O
Império ainda quer destruir a Revolução Cubana
À medida
que as tensões entre o governo dos EUA e a liderança cubana continuam a
aumentar, em paralelo com as constantes conversas informais entre os dois
países, o quadro que se forma sobre o estado real dessas relações torna-se
confuso. Há ainda mais confusão sobre os possíveis desdobramentos no futuro
próximo, no que podemos descrever como a “guerra” em curso travada contra Cuba
pelo governo Trump — uma guerra que teve uma nova frente aberta recentemente
com duas decisões judiciais tomadas no final de maio.
Em 20
de maio, coincidindo com o aniversário da questionável independência de Cuba em
1902, procuradores federais dos EUA tornaram pública uma acusação de 23 de
abril contra o ex-líder cubano, Raúl Castro, após a decisão de um juiz de Miami
que permitiu a divulgação. Um dia depois, a Suprema Corte dos EUA votou por 8 a
1 para reafirmar uma decisão anterior contra quatro grandes empresas de
cruzeiros cujos navios fizeram escalas em Cuba.
A
decisão judicial confirmou a reivindicação de US$ 440 milhões da Havana Docks,
uma empresa estadunidense. A empresa, que construiu as docas em 1905 com um
contrato de arrendamento de noventa e nove anos que lhe dava o direito de
operar o porto até o término do prazo, teve sua propriedade confiscada pelo
governo cubano em 1960.
Um
tribunal de apelações havia rejeitado anteriormente a reivindicação, sob o
argumento de que já haviam se passado noventa e nove anos desde 1905. No
entanto, a Suprema Corte agora anulou essa decisão, argumentando que “aqueles
que usam propriedade contaminada por um confisco anterior [são] responsáveis perante qualquer
cidadão dos Estados Unidos que possua um direito sobre essa
propriedade”.
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Helms-Burton
Embora
seja improvável que qualquer uma das decisões seja implementada rapidamente,
por razões diferentes, ambas reforçam efetivamente a longa série de medidas
tomadas por Donald Trump desde 2017 para intensificar o embargo imposto pelos
EUA. Elas permitiram que essas medidas assumissem um novo e preocupante
significado para o governo e o povo de Cuba.
Em
ambos os casos, a nova ameaça surge da decisão inovadora de Trump, em seu
primeiro mandato, de encerrar uma isenção presidencial sobre a promulgação do
Título III da Lei de Liberdade e Solidariedade Democrática com Cuba — a
legislação comumente conhecida como Lei Helms-Burton, em homenagem aos seus
principais proponentes. Sucessivos presidentes dos EUA continuaram invocando a
isenção desde 1996 até que Trump a deixou expirar.
O
contexto para tudo isso foi o episódio pelo qual Raúl Castro foi indiciado em
Miami. As forças de defesa de Cuba abateram dois aviões pilotados e
pertencentes a cidadãos estadunidenses na Flórida, matando todos a bordo.
Reveladoramente, ambos os governos demonstraram, na época, um grau incomum de
cautela ao lidar com esse ato potencialmente perigoso.
Isso
ocorreu em parte porque as autoridades estadunidenses, cientes da clara
intenção dos pilotos de violar o espaço aéreo cubano, os haviam alertado, bem
como à sua organização Hermanos al Rescate [Irmãos ao Resgate], de que corriam
o risco de serem alvejados pelas defesas cubanas. Foi um aviso que eles
prontamente ignoraram, ocasionando o resultado final.
Uma das
consequências da controvérsia, no entanto, foi uma mudança na abordagem de Bill
Clinton em relação a Cuba. Clinton havia se oposto anteriormente à Lei
Helms-Burton, principalmente porque ela visava estender o alcance do embargo a
outros países, além dos Estados Unidos. Isso corria o risco de prejudicar as
relações com o resto do mundo, que em grande parte se opunha ao embargo. Sob
pressão para punir Cuba e apaziguar o poderoso lobby cubano-estadunidense,
Clinton decidiu sancionar a lei.
