sábado, 20 de junho de 2026

Joaquim de Carvalho: Dois pesos e duas medidas - Wagner é massacrado enquanto Flávio e Ibaneis seguem blindados

A operação da Polícia Federal que teve como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, produziu um forte impacto político e midiático. Não apenas pela relevância institucional do parlamentar, um dos principais articuladores do governo no Congresso, mas também pelos elementos conhecidos até agora da investigação.

Pelo que foi divulgado da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, não teria sido apontado um ato de ofício praticado por Jaques Wagner em benefício do Banco Master ou de qualquer outro interessado. Trata-se de um dado relevante. Em investigações envolvendo agentes públicos, a demonstração de uma contrapartida concreta vinculada ao exercício do cargo costuma ser elemento essencial para caracterizar eventual favorecimento indevido.

Isso não significa que a investigação não deva prosseguir ou que novos fatos não possam surgir. Significa apenas que, até o momento, o debate público parece ter sido influenciado mais pelo impacto visual da operação do que pela apresentação de elementos objetivos contra o senador.

As imagens dos dólares e euros apreendidos em um cofre utilizado por Wagner em Brasília ganharam destaque nacional. As cédulas organizadas em fileiras produziram o efeito simbólico desejado por qualquer operação de grande repercussão: a associação imediata entre dinheiro em espécie e suspeita de irregularidade.

Mas o espetáculo visual não substitui a prova.

A explicação apresentada pelo senador é, ao menos em tese, plausível e verificável. Segundo sua defesa, os 55 mil dólares e 33 mil euros encontrados pela Polícia Federal correspondem a diárias recebidas do Senado Federal para missões oficiais no exterior. Como as despesas teriam sido realizadas com cartão de crédito, os valores não foram utilizados e permaneceram guardados. Wagner afirma possuir documentação capaz de comprovar a origem legal dos recursos.

O mesmo ocorre em relação ao apartamento mencionado na investigação. O senador sustenta que o imóvel jamais integrou seu patrimônio e afirma que a proposta apresentada a Augusto Lima envolvia a aquisição de uma unidade ainda em construção para posterior recompra por sua filha.

São alegações defensivas que precisarão ser confrontadas com as provas.

Outro aspecto chama atenção. A investigação parece buscar conexões com fatos ocorridos muito antes do surgimento do próprio Banco Master. A privatização da rede Cesta do Povo, por exemplo, ocorreu em 2017. O Banco Master só seria criado dois anos depois, em 2019. A distância temporal entre os eventos não impede investigações, mas suscita questionamentos sobre a centralidade desses fatos dentro de um caso que tem origem em operações financeiras muito mais recentes.

E é justamente nesse ponto que surge uma pergunta incômoda.

Existem episódios contemporâneos e diretamente relacionados ao universo financeiro do Banco Master que, ao menos aparentemente, teriam prioridade investigativa. O principal deles envolve as operações entre o banco e o BRB, que alcançaram cifras bilionárias e geraram enorme repercussão pública, incluindo questionamentos sobre ativos de alto risco e negócios estimados em cerca de R$ 12 bilhões.

Entretanto, não se viu até agora o mesmo aparato ostensivo direcionado a personagens políticos associados a essas operações.

A comparação é inevitável. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, não foi alvo de buscas ou medidas semelhantes. Tampouco houve operação de igual repercussão envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, apesar da divulgação de mensagens e áudios relacionados a pedidos de apoio financeiro para o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Evidentemente, a simples diferença de tratamento não prova perseguição política. Mas a ausência de critérios aparentes e uniformes alimenta dúvidas legítimas.

Numa democracia, a credibilidade das instituições depende não apenas da legalidade de seus atos, mas também da percepção de imparcialidade. Quando determinados agentes públicos são submetidos a operações de alto impacto midiático e outros personagens ligados ao mesmo ambiente de interesses permanecem fora do foco ostensivo, abre-se espaço para questionamentos sobre seletividade.

Talvez seja injusto concluir que exista motivação política. Mas também seria ingênuo ignorar que a política brasileira está repleta de investigações que, ao longo da história recente, produziram efeitos políticos antes mesmo de produzirem sentenças.

A própria nota divulgada pela assessoria de Jaques Wagner procura enfatizar esse aspecto ao lembrar que o senador "não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados". A defesa também afirma que "o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar" e que os valores apreendidos são "fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais".

A palavra final caberá à Justiça.

Mas a política não espera o fim dos processos.

Por essa razão, Jaques Wagner deveria considerar um afastamento temporário da liderança do governo no Senado. Não como admissão de culpa, mas como gesto de responsabilidade institucional. O precedente existe. Em 1993, o então ministro-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, acertou com o presidente Itamar Franco seu licenciamento do cargo para dedicar-se integralmente à própria defesa diante de denúncias que surgiram contra ele. A lógica era simples: preservar o governo enquanto os fatos eram esclarecidos. Posteriormente inocentado, Hargreaves retornou ao cargo com sua reputação restabelecida.

