Depois
do fogo, o que será da Amazônia?
Foi
exatamente 50 anos atrás. Era 1976 e eu fazia reportagem sobre o projeto de
colonização da construtora Andrade Gutierrez no sudoeste do Pará. Já havia
obtido todas as informações sobre o empreendimento, que acabou não se
consolidando nessa fase. Embora se declarasse disposta a não repetir os muitos
erros da colonização oficial, dirigida pelo governo, quando os colonos
começaram a derrubar árvores e procurar ouro, a Andrade desistiu do seu
projeto.
Quando
um teco-teco desceu na pista de pouso onde eu me encontrava, sob o domínio do
cacique Tuto-Pombo, vizinho da área, pedi ao piloto se ele podia me dar uma
carona até Xinguara. Ele me aceitou. Ao entrar no teco-teco, vi logo que eu
seria o único passageiro. Não havia outro, nem portas, nem bancos. Só o
“charuto” do aparelho.
Quando,
um pouco assustado, perguntei ao piloto o que ele estava fazendo. “Levando peão
para assentar no vale do Iriri, um dos rios formadores do Xingu, pela margem
esquerda. Havia poucos indícios de presença humana – rarefeita – nessa área.
Quando ele me disse qual era a sua tarefa, me lembrei do que a Andrade
Gutierrez fizera excursões do mesmo tipo, poucos anos antes, guardadas as
dimensões, entre o Xingu e o Madeira: de DC-3, ia buscar pedra a 600
quilômetros de distância, atrás da de madeira para a BR-319 para a pavimentação
da rodovia.
Com um
leve traço de humor, o piloto que perguntou quem eu era. Jornalista, respondi.
O piloto observou: “ah, então você é que critica as madeireiras”. Fez uma pausa
e concluiu: “Estou trabalhando para uma delas, a Maginco”.
Isto
posto, me encostei no fundo do avião, aprontei as pernas para caso de
necessidade. Voávamos a apenas 500 metros de altura, sobrevoando um trecho de
área desmatada. O piloto disse que ia voltar ainda naquele dia. Edu não queria
fazer de novo a viagem? Nem respondeu, me mantendo tenso. O piloto estava
transportando e os colocando na área parar criar um campo de pouso no Iriri. Ou
uma área já ocupada. Uma falsa benfeitoria para justificar a pretensão de
domínio da área pelo grileiro.
Todos
esses componentes constituem o que acontece mais uma vez – e sempre – a marca
da ocupação da Amazônia, que avança sobre as últimas manchas de terra na
fronteira amazônica. Em agosto de 2019 foi o “dia do fogo”. Agora, os ocupantes
das áreas amazônicas de floresta dão mais um passo para desafiar o poder
público.
Produtores
rurais e moradores da região da Terra do Meio, unidade de conservação
localizada na parte sul de Altamira, no Pará, interceptaram caminhões usados
pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) para
transportar gado apreendido e soltaram os animais.
A
apreensão havia ocorrido no âmbito da Operação Pasto Nullus, deflagrada pelo
ICMBio no dia 3 deste mês. Na última terça-feira (9), fiscais apreenderam cerca
de 90 cabeças de gado, quando houve a interceptação.
Imagens
que circulam nas redes sociais mostram pessoas cercando os veículos, abrindo as
carrocerias e liberando o gado. O instituto confirmou a ocorrência e disse que
houve ataques aos caminhões usados na ação.
A
Estação Ecológica da Terra do Meio é uma unidade de conservação de proteção
integral criada em 2005. Nesse tipo de unidade, não é permitida exploração
econômica dos recursos naturais, como criação de gado ou ocupação privada. O
objetivo principal é a preservação da natureza e a realização de pesquisas
científicas.
Os
produtores locais, porém, afirmam que estão na região há muito tempo e que o
governo não apresenta uma solução fundiária.
A
operação foi lançada pelo ICMBio com apoio de órgãos federais e estaduais.
