William
Nozaki: Cuba e Taiwan - no apagar das ilhas, as disputas globais
Entre o
Caribe e o Pacífico, Cuba e Taiwan voltam ao centro das tensões globais. Apesar
de trajetórias
históricas
distintas, ambas compartilham uma condição estrutural: são territórios onde
grandes potências projetam seu poder e onde as fragilidades do sistema
internacional se tornam visíveis.
Cuba
carrega o legado da Guerra Fria. Sua proximidade com os Estados Unidos mantém a
ilha como espaço sensível da geopolítica americana. Hoje, essa posição se
reorganiza: Cuba funciona como ponto de apoio indireto para Rússia e China no
hemisfério ocidental, por meio de cooperação energética, financeira e
tecnológica. Trata-se de uma reedição da disputa por zonas de influência, agora
em novas bases.
Taiwan,
ao contrário, expressa o futuro das disputas globais. Localizada no centro da
Ásia-Pacífico, a ilha é um posto avançado dos Estados Unidos e aliados em uma
região-chave para a economia mundial. Ali se concentram as novas tensões:
competição tecnológica, reorganização das cadeias produtivas e interdependência
entre energia e digitalização. A instabilidade no Oriente Médio, especialmente
no Estreito de Ormuz, evidencia essa vulnerabilidade ao afetar diretamente o
abastecimento energética que sustenta a indústria taiwanesa.
Há,
portanto, uma simetria invertida: Cuba é uma projeção euroasiática nas
Américas; Taiwan, uma projeção atlântica na Ásia. Ambas funcionam como
plataformas geopolíticas atravessadas por interesses externos.
O
elemento comum mais profundo, porém, é a energia. Em Cuba, a dependência de
petróleo importado, sujeita a sanções e alianças políticas, revela um padrão
energético típico do século XX. Em Taiwan, a dependência quase total de
importações expõe a fragilidade de uma economia avançada ainda baseada em
combustíveis fósseis. Em ambos os casos, energia não é apenas um insumo — é um
fator estratégico que condiciona soberania e autonomia.
Cuba
lembra que a geopolítica da energia sempre foi central. Taiwan mostra que essa
centralidade persiste, agora combinada com tecnologia e digitalização. Vejamos.
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Cuba e a dependência de petróleo com características do século XX
A crise
energética cubana expressa uma longa dependência de petróleo importado,
agravada por mudanças geopolíticas recentes.
A
matriz energética do país continua fortemente baseada em combustíveis fósseis.
Mais de 80% da energia consumida depende de derivados de petróleo. A produção
interna cobre apenas cerca de 40% da demanda, exigindo importações constantes.
Na geração elétrica, a dependência é ainda maior, com participação predominante
de fontes fósseis e presença ainda limitada de energias renováveis,
majoritariamente biomassa do bagaço de cana.
Esse
modelo se sustenta em uma infraestrutura envelhecida. Usinas termelétricas
antigas, muitas da era soviética, operam com baixa eficiência e falhas
frequentes. A rede elétrica apresenta perdas elevadas e sofre com décadas de
subinvestimento. O resultado são apagões recorrentes, que funcionam como forma
de administrar a escassez. A origem desse quadro está diretamente ligada ao
embargo
dos Estados Unidos.
Diante
disso, Cuba passou a depender de fornecedores externos. A Venezuela foi
historicamente o principal parceiro, seguida por México e Rússia. Em alguns
momentos, esses países responderam por mais de 60% do abastecimento da ilha.
Trata-se de uma dependência concentrada e politicamente mediada.
Esse
arranjo começou a se desorganizar recentemente. A partir de 2024, a redução da
capacidade venezuelana, somada a pressões sobre o México e à política externa
americana, provocou queda significativa nas importações — cerca de 35% em 2025.
Ao mesmo tempo, dificuldades financeiras limitaram a capacidade de pagamento do
país.
O ponto
decisivo, porém, foi geopolítico. O endurecimento das sanções e a interrupção
de fluxos petrolíferos configuraram um bloqueio energético mais amplo.
Paralelamente, tensões no Golfo
Pérsico
e conflitos envolvendo o Irã restringiram alternativas de fornecimento.
O
resultado é a vulnerabilidade sistêmica. O abastecimento tornou-se incerto e
irregular. A chegada ocasional de petróleo russo, suficiente para poucos dias,
ilustra um sistema que opera no limite.
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Taiwan e a dependência de petróleo com características do século XXI
A
vulnerabilidade energética de Taiwan, por sua vez, decorre de sua própria
estrutura econômica. Trata-se de uma economia altamente industrializada que
importa cerca de 98% da energia que consome, principalmente petróleo, carvão e
gás natural.
Sua
matriz elétrica depende fortemente de usinas térmicas, com crescente
participação do gás natural. Isso significa que Taiwan não controla a produção
de sua energia, apenas o ponto final de uma longa cadeia logística global.