O mesmo raciocínio poderia ser aplicado agora.

Se Jaques Wagner está convicto de sua inocência — e sua nota pública demonstra essa confiança —, um afastamento temporário da liderança lhe permitiria concentrar-se na apresentação de documentos e esclarecimentos, sem transferir ao governo Lula o desgaste político decorrente da investigação.

A presunção de inocência deve ser preservada. Mas a prudência política também é uma virtude republicana.

Num momento em que pairam dúvidas não apenas sobre os fatos investigados, mas também sobre os critérios adotados para investigar, a melhor resposta talvez seja aquela que fortalece simultaneamente a defesa do senador e a estabilidade do governo: transparência, serenidade e um afastamento temporário até que a verdade prevaleça.

•        Lula pode evitar desgaste por operação contra Wagner. Por Leopoldo Vieira

A operação da Polícia Federal (PF) contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, colocará à prova se a eventual ligação de um aliado petista ao caso do Banco Master será capaz de desgastar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No momento, ele não apenas se recuperou como "disparou" nas pesquisas eleitorais, se considerada a polarização acirrada dentro da margem de erro que vinha se estabelecendo.

Em linha com a postura que vem adotando diante de escândalos de corrupção — de defender a autonomia da PF e a apuração integral dos fatos —, o presidente pode expandir a reconstrução de sua imagem após a dinâmica denunciada por juristas como lawfare, isto é, o uso instrumental da lei para perseguição política. Esse posicionamento também é visto como um aceno ao eleitorado em disputa: independentes, indecisos, eleitores de centro e de direita não bolsonaristas, além da classe média democrática, que tem se afastado do senador Flávio Bolsonaro.

Lula sinalizou a esse público na cúpula do G7, quando incorporou a segurança pública à sua reconhecida agenda internacional, reuniu-se com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, defendeu o multilateralismo e, por consequência, os agentes econômicos brasileiros em meio ao novo tarifaço, além de rejeitar o pertencimento à esquerda radical.

Assim, a oposição terá de conseguir prolongar a sangria política de Wagner, conectando-a a Lula. Uma das diferenças entre a situação de Wagner e a do senador Bolsonaro é que o candidato da oposição aparece como principal nome para enfrentar o incumbente e foi flagrado tratando diretamente com Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, ao mesmo tempo em que buscava canalizar o discurso contra "a corrupção do PT".

Portanto, o desafio de uma recuperação não é simples. Se não for possível se desvencilhar do caso Master e dobrar a aposta na interferência americana, Flávio aumentará gradualmente suas chances de derrota. Precisará, ainda, conciliar a mobilização de uma base mais radicalizada com a conquista de uma parcela decisiva do eleitorado que rejeita exatamente esse tipo de gesto.

Em manifestação contraproducente, o diretor do filme "Dark Horse", Cyrus Nowrasteh, disse esperar que a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro contribua para eleger seu filho, Flávio, à Presidência da República. A declaração reforça a percepção de um consórcio político entre o clã Bolsonaro e Vorcaro.

Como temos sustentado, quem conseguir capturar moralmente a bandeira anticorrupção tende a obter um diferencial relevante na disputa política, como sugeriram as pesquisas divulgadas após a revelação do envolvimento da candidatura oposicionista com o Master. Em paralelo, o presidente saiu ileso de crises que foram apontadas como fatais para sua competitividade, como as acusações contra seu filho e a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, conduzida pelo ex-governador Cláudio Castro para derrotar o Executivo Federal na pauta da segurança.

Em tempo: a aprovação de mais de R$ 200 bilhões em pautas-bomba pelo Senado, na esteira de denúncias de que o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, recebeu aportes milionários de Vorcaro, indica que o mercado financeiro deve recalibrar a aposta de que um Congresso com maioria de centro-direita, conduzido pelo Centrão, seria um freio automático à irresponsabilidade fiscal. Isso pode piorar com o senador Ciro Nogueira arrolado e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, entrando no radar do caso Master.

<><> Caso Wagner traz à tona novos operadores ligados ao Banco Master

A Polícia Federal identificou novos personagens em uma rede de operadores jurídicos e financeiros ligada ao Banco Master no âmbito da nona fase da Operação Compliance Zero, que realizou buscas relacionadas ao senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado.

As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, segundo o qual os investigadores avançam na compreensão da estrutura montada em torno do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de nomes associados ao Banco Master. A apuração envolve tratativas sobre a compra de um apartamento no empreendimento Poème Horto, que, de acordo com a PF, teria sido indicado por Wagner e adquirido de forma a ocultar sua titularidade real.

A investigação aponta dois novos nomes: Valério Marega Júnior e David Lopes Monteiro. Segundo a Polícia Federal, Valério é descrito como "operador financeiro ligado a estruturas de fundos e sociedades utilizadas no contexto do Banco Master". Já David é citado como "operador vinculado ao núcleo empresarial e jurídico-financeiro associado ao Banco Master".

