sexta-feira, 19 de junho de 2026

O complexo petroquímico iraniano - a espinha vertebral da economia política e da resiliência da Revolução Islâmica

Com a vitória do Irã diante da guerra de agressão de EUA e Israel contra o país, muito se fala na estratégia de médio prazo do país. Neste artigo, vamos dar seguimento na espinha vertebral do projeto de economia política da revolução islâmica. Começamos abordando o setor de óleo e gás e no texto a seguir abordamos o complexo de produtos petroquímicos. 

Ao longo dos anos, a indústria petroquímica do Irã tornou-se um dos principais pilares da economia do país; com abundantes recursos de gás, o objetivo de uma cadeia de alto valor agregado e uma participação significativa nas exportações, essa indústria desempenha um papel influente na criação de empregos, no desenvolvimento regional e na industrialização do país.

Os sites oficiais das empresas estratégicas da República Islâmica do Irã estão em sua maioria bloqueados. Para não dar mais visibilidade para os domínios aliados da monarquia e do sionismo, só citamos as fontes que são leais ao Eixo da Resistência. 

>>>> Companhia Nacional de Petroquímica (NPC ou NIPC)

Subsidiária do Ministério do Petróleo do Irã; é responsável pelo desenvolvimento e operação do setor petroquímico iraniano.

Os produtos incluem químicos, fertilizantes, polímeros, aromáticos, combustíveis e hidrocarbonetos; opera múltiplos projetos em duas zonas econômicas especiais na costa do Golfo Pérsico (Zona Econômica Especial Petroquímica e Zona Econômica Especial/Energética de Pars).

A NPC tem mais de 40 subsidiárias, sendo uma delas a RPC. Observemos os produtos petroquímicos aplicados diretamente no aumento de fertilidade para a preparação do solo e produção agrícola. 

>>>> Razi Petrochemical Company (RPC)

Também conhecida como Zakaria Razi Chemical Company (ZRCC); Al Razi Complex; Zakaria Al-Razi Chemical Company.

Empresa petroquímica iraniana afiliada à National Iranian Petrochemical Company; produz amônia, ureia, ácido sulfúrico, ácido fosfórico, DAP e enxofre.

<><> 20 anos de desenvolvimento ininterrupto: os números de 2004

>>> Produção de fertilizantes

A Companhia Nacional de Petroquímica fabrica um total de 1,8 milhão de toneladas de ureia e fosfatos de amônio anualmente. Após a revolução, por iniciativa do Instituto de Pesquisa de Solos e Água (SWRI) e como resultado de análises de solo, tornou-se evidente a necessidade de um plano abrangente para o desenvolvimento da produção de fertilizantes no país. Consequentemente, foi incentivada a produção de fertilizantes, incluindo micronutrientes, pelo setor privado. 

Isso levou à fabricação de uma gama de fertilizantes desde 1995. Mais de duzentos pequenos fabricantes em diferentes partes do Irã receberam licenças para produzir, no total, cerca de dois milhões de toneladas de fertilizantes compostos NPK. Desde 1995, muitos fabricantes começaram a produzir fertilizantes micronutrientes, como sulfato de zinco, sulfato de cobre, sulfato de manganês, sulfato de ferro e ácido bórico. Diversas fábricas iniciaram recentemente a fabricação de fertilizantes superfosfato (SSP ou TSP) em locais onde há abundância de fosfatos de rocha de alta qualidade. Diversas unidades de produção estão envolvidas na fabricação de vários tipos de materiais à base de enxofre, como a ureia revestida com enxofre, cujo nome local é fertilizante Sari.

As 200 unidades privadas de fabricação de fertilizantes empregam cerca de 40 mil trabalhadores, direta ou indiretamente. No entanto, o número total de fábricas com boa capacidade produtiva, com produção anual de cem mil toneladas de fertilizantes de qualidade, não ultrapassa cinco, sendo as demais pequenas produtoras.  

