Paulo
Henrique Arantes: Chama-se "flaking" o mais novo crime de Vorcaro
descoberto pela PF
O
banditismo de Daniel Vorcaro está muito além das famigeradas redes de corrupção
brasileiras. Trata-se não apenas da cooptação de políticos e de quadros
técnicos das estruturas estatais para favorecimentos e enriquecimento nos
ambientes financeiros, mas da adoção sem pudor de práticas mafiosas para a
solução até mesmo de entreveros de ordem pessoal ou amorosa. Os métodos de
intimidação da “Turma”, nome dado à milícia privada a serviço do dono do Banco
Master, não devem nada aos das máfias transnacionais, reais ou
cinematográficas. Assim nos fazem deduzir as recentes revelações da Polícia
Federal.
Diálogos
interceptados pela PF mostraram que Vorcaro ordenou à “Turma” uma ação de
vingança contra o DJ e ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly, que teve um
relacionamento com Martha Graeff — eles têm uma filha. À época das mensagens,
Graeff era namorada de Vorcaro. O método sugerido pelo banqueiro-mafioso,
disposto a investir R$ 10 milhões na empreitada, foi o flaking: termo que
designa “plantar” drogas e forjar uma situação de flagrante policial.
Seikaly
morava em Miami. Nas conversas capturadas pela PF, não parece decidido se o
flaking ocorreria na cidade da Flórida ou se o DJ seria seduzido a realizar uma
apresentação no Brasil, onde se armaria a cilada. Vorcaro orienta Luiz Phillipi
Machado de Moraes Mourão, o Sicário, a acionar “o amigo da Interpol” para
viabilizar a tarefa.
Fato é
que a polícia de Miami possui notória expertise quando se trata de plantar
provas falsas, e o banqueiro mostra-se conhecedor dos métodos intimidatórios
que, digamos, possuem alto potencial de gerar o resultado esperado. Rememore-se
o caso Raul Iglesias, de 2012.
Iglesias
era um policial veterano com 18 anos de corporação e liderava uma unidade de
elite de combate ao tráfico de drogas. Na verdade, era o rei do flaking.
Investigações conduzidas pelo FBI e pela Corregedoria descobriram que ele e sua
equipe rotineiramente plantavam sacos de cocaína e crack em suspeitos que
queriam prender, mesmo quando nenhuma droga era encontrada com o alvo. O
esquema era duplo: além de forjar os flagrantes, o sargento Iglesias roubava
pacotes de drogas e milhares de dólares em espécie apreendidos de traficantes
reais, usando parte do entorpecente roubado para abastecer seu “estoque” e
plantar em futuras vítimas inocentes.
Em
janeiro de 2013, um júri federal em Miami julgou Raul Iglesias culpado por
conspiração para violar direitos civis, distribuição de narcóticos e obstrução
de justiça. O Departamento de Justiça americano classificou o caso como uma
traição absoluta à confiança pública. Parece que o “método Iglesias” seduziu
Daniel Vorcaro e seus sicários — sem surpresa, se forem consideradas as
dimensões dos outros métodos adotados pela “Turma”.
As
organizações mafiosas modernas, como a liderada por Daniel Vorcaro, utilizam
aparatos de vigilância privada e infiltrações para antecipar passos de
adversários e neutralizar ameaças internas. Perseguição, levantamento de
rotinas e descoberta de endereços residenciais de ex-funcionários,
colaboradores insatisfeitos ou críticos são práticas rotineiras. No caso de
Vorcaro, a PF identificou ordens expressas para conseguir o endereço e rastrear
os passos de ex-empregados que ameaçavam expô-lo.
O
banqueiro também usava agentes ou contatos policiais para invadir ilegalmente
bancos de dados sigilosos do Ministério Público Federal e da própria Polícia
Federal, como apurou a investigação. O leque criminoso incluía planejamento de
emboscadas violentas disfarçadas de crimes comuns para aplicar surras ou
punições físicas, como aquela desvendada que se armava contra o jornalista
Lauro Jardim.
A
umbilical relação entre Vorcaro e o senador Ciro Nogueira, recebedor de mesadas
milionárias e mimos variados, bem como o tratamento fraterno desnudado entre o
banqueiro-mafioso e Flávio Bolsonaro com vistas à produção da hagiografia do
pai — ou ao sustento luxuoso do foragido Eduardo Bolsonaro —, ou ainda a
escandalosa promiscuidade apurada entre o CEO do Banco Master e o ex-governador
do Rio de Janeiro Cláudio Castro, atestam o que já era público e notório: a
intimidade dos bolsonaristas com adeptos de práticas milicianas. Gente da pior
espécie se admira e se atrai.
