Cannabrava:
A máfia do Master e suas conexões políticas
A
declaração é do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal
Federal (STF), e resume a gravidade das investigações que envolvem o Banco
Master, a família Vorcaro e suas conexões políticas. As apurações revelam uma
estrutura familiar e empresarial que, segundo os elementos reunidos pela
Polícia Federal (PF), apresenta características típicas de organização
criminosa mafiosa.
No
centro das investigações aparece o banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como
principal articulador da rede investigada. Ao seu lado surgem Henrique Moura
Vorcaro, seu pai, e Felipe Cansado Vorcaro, seu primo. Ambos figuram entre os
investigados e tiveram suas prisões mantidas pela Justiça. Também integra o
núcleo financeiro Fabiano Zetel, cunhado da família e apontado como operador
das movimentações financeiras sob investigação.
A
dimensão política do caso alcança o senador Ciro Nogueira, presidente nacional
do Progressistas (PP). Relatório da Polícia Federal tornado público por decisão
do ministro André Mendonça aponta conexões entre o senador, familiares e
empresas vinculadas ao seu círculo político e empresarial. Entre os nomes
mencionados nas investigações aparecem sua mãe, Eliane Silva Nogueira Lima, e
sua ex-esposa, Iracema Portela Nunes Nogueira Lima.
As
investigações também analisam a movimentação financeira de empresas ligadas ao
grupo. Entre elas está a CNLF Empreendimentos Imobiliários, que, segundo os
documentos sob análise, teria movimentado cerca de R$ 20 milhões em determinado
período, embora tenha declarado apenas R$ 832 mil. Outra empresa mencionada nos
autos é a Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas.
Os
investigadores examinam ainda a relação entre Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira.
Conforme informações constantes dos autos, o banqueiro mantinha estreita
proximidade com o senador. As apurações apontam transferências mensais que
chegariam a R$ 300 mil, fato que integra o conjunto de elementos analisados
pelos órgãos de investigação.
As
investigações também analisam a proximidade do grupo com outras figuras de
destaque da política nacional. Entre os nomes mencionados aparece o presidente
da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Segundo informações
constantes das investigações, Hugo Motta e o senador Ciro Nogueira participaram
de uma viagem a Lisboa custeada por Daniel Vorcaro, fato que passou a integrar
o conjunto de elementos examinados pela Polícia Federal no mapeamento das
relações políticas e empresariais ligadas ao caso.
A
família Vorcaro tentou firmar acordo de colaboração premiada. No entanto,
segundo informações divulgadas durante o processo, os pedidos teriam sido
rejeitados em mais de uma oportunidade por falta de informações novas capazes
de acrescentar elementos relevantes às investigações já em curso. Na avaliação
das autoridades responsáveis pelo caso, os investigados não apresentaram
elementos capazes de ampliar significativamente o que já havia sido apurado.
No
último dia 16, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu manter a
prisão de integrantes do núcleo familiar investigado, reforçando o entendimento
de que permanecem presentes os requisitos que justificam as medidas cautelares.
Ao
retirar o sigilo de parte do relatório da Polícia Federal, o ministro André
Mendonça permitiu que viessem a público elementos que ajudam a compreender a
extensão das relações investigadas. Sua declaração sobre a existência de
“contornos de máfia” confere peso ainda maior às conclusões preliminares
apresentadas pela Polícia Federal.
Se
confirmadas todas as suspeitas levantadas pelas investigações, o país estará
diante de um dos mais amplos esquemas de relações entre poder econômico,
influência política e estruturas criminosas já revelados nos últimos anos.
O caso
lança uma sombra sobre setores do sistema financeiro e da representação
política nacional, reforçando a necessidade de que as investigações avancem até
suas últimas consequências, sem distinção de sobrenomes, cargos ou posições de
poder.
• PF aponta pagamentos a nora de Jaques
Wagner e apartamento de presente do Master, diz jornal
A nova
fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na manhã desta quinta-feira (18)
pela Polícia Federal (PF), busca aprofundar a investigação sobre indícios de
que o senador Jaques Wagner (PT-BA) recebeu pagamentos do Master durante anos
pela empresa da enteada, viajou com frequência nos jatos de Daniel Vorcaro e
ainda recebeu um apartamento em Salvador, avaliado em R$ 2,5 milhões de reais,
de presente. A informação é da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo.
Entre
esses indícios estão mensagens trocadas por Wagner e o sócio de Vorcaro,
Augusto Lima, além de documentos que mostram os pagamentos feitos à nora do
senador.
A BN
Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora de Jaques Wagner, recebeu, entre
2022 e 2025, R$ 12 milhões do Master de acordo com a quebra de sigilo fiscal do
banco enviada à CPI de Crime Organizado.
