Joaquim
de Carvalho: Dois pesos e duas medidas - Wagner é massacrado enquanto Flávio e
Ibaneis seguem blindados
A
operação da Polícia Federal que teve como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA),
líder do governo Lula no Senado, produziu um forte impacto político e
midiático. Não apenas pela relevância institucional do parlamentar, um dos
principais articuladores do governo no Congresso, mas também pelos elementos
conhecidos até agora da investigação.
Pelo
que foi divulgado da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal
Federal, não teria sido apontado um ato de ofício praticado por Jaques Wagner
em benefício do Banco Master ou de qualquer outro interessado. Trata-se de um
dado relevante. Em investigações envolvendo agentes públicos, a demonstração de
uma contrapartida concreta vinculada ao exercício do cargo costuma ser elemento
essencial para caracterizar eventual favorecimento indevido.
Isso
não significa que a investigação não deva prosseguir ou que novos fatos não
possam surgir. Significa apenas que, até o momento, o debate público parece ter
sido influenciado mais pelo impacto visual da operação do que pela apresentação
de elementos objetivos contra o senador.
As
imagens dos dólares e euros apreendidos em um cofre utilizado por Wagner em
Brasília ganharam destaque nacional. As cédulas organizadas em fileiras
produziram o efeito simbólico desejado por qualquer operação de grande
repercussão: a associação imediata entre dinheiro em espécie e suspeita de
irregularidade.
Mas o
espetáculo visual não substitui a prova.
A
explicação apresentada pelo senador é, ao menos em tese, plausível e
verificável. Segundo sua defesa, os 55 mil dólares e 33 mil euros encontrados
pela Polícia Federal correspondem a diárias recebidas do Senado Federal para
missões oficiais no exterior. Como as despesas teriam sido realizadas com
cartão de crédito, os valores não foram utilizados e permaneceram guardados.
Wagner afirma possuir documentação capaz de comprovar a origem legal dos
recursos.
O mesmo
ocorre em relação ao apartamento mencionado na investigação. O senador sustenta
que o imóvel jamais integrou seu patrimônio e afirma que a proposta apresentada
a Augusto Lima envolvia a aquisição de uma unidade ainda em construção para
posterior recompra por sua filha.
São
alegações defensivas que precisarão ser confrontadas com as provas.
Outro
aspecto chama atenção. A investigação parece buscar conexões com fatos
ocorridos muito antes do surgimento do próprio Banco Master. A privatização da
rede Cesta do Povo, por exemplo, ocorreu em 2017. O Banco Master só seria
criado dois anos depois, em 2019. A distância temporal entre os eventos não
impede investigações, mas suscita questionamentos sobre a centralidade desses
fatos dentro de um caso que tem origem em operações financeiras muito mais
recentes.
E é
justamente nesse ponto que surge uma pergunta incômoda.
Existem
episódios contemporâneos e diretamente relacionados ao universo financeiro do
Banco Master que, ao menos aparentemente, teriam prioridade investigativa. O
principal deles envolve as operações entre o banco e o BRB, que alcançaram
cifras bilionárias e geraram enorme repercussão pública, incluindo
questionamentos sobre ativos de alto risco e negócios estimados em cerca de R$
12 bilhões.
Entretanto,
não se viu até agora o mesmo aparato ostensivo direcionado a personagens
políticos associados a essas operações.
A
comparação é inevitável. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, não
foi alvo de buscas ou medidas semelhantes. Tampouco houve operação de igual
repercussão envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, apesar da divulgação de
mensagens e áudios relacionados a pedidos de apoio financeiro para o filme Dark
Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Evidentemente,
a simples diferença de tratamento não prova perseguição política. Mas a
ausência de critérios aparentes e uniformes alimenta dúvidas legítimas.
Numa
democracia, a credibilidade das instituições depende não apenas da legalidade
de seus atos, mas também da percepção de imparcialidade. Quando determinados
agentes públicos são submetidos a operações de alto impacto midiático e outros
personagens ligados ao mesmo ambiente de interesses permanecem fora do foco
ostensivo, abre-se espaço para questionamentos sobre seletividade.