A PF afirma ainda que David atuaria de maneira coordenada com Daniel Lopes Monteiro, seu irmão, advogado e apontado como homem de confiança de Daniel Vorcaro. Daniel Monteiro já havia sido preso em abril, em uma etapa anterior da investigação.

<><> PF vê atuação para viabilizar compra de imóvel de forma oculta

De acordo com a representação da Polícia Federal que fundamentou a nova fase da Operação Compliance Zero, Valério Marega Júnior teria ocupado uma "posição de coordenação operacional" para viabilizar a compra do apartamento Poème Horto de forma "escamoteada".

A corporação afirma que o operador teria recorrido a "estruturas financeiras compatíveis com ocultação da titularidade real do bem". Para os investigadores, esse mecanismo teria sido usado para afastar formalmente o nome do real beneficiário da transação imobiliária.

Ainda segundo a PF, Jaques Wagner teria enviado a Augusto Lima mensagens sobre o imóvel. Entre elas, uma informação objetiva sobre a unidade e o preço: "a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi". Após receber os dados, Augusto Lima teria telefonado para Valério e repassado informações sobre o corretor, o empreendimento, a unidade e o valor.

No celular de Augusto Lima, o contato de Valério aparecia salvo como “Valério Fundos”, de acordo com os investigadores.

<><> David Monteiro também aparece nas tratativas

A Polícia Federal também atribui papel relevante a David Lopes Monteiro nas tratativas envolvendo o apartamento. Segundo a investigação, Augusto Lima teria encaminhado o contato de David a Jaques Wagner depois que o senador pediu informações sobre o proprietário formal do imóvel.

O nome de David também aparece em conversas nas quais o enteado do parlamentar cobra documentos e pagamentos relacionados à negociação. Para a PF, sua inclusão entre os alvos da operação tinha como objetivo impedir eventual interferência sobre "documentos, pessoas e estruturas empresariais relacionadas às tratativas financeiras e imobiliárias".

A relação entre David e Daniel Lopes Monteiro é considerada relevante pelos investigadores. Daniel, irmão de David, é apontado como figura central no núcleo jurídico-financeiro ligado a Daniel Vorcaro e ao Banco Master.

<><> Investigadores miram reorganização jurídica do imóvel

Segundo a Polícia Federal, Daniel Lopes Monteiro também teria participado de tratativas relacionadas ao apartamento Poème Horto, mas em uma fase posterior à aquisição do imóvel. A corporação afirma que, após a primeira fase da Operação Compliance Zero, o advogado teria atuado para "reorganizar juridicamente a situação do imóvel, inclusive por envio de minutas contratuais e instrumentos de cessão de direitos aquisitivos".

Para a PF, havia risco de interferência sobre provas, razão pela qual Daniel voltou a ser alvo da nova etapa da operação. O objetivo dos investigadores, segundo a representação, seria preservar documentos e estruturas consideradas relevantes para esclarecer a movimentação financeira e jurídica associada ao imóvel.

A investigação também busca compreender o papel de operadores financeiros, advogados e empresas vinculadas ao universo do Banco Master em outras frentes de apuração. Daniel Lopes Monteiro é visto pela PF como peça importante não apenas no caso envolvendo pagamentos ao ex-presidente do Banco Regional de Brasília, Paulo Henrique Costa, mas também em outras estruturas atribuídas ao ex-dono do Banco Master.

<><> Compliance Zero avança sobre estruturas do Banco Master

A nona fase da Operação Compliance Zero amplia o foco da investigação sobre a rede montada ao redor do Banco Master e de Daniel Vorcaro. Para os investigadores, os novos elementos ajudam a mapear a atuação de operadores que teriam dado suporte a transações financeiras, imobiliárias e societárias.

No caso do apartamento Poème Horto, a PF sustenta que as tratativas envolveram diferentes agentes para viabilizar a aquisição e, posteriormente, reorganizar juridicamente a situação do bem. As apurações seguem em andamento e ainda dependem da análise dos materiais apreendidos nas buscas.

A operação também ocorre em um ambiente de forte repercussão política, por envolver Jaques Wagner, líder do governo no Senado e um dos principais articuladores políticos do presidente Lula no Congresso. Até o momento, as informações divulgadas se baseiam na representação da Polícia Federal e nos elementos apontados pelos investigadores no âmbito da Operação Compliance Zero.

<><> Valério Marega Júnior

Em nota enviada ao Brasil 247, a defesa de Valério Marega Júnior afirma que "ele não participou do negócio imobiliário mencionado na decisão do Supremo Tribunal Federal". "Na ocasião, foi apenas consultado sobre a possibilidade de fundos então sob gestão da WNT adquirirem imóveis, tendo respondido negativamente, por se tratar de fundos voltados à aquisição de direitos creditórios. Valério desconhecia o objetivo da eventual negociação. A defesa confia que os fatos serão plenamente esclarecidos no curso da investigação", conclui.

 

Fonte: Brasil 247

 

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