No
entanto, ele o fez com uma isenção presidencial do Título III. Essa cláusula
permitia especificamente que cidadãos estadunidenses movessem ações judiciais
contra entidades não estadunidenses por negociarem propriedades que antes
pertenciam a cubanos residentes nos Estados Unidos, cujos bens haviam sido
confiscados pelo governo cubano após a revolução de 1959. Embora a lei,
ligeiramente enfraquecida, tenha conseguido dissuadir mais empresas fora dos
Estados Unidos de estabelecerem relações comerciais com Cuba, o resto do mundo
ainda tendia a ignorá-la.
Repetidas
votações na Assembleia Geral da ONU após 1993 em apoio a uma moção anual cubana
para condenar o embargo dos EUA confirmaram, na prática, que este era ilegal
sob o direito internacional. Os sucessivos governos dos EUA ignoraram essas
votações, com a breve exceção do governo Obama. Ao longo dos anos, até que
Trump mudasse as regras do jogo em relação a Cuba, apenas os Estados Unidos e
Israel votaram contra a moção anual cubana. O resto do mundo votou para
condenar o embargo, com algumas abstenções, geralmente de pequenos países que
buscavam algum tipo de auxílio dos EUA.
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Ao resgate?
Um
aspecto interessante de tudo isso foi o papel da Hermanos al Rescate. A
organização foi criada em meados da década de 1990 por José Basulto, um
veterano das atividades anticastristas e da notória Operação Mangusto, uma
estratégia de sabotagem e violência dentro de Cuba (durante a qual Basulto
admitiu ter atirado contra um hotel cubano). Seu objetivo era identificar e
resgatar os refugiados cubanos que cruzavam o Estreito da Flórida, o que
significava trazê-los para solo estadunidense.
Enquanto
Cuba sofria com a crise econômica imediatamente posterior à caída da União
Soviética, uma onda de emigração ilegal para os Estados Unidos teve início.
Essa onda foi tolerada pelas autoridades cubanas, mas temida pelos funcionários
da imigração estadunidense, que receavam que a Flórida fosse inundada por
imigrantes, o que poderia levar a uma repetição dos efeitos do êxodo de Mariel
de 1980.
Em
1994, foi firmado um acordo migratório entre os EUA e Cuba, com o objetivo de
controlar o êxodo, fazendo uma distinção entre migrantes “de pés molhados”
(aqueles resgatados no mar e que seriam devolvidos a Cuba) e migrantes “de pés
secos”. De acordo com a Lei de Ajuste Cubano de 1966, aqueles da segunda
categoria teriam permissão para solicitar residência nos EUA e, eventualmente,
cidadania após chegarem em terra firme.
No
início de 1996, corriam rumores em Washington de que Clinton estaria
considerando medidas para amenizar as relações com Cuba. Isso levou a Hermanos
a pôr fim a essas ideias, buscando provocar uma reação cubana ao entrar no
espaço aéreo cubano. De fato, quaisquer planos nesse sentido foram
posteriormente suspensos até que Barack Obama, em 2014, decidiu elevar o nível
de reconhecimento de Cuba pelos Estados Unidos. (Em 1977, Jimmy Carter havia
dado o primeiro passo rumo ao reconhecimento pleno, com a criação de “seções de
interesse” em embaixadas de terceiros nas respectivas capitais dos dois
países.)
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Estado de preparação
Para
onde vai Cuba depois disso tudo? Raúl Castro era ministro da Defesa de Cuba em
1996 e chefe das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), cujos oficiais
presumivelmente tomaram a decisão de abater os aviões. Podemos ver sua acusação
tanto como um primeiro passo para realizar uma incursão e sequestro nos moldes
da de Nicolás Maduro, a fim de levá-lo à justiça estadunidense, quanto como uma
manobra retórica para acirrar as relações bilaterais já profundamente
desgastadas entre Havana e Washington.
É
provável que os círculos políticos e militares dos EUA ainda considerem
qualquer tentativa de repetir a ação de Maduro em Cuba muito mais difícil e
politicamente arriscada do que o que ocorreu na Venezuela. Simplificando, as
FAR cubanas sempre estiveram prontas para resistir a qualquer ação militar
externa contra Cuba.