A produção total de fertilizantes minerais entre abril e setembro de 2004, por todas as unidades de produção, totalizou 1.3 milhões de toneladas (Tabela 8). Desse total, 979 mil toneladas foram produzidas pelas indústrias estatais, uma redução de 5% em comparação com o ano anterior. O setor privado produziu 336 mil toneladas, um aumento de 28% em relação ao ano anterior.

Em 2004, 57% dos fertilizantes minerais, 80% dos pesticidas e 100% das sementes foram produzidos nacionalmente, tanto pelo setor público quanto pelo privado.

20 anos depois, o país se mostra uma potência absoluta na produção de fertilizantes e derivados. Dentre estes, um insumo fundamental para a agricultura de intensidade, a ureia. 

<><> Ureia

O papel da região na produção de ureia é ainda mais importante. A ureia continua sendo o fertilizante nitrogenado mais utilizado no mundo. Os países do Golfo foram responsáveis ​​por 36% das exportações globais de ureia entre 2023 e 2025, sendo o Irã e o Catar os maiores exportadores, seguidos pela Arábia Saudita. Em 2025, os principais importadores incluíram Índia, Brasil, Austrália, Tailândia, Estados Unidos, Turquia, Etiópia e África do Sul.

O próprio Irã é um grande produtor e exportador de ureia. Embora a FAOSTAT relate apenas exportações oficiais mínimas, a Associação Internacional de Fertilizantes (IFA) estima que o Irã seja, na verdade, o maior exportador de ureia da região do Golfo.

O complemento da NPC e suas subsidiárias é um conjunto de empresas de porte razoável que vão de 50 a 100 funcionários (salvo exceções) e com produção diversificada, para além da amônia, ureia, nitrato de potássio. Há muita diversificação produtiva e especialização para determinados mercados. 

<><> Cadeia de Produção na Indústria Petroquímica do Irã

A cadeia de produção petroquímica consiste em três partes principais:

  1. a) Matéria-prima

Matérias-primas como etano, metano, nafta e gás liquefeito de petróleo, extraídas de refinarias e gás natural.

  1. b) Produtos Químicos Básicos

Nesta parte, a matéria-prima é convertida em materiais como etileno, propileno, metanol, benzeno, tolueno e xileno, que são a base para a produção de materiais subsequentes.

  1. c) Produtos Finais e Derivados

Este grupo inclui polímeros (como polietileno, polipropileno, poliestireno), resinas, aditivos, fibras sintéticas e diversos solventes que são utilizados diretamente em várias indústrias.

No total, são 73 complexos do hub de óleo, gás e derivados. A República produz 103 produtos petroquímicos como os seguintes: 

  1. Produtos poliméricos: Polietileno pesado (PEAD) / Polietileno leve (PEBD e PEBDL) / Polipropileno (PP) / Poliestireno (PS e EPS) / ABS e SAN / PVC e PET.

Esses produtos são amplamente utilizados nas indústrias de embalagens, tubos e conexões, peças automotivas, eletrodomésticos e fibras sintéticas.

  1. Produtos químicos básicos: Metanol / Amônia / Ureia / Ácido nítrico / Formaldeído / Butadieno.

Esses materiais constituem a matéria-prima para muitas indústrias químicas, farmacêuticas e agrícolas.

  1. Produtos aromáticos: Benzeno / Tolueno / Paraxileno / Ortoxileno

Esses compostos são usados ​​para produzir resinas, plásticos, solventes e fibras de poliéster.

  1. Intermediários e Aditivos: Masterbatches / Antioxidantes / Estabilizadores UV / Plastificantes / Lubrificantes

Os aditivos desempenham um papel importante na melhoria das propriedades físicas e químicas dos polímeros.

  1. Produtos Especiais e de Engenharia

Incluindo materiais especiais utilizados nas indústrias automotiva, eletrônica, aeroespacial e médica, que geralmente possuem maior valor agregado.

<><> Linhas conclusivas

O desempenho produtivo do Irã é proporcional à sua capacidade de defesa, de alianças regionais e coesão interna. Podemos afirmar que o país se preparou para a vitória diante de uma assimetria estratégica, onde a resiliência, por um lado, e a excelência em outros setores geraram as capacidades necessárias para enfrentar EUA e Israel simultaneamente.

