sexta-feira, 19 de junho de 2026

Paulo Henrique Arantes: Chama-se "flaking" o mais novo crime de Vorcaro descoberto pela PF

O banditismo de Daniel Vorcaro está muito além das famigeradas redes de corrupção brasileiras. Trata-se não apenas da cooptação de políticos e de quadros técnicos das estruturas estatais para favorecimentos e enriquecimento nos ambientes financeiros, mas da adoção sem pudor de práticas mafiosas para a solução até mesmo de entreveros de ordem pessoal ou amorosa. Os métodos de intimidação da “Turma”, nome dado à milícia privada a serviço do dono do Banco Master, não devem nada aos das máfias transnacionais, reais ou cinematográficas. Assim nos fazem deduzir as recentes revelações da Polícia Federal.

Diálogos interceptados pela PF mostraram que Vorcaro ordenou à “Turma” uma ação de vingança contra o DJ e ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly, que teve um relacionamento com Martha Graeff — eles têm uma filha. À época das mensagens, Graeff era namorada de Vorcaro. O método sugerido pelo banqueiro-mafioso, disposto a investir R$ 10 milhões na empreitada, foi o flaking: termo que designa “plantar” drogas e forjar uma situação de flagrante policial.

Seikaly morava em Miami. Nas conversas capturadas pela PF, não parece decidido se o flaking ocorreria na cidade da Flórida ou se o DJ seria seduzido a realizar uma apresentação no Brasil, onde se armaria a cilada. Vorcaro orienta Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, a acionar “o amigo da Interpol” para viabilizar a tarefa.

Fato é que a polícia de Miami possui notória expertise quando se trata de plantar provas falsas, e o banqueiro mostra-se conhecedor dos métodos intimidatórios que, digamos, possuem alto potencial de gerar o resultado esperado. Rememore-se o caso Raul Iglesias, de 2012.

Iglesias era um policial veterano com 18 anos de corporação e liderava uma unidade de elite de combate ao tráfico de drogas. Na verdade, era o rei do flaking. Investigações conduzidas pelo FBI e pela Corregedoria descobriram que ele e sua equipe rotineiramente plantavam sacos de cocaína e crack em suspeitos que queriam prender, mesmo quando nenhuma droga era encontrada com o alvo. O esquema era duplo: além de forjar os flagrantes, o sargento Iglesias roubava pacotes de drogas e milhares de dólares em espécie apreendidos de traficantes reais, usando parte do entorpecente roubado para abastecer seu “estoque” e plantar em futuras vítimas inocentes.

Em janeiro de 2013, um júri federal em Miami julgou Raul Iglesias culpado por conspiração para violar direitos civis, distribuição de narcóticos e obstrução de justiça. O Departamento de Justiça americano classificou o caso como uma traição absoluta à confiança pública. Parece que o “método Iglesias” seduziu Daniel Vorcaro e seus sicários — sem surpresa, se forem consideradas as dimensões dos outros métodos adotados pela “Turma”.

As organizações mafiosas modernas, como a liderada por Daniel Vorcaro, utilizam aparatos de vigilância privada e infiltrações para antecipar passos de adversários e neutralizar ameaças internas. Perseguição, levantamento de rotinas e descoberta de endereços residenciais de ex-funcionários, colaboradores insatisfeitos ou críticos são práticas rotineiras. No caso de Vorcaro, a PF identificou ordens expressas para conseguir o endereço e rastrear os passos de ex-empregados que ameaçavam expô-lo.

O banqueiro também usava agentes ou contatos policiais para invadir ilegalmente bancos de dados sigilosos do Ministério Público Federal e da própria Polícia Federal, como apurou a investigação. O leque criminoso incluía planejamento de emboscadas violentas disfarçadas de crimes comuns para aplicar surras ou punições físicas, como aquela desvendada que se armava contra o jornalista Lauro Jardim.

A umbilical relação entre Vorcaro e o senador Ciro Nogueira, recebedor de mesadas milionárias e mimos variados, bem como o tratamento fraterno desnudado entre o banqueiro-mafioso e Flávio Bolsonaro com vistas à produção da hagiografia do pai — ou ao sustento luxuoso do foragido Eduardo Bolsonaro —, ou ainda a escandalosa promiscuidade apurada entre o CEO do Banco Master e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro, atestam o que já era público e notório: a intimidade dos bolsonaristas com adeptos de práticas milicianas. Gente da pior espécie se admira e se atrai.