De
acordo com as investigações, muitos desses pagamentos eram feitos por meio de
intermediários que também são alvo da ação de hoje.
Segundo
a PF, o senador pelo PT da Bahia também teria feito lobby no Senado pela
aprovação da “emenda Master”, que foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira
(PI-PP) e propunha aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo
Garantidor de Crédito para investimentos em CDBs.
A
operação também mira o ex-sócio de Daniel Vorcaro, Augusto Lima, que segundo as
apurações era quem manejava boa parte das relações com políticos, em especial
com o Congresso Nacional.
A
operação desta quinta mira a relação de proximidade entre Jaques Wagner e o
banqueiro Augusto Lima. “A autoridade policial aponta que a relação entre
Jaques e Augusto Ferreira Lima seria antiga, próxima e marcada por elevado grau
de confiança pessoal, circunstância que, em tese, teria criado ambiente
propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa de interesses
privados do Banco Master”, diz um trecho da decisão.
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Operação da PF
Por
determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF),
foram expedidos 18 mandados de busca e apreensão. As ações ocorreram
simultaneamente nos estados da Bahia, São Paulo e no Distrito Federal.
Além
das buscas, a decisão judicial determinou medidas cautelares aos investigados.
Entre as restrições estão o recolhimento de passaportes e impedimento de
comunicação entre os envolvidos.
Essas
medidas têm caráter preventivo e foram adotadas para preservar o andamento das
investigações, reduzindo riscos de interferência nas apurações ou eventual
saída do país antes da conclusão do processo.
Segundo
o jornalista Tulio Amancio, da GloboNews, a investigação mira fraudes em
carteiras de crédito questionadas do Banco Master e tem ligação com a rede de
supermercados estatal “Cesta do Povo”, da Bahia, que foi negociada com Augusto
Lima, segundo os investigadores, sob influência política de Jaques Wagner.
O
senador Jaques Wagner ainda não se manifestou sobre a operação.
A
defesa de Augusto Lima afirma que ele “sempre atuou dentro dos limites da lei,
com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem
o sistema financeiro e a administração pública”.
• PF aponta esquema de vazamento pago por
Vorcaro com agentes e delegada envolvidos, diz mídia
Pai de
Daniel Vorcaro pagava R$ 400 mil mensais a um agente da Polícia Federal (PF)
aposentado para acessar investigações sigilosas, segundo relatório que aponta
um esquema de vazamentos envolvendo servidores da ativa e aposentados da
corporação.
Após
recusa de acordo de delação premiada e tensão no Supremo Tribunal Federal (STF)
envolvendo a família Vorcaro, novos fatos sobre o suposto esquema de corrupção
envolvendo a família do ex-banqueiro vieram à tona.
De
acordo com um jornal de grande circulação no país, Henrique Vorcaro, pai do
ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pagava mensalmente R$ 400 mil ao agente aposentado
da PF Marilson Roseno da Silva para obter informações sigilosas de
investigações, segundo relatório da polícia. Roseno é apontado como o
articulador de um mecanismo interno de vazamento de dados dentro da corporação.
As
investigações mostram que Roseno oferecia pagamentos via Pix, presentes e até
uma gratificação de fim de ano, descrita como "oferenda" nas provas
obtidas, para recrutar servidores da ativa. Com isso, cooptou o agente Anderson
Wander da Silva e a delegada Valéria Vieira, além de contar com o apoio dos
aposentados Sebastião Monteiro Júnior e Francisco Pereira da Silva.
O
esquema permitia que Henrique e Daniel Vorcaro acessassem informações restritas
registradas no sistema e-Pol, incluindo inquéritos em andamento. Segundo a
apuração, foi por meio desse acesso ilegal que Daniel obteve um mandado de
prisão contra si e o repassou a um site jornalístico para antecipar a notícia e
tentar usá-la em sua defesa.
Por
determinação do STF, os policiais aposentados Sebastião Monteiro Júnior e
Francisco Pereira da Silva, além do agente da ativa Anderson Wander, foram
presos preventivamente. Já a delegada Valéria Vieira foi afastada de suas
funções.
A PF
afirma que os pagamentos a Roseno eram disfarçados como serviços prestados por
sua empresa, a Roseno & Ribeiro Gestão Empresarial. Parte dos valores
circulava pela King Participações, ligada a Luiz Phillipi Mourão, funcionário
de Daniel Vorcaro. As mensagens revelam cobranças insistentes de Roseno, que
chegou a pedir R$ 800 mil alegando repasses incompletos.