• Denúncia do ICL embasa inquérito da PF
sobre sacola de dinheiro de Vorcaro a Ciro Nogueira
A
Polícia Federal (PF) suspeita que uma aeronave de táxi aéreo tenha sido usada
para o envio de dinheiro em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em um dos
desdobramentos da investigação sobre a relação entre o parlamentar e o dono do
Banco Master, Daniel Vorcaro.
As
informações constam em documentos anexados ao inquérito que tramita no Supremo
Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça. Em um dos
relatórios, a PF dedica um tópico específico ao tema: “Do possível envio de
dinheiro em espécie por meio do modal aéreo”. Neste trecho, os investigadores
citam a reportagem publicada pelo ICL Notícias em setembro do ano passado.
Em
entrevista exclusiva, o piloto Mauro Caputti Mattosinho, ex-funcionário da TAP
(Táxi Aéreo Piracicaba), contou ter transportado em voo de São Paulo para
Brasília uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, no dia 6 de
agosto de 2024.
A PF
estabelece uma correlação temporal entre este voo e a elaboração do texto da
emenda de projeto de lei que beneficiaria o Banco Master, que ficou conhecida
como “emenda Master”.
Segundo
os autos, o texto da proposta foi elaborado em 30 de julho de 2024. No dia 6 de
agosto, ocorreu a viagem mencionada por Mauro Mattosinho e sete dias depois a
versão final da minuta foi entregue na residência do senador Ciro Nogueira, em
Brasília.
“Embora
o relato do piloto acerca do suposto transporte de numerário no voo de
06/08/2024 decorra de reportagem jornalística e ainda careça de comprovação
material quanto à efetiva entrega de valores ao senador Ciro Nogueira, os fatos
narrados pelo piloto Mauro Caputti Mattosinho apresentam relevância contextual
e cronológica, bem como se mostram compatíveis com o cenário investigado,
especialmente quando analisados em conjunto com os demais elementos
informativos já apresentados”, observou a Polícia Federal.
Exatamente
um ano depois dos fatos denunciados por Mattosinho, em 6 de agosto de
2025, o piloto fez outra viagem de São
Paulo para Brasília, na mesma aeronave, de matrícula PR-SMG. A data coincide
com uma conversa entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, sobre tratativas
de pagamento em espécie a Ciro Nogueira. No entanto, não há indícios de que
Mattosinho tenha transportado dinheiro durante este voo.
Na
troca de mensagem anexada nos autos, Vorcaro aciona Zettel, que é apontado como
operador financeiro do esquema do Master, “para resolver Ciro” e pedindo para
“mandar lá agora”. Ao ser questionado sobre valor de uma transação, Zettel
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Suspeita dialoga com apuração sobre mesada
A
anotação “Espécie Ciro 350K” também dialoga com outra frente da investigação: a
suspeita de pagamento de mesada a Ciro Nogueira.
Durante
a 5ª fase da Operação Compliance Zero, documentos da PF apontaram que o esquema
investigado revelaria quatro frentes de supostos benefícios concedidos ao
senador por Daniel Vorcaro. Uma dessas frentes seria o pagamento de uma mesada
que poderia variar entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais.
Assim,
para a PF, o registro de um pagamento em espécie de R$ 350 mil a “Ciro” não
aparece como fato isolado. Ele surge em um contexto em que os investigadores já
analisavam supostos repasses periódicos e vantagens financeiras atribuídas ao
senador.
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O voo revelado pelo ICL
Em
entrevista exclusiva ao ICL Notícias em setembro do ano passado, usada para
embasar o relatório da PF, Mauro Mattosinho contou detalhes do voo em que o
nome de Ciro foi citado por passageiros. Segundo ele, a sacola que aparentava
ter dinheiro viajou no toalete do bimotor que fez o trajeto de São Paulo para
Brasília, com escala no Rio de Janeiro, em 6 de agosto de 2024.
Durante
o voo, o piloto estava na companhia do empresário Roberto Augusto Leme da
Silva, conhecido como Beto Louco, suspeito de liderar um esquema de lavagem de
dinheiro do PCC por meio de postos de combustíveis. Segundo Mauro, Beto Louco
mencionou a outros passageiros que iria encontrar com o senador Ciro Nogueira.
“(Eles)
portavam uma sacola de papel. Aquela sacola de papel me foi apontada por
pessoas da empresa como uma sacola que deveria ser especialmente cuidada. É
esse tipo de comunicação se dava para que nós entendêssemos que ali continha
dinheiro.”