Talvez
seja injusto concluir que exista motivação política. Mas também seria ingênuo
ignorar que a política brasileira está repleta de investigações que, ao longo
da história recente, produziram efeitos políticos antes mesmo de produzirem
sentenças.
A
própria nota divulgada pela assessoria de Jaques Wagner procura enfatizar esse
aspecto ao lembrar que o senador "não é réu, não foi denunciado e não foi
acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados". A defesa
também afirma que "o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio
do parlamentar" e que os valores apreendidos são "fruto de diárias
legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais".
A
palavra final caberá à Justiça.
Mas a
política não espera o fim dos processos.
Por
essa razão, Jaques Wagner deveria considerar um afastamento temporário da
liderança do governo no Senado. Não como admissão de culpa, mas como gesto de
responsabilidade institucional. O precedente existe. Em 1993, o então
ministro-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, acertou com o presidente
Itamar Franco seu licenciamento do cargo para dedicar-se integralmente à
própria defesa diante de denúncias que surgiram contra ele. A lógica era
simples: preservar o governo enquanto os fatos eram esclarecidos.
Posteriormente inocentado, Hargreaves retornou ao cargo com sua reputação
restabelecida.
O mesmo
raciocínio poderia ser aplicado agora.
Se
Jaques Wagner está convicto de sua inocência — e sua nota pública demonstra
essa confiança —, um afastamento temporário da liderança lhe permitiria
concentrar-se na apresentação de documentos e esclarecimentos, sem transferir
ao governo Lula o desgaste político decorrente da investigação.
A
presunção de inocência deve ser preservada. Mas a prudência política também é
uma virtude republicana.
Num
momento em que pairam dúvidas não apenas sobre os fatos investigados, mas
também sobre os critérios adotados para investigar, a melhor resposta talvez
seja aquela que fortalece simultaneamente a defesa do senador e a estabilidade
do governo: transparência, serenidade e um afastamento temporário até que a
verdade prevaleça.
• Lula pode evitar desgaste por operação
contra Wagner. Por Leopoldo Vieira
A
operação da Polícia Federal (PF) contra o líder do governo no Senado, Jaques
Wagner, colocará à prova se a eventual ligação de um aliado petista ao caso do
Banco Master será capaz de desgastar a popularidade do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. No momento, ele não apenas se recuperou como
"disparou" nas pesquisas eleitorais, se considerada a polarização
acirrada dentro da margem de erro que vinha se estabelecendo.
Em
linha com a postura que vem adotando diante de escândalos de corrupção — de
defender a autonomia da PF e a apuração integral dos fatos —, o presidente pode
expandir a reconstrução de sua imagem após a dinâmica denunciada por juristas
como lawfare, isto é, o uso instrumental da lei para perseguição política. Esse
posicionamento também é visto como um aceno ao eleitorado em disputa:
independentes, indecisos, eleitores de centro e de direita não bolsonaristas,
além da classe média democrática, que tem se afastado do senador Flávio
Bolsonaro.
Lula
sinalizou a esse público na cúpula do G7, quando incorporou a segurança pública
à sua reconhecida agenda internacional, reuniu-se com o presidente da Ucrânia,
Volodymyr Zelensky, defendeu o multilateralismo e, por consequência, os agentes
econômicos brasileiros em meio ao novo tarifaço, além de rejeitar o
pertencimento à esquerda radical.
Assim,
a oposição terá de conseguir prolongar a sangria política de Wagner,
conectando-a a Lula. Uma das diferenças entre a situação de Wagner e a do
senador Bolsonaro é que o candidato da oposição aparece como principal nome
para enfrentar o incumbente e foi flagrado tratando diretamente com Daniel
Vorcaro, ex-dono do Master, ao mesmo tempo em que buscava canalizar o discurso
contra "a corrupção do PT".