Descontados os fatores culturais e de trajetória histórica-estrutural, a dimensão estruturante é a que pode ser reproduzida em outras potências médias, tal como o Brasil. Só adicionando um “detalhe”: o Irã fez uma revolução nacional, alcança a modernidade através de suas próprias instituições e forja sua soberania no campo de batalha. O conceito estratégico (lembrando Golbery do Couto e Silva) é passível de reprodução, desde que os setores com influência na sociedade e manifesta vontade de transformação aceitem pagar o preço necessário para tal. 

¨      Disputa por recursos naturais desmascarou o mito do destino manifesto dos EUA, avaliam analistas

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o mundo atravessa uma catástrofe social e climática tão grave que os países centrais, principalmente os EUA, já não estão mais interessados em justificar a expansão e o seu domínio. Eles simplesmente fazem.

O Destino Manifesto foi uma crença que ganhou muita força nos EUA em meados do século XIX, na qual os norte-americanos acreditavam que tinham uma missão divina de expandir territorialmente, levando para outras regiões e outros povos a civilização e o progresso, cumprindo, assim, a vontade de Deus.

Esse conceito ideológico doutrinário se deu primeiro na expansão dos EUA para o oeste. Depois, passou a incluir a América Latina e, finalmente, o mundo como um todo, após os EUA se tornarem a principal potência do planeta no final da Segunda Guerra Mundial.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Roberto Moll Neto, professor de história da América da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que essa missão de "salvar o mundo" tem por trás objetivos materiais muito claros, sobretudo dos setores da burguesia estadunidense.

"Como essa é uma perspectiva quase que identitária, muito difundida nos EUA e pelos EUA, ela acaba servindo de elemento de legitimação para o alcance desses objetivos materiais", afirma.

Ele destaca, no entanto, que essa perspectiva de inferiorização do outro não foi construída especificamente nos EUA e tem ligação com a perspectiva colonialista, construída no centro do capitalismo, primeiramente na Europa e, depois, apropriada pelos EUA.

"Porque na medida em que se constrói essa perspectiva de diminuição ou inferiorização do outro, isso acaba servindo para legitimar, inclusive com base no Destino Manifesto, ou articulada ao Destino Manifesto, serve como elemento para legitimar a expropriação de riquezas materiais em outros lugares do planeta, ou a expropriação de trabalho barato sobre os corpos dos indivíduos em outros lugares do planeta."

Com o passar dos anos, a globalização chegou com força, fruto de uma perspectiva econômica neoliberal, e a indústria estadunidense levou suas fábricas para fora dos EUA, para países com mão de obra consideravelmente mais barata e precarizada.

"Só que isso teve um efeito rebote na economia dos EUA recentemente, a precarização dos trabalhos, a diminuição de salários, a precarização da vida desse operário branco estadunidense que tem a memória de uma vida muito confortável até os anos 1960."

Neto afirma que esse operário branco precarizado estadunidense foi uma das bases de sustentação do governo Donald Trump, que enxergou esse problema e passou a oferecer a esses trabalhadores "o sonho da reindustrialização".

"Esse sonho da melhoria da qualidade de vida vem também com o sonho dos EUA de serem grandes no mundo novamente, serem a grande potência tecnológica. Então é isso que está por trás dessa discussão da reindustrialização dos EUA", pondera o analista.

O conceito de Destino Manifesto vem fazendo menos sentido hoje do que já fez no século XIX e ao longo do século XX, segundo Tatiana Poggi, professora de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Marx e o Marxismo (Niep-Marx) e Laboratório de História Econômico-Social (Polis).

Ela afirma que a justificativa de levar a civilização ou a democracia a povos apontados como não civilizados vem sendo substituída pelo pragmatismo da corrida aberta por recursos.

"Porque é o nosso interesse, pelo menos as últimas intervenções. Por exemplo, Donald Trump, em sua ameaça de invasão à Groenlândia, ao Canadá, ao canal do Panamá, em todos elas, um argumento de Destino Manifesto não estava colocado ali. Era simplesmente: 'Esses são os nossos interesses'."