•        Denúncia do ICL embasa inquérito da PF sobre sacola de dinheiro de Vorcaro a Ciro Nogueira

A Polícia Federal (PF) suspeita que uma aeronave de táxi aéreo tenha sido usada para o envio de dinheiro em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em um dos desdobramentos da investigação sobre a relação entre o parlamentar e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

As informações constam em documentos anexados ao inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça. Em um dos relatórios, a PF dedica um tópico específico ao tema: “Do possível envio de dinheiro em espécie por meio do modal aéreo”. Neste trecho, os investigadores citam a reportagem publicada pelo ICL Notícias em setembro do ano passado.

Em entrevista exclusiva, o piloto Mauro Caputti Mattosinho, ex-funcionário da TAP (Táxi Aéreo Piracicaba), contou ter transportado em voo de São Paulo para Brasília uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, no dia 6 de agosto de 2024.

A PF estabelece uma correlação temporal entre este voo e a elaboração do texto da emenda de projeto de lei que beneficiaria o Banco Master, que ficou conhecida como “emenda Master”.

Segundo os autos, o texto da proposta foi elaborado em 30 de julho de 2024. No dia 6 de agosto, ocorreu a viagem mencionada por Mauro Mattosinho e sete dias depois a versão final da minuta foi entregue na residência do senador Ciro Nogueira, em Brasília.

“Embora o relato do piloto acerca do suposto transporte de numerário no voo de 06/08/2024 decorra de reportagem jornalística e ainda careça de comprovação material quanto à efetiva entrega de valores ao senador Ciro Nogueira, os fatos narrados pelo piloto Mauro Caputti Mattosinho apresentam relevância contextual e cronológica, bem como se mostram compatíveis com o cenário investigado, especialmente quando analisados em conjunto com os demais elementos informativos já apresentados”, observou a Polícia Federal.

Exatamente um ano depois dos fatos denunciados por Mattosinho, em 6 de agosto de 2025,  o piloto fez outra viagem de São Paulo para Brasília, na mesma aeronave, de matrícula PR-SMG. A data coincide com uma conversa entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, sobre tratativas de pagamento em espécie a Ciro Nogueira. No entanto, não há indícios de que Mattosinho tenha transportado dinheiro durante este voo.

Na troca de mensagem anexada nos autos, Vorcaro aciona Zettel, que é apontado como operador financeiro do esquema do Master, “para resolver Ciro” e pedindo para “mandar lá agora”. Ao ser questionado sobre valor de uma transação, Zettel

<><> Suspeita dialoga com apuração sobre mesada

A anotação “Espécie Ciro 350K” também dialoga com outra frente da investigação: a suspeita de pagamento de mesada a Ciro Nogueira.

Durante a 5ª fase da Operação Compliance Zero, documentos da PF apontaram que o esquema investigado revelaria quatro frentes de supostos benefícios concedidos ao senador por Daniel Vorcaro. Uma dessas frentes seria o pagamento de uma mesada que poderia variar entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais.

Assim, para a PF, o registro de um pagamento em espécie de R$ 350 mil a “Ciro” não aparece como fato isolado. Ele surge em um contexto em que os investigadores já analisavam supostos repasses periódicos e vantagens financeiras atribuídas ao senador.

<><> O voo revelado pelo ICL

Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias em setembro do ano passado, usada para embasar o relatório da PF, Mauro Mattosinho contou detalhes do voo em que o nome de Ciro foi citado por passageiros. Segundo ele, a sacola que aparentava ter dinheiro viajou no toalete do bimotor que fez o trajeto de São Paulo para Brasília, com escala no Rio de Janeiro, em 6 de agosto de 2024.

Durante o voo, o piloto estava na companhia do empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, suspeito de liderar um esquema de lavagem de dinheiro do PCC por meio de postos de combustíveis. Segundo Mauro, Beto Louco mencionou a outros passageiros que iria encontrar com o senador Ciro Nogueira.

“(Eles) portavam uma sacola de papel. Aquela sacola de papel me foi apontada por pessoas da empresa como uma sacola que deveria ser especialmente cuidada. É esse tipo de comunicação se dava para que nós entendêssemos que ali continha dinheiro.”