Trata-se
de um estado de prontidão que inclui o treinamento e o armamento de cidadãos
não militares, por meio das forças de reserva das FAR, da rede nacional de
unidades de defesa (os Comitês de Defesa da Revolução, CDR) e das milícias
civis. Além disso, as FAR permanecem leais a Raúl Castro, em contraste com o
papel pouco confiável desempenhado pelos militares venezuelanos no caso de
Maduro, situação que levou o presidente da Venezuela a depender de trinta e
dois soldados cubanos para atuarem como sua guarda pessoal.
Além
disso, Raúl ainda goza de um alto grau de respeito popular por sua legitimidade
histórica (como um dos três líderes do levante de 1953-1958) e por sua
associação com as muitas reformas econômicas que liderou a partir de 1993 e que
posteriormente consolidou como presidente a partir de 2008. Naturalmente,
qualquer previsão sobre o que poderia acontecer nas relações entre EUA e Cuba
deve ser ponderada, levando-se em consideração a imprevisibilidade inerente a
Trump. Portanto, não devemos descartar um ataque nos moldes de Maduro, e os
cubanos certamente não o descartam, temendo as consequências.
Devemos,
portanto, prestar muita atenção à outra decisão judicial da Suprema Corte dos
EUA. Esta parece abrir caminho para ações judiciais nos Estados Unidos contra
empresas estrangeiras com rendimentos provenientes de propriedades
nacionalizadas durante os primeiros anos da revolução.
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Efeito de resfriamento
Uma
ressalva importante que devemos fazer aqui é que, de acordo com a legislação
estadunidense vigente, as reivindicações individuais só podem ser feitas por
aqueles que já eram cidadãos estadunidenses no momento do confisco. A maioria
dos cubano-estadunidenses que buscam se beneficiar da Lei Helms-Burton não se
enquadraria nesse perfil.
No
entanto, a decisão agora permite que as empresas façam reivindicações, uma vez
que estavam mais claramente estabelecidas como entidades estadunidenses no
momento do confisco. Portanto, haverá um efeito cascata decorrente da decisão
judicial, assim como houve quando Trump encerrou a isenção do Título III.
Embora
muitas empresas europeias e canadenses tenham continuado a negociar com Cuba
após a decisão de Trump, havia uma visível relutância entre os potenciais
investidores em se envolver com a ilha, dada a incerteza jurídica. Isso se
tornou ainda mais evidente porque o governo de Joe Biden não seguiu o exemplo
de Obama, como era esperado, e manteve o embargo exatamente como Trump o havia
deixado.
Biden
também seguiu o exemplo de Trump ao seguir classificando Cuba como um Estado
patrocinador do terrorismo. Embora a maioria dos outros governos rejeite essa
classificação, bancos e seguradoras não estadunidenses têm cada vez mais a
reconhecido, recusando-se a realizar atividades comerciais e financeiras com
entidades cubanas e violando impunemente as leis de livre comércio da UE e do
Reino Unido. O efeito tem sido desastroso para as transações de Cuba e de
cidadãos cubanos com entidades estrangeiras, restringindo severamente quaisquer
relações econômicas significativas com o mundo exterior.
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Definindo o inimigo
Tudo
isso faz parte de um quadro muito mais amplo de guerra econômica e política
implacável contra Cuba. O uso do termo “guerra” pode parecer exagerado, dada a
ausência de combates reais, em contraste com a outra guerra de Trump contra o
Irã. No entanto, é sempre oportuno lembrar que, quando o governo dos EUA
formalizou o embargo em 1963 — que antes era parcial e limitado —, o fez sob a
égide da Lei de Comércio com o Inimigo de 1917. Essa medida definiu legalmente
Cuba como inimiga dos Estados Unidos.