Essa
cadeia começa, em grande parte, no Golfo Pérsico, atravessa o Estreito de
Ormuz, o Oceano Índico e o Estreito de Malaca até chegar ao Mar do Sul da
China. Esses pontos são gargalos estratégicos, especialmente Ormuz e Malaca,
cuja interrupção afetaria o sistema global.
A
recente escalada de tensões envolvendo Estados Unidos e Irã trouxe essa
vulnerabilidade à tona. Um bloqueio em Ormuz compromete diretamente o
abastecimento taiwanês.
Essa
dependência energética está diretamente ligada à estrutura produtiva global.
Taiwan é o principal produtor mundial de semicondutores avançados. Empresas
como a TSMC fabricam chips essenciais para setores como inteligência
artificial, telecomunicações, automóveis e defesa.
A
produção desses chips depende de processos industriais altamente intensivos em
energia. A energia que chega em Taiwan sustenta diretamente a economia digital
global.
Uma interrupção no fornecimento não afetaria apenas Taiwan, mas desencadearia
efeitos em cadeia: paralisação industrial, aumento de custos e desorganização
de mercados. Forma-se, assim, uma nova infraestrutura crítica, que conecta
energia, tecnologia e logística global.
Nesse
contexto, a atuação dos Estados Unidos no Oriente Médio ganha dimensão
estratégica mais ampla. Ao influenciar a estabilidade do Golfo, Washington
afeta diretamente o funcionamento do corredor energético que abastece Taiwan,
e, com isso a indústria global de semicondutores e inteligência artificial.
Recentemente,
a China propôs à ilha um acordo: segurança energética em troca de reunificação
pacífica. A oferta inclui integração a um sistema energético continental menos
vulnerável a rotas marítimas. Essa proposta redefine o conflito. A disputa
deixa de ser apenas territorial e passa a envolver o controle dos fluxos
energéticos que sustentam a economia digital.
Taiwan
emerge, assim, como ponto de convergência entre dependência energética,
centralidade tecnológica e vulnerabilidade geopolítica.
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Projeção de poder energético sobre as ilhas: EUA e China
Cuba e
Taiwan funcionam como espelhos invertidos e revelam dois modelos distintos de
projeção de poder: o padrão americano e o padrão chinês.
Em
Cuba, os Estados Unidos adotam uma estratégia de contenção. O embargo e as
sanções buscam limitar a integração da ilha ao sistema internacional,
restringindo fluxos energéticos, financeiros e comerciais. Trata-se de um
modelo negativo: não incorpora, mas impede. A energia é utilizada como
instrumento de pressão.
Em
Taiwan, a China propõe uma abordagem distinta. Ao oferecer segurança energética
em troca de reunificação, Pequim busca integrar a ilha a um sistema continental
mais estável. Trata-se de um modelo positivo: a energia funciona como mecanismo
de atração, ainda que condicionado politicamente.
Apesar
das diferenças, há um elemento comum: o controle da energia é central para o
exercício do poder. Em ambos os casos, a dependência energética define limites
de soberania e autonomia.
A
diferença está na forma de uso dessa dependência. O modelo americano opera pela
escassez e pela pressão. O modelo chinês, pela promessa de estabilidade e
integração. Mas ambos estão à espreita para que a insegurança energética das
ilhas se converta em incorporação territorial.
Cuba e
Taiwan, portanto, não são apenas casos isolados. Elas expressam uma
transformação mais ampla do poder global, marcada pela crescente
interdependência entre energia, tecnologia e geopolítica.
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China – o escrutínio do povo. Por Elias Jabbour
Antes
de mais nada uma afirmação é fundamental. Não existe explicação que se aproxime
da realidade sobre o sucesso econômico e social chinês sem que que se aborde o
papel do Partido Comunista da China (PCCh) em todo o período de revolução,
reforma e mais recentemente na chamada “Nova Era” inaugurada em 2017 já tendo
Xi Jinping como secretário-geral do Comitê Central.
A
política está na frente da economia e esta é expressão de políticas justas e
acertadas elaboradas e executadas ao longo do tempo. Nenhuma grande tese
acadêmica pode explicar a China moderna somente em termos de “sucesso
econômico”. Sem Partido Comunista da China não existiria China moderna.
Logo,
próximo de completar 105 anos de existência, é fundamental compreender as
razões pelas quais o Partido Comunista da China mantém uma sólida base popular,
consegue enfrentar os duros desafios impostos pela conjuntura ao mesmo tempo em
que evita o ciclo histórico da ascensão e queda de Partidos Comunistas no
poder, como no passado ocorreu na União Soviética e Europa Oriental. São vários
os fatores, incluindo a capacidade de construir um corpo teórico que se
alimenta da prática constante e da busca por soluções aos desafios da
realidade.