O alerta de cuidado teria sido dado por Epaminondas Chenu Madeira, o dono da empresa de táxi aéreo, segundo o relato do piloto.

A investigação da PF mostra que Vorcaro tinha em seu celular o contato telefônico de Madeira. Documentos revelam ainda que o ex-banqueiro pagou por voos realizados em 2020 pelo jato executivo PR-SMG — o mesmo que Mattosinho teria transportado a suposta sacola de dinheiro. Também foi essa aeronave que o piloto conta ter viajado pelo menos 30 vezes com Beto Louco e seu sócio também investigado, Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”.

Nesta terça-feira (16), o ICL Notícias voltou a entrevistar Mauro Matosinho. O piloto afirmou que ouviu menções a um “banqueiro” durante conversas ocorridas na sede da TAP.

“O que a gente ouvia com frequência nas operações de táxi aéreo por parte do Beto Louco era menção ao ‘banqueiro’. Esse banqueiro não era mencionado por nome. O que se mencionava eram encontros, inclusive teve festa à noite em Brasília promovida por Antonio Rueda [presidente do União Brasil] em que Beto esteve e que ele mencionava que o banqueiro estaria. Era esse tipo de conversa que envolvia esse personagem, o banqueiro”.

Procurada, a defesa de Beto Louco enviou uma nota ao ICL Notícias: “A defesa de Roberto Leme esclarece que não existe qualquer vínculo entre ele e a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). As manifestações do Ministério Público do Estado de São Paulo nos autos das Operações Carbono Oculto e Fluxo Oculto, as quais a imprensa teve amplo e irrestrito acesso, demonstram que essa falsa versão teve como ponto de partida reportagens jornalísticas, referidas nas manifestações como “mídias negativas”. A partir dessas publicações, novas matérias passaram a reproduzir o mesmo conteúdo, criando um ciclo de retroalimentação de informações.

Em relação ao suposto transporte de recursos mencionados nas matérias jornalísticas veiculadas na tarde de hoje, a defesa nega a existência desses fatos e repudia qualquer tentativa de vinculação dele com Daniel Vorcaro e registra que ele nunca sequer deu “um bom dia” ao ex-banqueiro ou a pessoas ligadas a ele. A defesa continua à disposição das Autoridades, como sempre se manteve, a fim de contribuir com o devido processo legal”.

<><> Veja aqui as mais recentes revelações sobre o escândalo do Banco Master

O escândalo do Banco Master já seria grave o suficiente se estivesse restrito às suspeitas de fraudes financeiras que levaram à intervenção das autoridades, à descoberta de um rombo bilionário e à prisão de Daniel Vorcaro e de outros investigados. Mas, à medida que as investigações avançam, o enredo revelado pelos documentos, depoimentos e operações policiais mostra que o caso está longe de terminar.

A cada semana surgem novos documentos, depoimentos e registros que ampliam o alcance da investigação. O que começou como uma apuração sobre operações financeiras suspeitas passou a revelar conexões com figuras influentes da política nacional, relações de proximidade com autoridades e episódios que alcançam personagens ligados ao crime organizado.

Nesta terça-feira (16) vieram à tona novos relatos sobre benefícios concedidos a agentes públicos, registros de luxos custeados para autoridades, fotografias que demonstram a proximidade de Vorcaro com lideranças políticas e informações sobre ameaças envolvendo documentos sensíveis mantidos por pessoas próximas ao núcleo investigado.

Tomadas isoladamente, cada uma dessas revelações já mereceria atenção. Em conjunto, porém, elas apontam para algo maior: um sistema de relações construído ao redor dos poderes econômico e político que serviram para proteger interesses privados e ampliar sua capacidade de influência e atuação.

É justamente a soma dos fatos que torna o caso tão preocupante. Não se trata apenas de entender como funcionava o esquema financeiro, mas de compreender quem se beneficiou dele, quem circulava ao seu redor e quais estruturas de poder ajudaram a construir e proteger o império erguido por Daniel Vorcaro.

As investigações ainda estão em andamento. Mas o que já veio à tona é suficiente para expor algo maior do que Daniel Vorcaro. A sucessão de revelações mostra como parcelas do poder político e econômico brasileiro seguem funcionando em circuito fechado, protegendo interesses, distribuindo favores e usando funções públicas para defender interesses privados.

 

Fonte: Brasil 247/ICL Notícias

 

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