O
relatório da polícia aponta ainda que o contador de Roseno orientava
estratégias para ocultar a origem dos depósitos, sugerindo o uso de CPFs de
terceiros para fracionar valores e evitar alertas. Erlene Nonato Lacerda é
citada como laranja e responsável por pagar despesas pessoais do policial
aposentado, que mantinha padrão de vida elevado em Belo Horizonte.
O
agente Anderson Wander, descrito como "longa manus" de Roseno,
acessou dados sigilosos no e-Pol ao menos em 2023 e chegou a consultar
informações de passaporte a pedido do aposentado. Além do repasse mensal,
recebeu gratificações extras, incluindo um Pix no fim de 2025, compatível com o
bônus distribuído pelo grupo.
A
delegada Valéria Vieira também realizou consultas de interesse da família
Vorcaro. Em fevereiro de 2024, acessou um inquérito envolvendo Henrique Vorcaro
e repassou os documentos a Roseno por meio do marido, o agente aposentado
Francisco Pereira, mas parte das mensagens trocadas pelo casal foi apagada,
dificultando o rastreamento de pagamentos.
A PF
ainda registrou encontros entre Roseno e o aposentado Sebastião Monteiro
Júnior, acusado de recrutar agentes da ativa para o grupo.
Áudios
interceptados mostram conversas sobre "uma ideia" a ser tratada em
local discreto, e câmeras de segurança confirmam as reuniões, reforçando a
existência de uma rede estruturada de cooptação dentro da corporação.
• Mendonça diz que recebeu proposta de
advogado para ‘delação seletiva’ de Vorcaro
O
ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou, nesta
terça-feira (16), ter sido procurado por um advogado do com uma proposta que
classificou como “delação seletiva”, levando a crer que se tratava de Daniel
Vorcaro, e disse ter rejeitado a iniciativa. A declaração foi feita durante o
julgamento, na Segunda Turma da Corte, que manteve as prisões de Henrique
Vorcaro e Felipe Vorcaro, pai e primo do ex-dono do banco Master.
Mendonça
também apontou a existência de “um sistema”, sem ser específico, que busca a
anulação das investigações. As declarações foram em resposta às críticas feitas
pelo ministro Gilmar Mendes sobre a condução de delações premiadas.
Na
declaração, Mendonça não identifica diretamente o advogado. Segundo a
jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, o advogado a que se referiu Mendonça
é Roberto Podval, que deixou a defesa de Vorcaro em março deste ano.
“Chegou
uma proposta por um advogado. Perderam o pudor. Queriam fazer uma delação
seletiva. Na minha cara. Eu disse: não faço questão de delação. Agora, delação
seletiva, comigo, não”, disse Mendonça.
“A
rigor, o relator sequer tem competência para celebrar delação. É a
Procuradoria. Eu não participo. Não faço questão”, completou o ministro.
Mendonça
também afirmou que evitou ter acesso ao conteúdo de uma proposta de colaboração
apresentada por uma defesa porque entendia que isso poderia comprometer sua
atuação futura no processo.
“A
defesa até apresentou uma primeira proposta de delação. Eu não quis acessar,
ministro Gilmar. Há uma perspectiva de que certos setores atuam para criar um
vício. Tudo o que querem é criar um vício. Há um sistema articulado para isso.
Eu não sou cego. Estou acompanhando e assitindo os movimentos”, afirmou André
Mendonça.
Mendonça
fez questão de dizer que não se tratava
do criminalista José Luís de Oliveira Lima, o Juca, que deixou a defesa do dono
do Banco Master. “Fazendo Justiça, não é o advogado que deixou o caso, o Juca.
Mas me chegou uma proposta por um advogado… perderam o pudor, ministro Gilmar
[dirigindo-se ao decano do STF, que preside a Segunda Turma]. ‘Queremos fazer
uma delação seletiva’. [O advogado] Falou na minha cara isso. Eu disse: ‘Não
faço questão de delação, agora, delação seletiva comigo, não”, relatou
Mendonça.
Em
resposta ao jornal O Globo, o advogado Roberto Podval disse que “não faria
delação nem seletiva nem por inteiro”. “Não posso responder, pois certamente
ele [André Mendonça] não se referiu a mim, pois não fiz proposta nenhuma”,
afirmou.
As
declarações de Mendonça foram dadas após Gilmar Mendes afirmar que magistrados
não devem participar de negociações de colaboração premiada e alertar para os
riscos de acordos obtidos sob pressão. O decano do STF chegou a dizer que “juiz
algum pode comportar-se como delegado de polícia” e criticou práticas que, em
sua avaliação, podem comprometer a voluntariedade das delações.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/ICL Notícias

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