Além
disso, o Partido, sobretudo após 2017, se dispôs a passar por um duro processo
de constante autorrenovação. Xi Jinping enfatiza esta necessidade de forma
muito clara:
“A
autorrenovação é a chave para garantir que o nosso Partido mantenha sempre sua
natureza, sua cor e seu caráter. No meu discurso proferido na Celebração do
Centenário do Partido Comunista da China em julho deste ano, enfatizei que
o Partido Comunista da China nunca representa nenhum grupo de interesses, grupo
de poder ou estrato privilegiado. (…). Isto é uma resposta à tentativa de
algumas pessoas com segundas intenções de dividir o nosso Partido do povo ou
colocá-lo em oposição ao povo. Também é um lembrete a todo o Partido de que
devemos permanecer firmes e lúcidos nas questões fundamentais: para quem
governamos, para quem exercemos o poder e para quem buscamos interesses e
benefícios”.
Ora,
uma leitura atenta deste discurso nos leva a algumas conclusões. Primeiro, o
Partido Comunista da China, como um partido marxista, não representa nenhum
grupo de interesse, muito menos os interesses do capital. Segundo, o Partido
deve se concentrar nos desafios da presente época histórica marcada pela
necessidade de a China alcançar objetivos ousados, entre eles o das autonomias
tecnológica e alimentar, atingir as metas colocadas em congresso nacional,
garantir melhores condições de vida ao povo e ser a síntese das melhores
tradições do país e do movimento revolucionário fundado em torno de si.
Xi
Jinping destacou a importância da autorrenovação do Partido para aumentar sua
capacidade de administração do poder. Segundo ele, a coragem de fazer a
autorrenovação é uma característica que distingue o Partido Comunista da China
dos outros partidos políticos:
“O
nosso Partido é muito grande, com 100 anos de história e tem governado este
país desde 1949. Como podemos quebrar o ciclo histórico de ascensão e queda? O
camarada Mao Zedong deu a primeira resposta a essa pergunta em sua casa-caverna
de Yan’an em 1947. Ele disse: ‘Somente sob o escrutínio do povo, o governo não
ousará afrouxar seus esforços’. Depois de ter percorrido uma trajetória de luta
por um século, especialmente com a nova prática desde o 18º. Congresso Nacional
do Partido Comunista da China em 2012, o nosso Partido deu, agora, a segunda
resposta, que é fazer a autorrenovação”.
Ainda
sobre isso, Xi Jinping no início de 2024 colocou de forma muito clara:
“(…) o
objetivo fundamental é orientar a grande transformação social. Devemos planejar
a autorrenovação do Partido com base nas novas demandas da transformação social
e avaliar os resultados reais à luz das novas conquistas nesse processo,
realizando o objetivo da autorrenovação, que por sua vez é promovida por meio
da transformação social. Atualmente, devemos planejar e promover a nossa
autorrenovação alinhando-a com a tarefa central do Partido e fazendo-a servir
melhor a essa tarefa”.
A
transformação social como o motor da autorrenovação tem como princípio o fato
de o Partido Comunista da China estar sob constante escrutínio do povo. Se
fazer aberto tanto negar as influências de interesses particulares quanto o de
ouvir constantemente as críticas e demandas do povo. É ao povo chinês que o
Partido Comunista da China deve lealdade e devoção.
Na
história milenar da China as dinastias foram derrubadas e substituídas após
grandes rebeliões populares. O motor dos levantes camponeses na China sempre
foi a crescente, e ao longo do tempo, incapacidade governamental das antigas
dinastias em servir ao povo, tornando-se ineptas e corruptas. Esta lição da
história chinesa foi ampliada após a ascensão de Xi Jinping à secretaria-geral
do Partido Comunista da China em 2012.
As
respostas são duras aos fenômenos de corrupção e desvios morais:
“Tomamos
a determinação de ‘receitar doses pesadas contra doenças graves’ e de impor
leis rigorosas para lidar com a desordem; tivemos coragem de adotar medidas
dolorosas de ‘raspar osso para extirpar veneno’ e ‘cortar o próprio braço para
salvar a vida’; mantivemos a firmeza para combater a corrupção, ‘caçando os
tigres’, ‘esmagando as moscas’ e ‘capturando as raposas’; e conseguimos
eliminar os riscos potenciais significativos no seio do Partido, no Estado e
nas forças armadas. Dentre tantos partidos governantes em todo o mundo, quantos
se atrevem, como nós, a combater a corrupção em uma escala tão grande, de forma
tão intensiva e persistente?”.
O
sucesso da China deve-se antes de mais nada a capacidade do Partido Comunista
da China em se adaptar ao tempo histórico. Mas, acima de tudo, pela observação
constante dos erros e acertos tanto das antigas dinastias que ocuparam o poder
no país quanto da ascensão e queda das primeiras experiências socialistas do
século XX.
O
segredo, ao fim e ao cabo, está na constante “autorrenovação” como uma forma de
levar o exercício da crítica e da autocrítica a patamares superiores.
Fonte:
A Terra é Redonda/Outras Palavras

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