Segundo o órgão ambiental, os animais ocupam áreas embargadas por desmatamento.
A ação ocorre principalmente em uma região conhecida como Transiriri, uma das
áreas mais ocupadas da estação ecológica.
A
Operação Pasto Nullus é um desdobramento de medidas adotadas pelo ICMBio desde
o ano passado. Em maio de 2025, o instituto aprovou um plano emergencial para
permitir a retirada voluntária dos rebanhos existentes dentro da Terra do Meio.
A
proposta previa que os ocupantes retirassem os animais de forma organizada, com
acompanhamento da Adepará (Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará) e
emissão de GTA (Guia de Trânsito Animal). O plano foi apresentado como uma
tentativa de reduzir conflitos e permitir a desocupação gradual da área.
Depois
disso, o ICMBio afirmou ter iniciado a notificação de 43 ocupações irregulares
dentro da unidade, com prazo para retirada voluntária do gado e desocupação das
áreas. Segundo o instituto, uma parte dos ocupantes aderiu às medidas, mas
outras áreas permaneceram com atividade pecuária.
A
matéria da Folha de S. Paulo, que a seguir reproduzo, volta a registrar a
invasão das terras mais férteis que ainda existem no Pará, o mais desmatado dos
Estados da Amazônia. Depois do “dia do fogo”, comandando pelo Palácio do
Planato, agor5a a marcha segue duas diretgrizes: a Oeste, pelo Acre e a norte,
pela BR-319. Por ter combatido esse esbulho possessório, fui denunciado à
justiça, condenado, agredido e afastado do novo – na verdade, velhíssimo –
saque à Terra do Meio.
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Sem proteção estatal, quando ela desaparecerá?
A Terra
do Meio é uma das regiões mais sensíveis da Amazônia. A estação ecológica
integra um mosaico de áreas protegidas localizado entre os rios Xingu e Iriri,
no sudoeste do Pará.
A
unidade ocupa mais de 3,3 milhões de hectares e abrange áreas dos municípios de
Altamira e São Félix do Xingu. A criação da unidade ocorreu justamente porque a
região enfrentava forte pressão de grilagem de terras, abertura de pastagens e
desmatamento.
Entre
os produtores rurais da região, a principal crítica é que o governo estaria
tratando ocupantes antigos da mesma forma que invasores recentes. Lideranças
locais argumentam que muitas famílias vivem na área há anos e dependem da
pecuária para sua subsistência. Afirmam, ainda, que a regularização fundiária
não avançou na mesma velocida de das ações de fiscalização.
O
ICMBio sustenta que os ocupantes foram informados previamente sobre as
restrições legais e que a permanência do gado é incompatível com a unidade de
conservação.
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Esquentamento de gado
As
investigações conduzidas até agora apontam que a criação de gado dentro da
Terra do Meio vai além da atuação de pequenos ocupantes locais. Há evidências
de que a pecuária local está ligada a um esquema de ‘esquentamento’ de
rebanhos.
Segundo
autoridades que acompanham a operação ouvidas pela Folha, há indícios de que
grandes produtores rurais utilizam moradores e ocupantes da região como
intermediários para manter animais de forma irregular dentro da unidade de
conservação, mascarando a verdadeira origem e propriedade do gado.
Um dos
casos investigados envolve um ocupante que possui mais de 500 cabeças de gado.
O volume excede um entendimento firmado com o Ministério Público em 2005, para
lidar com ocupantes antigos da região, permitindo que algumas dezenas de
famílias que lá viviam quando a unidade foi criada podiam manter um pequeno
rebanho de subsistência, com limite de até 100 cabeças de gado.
As
autoridades afirmam que o objetivo da investigação agora é identificar os
responsáveis por financiar e organizar a utilização dessas áreas para a criação
irregular de gado.
A
operação do ICMBio segue em andamento, mas em outras áreas mais distantes do
ponto de conflito, onde houve a abordagem aos caminhões.
Fonte:
Amazônia Real

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