Enfermagem:
vitória contra o ensino mercantilizado
Em maio
passado, o Decreto 12.456/2025, assinado pelo presidente Lula, causou polêmica
ao definir diretrizes do ensino superior que regulavam as normas para oferta de
cursos de graduação presencial, semipresencial e à distância.
O ponto
crítico era a manutenção da oferta de cursos remotos em diversas formações
profissionais. Algumas delas eram relativas à área da saúde, o que causou
protestos de entidades de classe de especialidades onde a “semipresencialidade”
segue permitida. Ao mesmo tempo, profissões tradicionais conseguiram manter a
obrigatoriedade do ensino exclusivamente presencial.
Em
consonância com a medida, o Ministério da Educação (MEC) publicou Resolução que
confirma a obrigatoriedade do ensino 100% em Enfermagem, o que representou uma
vitória das entidades da categoria e suas lideranças alinhadas à defesa do SUS.
“A
adoção de Educação à Distância (EaD) comprometeria a qualidade da formação,
fragilizaria a capacidade de resposta do SUS e colocaria em risco a vida da
população. As consequências práticas seriam profissionais menos preparados,
maior insegurança no cuidado e desvalorização social da profissão”, afirmou
Jacinta Sena, presidente da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), ao
Outra Saúde.
As
escolas de enfermagem terão até junho de 2028 para se adaptar à regra
estabelecida. A medida é comemorada por diversos órgãos de classe da categoria.
Seu processo de construção levou mais de uma década junto ao MEC e o Conselho
Nacional de Educação, e enfrentou interesses empresariais que se expandiram no
país no período.
Como
demonstrado em matéria com representante do Conselho de Fisioterapia, a medida
do governo ainda têm pontos críticos. A exigência de presencialidade total
pareceu refletir a força política de entidades de classe historicamente mais
assentadas, a exemplo da Medicina e do Direito.
“A
posição do Ministério da Educação tem oscilado diante das pressões de mercado.
Sabemos que há um forte lobby de grupos privados interessados em expandir o EàD
em todas as áreas, visando ao lucro e não à qualidade”, analisou Jacinta Sena,
professora e pesquisadora na UnB e Fiocruz.
Para
ela, a decisão de proibir o ensino à distância deveria se estender a todas as
profissões da saúde. “Lamentamos que nem todas as profissões da saúde tenham
sido contempladas, o que mantém uma diferenciação injustificada”.
A pauta
dialoga diretamente com a estrutura do SUS e dos conceitos lastreados na
Reforma Sanitária, que versam sobre integralidade no cuidado e inserção
territorial, ao contrário de um modelo centrado na clínica médica.
Complementarmente, determina que conceitos relacionados aos diretos sociais e
temas ambientais façam parte da formação.
“O
cuidado exige empatia, escuta, trabalho em equipe e tomada de decisões em tempo
real – competências que só podem ser desenvolvidas em ambientes presenciais, no
contato direto com usuários e com a prática supervisionada”, defendeu a
enfermeira sanitarista.
Como
explica, não se trata de renegar um instrumental tecnológico contemporâneo, mas
combater o que chama de “falsa democratização” da profissão através do Ensino à
Distância. “Defendemos a integração de tecnologias educacionais de forma
complementar, mas sempre com a centralidade no ensino presencial”, pontuou.
O
Decreto define que ao menos 20% da carga de aprendizado deve se dar em serviços
práticos de saúde, o que dimensiona a importância do contato humano no
exercício da enfermagem. Para Jacinta, o SUS ganha em termos éticos e técnicos.
“Mais
do que uma atualização normativa, trata-se da afirmação de um projeto ético,
científico, social e político de formação, comprometido com o Sistema Único de
Saúde (SUS), com a democracia, a defesa da vida e os direitos da população
brasileira”, destacou.
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Leia a entrevista:
• O que pensa da Resolução CNE/CES nº
1/2026, que institui as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), e
atualiza a formação profissional da enfermagem?
A
homologação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em
Enfermagem (DCNs/Enf) representa uma das mais importantes conquistas políticas
da Enfermagem brasileira nas últimas décadas. Mais do que uma atualização
normativa, trata-se da afirmação de um projeto ético, científico, social e
político de formação, comprometido com o Sistema Único de Saúde (SUS), com a
democracia, a defesa da vida e os direitos da população brasileira.
Essa
conquista resulta de um longo processo coletivo, participativo e persistente,
construído ao longo de mais de uma década pela Associação Brasileira de
Enfermagem (ABEn), diretoras e diretores de Educação, docentes, estudantes,
pesquisadoras(es), fóruns de escolas, entidades parceiras e representantes da
Enfermagem em todo o país.
• O que pensa do decreto do governo
federal 12.456/2025, editado no ano passado, que limita parcialmente a
permissão de ensino à distância em cursos de graduação de especialidades
ligadas à saúde?