Portanto,
o desafio de uma recuperação não é simples. Se não for possível se desvencilhar
do caso Master e dobrar a aposta na interferência americana, Flávio aumentará
gradualmente suas chances de derrota. Precisará, ainda, conciliar a mobilização
de uma base mais radicalizada com a conquista de uma parcela decisiva do
eleitorado que rejeita exatamente esse tipo de gesto.
Em
manifestação contraproducente, o diretor do filme "Dark Horse", Cyrus
Nowrasteh, disse esperar que a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro
contribua para eleger seu filho, Flávio, à Presidência da República. A
declaração reforça a percepção de um consórcio político entre o clã Bolsonaro e
Vorcaro.
Como
temos sustentado, quem conseguir capturar moralmente a bandeira anticorrupção
tende a obter um diferencial relevante na disputa política, como sugeriram as
pesquisas divulgadas após a revelação do envolvimento da candidatura
oposicionista com o Master. Em paralelo, o presidente saiu ileso de crises que
foram apontadas como fatais para sua competitividade, como as acusações contra
seu filho e a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro,
conduzida pelo ex-governador Cláudio Castro para derrotar o Executivo Federal
na pauta da segurança.
Em
tempo: a aprovação de mais de R$ 200 bilhões em pautas-bomba pelo Senado, na
esteira de denúncias de que o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, recebeu
aportes milionários de Vorcaro, indica que o mercado financeiro deve recalibrar
a aposta de que um Congresso com maioria de centro-direita, conduzido pelo
Centrão, seria um freio automático à irresponsabilidade fiscal. Isso pode
piorar com o senador Ciro Nogueira arrolado e o presidente da Câmara dos
Deputados, Hugo Motta, entrando no radar do caso Master.
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Caso Wagner traz à tona novos operadores ligados ao Banco Master
A
Polícia Federal identificou novos personagens em uma rede de operadores
jurídicos e financeiros ligada ao Banco Master no âmbito da nona fase da
Operação Compliance Zero, que realizou buscas relacionadas ao senador Jaques
Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado.
As
informações foram publicadas pelo jornal O Globo, segundo o qual os
investigadores avançam na compreensão da estrutura montada em torno do
ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de nomes associados ao Banco Master. A apuração
envolve tratativas sobre a compra de um apartamento no empreendimento Poème
Horto, que, de acordo com a PF, teria sido indicado por Wagner e adquirido de
forma a ocultar sua titularidade real.
A
investigação aponta dois novos nomes: Valério Marega Júnior e David Lopes
Monteiro. Segundo a Polícia Federal, Valério é descrito como "operador
financeiro ligado a estruturas de fundos e sociedades utilizadas no contexto do
Banco Master". Já David é citado como "operador vinculado ao núcleo
empresarial e jurídico-financeiro associado ao Banco Master".
A PF
afirma ainda que David atuaria de maneira coordenada com Daniel Lopes Monteiro,
seu irmão, advogado e apontado como homem de confiança de Daniel Vorcaro.
Daniel Monteiro já havia sido preso em abril, em uma etapa anterior da
investigação.
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PF vê atuação para viabilizar compra de imóvel de forma oculta
De
acordo com a representação da Polícia Federal que fundamentou a nova fase da
Operação Compliance Zero, Valério Marega Júnior teria ocupado uma "posição
de coordenação operacional" para viabilizar a compra do apartamento Poème
Horto de forma "escamoteada".
A
corporação afirma que o operador teria recorrido a "estruturas financeiras
compatíveis com ocultação da titularidade real do bem". Para os
investigadores, esse mecanismo teria sido usado para afastar formalmente o nome
do real beneficiário da transação imobiliária.
Ainda
segundo a PF, Jaques Wagner teria enviado a Augusto Lima mensagens sobre o
imóvel. Entre elas, uma informação objetiva sobre a unidade e o preço: "a
unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi". Após receber os dados, Augusto Lima
teria telefonado para Valério e repassado informações sobre o corretor, o
empreendimento, a unidade e o valor.