O
acordo de 1963 permanece como o instrumento legal para qualquer presidente em
suas relações com Cuba. No entanto, ele foi agora suplantado por mais um efeito
da Lei Helms-Burton de 1996, que, a partir de então, exige uma votação de dois
terços em ambas as casas do Congresso para sua revogação. Isso, na prática,
confere à lei um status equivalente ao da maioria dos tratados dos quais os
Estados Unidos são signatários.
A
questão de Washington usar a lei de 1917 como mecanismo é que ela serve como um
lembrete da situação de Cuba, formalmente em guerra com uma potência que a
considera uma ameaça. A principal arma dessa guerra tem sido, portanto, o
embargo.
Embora
Cuba tenha mantido uma relação econômica eficaz e bem-sucedida com o bloco
liderado pela União Soviética, principalmente entre 1972 e 1990, o embargo
tendeu a perder importância. O maior reconhecimento e o aumento do comércio com
Cuba por parte de outros países latino-americanos contribuíram para isso. O
status anterior de Cuba como país sitiado em meio a uma guerra parecia estar
ficando para trás.
Contudo,
o colapso da URSS teve outro efeito além da terrível crise econômica que se
seguiu. No protocolo secreto do acordo da Crise dos Mísseis de Cuba, de 1962,
os Estados Unidos se comprometeram a não invadir Cuba. Isso criou uma situação
incomum para Cuba nas três décadas seguintes: o país passou a ter a capacidade
de agir no exterior com certo grau de impunidade, desafiando ambas as
superpotências por meio de seu apoio ativo à revolução armada na América Latina
e ao anticolonialismo armado na África e na Ásia.
Washington
delegou essa responsabilidade à União Soviética, não a Cuba. Depois de 1991, a
União Soviética deixou de existir. Isso convenceu os líderes cubanos da
possibilidade real de uma política externa diferente, uma política de guerra em
vez de embargo, num momento em que Cuba tinha menos condições de se defender.
No fim das contas, Clinton não tinha interesse em declarar guerra à Cuba e
simplesmente manteve o embargo. Mas a ameaça persistiu e retornou com força
total sob um novo governo em Washington.
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Evocando uma ameaça
A ideia
de Cuba como uma ameaça também ressurgiu nas abordagens dos EUA em relação ao
país, de maneiras que ecoam usos históricos do termo. Remontando ao início do
século XIX, desde Thomas Jefferson, as ideias dos EUA de assumir o controle da
ilha eram alimentadas pelo medo de que outra potência (inicialmente a
Grã-Bretanha, de maneira geral) exercesse algum grau de controle sobre uma Cuba
independente. Nesse cenário, a ameaça era a outra potência que poderia, no
futuro, estabelecer sua influência em território cubano.
Após o
período de controle dos EUA — direto entre 1902 e 1934, indireto a partir desse
ponto até 1959 — o comunismo tornou-se o novo bicho-papão. O termo “comunismo”,
como usado por autoridades estadunidenses, referia-se tanto a uma ameaça
ideológica que oferecia aos latino-americanos uma alternativa popular ao status
quo apoiado pelos EUA, quanto a uma ameaça estratégica da União
Soviética.
Os
Estados Unidos, portanto, começaram a impor sanções em meados de 1960, após a
primeira troca comercial de açúcar por petróleo entre Cuba e a União Soviética.
Posteriormente, justificaram essas sanções com base na presença soviética, real
ou imaginária, e na ameaça representada pela imagem de resistência bem-sucedida
de Cuba, além de qualquer apoio de Havana à revolução “comunista” (que poderia
ou não ser liderada por comunistas).
Agora,
após seu sucesso no sequestro de Maduro, Trump relembrou toda a América Latina
da história do imperialismo estadunidense, ostentando com orgulho a Doutrina
Monroe e o Corolário Roosevelt. Ele e Marco Rubio também ressuscitaram a noção
de uma ameaça vinda de Cuba, mais de dois séculos depois de os Estados Unidos
terem começado a se interessar pela ilha. Essa suposta ameaça pode oferecer
exatamente a justificativa que Trump poderia acolher como pretexto para uma
intervenção militar agressiva.
Fonte:
Por Antoni Kapcia - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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