Consideramos
que o Decreto nº 12.456/2025 representa um avanço, pois reconhece a inadequação
do Ensino à Distância (para a formação em áreas que lidam diretamente com a
vida, como é o caso da Enfermagem. No entanto, entendemos que a decisão ainda
não é suficiente, uma vez que flexibiliza a formação em outras profissões da
saúde.
A
posição da ABEn é clara: todos os cursos de graduação em saúde devem ter
formato presencial, pois a qualidade da educação/formação impacta diretamente
na segurança do cuidado em saúde oferecido à população.
• Para a medicina, por exemplo, foi
inteiramente vedado o EàD. Considera que a decisão atendeu de forma
diferenciada as especialidades em questão, de acordo com a força política e
social de suas entidades de classe?
Sim, é
possível observar que a decisão do governo foi influenciada pela força política
de determinadas categorias profissionais. A medicina, pela sua tradição
histórica de influência política, conseguiu assegurar a proibição integral do
EàD. Mas, também, passa por questões culturais e socialmente construídas. No
caso do campo da enfermagem, há sinais de que a sociedade compreende a
importância da essencialidade do cuidado científico da enfermagem como foi
fartamente demonstrado durante a pandemia covid-19.
Outras
profissões da saúde também vinham denunciando os riscos da modalidade a
distância, e somente após intensa mobilização coletiva foi possível incluir a
Enfermagem na proibição. No entanto, lamentamos que nem todas as 14 profissões
da saúde tenham sido contempladas, o que mantém uma diferenciação
injustificada.
• O que pensa de EàD para formar
profissionais de saúde, em especial na Enfermagem? Quais seriam as
consequências práticas?
O EàD
não é adequado para a formação em saúde, especialmente em Enfermagem. O cuidado
exige empatia, escuta, trabalho em equipe e tomada de decisões em tempo real –
competências que só podem ser desenvolvidas em ambientes presenciais, no
contato direto com usuários e com a prática supervisionada.
A
adoção de EàD comprometeria a qualidade da formação, fragilizaria a capacidade
de resposta do SUS e colocaria em risco a vida da população. As consequências
práticas seriam profissionais menos preparados, maior insegurança no cuidado e
desvalorização social da profissão.
Ademais,
considero que a presencialidade do ensino no campo de Enfermagem se configura
como imperativo ético e direito humano da população, a fim de ter acesso a
cuidado de saúde qualificado durante 24 horas.
• Como essas decisões relativas à formação
profissional da área incidem no SUS?
A
defesa do SUS e da formação presencial desde o início representam alguns
princípios que tornaram-se inegociáveis para a Enfermagem brasileira. O
principal deles foi a defesa do SUS como eixo estruturante da formação. As
novas diretrizes foram construídas a partir da compreensão de que a formação em
Enfermagem deve responder às necessidades reais de saúde da população e
fortalecer o sistema público de saúde.
Outro
ponto central foi a defesa da presencialidade. A ABEn sustentou, em todos os
espaços de debate, que a formação em Enfermagem exige intensa vivência prática,
supervisão qualificada e integração ensino-serviço-comunidade.
A
defesa da presencialidade sempre foi compreendida como um imperativo ético em
defesa da vida. Ao longo dos anos, essa posição enfrentou fortes pressões
políticas e econômicas associadas à expansão do ensino mercantilizado e da EàD.
Ainda assim, a ABEn manteve firme a defesa de uma formação crítica, ética,
humanista e socialmente comprometida.
• O que pensa da posição do Ministério da
Educação frente à EàD em linhas gerais? O governo cede a interesses
capitalistas do setor e deixa a qualidade do ensino em segundo plano?
A
posição do Ministério da Educação tem oscilado diante das pressões de mercado.
Sabemos que há um forte lobby de grupos privados interessados em expandir o EàD
em todas as áreas, visando ao lucro e não à qualidade. Nossa preocupação é que,
em nome de uma falsa democratização do acesso, esteja sendo priorizado o
interesse econômico de conglomerados educacionais em detrimento da qualidade da
formação e da segurança do cuidado à saúde da população. A ABEn defende que a
formação em saúde seja tratada como uma política de Estado, orientada pelo
interesse público e pelo fortalecimento do SUS.
• Acredita que é cabível usar de
tecnologias que permitem ensino à distância em alguma medida?
Sim, é
cabível e necessário utilizar tecnologias digitais como ferramentas
complementares ao ensino presencial. Recursos virtuais podem enriquecer o
processo de aprendizagem, ampliar o acesso a conteúdos e facilitar a
comunicação. No entanto, jamais devem substituir o núcleo presencial da
formação em saúde.
A
Enfermagem, por exemplo, exige que mais de 50% da carga horária seja prática,
em campo, sob supervisão. Portanto, defendemos a integração de tecnologias
educacionais de forma complementar, mas sempre com a centralidade no ensino
presencial.
Fonte:
Por Jacinta Sena em entrevista a Gabriel Brito, em Outra Saúde

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