No
celular de Augusto Lima, o contato de Valério aparecia salvo como “Valério
Fundos”, de acordo com os investigadores.
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David Monteiro também aparece nas tratativas
A
Polícia Federal também atribui papel relevante a David Lopes Monteiro nas
tratativas envolvendo o apartamento. Segundo a investigação, Augusto Lima teria
encaminhado o contato de David a Jaques Wagner depois que o senador pediu
informações sobre o proprietário formal do imóvel.
O nome
de David também aparece em conversas nas quais o enteado do parlamentar cobra
documentos e pagamentos relacionados à negociação. Para a PF, sua inclusão
entre os alvos da operação tinha como objetivo impedir eventual interferência
sobre "documentos, pessoas e estruturas empresariais relacionadas às
tratativas financeiras e imobiliárias".
A
relação entre David e Daniel Lopes Monteiro é considerada relevante pelos
investigadores. Daniel, irmão de David, é apontado como figura central no
núcleo jurídico-financeiro ligado a Daniel Vorcaro e ao Banco Master.
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Investigadores miram reorganização jurídica do imóvel
Segundo
a Polícia Federal, Daniel Lopes Monteiro também teria participado de tratativas
relacionadas ao apartamento Poème Horto, mas em uma fase posterior à aquisição
do imóvel. A corporação afirma que, após a primeira fase da Operação Compliance
Zero, o advogado teria atuado para "reorganizar juridicamente a situação
do imóvel, inclusive por envio de minutas contratuais e instrumentos de cessão
de direitos aquisitivos".
Para a
PF, havia risco de interferência sobre provas, razão pela qual Daniel voltou a
ser alvo da nova etapa da operação. O objetivo dos investigadores, segundo a
representação, seria preservar documentos e estruturas consideradas relevantes
para esclarecer a movimentação financeira e jurídica associada ao imóvel.
A
investigação também busca compreender o papel de operadores financeiros,
advogados e empresas vinculadas ao universo do Banco Master em outras frentes
de apuração. Daniel Lopes Monteiro é visto pela PF como peça importante não
apenas no caso envolvendo pagamentos ao ex-presidente do Banco Regional de
Brasília, Paulo Henrique Costa, mas também em outras estruturas atribuídas ao
ex-dono do Banco Master.
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Compliance Zero avança sobre estruturas do Banco Master
A nona
fase da Operação Compliance Zero amplia o foco da investigação sobre a rede
montada ao redor do Banco Master e de Daniel Vorcaro. Para os investigadores,
os novos elementos ajudam a mapear a atuação de operadores que teriam dado
suporte a transações financeiras, imobiliárias e societárias.
No caso
do apartamento Poème Horto, a PF sustenta que as tratativas envolveram
diferentes agentes para viabilizar a aquisição e, posteriormente, reorganizar
juridicamente a situação do bem. As apurações seguem em andamento e ainda
dependem da análise dos materiais apreendidos nas buscas.
A
operação também ocorre em um ambiente de forte repercussão política, por
envolver Jaques Wagner, líder do governo no Senado e um dos principais
articuladores políticos do presidente Lula no Congresso. Até o momento, as
informações divulgadas se baseiam na representação da Polícia Federal e nos
elementos apontados pelos investigadores no âmbito da Operação Compliance Zero.
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Valério Marega Júnior
Em nota
enviada ao Brasil 247, a defesa de Valério Marega Júnior afirma que "ele
não participou do negócio imobiliário mencionado na decisão do Supremo Tribunal
Federal". "Na ocasião, foi apenas consultado sobre a possibilidade de
fundos então sob gestão da WNT adquirirem imóveis, tendo respondido
negativamente, por se tratar de fundos voltados à aquisição de direitos
creditórios. Valério desconhecia o objetivo da eventual negociação. A defesa
confia que os fatos serão plenamente esclarecidos no curso da investigação",
conclui.
Fonte:
Brasil 247

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