O
alerta de cuidado teria sido dado por Epaminondas Chenu Madeira, o dono da
empresa de táxi aéreo, segundo o relato do piloto.
A
investigação da PF mostra que Vorcaro tinha em seu celular o contato telefônico
de Madeira. Documentos revelam ainda que o ex-banqueiro pagou por voos
realizados em 2020 pelo jato executivo PR-SMG — o mesmo que Mattosinho teria
transportado a suposta sacola de dinheiro. Também foi essa aeronave que o
piloto conta ter viajado pelo menos 30 vezes com Beto Louco e seu sócio também
investigado, Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”.
Nesta
terça-feira (16), o ICL Notícias voltou a entrevistar Mauro Matosinho. O piloto
afirmou que ouviu menções a um “banqueiro” durante conversas ocorridas na sede
da TAP.
“O que
a gente ouvia com frequência nas operações de táxi aéreo por parte do Beto
Louco era menção ao ‘banqueiro’. Esse banqueiro não era mencionado por nome. O
que se mencionava eram encontros, inclusive teve festa à noite em Brasília
promovida por Antonio Rueda [presidente do União Brasil] em que Beto esteve e
que ele mencionava que o banqueiro estaria. Era esse tipo de conversa que
envolvia esse personagem, o banqueiro”.
Procurada,
a defesa de Beto Louco enviou uma nota ao ICL Notícias: “A defesa de Roberto
Leme esclarece que não existe qualquer vínculo entre ele e a organização
criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). As manifestações do Ministério
Público do Estado de São Paulo nos autos das Operações Carbono Oculto e Fluxo
Oculto, as quais a imprensa teve amplo e irrestrito acesso, demonstram que essa
falsa versão teve como ponto de partida reportagens jornalísticas, referidas
nas manifestações como “mídias negativas”. A partir dessas publicações, novas
matérias passaram a reproduzir o mesmo conteúdo, criando um ciclo de
retroalimentação de informações.
Em
relação ao suposto transporte de recursos mencionados nas matérias
jornalísticas veiculadas na tarde de hoje, a defesa nega a existência desses
fatos e repudia qualquer tentativa de vinculação dele com Daniel Vorcaro e
registra que ele nunca sequer deu “um bom dia” ao ex-banqueiro ou a pessoas
ligadas a ele. A defesa continua à disposição das Autoridades, como sempre se
manteve, a fim de contribuir com o devido processo legal”.
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Veja aqui as mais recentes revelações sobre o escândalo do Banco Master
O
escândalo do Banco Master já seria grave o suficiente se estivesse restrito às
suspeitas de fraudes financeiras que levaram à intervenção das autoridades, à
descoberta de um rombo bilionário e à prisão de Daniel Vorcaro e de outros
investigados. Mas, à medida que as investigações avançam, o enredo revelado
pelos documentos, depoimentos e operações policiais mostra que o caso está
longe de terminar.
A cada
semana surgem novos documentos, depoimentos e registros que ampliam o alcance
da investigação. O que começou como uma apuração sobre operações financeiras
suspeitas passou a revelar conexões com figuras influentes da política
nacional, relações de proximidade com autoridades e episódios que alcançam
personagens ligados ao crime organizado.
Nesta
terça-feira (16) vieram à tona novos relatos sobre benefícios concedidos a
agentes públicos, registros de luxos custeados para autoridades, fotografias
que demonstram a proximidade de Vorcaro com lideranças políticas e informações
sobre ameaças envolvendo documentos sensíveis mantidos por pessoas próximas ao
núcleo investigado.
Tomadas
isoladamente, cada uma dessas revelações já mereceria atenção. Em conjunto,
porém, elas apontam para algo maior: um sistema de relações construído ao redor
dos poderes econômico e político que serviram para proteger interesses privados
e ampliar sua capacidade de influência e atuação.
É
justamente a soma dos fatos que torna o caso tão preocupante. Não se trata
apenas de entender como funcionava o esquema financeiro, mas de compreender
quem se beneficiou dele, quem circulava ao seu redor e quais estruturas de
poder ajudaram a construir e proteger o império erguido por Daniel Vorcaro.
As
investigações ainda estão em andamento. Mas o que já veio à tona é suficiente
para expor algo maior do que Daniel Vorcaro. A sucessão de revelações mostra
como parcelas do poder político e econômico brasileiro seguem funcionando em
circuito fechado, protegendo interesses, distribuindo favores e usando funções
públicas para defender interesses privados.
Fonte:
Brasil 247/ICL Notícias

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