Fundação Friedrich Ebert na Argentina. Trata-se de "uma
situação de injustiça muito clara", avalia.
Mas
esse desequilíbrio não se explica apenas pelo fato de que quem tem menos
destina uma parte maior de sua renda ao pagamento de impostos. Pesa também a
forma como se tributam — ou deixam de ser tributadas — as rendas mais altas e o
patrimônio.
"Uma
parte importante da renda das pessoas mais ricas vem do capital, que continua
sendo insuficientemente tributado, e existem amplos benefícios fiscais",
aponta Verónica Paz Arauco, da Oxfam.
Cantú
Calderón, do CIEP, concorda e acrescenta que quem possui grandes patrimônios
pode recorrer a estratégias financeiras e esquemas que lhes permitem se
beneficiar de tratamentos tributários mais favoráveis.
Eliosoff
concorda, e pontua que a arrecadação sobre patrimônio é quase inexistente na
região.
Mas
tributar mais quem ganha mais não poderia desestimular o investimento e
comprometer o crescimento, como argumentam alguns? Para Cantú, a ideia
"não tem muito fundamento". "No curto prazo, os investidores
reagem, mas no longo prazo isso se ajusta", afirma.
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Economia informal também é desafio para a arrecadação
A esse
cenário soma-se outro desafio estrutural da região: a elevada informalidade no
mercado de trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT),
praticamente um em cada dois trabalhadores da América Latina e do Caribe
(46,7%) atuava em empregos informais no primeiro semestre de 2025.
"Essa
situação limita a arrecadação, especialmente em impostos diretos e
contribuições sociais, e empurra os Estados a depender mais de impostos
indiretos como o IVA [Imposto sobre Valor Agregado de produtos e
serviços]", afirma Arauco, da Oxfam.
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O peso das grandes fortunas
Mas o
debate sobre quem paga impostos ganha outra dimensão quando se observa a
concentração de riqueza.
A
fortuna conjunta dos bilionários da América Latina e do Caribe chega a 622,9
bilhões de dólares, um valor quase equivalente ao PIB combinado de Chile e
Peru. Dados da Oxfam mostram ainda que, neste século, a riqueza desse pequeno
grupo cresceu 16 vezes mais rápido do que a economia regional.
Arauco,
da Oxfam, explica que a não taxação da riqueza acumulada pelos mais ricos – ou
a taxação insuficiente – se reflete diretamente na falta de financiamento para
serviços públicos essenciais, como saúde, educação e sistemas de cuidado.
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Como tornar o sistema tributário mais justo?
"A
chave não é eliminar os impostos sobre o consumo, mas garantir que sejam os
melhores possíveis", sustenta em entrevista à DW Julián Folgar, economista
do Banco Mundial para a Argentina e professor de Finanças Públicas.
"Reformas que ampliem a base tributária, reduzam tratamentos preferenciais
injustificados e melhorem o cumprimento das regras podem gerar ganhos
simultâneos em equidade, eficiência e arrecadação", detalha.
O
desafio para a América Latina, portanto, não seria apenas arrecadar mais, e sim
construir sistemas tributários mais progressivos, capazes de reduzir
desigualdades sem comprometer o crescimento econômico. Porque, no fim, o debate
não é apenas sobre quanto arrecadar, mas também quem paga essa conta.
Fonte:
DW Brasil

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