A especialista destaca que o mundo atravessa uma catástrofe social e climática tão grave que os países centrais, principalmente os EUA, já não estão mais interessados em justificar a expansão e o seu domínio. Eles simplesmente fazem.

"Eu não vejo os países, não só os EUA, mas outros países, se preocupando em se mostrar como figura civilizada que está levando algo de bom para o lugar. Eu acho que é uma busca, uma perseguição pelos seus interesses. Eu vejo muito mais uma expansão pela via realista […]. Hoje em dia, eu não vejo os países se preocupando com soberania local e respeitar limites."

Poggi frisa que um reflexo dessa tendência é que empresas de tecnologia, bilionários e grandes conglomerados financeiros vêm mostrando de forma cada vez mais aberta que o interesse deles não está na preservação da humanidade.

"Eles já desistiram até deste planeta, vêm apostando em sobrevivências interplanetárias, conquistas interplanetárias, que, obviamente, não é algo para salvar a humanidade, é para salvar um grupo de superseletos, no qual a imensa maioria de nós não se inclui", afirma a especialista.

¨      Fechamento de Ormuz expõe fragilidade dos gargalos marítimos e pressiona China por novas rotas

O fechamento do estreito de Ormuz expôs a vulnerabilidade dos gargalos marítimos globais e levou analistas chineses a defender mais escoltas, rotas alternativas e corredores terrestres para proteger o fluxo de energia diante de tensões geopolíticas crescentes.

A interrupção da navegação no estreito de Ormuz revelou a vulnerabilidade dos principais gargalos marítimos globais e levou analistas chineses a defenderem medidas mais robustas de proteção das rotas de energia.

Para especialistas como Lu Ruquan, do Instituto de Pesquisa Econômica e Tecnológica da CNPC, consultado pelo South China Morning Post, o conflito no Oriente Médio abalou a cadeia global de suprimentos e exige que Pequim fortaleça capacidades de escolta, respostas a emergências e garantias de segurança em pontos críticos.

Lu afirmou, em artigo recente, que o fechamento do estreito desde março interrompeu o transporte de petróleo, gás e fertilizantes, pressionando preços e elevando a inflação — que nos EUA chegou a 4,2% em maio, o maior nível em três anos.

O anúncio de um acordo de paz entre EUA e Irã, que prevê a reabertura imediata do estreito e a suspensão do bloqueio naval norte-americano, trouxe algum alívio ao quadro. O esboço divulgado por Washington indica que Teerã se compromete a garantir passagem segura por 60 dias e a dialogar com Omã e outros países do Golfo sobre a administração futura da hidrovia.

Para o analista, porém, a crise reforça que corredores energéticos se tornaram focos centrais de tensões geopolíticas, com impacto direto na estabilidade do fornecimento, nos fluxos comerciais e na resiliência das cadeias de suprimentos.

A Marinha chinesa acumula quase duas décadas de experiência em escoltas no golfo de Áden, mas especialistas como Ma Bo, da Universidade de Nanjing, afirmaram à mídia asiática que as ameaças atuais, como drones, minas, mísseis antinavio, exigem mais do que frotas maiores, mas uma ampliação da consciência situacional, pontos de abastecimento no exterior e sistemas coordenados de evacuação e resposta.

Ainda segundo Ma, o Ártico e o Cabo da Boa Esperança seriam opções marítimas viáveis para substituição das rotas prejudicadas na crise, mas a proteção fundamental virá dos corredores terrestres, como o oleoduto China‑Mianmar, o corredor de Gwadar e as ligações energéticas pela Ásia Central e Rússia.

Embora a China importe cerca de 70% do seu petróleo por via marítima, o país tem conseguido amortecer choques graças às reservas estratégicas, à expansão de oleodutos e a uma matriz elétrica baseada em carvão e renováveis. Ainda assim, analistas alertam que depender de uma única rota ou região representa risco crescente.

 

Fonte: Por Bruno Lima Rocha, na Opera Mundi/Sputnik Brasil

 

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